Guardiões da Memória - ufv - Universidade Federal de Viçosa

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Guardiões da Memória - ufv - Universidade Federal de Viçosa
Guardiões da Memória
lembranças de congados
Felipe Luchete
Guardiões da Memória
lemb
ranças de c
ong
ado
lembranças
cong
ongado
adoss
Contato: [email protected]
Projeto Gráfico: Felipe Luchete
Capa: Felipe Luchete e Priscilla Souza
Edição: Kátia Fraga
Ilustrações: Carla Ávila
Revisão: Ellen Araujo
Revisão Final: Antonio Sérgio de Oliveira
Essa obra integra as produções do Gengibre – Programa
Interdisciplinar sobre Cultura Popular (Universidade Federal de Viçosa).
Equipe: Carla Ávila (Coordenadora), Kátia Fraga (Docente colaboradora), Ananda Assis, Ellen Araujo, Felipe Luchete, Ícaro Trindade,
Maria Gabriela Almeida, Natália Pereira de Oliveira, Piquerobi de Souza.
1ª edição – Novembro de 2008
Permitida a reprodução para fins não comerciais e desde que citada a origem.
LUCHETE, Felipe.
Guardiões da Memória: Lembranças de Congados / Felipe
Luchete. Viçosa: do Autor, 2008. 209 páginas.
Inclui bibliografia
I. Congado. II. Memória. III. Zona da Mata – Paula Cândido,
Ponte Nova, Viçosa – Minas Gerais – Brasil.
Felipe Luchete
Guardiões da Memória
lemb
ranças de c
ong
ado
lembranças
cong
ongado
adoss
“Crescer acontece num piscar de olhos. Um dia você está
de fraldas, no outro você já se foi. Mas as lembranças da infância
ficam com você a longo prazo. Me lembro de um lugar... uma
cidade... uma casa como muitas outras casas... um quintal como
muitos outros quintais... uma rua como muitas outras ruas. E
o negócio é que... depois de todos esses anos, eu ainda olho pra
trás... maravilhado. Foram anos incríveis!”
[Kevin Arnold, ‘Anos Incríveis’]
Agradeço a quem me ensinou a importância da
honestidade e do respeito. Agradeço a quem dedicou a mim
atenção com especial carinho. Agradeço a quem serviu a mim
de exemplo, a quem compartilhou momentos de riso e de
lágrimas, a quem comigo brincou, dançou, pedalou, escreveu,
atuou, viajou, pesquisou. Agradeço a quem me despertou o
interesse pelas constelações e a quem me aceita como sou.
Agradeço a quem colaborou com a concretização desse sonho
e a quem prestigia meu trabalho. E ainda a Quem me concede a
vida e tamanhos privilégios.
Dedico este livro a esses seres... importantes,
fundamentais, incríveis!
“Acredito que errado é aquele que
fala correto e não vive o que diz”
[‘Zaluzejo’, Teatro Mágico]
SUMÁRIO
Primeiras palavras... ou lágrimas
p. 11
Encruzilhadas
p. 15
Homens direitos
p. 35
Sempre majestade
p. 81
De olho no futuro
p. 127
Sonhos de menina
p. 171
Notas
p. 195
Entrevistados
p. 197
Créditos das imagens
p. 199
Bibliografia
p. 201
Apresentando o autor
p. 207
PRIMEIRAS PALAVRAS... OU LÁGRIMAS
“Mãe, por que ela tá chorando?”
“É de felicidade, meu filho”
Ouvi o curto diálogo em outubro de 2008, enquanto acompanhava
pelo terceiro ano consecutivo a festa dedicada a Nossa Senhora do Rosário,
no distrito de São José do Triunfo, em Viçosa (MG). Mais uma vez
emocionado com a beleza do Congado nas ruas da comunidade, sentime como o menino, querendo compreender vários dos porquês existentes
naquele cenário. Afinal, o Congado não se trata somente de uma dança,
nem de uma simples festa. Essa manifestação popular de formação afrobrasileira é repleta de signos e símbolos. É composta de passos, de autos,
de cantos, de coroação de reis e de rainhas. Esses elementos se unem à
experiência do sagrado: a fé em Nossa Senhora do Rosário e a outros
santos de devoção negra fundamenta a tradição e permite assim que se
realize a cada ano.
A região circunvizinha de Viçosa, na Zona da Mata mineira, possui
bandas de congo em várias localidades. Estas se diferenciam das existentes
em outros lugares do país e também entre si, pois cada comunidade possui
suas especificidades, suas próprias características. Porque o Congado não
compreende uma atividade exótica, distante do dia-a-dia. Ao contrário,
integra e reflete as relações sociais. Faz parte da vida das pessoas.
A banda de Congado possui uma hierarquia na qual cada membro
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Guardiões da Memória
representa um papel importante. Os responsáveis pela liderança, como os
reis e as rainhas, são reconhecidos e respeitados não só nos dias de festejo,
mas também no cotidiano. Têm geralmente idade avançada e carregam
valores, ensinamentos, vivências e muita devoção. São como uma biblioteca
viva. A pesquisadora Olga Von Simson utiliza o conceito de Guardiões da
Memória, descrevendo a importante função desses detentores centrais do
conhecimento: organizar os saberes e transmiti-los para as novas gerações.
No início de 2008, a Pró-Reitoria de Extensão e Cultura da
Universidade Federal de Viçosa concedeu-me uma bolsa para a
realização de um projeto de extensão com os Guardiões de quatro
comunidades, intitulado Tradição e identidade compartilhadas por
congadeiros de Cachoeira de Santa Cruz, Paula Cândido, Ponte Nova e
São José do Triunfo. Coordenado pela professora Carla Ávila, do curso
de graduação em Dança da UFV, esse projeto teve como objetivo
promover encontros entre eles e produzir um vídeo-documentário. Com
o registro audiovisual, procuramos utilizar a tecnologia não para
atrapalhar a tradição, e sim para contribuir. Trata-se de uma
preocupação do Gengibre – Programa Interdisciplinar sobre Cultura
Popular, ao qual o projeto esteve vinculado: desenvolver estratégias para
que a tradição coexista com a sociedade contemporânea.
Entre os desdobramentos do projeto, encontra-se este livroreportagem, contando histórias de vida de alguns dos Guardiões da
Memória. Não consiste exatamente em uma biografia, no sentido de relatar
detalhadamente todos os fatos vivenciados por eles, mas em uma viagem
por cenários da roça, da infância, dos problemas, das conquistas, das crenças,
do Congado e até da história do Brasil e da região. Como se trata de uma
obra jornalística, ou seja, de não-ficção, todas as afirmações presentes no
livro foram inseridas após declaração de pelo menos um dos entrevistados,
consulta a uma ou mais fontes documentais e/ou minha observação. Essa
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Primeiras palavras... ou lágrimas
pesquisa realizou-se entre os meses de março e novembro de 2008, com
orientação da professora Kátia Fraga, do curso de Comunicação Social/
Jornalismo da UFV. Foram várias visitas aos Guardiões, entrevistas com
familiares e conhecidos, pesquisas em documentos, registros de festas. Tudo
muito trabalhoso, embora indescritivelmente prazeroso.
Por lidar fundamentalmente com a memória, em muitos momentos
não me preocupei em colocar informações tão precisas, como datas e
idades. Também procurei incluir no texto palavras usadas na linguagem
da cultura popular, ditas pelos Guardiões durante as entrevistas, sem
adequá-las à linguagem formal. Essas palavras estão destacadas em itálico.
Considero importante dizer ainda que, com essa obra, concluo
minha graduação no curso de Comunicação Social/ Jornalismo. Escolhi
escrever um livro-reportagem por considerá-lo o mais adequado para a
abordagem da cultura popular. Na pressa das redações de jornais impressos,
de televisão, de rádio e da internet, nem sempre há tempo e espaço para
explicar com profundidade os contextos presentes na tradição (os tais
porquês que, como o menino, eu queria – e ainda tento – compreender).
A concretização desse sonho foi possível após tudo o que aprendi e
vivi nos quatro anos como estudante universitário. O projeto experimental
mistura técnicas jornalísticas, conceitos teóricos, pesquisas de campo,
convívio com o povo mineiro. Foi possível também porque pessoas
acreditaram nele. Pessoas que abriram suas casas, sugeriram material,
contribuíram com orientação, aconselhamento e muito estímulo. A todas
elas, sinceros agradecimentos. Posso expressar-me com choro ou riso. Será
sempre de felicidade.
O Autor
Primavera de 2008
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Encruzilhadas
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Parecia que estava chegando a hora de partir da terra. Encontravase dentro de um buraco. Nu, como nasceu, e todo amarrado, sem poder
comer ou beber, respirava tensamente aliviado. O amanhã não existiria.
Sofrera toda a vida naquela fazenda. Um lugar onde se judiava
demais dos escravos, lugar onde muitos tinham as mãos decepadas, os pés
mutilados, as cabeças espancadas. Havia ainda os açoites, o tronco, as
correntes atadas aos membros inferiores. Eram os castigos por não
obedecerem às ordens dos sinhôs ou por serem demasiado fracos para
exercer as pesadas tarefas. Ali não era permitido ter o nome de origem,
nem viver como seus ancestrais. Negro sofria, negro apanhava, fazendeiro
roubava negras. Aqueles que tentavam fugir, instigados por histórias de
liberdade nos quilombos, levavam a marca de ferro em brasa. “F”: Fugido.
No buraco que lhe servia como cova, os olhos virados, os poucos
suspiros, ele aguardava. Então apareceu... um clarão, uma luz muito
bonita. “Ah lá, ah lá”, exclamou. “Ah lá, ah lá!”.
Um escravo aproximou-se para verificar se o outro já havia
falecido. Ouviu os gritos. “Só pode ser a morte que tá chegando”,
pensou. Surpreendeu-se ao ver o homem quase morto arrebentar as
cordas que o prendiam e sentar-se, sem deixar de repetir: “Ah lá, ah
lá!”. Impaciente, perguntou: “Ah lá o quê?”, sem ouvir resposta. Voltou
a galope e contou a um companheiro: “Ninguém que vai pra lá sai
vivo, ninguém senta e fica falando... Por causa de que esse aí não
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Guardiões da Memória
morreu?”. O outro cativo, curioso, foi ao local. Viu o clarão bonito, viu a
figura difusa de quatro pessoas. Assentada num trono, uma linda senhora
carregava o filho no colo. Nas mãos, o terço, objeto tão simples como sua
vida, era entregue a um pastor ao seu lado. As mãozinhas da criança,
pequenas diante dos ensinamentos e sacrifícios que realizaria quando
adulta, entregava o terço para um pastor do outro lado.
O negro que outrora esperava a morte saiu andando. Sentia-se feliz,
livre. Andou, correu, sabendo que tudo mudaria dali para frente. O outro
negro, que fora ver um possível delírio, voltou galopando. Gritou, cantou,
anunciou o ocorrido. Todos deixaram o serviço e correram para ver a santa,
mas houve quem não gostou da notícia: “Mentira”, afirmou o sinhô. “Não
tem nada lá. E se não tiver? Eu chegar lá e não achar? Vou matar vocês, vocês
são muito mentirosos”. Foi ele mesmo tirar a limpo essa história. Com o
corpo paralisado, os olhos incrédulos, a fala espontânea – “Meus Deus!” –,
ordenou a imediata construção de uma capela para abrigar a santa, pois sua
imagem não podia permanecer ali, lugar tão feio e esquisito. O sinhô mandou
pessoas bonitas, brancas, levarem-na ao local construído especialmente para
ela. No meio do caminho havia a santa, mas de repente não havia a santa no
meio do caminho. Lá estava, de volta, na mata. Foi então a banda de música,
que até conseguiu levá-la à capela, porém quando pensaram em ir embora
ela já não estava mais. Foi encontrada quietinha na mata.
O sinhô não sabia o que fazer. Talvez pelo desespero tenha aceitado
pela primeira vez o pedido de um escravo: “Nóis podia buscar a santa, o
sinhô quer que ela vem pra cá, nóis podia buscar a santa. É capaz dela ser
a santa que nóis grita por ela”. “E como é que ela chama?”. “Nóis grita
por Nossa Sinhora do Rusansário”. “Bom, vocês podem ir. Se vocês
trouxerem ela, está muito bom, mas se vocês não trouxerem, vou matar a
todos, um a um, e comprar escravos novos. Ninguém vai trabalhar, vocês
vão descansar para poder buscá-la, que eu estou aflito para ver ela cá”. O
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Encruzilhadas
patrão admitia que não acreditava no êxito dos escravos: “Porque vocês,
nego feio, cracanchento, tudo aleijado, tudo horroroso, sujo, ela do céu não
veio nem com a banda de música, todo mundo limpinho, cheirando, vai
vim com vocês?”. Reforçou a ameaça: “Vou matar tudo”.
Eram três dias de prazo. Assim os negros passaram noites inteiras
rezando, pedindo... até chegar o momento, quando eles se reuniram,
carregaram a imagem e caminharam com a força das orações, danças
e cantos. Na capela, entraram de frente e voltaram de costas, sem nunca
deixarem de olhar para Nossa Senhora do Rosário, mãe e protetora.
Ela permaneceu lá, não voltou mais onde tinha aparecido. Então, pelo
pensamento, a santa informou a Princesa Imperial sobre o milagre
realizado. Assim, Dona Isabel Cristina Leopoldina Augusta Micaela
Gabriela Gonzaga de Bragança assinou a Lei Áurea, libertando os
negros da escravidão, em 13 de maio de 1888.
Oi vivá, oi viva
Viva Nossa Senhora, oi vivá!
Oi vivá, oi viva
Viva Nossa Senhora, oi vivá!
Sinhô rei me chamô, oi vivá
Com chicote na mão, oi vivá
Ele quer me bater, oi vivá
Eu num quero apanhar, oi vivá
Eu num sô nego dele, oi vivá
Oi vivá, oi viva
Viva Nossa Senhora, oi vivá!
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Guardiões da Memória
Ele era rei africano quando foi tirado de suas terras. Ontem simples,
forte, bravo, perdeu a esposa, filhos e súditos no navio negreiro, cruzou os
mares e chegou ao Novo Mundo, mundo novo onde serviu como mísero
escravo em Vila Rica e teve seu nome modificado. Passou a ser chamado
de Francisco da Natividade. Chico Rei. Foi na fazenda onde morava que
os negros viram a santa, na loca de pedra, com seu manto azul e vestido
rosa, segurando o rosário. “Ô, ô, patrão. Que santa bonita ali no altar, na
capoeira”. “Mentira, negro”. “Não, mentira não”. “Se não for verdade,
negro, você vai para o couro”. “Não é não, sinhô. Ó lá, princesa bonita”.
O sinhô também viu e quis levar a imagem à sua casa. Para isso
chamou o padre, que assim o fez. Entretanto, quando foi tantas horas da
madrugada, ela voltou para o mesmo lugar. Aí se juntaram cantores e
vizinhos, para tentarem novamente. E novamente, pouco tempo depois,
não estava lá mais. Os brancos não deram jeito; nem incenso a tirou dali.
Chico Rei sabia o modo de conduzir Nossa Senhora do Rosário. Assim
reuniu outros negros, entre eles Chico da Viola, e formou uma banda, a
banda de Congado. Com paus, latas e saias de coco, eles oraram, cantaram,
dançaram... e cativaram a santa, que os acompanhou ao altar e lá ficou.
Pouco tempo depois, a Princesa Isabel assinou a carta, em um domingo de
festa, e mandou celebrar missa aos negros. Acabara o tempo de escravidão.
Foi em 88 que essa lei foi resolvida
Tivemos um grande trabalho em favorecimento da vida
E no dia 13 de maio foi um dia respeitado
Abalou o mundo inteiro, até o império foi feriado
Por nossa Rainha Isabel, sentiu por nosso respeito
Fez uma grande festa de três reis: preto, caboclo e mulato
Todos havera adorar, fazer uma missa campal
E uma comunhão geral
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Encruzilhadas
Lei de 1888 declara extinta a escravidão no Brasil
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Guardiões da Memória
Banda de São José do Triunfo, Viçosa
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Encruzilhadas
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As embaixadas, os cantos e os passos do Congado relembram a
história. História daquele dia em que a imagem da santa só permaneceu
no altar quando levada pelos negros. Existem muitas versões para o
acontecimento, como nas duas aqui contadas, mas o fundamento é sempre
o mesmo: os milagres realizados por Nossa Senhora do Rosário, sua proteção
perante um sistema cruel e injusto e a sabedoria dos negros, a única capaz
de diminuir a distância entre o homem e o divino. E é por isso que nas ruas
de Minas Gerais, do Ceará, da Paraíba, da Bahia, do Espírito Santo, de
Goiás, do Mato Grosso, do Paraná e até do Rio Grande do Sul, entre outras
localidades, o Congado (muitas vezes chamado de congo ou congada) se
repete. A fé é demonstrada nas casas, nas igrejas, nas praças; os mais novos
aprendem a dança desde cedo; o passado permanece no presente.
Há quem conte os dias no calendário, esperando chegar o dia da
festa. Há quem passe dias ajudando a preparar as roupas, a decoração ou
a comilança a ser servida. Outros vêm de longe especialmente para
participar. Há aqueles que batem palmas, choram, fazem questão de
apontar quem são seus filhos, acordam de madrugada para ver a alvorada,
e repetem, com orgulho, “essa é a nossa tradição”. Há até os enxeridos,
aqueles que aparecem para conhecer e acabam retornando todos os anos.
Nesse último grupo, estão os estudiosos que procuraram ou
procuram sistematizar o Congado, alguns deles preocupados com a
possibilidade de que a tradição um dia se descaracterize ou se perca diante
da dinâmica da sociedade contemporânea. Formulam definições e buscam
as origens do festejo. Como na história do aparecimento da santa, são várias
as versões para situar onde a manifestação teve início: segundo alguns,
veio da África, onde várias tribos teriam o costume de promover cortejos às
suas dinastias, como expressão de confiança aos reis e rainhas; para outros,
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Guardiões da Memória
teria relação com hábitos europeus, nas canções que lembravam as cruzadas
dos cristãos contra os mouros e os feitos do Imperador Carlos Magno.
A pesquisadora Leda Maria Martins, no livro Afrografias da
Memória, afirma que o Congado apresenta uma estrutura complexa,
constituída a partir do cruzamento entre os arquivos simbólicos africanos
e a herança cristã ocidental. Não se trata de um sincretismo, termo que
para ela significa a mistura de elementos distintos, e sim um dialogismo.
Se as palavras parecem difíceis, essa explicação, de forma muito
simplificada, seria assim: imagine que sincretismo é um sanduíche: o
pão, a alface e a carne são alimentos distintos; dialogismo seria um bolo,
no qual depois de pronto não é possível separar os ingredientes.
De acordo com a autora, os africanos que cruzaram o oceano não
viajaram sós. Carregaram consigo o modo de vida, a arte, a língua e a religião
de seus ancestrais. Ao entrarem em contato com a cultura das Américas (de
forma imposta, vale reforçar), cruzaram tradições, falas, gestos, códigos. E
produziram nessas interseções uma nova cultura, uma cultura das
encruzilhadas. Assim, embora existam pesquisadores que restrinjam o
Congado a um folclore artificial, um mero instrumento de catequização dos
africanos e uma estratégia política dos proprietários de escravos, que ao permitirem a festa evitavam rebeliões, o festejo possui significados mais amplos.
Os escravos eram vistos como coisas, impedidos de viverem sua fé,
separados de seus conterrâneos e misturados propositalmente com indivíduos
de outros povos. Então o tambor tocava, reis negros eram coroados, cantos
contavam histórias... eram valores comuns, era a lembrança das terras em
que eles ou seus familiares haviam nascido. Simbolizavam uma estrutura
oposta a do sistema escravista. E possibilitavam a criação de irmandades,
espaço de organização grupal e rememoração de suas origens.
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Encruzilhadas
Banda de Cachoeirinha, Viçosa
[acima e à direita]
Banda de Paula Cândido
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Guardiões da Memória
Capivara, São Miguel do Anta
São José do Triunfo, Viçosa
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Encruzilhadas
A primeira irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens
Pretos fundada no Brasil, em 1552, foi a da cidade de Goiana, em
Pernambuco. Na época, os africanos eram levados ao Nordeste para a
manutenção dos engenhos de cana-de-açúcar – antes mesmo do Rei da
Coroa Portuguesa, Dom Sebastião, legalizar o tráfico, como fez em 1559.
A primeira eleição e coroação de reis negros que se tem registro também
aconteceu na região, em Recife, no ano de 1674. Se a decadência do ciclo
do açúcar, a partir do século XVII, fez com que os escravos migrassem
para outras localidades, o mesmo aconteceu com as coroações e as
irmandades. Chegaram a Minas Gerais, junto com o grande contingente
populacional atraído pelo ouro recém-descoberto (até que enfim,
comemoraram os portugueses, após dois séculos alimentando o desejo de
encontrar um território repleto de metais e pedras preciosas). Dessa forma,
em 1708, surgiu em São João Del Rei a primeira irmandade de Minas.
O território da então Capitania era como um losango, restrito ao
espaço das atividades da mineração, concentrada nas regiões de São
João Del Rei (terra de Tiradentes) e Ouro Preto (a antiga Vila Rica, onde
teria vivido o lendário Chico Rei). A Zona da Mata era considerada área
proibida; não eram permitidos caminhos ou povoamentos: o Império
português determinava que o escoamento do ouro deveria ser realizado
apenas nas estradas reais, até os portos de Parati e Guanabara, e então
seguir viagem para a metrópole. A mata fechada, que nomeou a região,
consistia em uma barreira natural, estendendo-se continuamente com
a floresta do médio Paraíba, ao sul, e o vale do Rio Doce, ao norte. Era
habitada pelas tribos dos borus (botocudos), coroados, coropós e puris,
índios provenientes do litoral fluminense e capixaba.
O ciclo do ouro modificou o eixo econômico da colônia, promoveu
a urbanização, fez surgir a classe média, transferiu a capital da Bahia para
o Rio de Janeiro e criou até a possibilidade de mobilidade social aos escravos
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Guardiões da Memória
– muitos deles acumulando o necessário para pagar sua alforria. Mas foi
uma fase curta; logo escassearam os mantimentos das zonas auríferas. No
final do século XVIII, o metal era pouco abundante, encontrado apenas em
leitos e margens de rios. Pouco antes da Inconfidência Mineira, as cidades
foram se esvaziando, e outros espaços nas imediações passaram a ser
ocupados. A agricultura voltaria a ser a maior fonte de recursos econômicos.
E assim surgiram em Minas Gerais as pequenas vilas; e assim Minas Gerais
se ruralizou. Assim a divisa até então instável com o Espírito Santo foi
oficialmente formalizada e a Zona da Mata atraiu garimpeiros,
empreendedores, negros libertos e escravos.
Alguns colonizadores fixaram-se às margens do Rio Turvo,
formando um pequeno núcleo populacional, onde foi fundado por Decreto
Imperial, no ano de 1832, o Distrito de Santa Rita do Turvo (transformada
em Vila de Santa Rita do Turvo, em 1871; Viçosa de Santa Rita, cinco anos
depois; Viçosa, na divisão administrativa de 1891). Próximo dali, no arraial
de São José do Barroso (mais tarde denominado Paula Cândido), foi criada
em 1853 a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário.
Nessa época, a Zona da Mata viu crescer municípios – Juiz de
Fora, 1850; Ubá, 1853; Leopoldina, 1855; Muriaé, 1857; Ponte Nova, 1875
– e as grandes fazendas de café, responsáveis pelo forte impulso econômico
da região. Então chegaram as sonhadas estradas de ferro, símbolos do
progresso, enquanto a vegetação original era devastada. A estabilidade
da cultura cafeeira dependia da exploração do trabalho escravo, embora
em São Paulo e no Rio de Janeiro os fazendeiros já procurassem outras
alternativas de mão-de-obra (leia-se imigrantes), como conseqüência da
diminuição do fornecimento de escravos e também da formação de uma
opinião pública contrária à escravidão. Os cafeicultores da Zona da
Mata, porém, reagiram fortemente à campanha abolicionista
e às decisões do governo contrárias a seus interesses. Muitos deles
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Encruzilhadas
aderiram, após a carta assinada pela princesa Isabel em 13 de maio de
1888, ao movimento republicano. Foi a forma que escolheram de protestar
contra o Império.
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Ao percorrermos alguns pontos presentes na cultura do Congado –
o aparecimento de Nossa Senhora com seu terço na mão; a banda formada
por Chico Rei; o sistema escravista; os ciclos econômicos do Brasil; a
povoação da Zona da Mata mineira – chegamos novamente a uma
encruzilhada: dia 13 de maio, quando teve fim o tempo da escravidão. A
sabedoria dos ancestrais continuou, mesmo que a liberdade não oferecesse
as boas condições sonhadas. Permanece na culinária, nas palavras, nas
festas em homenagem à Senhora do Rosário, São Benedito, São Sebastião...
permanece no cotidiano das pessoas. Na vida de quem tem devoção a um
santo, ensina o filho a fazer o sinal da cruz, pede a benção aos mais velhos;
na vida de quem sabe que mulher grávida não pode passar no meio de
cerca de arame, senão a criança enrola, e lembra do tempo em que
assombração aparecia mesmo, cara a cara com a pessoa (talvez hoje não
exista mais por conta de tanta ruindade existente no mundo). Tem gente
que possui o dom da benzição, curando dor de dente e doença nos olhos.
Em um salão de beleza, mulheres comentam sobre uma benzedeira cega
que anda pela região e atende quem a procura. Os olhos fundos, o véu
branco na frente do rosto, não cobra nada e sempre acerta!
O mundo mudou e a gente não viu, mas a memória permanece em
várias localidades, nas vias e nas encruzilhadas, entre sombras e gestos. As
lembranças estão presentes nas festas do Congado, entre tantas outras, e
nas falas de senhores que já viveram muito, já sofreram também, e procuram
deixar aos mais jovens o legado dos antepassados, somados às suas próprias
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Guardiões da Memória
experiências. Ainda nos dias de hoje, em tempos de computador e
novidades tecnológicas, a memória individual desses representantes
continua sendo essencial para a formação da memória coletiva de suas
comunidades. São detentores de conhecimentos, embora muita gente
por aí, incluindo acadêmicos, não os valorize.
Seu Dola, Seu Zeca, Seu Chiquito, Seu Zizinho e Dona Quininha,
moradores de localidades próximas a Viçosa, na Zona da Mata, são
guardiões da memória. Passaram por muita coisa nessa vida. Um pouco
de suas trajetórias são contadas nos capítulos seguintes. Boa viagem,
caro leitor, pelas próximas encruzilhadas.
Dá licença, dá licença,
Dá licença, Virgem do Rosário,
Dá licença
Dá licença, dá licença,
Dá licença, Virgem do Rosário,
Dá licença
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Encruzilhadas
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Homens
direitos
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A chuva chove, a chuva vem
A chuva chove, a chuva vem
Óia a chuva choveu
A chuva não molhou ninguém
Óia a chuva choveu
A chuva não molhou ninguém
Caía um pé d’água e o furo no guarda-chuva não impedia que Seu
Zeca se molhasse. Mesmo assim ele andava decidido, com as barras das
calças dobradas, sujando os pés descalços de lama. Andava da Grota dos
Virgílio, em Viçosa, até o município de Cajuri, com dois frangos amarrados
no ombro, um pendurado na frente, outro atrás. Eram frangos miúdos,
que havia pego no terreiro de casa, com a esperança de trocá-los por outras
coisas para comer. Deus do céu, Nossa Senhora, a vida era dura, ele e a
esposa andavam apertados. O dinheiro ia embora para pagar isso, aquilo,
no fim da semana não sobrava nada. Os filhos nasciam depressa: Maria
Eliana completou um ano quando José Dejair nasceu, em 1958; José fez o
primeiro aniversário na época de nascimento de Valderli. Estava ficando
complicado fazer compras a fiado. Certa vez, pediu a um vendeiro três ou
quatro quilos de arroz e ele só pesou dois. Seu Zeca até esperou um pouco,
talvez o outro não tivesse entendido direito; então saiu calado, chateado
com o desaforo, e preferiu pedir arroz em outro local.
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Guardiões da Memória
A chuva continuava e ele lembrava-se de uma situação ocorrida
dias antes: estava capinando na roça, e por um instante ficou alegre quando
viu ao longe a mulher, Dona Ana. Na certa trazia um cafezinho. Mas o
instante de alegria durou pouco: “Uai, cê não trouxe café, não?”. Não,
não havia rapadura nem açúcar para adoçar. Nervoso, quase chorando,
Seu Zeca desceu à casa do compadre Zé Fideli, que viajaria a São Paulo
no dia seguinte. Se ele emprestasse dinheiro para a passagem, iria junto,
procurar emprego lá. Mais uma vez ouviu resposta negativa (o colega
disse que tinha apenas o suficiente para si) e teve de voltar para casa,
continuar na dificuldade.
As dificuldades o fizeram andar a Cajuri com os franguinhos
miúdos. Ao chegar, conseguiu vendê-los para Fifi, vendeiro lá da cidade, e
assim pôde comprar meio quilo de banha (um pacote cortado no meio,
com letras verdes em um fundo branco onde se lia “Esmeralda”), e um
quilo de açúcar cristal (moreno e molhado, parecia que o homem botava
água para ter mais peso!). Ainda debaixo de chuva retornou, carregando
os alimentos para a família.
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A água medonha que caía do céu lembrava o clima de 1948. No
início daquele ano, eram comuns vários dias de chuva consecutivos. Só em
uma noite, de 17 de fevereiro (em pleno carnaval), o volume de água foi
igual a um período chuvoso de 30 dias. Tudo isso resultou no rompimento
da represa da ESAV (a antiga Escola Superior de Agricultura e Veterinária)
e numa grande enchente em Viçosa, que destruiu casas, derrubou uma
ponte e matou duas pessoas.
As tempestades não provocaram tantos estragos na zona rural, onde
o jovem Zeca, então com 12 anos de idade, saía com alguns irmãos para
caçar um bocadinho de fubá num lugar, rapadura em outro... o que
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Homens direitos
conseguissem. A vida não era fácil. Nasceu e foi criado no atual Córrego do
Casemiro, onde havia um punhado de casas simples. A maioria das pessoas
nem sabe desse novo nome; usa a referência antiga: “lá atrás do morro” ou
Grota dos Virgílio, como todos falavam.
Zeca, ou José da Paixão Virgílio, era o terceiro filho de José Augusto
Virgílio e Tercila Dorothéa de Souza. Ao todo eram sete: Maria do
Nascimento, Cirene, ele, Geraldo, João Batista, Maria da Luz e Dalva. Em
um tempo no qual o povo era muito apelidoso, Geraldo Augusto Virgílio,
irmão dois anos mais novo do que Zeca, era chamado de Dola pela mãe e
pela meninada, sem saber bem como ou de onde surgiu o nome que
carregaria para toda a vida. Somente o pai dizia regularmente o nome de
batismo, e esse tratamento era coerente com seu jeito sério, sistemático,
que não abria espaço para muito papo com os filhos nem dava a eles muita
liberdade. Seu Agustinho era um homem honesto, que trabalhava na roça
para criar a família, sem esse negócio de ficar olhando no relógio. Começava
o serviço logo que aparecia o sol; apanhava a enxada, colocava o cigarro
na boca e capinava o dia inteiro, só ia embora quando escurecia. À noite,
costumava sair com o irmão para as fazendas que tinham rádio tocado à
luz de dínamo. Ouvia os discursos de políticos, os sucessos da música
popular e as informações transmitidas em cadeia nacional pelo programa
Hora do Brasil. Gostava de ficar escutando as mudanças de preço do café,
ainda que colhesse e vendesse pequena quantidade do produto.
Dona Cila era mais próxima das crianças, e por isso intermediava a
conversa dos filhos com o marido, como nas vezes em que alguém queria
uma roupa nova para uma festa qualquer e não tinha coragem de falar
com o pai. Ela geralmente conseguia atender os pedidos e, se o assunto
envolvesse dinheiro, Seu Agustinho concordava se tivesse condições.
Trabalhava em casa: socava arroz, canjica e café no pilão, buscava lenha,
fazia comida. Era muito preocupada com os filhos, a ponto de não dormir
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Guardiões da Memória
Seu Agustinho e Dona Cila, em fotografia
na parede da casa de Seu Dola
Seu Agustinho
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Homens direitos
se um estivesse na rua à noite. Eles sabiam disso e procuravam ir para casa
mesmo que caísse uma tempestade.
Foi num período de tempestade que Dona Cila adoeceu, em 48.
Ficou de cama, sem comer direito. Emagreceu. Foi levada para o centro da
cidade, em um carro de boi, consultou-se com um médico e retornou sem
apresentar melhoras. A filha caçula ainda era pequena, em idade de
amamentação, e a mais velha teve de assumir as responsabilidades
domésticas. Maria do Nascimento havia se casado no mesmo ano, e o
marido vivia junto com sua família (os irmãos gostavam quando ele chegava
do trabalho com um pedaço de fubá bem docinho). Uma das tarefas era
colher arroz no brejo (um arroz vermelho, com várias cascas), raspá-lo,
deixá-lo secar e depois socá-lo no pilão, para preparar com abóbora. Esse
prato era servido na semana inteira, sem feijão ou carne – e isso acontecia
inclusive antes da doença da mãe: na falta de comida, ela costumava
perguntar ao marido “que nóis vamo fazê?”, sendo que Seu Agustinho
respondia: “é, Cila, minha muié, põe abobra e faz pra nóis”.
Era difícil pensar sobre o assunto, mas alguns se questionavam o que
fariam se a mãe morresse. Felizmente, depois de seis meses, Dona Tercila
melhorou. Os filhos e o marido agradeceram a Deus por ter ajudado na cura.
Desimbaraiá, desimbaraiá,
Só Deus é quem sabe desimbaraiá
Desimbaraiá, desimbaraiá,
Só Deus é quem sabe desimbaraiá
A vida, entretanto, continuava difícil. As crianças tinham de
trabalhar: Seu Zeca começou com 11 anos mais ou menos, puxando cavalo
de uma fazenda, onde o cunhado cultivava milho; precisava andar o dia
inteiro com o cavalo inglês, para cima e para baixo, chegar, virar, voltar... o
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Guardiões da Memória
irmão Dola ajudava Seu Agustinho, ganhando “preço de menino” na
lavoura de café: capinava o mato de becos com aproximadamente dois
metros e meio de largura e cem de comprimento. Ainda tinha pouca força,
por isso era auxiliado pelo pai. Depois passou a receber “preço de homem”
e o compadre João Cambina o colocou para ser calamboteiro, carregando a
comida dos outros funcionários. Nesse tempo, os patrões tinham o costume
de oferecer almoço, perto das 10 horas; café, próximo do meio-dia; jantar,
até as três da tarde; dizia-se, assim, que era um trabalho molhado (quem
precisava levar marmita trabalhava a seco). Lá ia Seu Dola, com um
quadrado de madeira na cabeça, portando vasilhas de arroz, feijão,
macarrão e angu, comida suficiente para 10 a 12 pessoas.
Nem dava para ver direito a cor do dinheiro. Se hoje em dia os
rapazes ficam com pelo menos uma parte do salário para si, Seu Dola e
Seu Zeca tinham de entregar tudo ao pai. Às vezes ganhavam uns trocados,
outras vezes ouviam “hoje não posso dar nada não”. No primeiro caso,
tinham condições de fazer um agrado às namoradas (nos dias de namoro,
que eram somente quarta, sábado e domingo). Do contrário, o jeito era
aproveitar o pouco encontrado no bolso para comprar doce ou queijo a
elas, mesmo que para isso os homens ficassem com fome.
Seu Zeca ia à casa de Dona Ana, no Fundão, e lá ficava conversando. Tomava café, e gostava do sabor diferente, adoçado com açúcar,
enquanto em sua casa usavam rapadura. Os pais dela o convidavam para
jantar, entretanto ele sempre dizia que já tinha comido, estava satisfeito.
Era mentira. Na maioria das vezes a barriga roncava. Só que a vergonha
era grande... e assim ele nunca entrou na cozinha da família, em três anos
de namoro. Às vezes deixava o sapato, para não sujar no caminho da roça,
mas enfiava logo o par de meias no bolso. “Por que você não deixa aqui?”,
perguntava a namorada. Tinha de inventar uma desculpa: jamais mostraria
a meia furada. Não voltava tarde, porque o pai não gostava. Além disso,
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Homens direitos
ele e os irmãos sabiam da preocupação da mãe, que não dormia enquanto
não chegassem. Seu Zeca e Seu Dola nunca passaram a noite em casa de
moça. Mesmo quando caía uma chuva medonha.
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Em outubro de 1996, a Prefeitura de Viçosa realizou um plebiscito
em São José do Triunfo. O resultado definiria se o distrito, situado a sete
quilômetros do centro da cidade, seria emancipado. Os favoráveis
defendiam as possibilidades de utilizar o Fundo de Participação do
Município e outros recursos para investir na própria comunidade, atrair
indústrias, promover obras e regularizar o comércio; se é difícil para o
prefeito dar conta só de Viçosa, argumentavam, imagine ser responsável
por São José do Triunfo e Cachoeira de Santa Cruz (distrito próximo, que
passaria a pertencer ao novo município se a idéia fosse aprovada). Havia
quem não concordasse com tal proposta: alguns alegavam provável
estagnação, como a ocorrida em Cajuri e em outras cidades de pequeno
porte da região, e muitos moradores de Cachoeirinha não queriam deixar
de ser cidadãos viçosenses. Enfim, por 115 votos de diferença, o “não”
ganhou, encerrando o debate sobre a emancipação.
A área continuou a ser distrito, como fora reconhecida quatro anos
antes, pela lei de 19 de março de 1992. Tinha cartório, escola estadual e
mais de 700 casas, requisitos obrigatórios para a tentativa de transformarse em município. Entretanto, antes dessa época consistia em um pequeno
povoado, com poucas moradias (na maioria feitas de pau-a-pique),
inexistência de serviço de saúde e recursos precários de luz e água. As
lamparinas e vaga-lumes alumiavam as noites, e as mulheres pegavam
água e lavavam roupa nas minas. Era um lugar bem atrasadinho,
definiria Seu Zeca, embora mesmo assim atraísse grande movimento
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Guardiões da Memória
quando ele era jovem. A família geralmente saía da roça em direção ao
Fundão: lá tinha missa nos dias de festas da comunidade, lá tinha escola, lá
tinha vendas – funcionando como açougue, armazém, farmácia, padaria
e ponto de encontro para conversas e jogos.
Fundão? Assim São José do Triunfo é conhecido até hoje, por
moradores e pessoas de fora. Existem pelo menos três versões para a
origem do apelido. Uma delas conta que Fundão referia-se primeiramente
à rua onde se encontrava (e ainda encontra-se) a igreja; com a expansão
da comunidade, o termo passaria a ser usado para todo o povoado. “Cê
vai pro Fundão?”. “Vô”. Ficou sendo uma coisa só. Há uma explicação
mais geográfica: a localização em uma depressão de terreno, rodeada
por morros. Outros dizem que tem algo a ver com a antiga fazenda
Fundaça, situada na proximidade.
Quando se tornou distrito, São José do Triunfo já existia há cerca de
um século. Tudo começou bem antes, por volta de 1650, com um José. O
agricultor José Lopes decidiu doar aproximadamente dois alqueires e meio
de sua fazenda em favor à capela de São José. A área foi sendo habitada por
descendentes do agricultor e algumas outras famílias, atraindo, no fim do
século XVIII, negros libertados pela declaração da Lei Áurea. Sem moradia e
qualquer recurso financeiro, os ex-escravos encontraram ali, perto de Viçosa
de Santa Rita, terras que não pertenciam a fazendeiros, podendo assim erguer
suas casas. Em meados do século XX, ainda não se pagava nada para morar
no lugar, também chamado de Patrimônio; bastava pedir permissão ao
Pároco de Santa Rita de Cássia e obedecer ao arruamento traçado.
São José do Triunfo. Fundão. Patrimônio. Era para onde os meninos
José e Geraldo iam estudar, na falta de escola na Grota. Iam andando, com
calça curta e camisa feita com pano de farinha de trigo, sem blusa de frio
ou calçado. Sempre vestiam a mesma roupa, usada de segunda a sexta e
lavada no fim de semana. As roupas ficavam gastas, e uma vez a calça
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Homens direitos
branca de Seu Zeca rasgou, de tanto tirar e lavar, tirar e lavar... nem tinha
mais jeito de remendar. Como as crianças não usavam cueca, a calça furada
deixava a pele de fora. Para tampar o que estava à mostra e não passar
vergonha, o garoto pegou com Dona Cila um cuecão branco de seu pai,
preso na cintura por botões mais justos (ele e o irmão só ganhariam uma
calça nova tempos depois, quando uma senhora doou uma peça de pano
grosso a cada um).
Naquela época não existia pré – a criança só entrava na escola depois
de completar sete anos – e as aulas eram do meio-dia às quatro da tarde,
em um espaço com quadro-negro, cadeiras e carteiras para duplas. Uma
das professoras era Dona Zizinha, mulher magra, baixa e brava! Às vezes
fazia perguntas aos alunos, outras vezes pedia a algumas meninas para
tomar a lição. Se alguém não soubesse a resposta correta, ela aplicava
castigo: colocava a criança de pé, de frente para a parede, sem poder olhar
para o lado; proibia de sair no recreio e ainda fazia com que ficasse
estudando depois da hora de ir embora. Tinha dia que Seu Zeca pegava o
livro, ficava olhando e tentando compreender o conteúdo, sem conseguir.
Levava puxão de orelha e ficava de castigo. Certa vez o Zezinho, um amigo
que o acompanhava nas idas a pé para a escola, fez alguma coisa que
desagradou a professora; ela pegou o menino pela orelha e o empurrou
pela nuca... ele foi parar longe!
Às duas horas, começava o recreio. Os meninos jogavam bola na
rua e não comiam nada, porque não tinham dinheiro para comprar
nenhuma bala. Depois desciam até a mina (não havia água na escola) e
corriam de volta, com medo de perder a chamada. Dona Zizinha ficava
parada na porta, fazendo a revista de piolhos e verificando as palmas e as
costas das mãos – se estivessem sujas, era preciso voltar na mina e lavar.
Na escola aprendia-se a somar, diminuir, dividir e multiplicar; o
a-e-i-o-u; os algarismos romanos; a raiz quadrada. O catecismo também:
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Guardiões da Memória
a professora ensinava o Pai Nosso, a Ave Maria, os momentos certos de fazer
o sinal da cruz (na hora de levantar, na hora da refeição e na hora de deitar),
os 10 mandamentos da lei de Deus, os sete mandamentos da Igreja e os
cinco sacramentos. “És cristão?”, questionava. “Sim, sou cristão pela graça
divina”, respondiam as crianças em coro. “Qual é o verdadeiro cristão?”. “O
verdadeiro cristão é aquele que é batizado, quem professa a doutrina e a lei
de Nosso Senhor Jesus Cristo”. Era preciso ensaiar para não fazer feio nos
dias de confissão e da primeira comunhão, dias nos quais um padre visitava
os estudantes e fazia perguntas para conferir o aprendizado.
A nossa alegria
É a Santa Cruz
A nossa alegria
É a Santa Cruz
Pai Nosso que estais no céu
Sai da boca de Jesus
Pai Nosso que estais no céu
Sai da boca de Jesus
As aulas no Fundão iam somente até a terceira série. Quando
passou para a quarta, Seu Dola tinha 14 anos e caçou vaga nas poucas
escolas existentes em Viçosa. Entretanto, as instituições de ensino só
aceitavam alunos com idade máxima de 13 anos. Desejando prosseguir
com os estudos, o adolescente decidiu repetir a terceira, apesar de não
ter levado bomba. No ano seguinte, não pôde mais tentar vaga e parou
de estudar. De qualquer forma, o trabalho na roça seria outro empecilho.
Tinha boa memória para aprender... faltou foi oportunidade.
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Homens direitos
O fogo de palha de feijão iluminava as noites no terreiro das casas
e ajudava a esquentar nos dias de frio. Os adultos batiam papo e a
criançada se divertia. As meninas faziam bonecas com sabugo e casinhas
de cana de milho e os meninos jogavam bola, peão e tento. Meninos e
meninas brincavam de pique e roda. Era gostoso mesmo! Para Zeca,
também era prazeroso carregar mala da noiva até a cidade. Ah, era
demais atender o pedido das moças que, no dia do casamento, iam a pé
da Grota à igreja no Centro de Viçosa, e precisavam de um garoto para
levar o vestido branco e os acessórios.
O tempo de infância passou, e aos 21 anos José da Paixão Virgílio
casou-se com Ana Salomé Alves. Como as noivas que iam com uma roupa
e se trocavam pouco antes da cerimônia, ele tinha dois ternos para a ocasião:
um do caminho (de cor cinza), outro da hora (azul marinho, feito em
alfaiataria de Cajuri). Estava tudo sendo preparado naquele 26 de setembro
de 1956. Segundo o costume, o casal iria oferecer almoço, cada um na
casa de seus pais, cada um para seus convidados (era a jantarada, festa
com bastante comida). À tarde todos se encontrariam na Igreja Santa Rita,
matriz da cidade, perto da hora do casamento. No entanto, um recado
atrapalhou os planos. Seu Zeca nem se lembra de quem foi passar a
mensagem a ele lá na roça. Lembra do aviso de última hora: deveria chegar
às 10 da manhã em Cajuri, onde o juiz realizaria o casamento civil.
O noivo teve de mudar os planos de última hora! Não pôde comer
e teve de arranjar condução às pressas. O único padrinho do noivo (seu
cunhado, Expedito Sebastião) arrumou dois cavalos para ambos seguirem
viagem. Seu Zeca não tinha muito treino em montaria, mas assim mesmo
foi em cima do Escuro (era esse o nome do animal). Ao chegar em São
José do Triunfo, ficou sabendo que Dona Ana já havia saído; também a
cavalo, estava no caminho com seus três padrinhos (Lelé, Zé Lourencinho
e Bastião Domingo).
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Guardiões da Memória
Veio outro recado: ocorrera um engano. O aviso anterior destinavase na verdade a um casal do Buieié. Eram os noivos de lá que precisavam ir
mais cedo a Cajuri; com isso desocupariam o juiz, e ele estaria livre para
realizar o casamento de Ana e Zeca na parte da tarde, em Viçosa. Com a
resolução do mal-entendido, houve tempo para o almoço – os convidados
dela no Fundão; os dele, na Grota dos Virgílio. O acompanhamento da moça
foi à igreja em um caminhão da Prefeitura (o motorista, naquela quartafeira, tinha uns serviços no povoado e fez o transporte de graça). Seu Zeca
conseguiu um caminhãozinho para aproximadamente 40 pessoas, e cada
uma precisou pagar a condução.
A cerimônia foi celebrada pelo padre Geraldo Maia. Seu Dola não
compareceu, assim como Seu Agustinho e Dona Cila (na época, não era
comum que os pais assistissem ao casamento; eles ficavam tomando conta
da casa). Na hora da volta, Seu Zeca foi ter um dedo de prosa com um
motorista da Pássaro Verde. Ele sabia que, próximo da padaria, os
funcionários da empresa deixavam os ônibus estacionados, esperando a
hora de ir a Belo Horizonte. A prosa deu certo: o homem concordou em
encostar o ônibus na igreja e levar quem saía do casamento para São José
do Triunfo. Assim foram todos à casa da noiva, onde havia um mesão
grande, com café, leite, broa, biscoito de polvilho e brevidade, e a festa
durou até de manhã cedo, ao som de sanfona e violão.
No casamento de Seu Dola, também houve almoço: cabrito, frango,
pato, sopa de macarrão, macarronada e tutu de feijão eram os pratos
comumente servidos nesse tempo (maionese e salpicão? Isso é coisa nova).
Também houve caminhão levando os convidados e, como não podia
faltar, também houve festa. Geraldo Augusto Virgílio uniu-se a Regina
Maria de Jesus (ele, com terno azul marinho, ela com um vestido branco
feito pela madrinha). O padre Carlos Barreta Braga celebrou o matrimônio,
no dia 15 de outubro de 1960.
50
Homens direitos
Sete meses antes do casamento, Seu Dola havia começado a
trabalhar como servente na Setel – Sociedade Empreiteira Terraplenagem
Engenharia Limitada. A companhia explorava uma pedreira localizada
no campus da UREMG (a Universidade Rural do Estado de Minas Gerais),
próxima ao atual Departamento de Veterinária, para uso das pedras na
estrada de ferro de Leopoldina e nas construções da Universidade. Lá o
serviço era pesado! Debaixo de sol forte, Seu Dola limpava rochas, apanhava
pedras, enchia caçambas...
Seu Zeca não sabia da existência dessa pedreira. Costumava ouvir
barulhos (bum, bum, bum), mas associava os sons às atividades do tiro de
guerra. Devia ser treino da artilharia. Assim que o compadre Dola começou
o serviço na Setel, em março, ele foi atrás do emprego, e cerca de 30 dias
depois do irmão estava debaixo de sol forte, limpando rochas, apanhando
pedras, enchendo caçambas...
Aí as coisas melhoraram. Seu Zeca, que há pouco tempo havia
andado até Cajuri, debaixo de chuva, tentando vender dois franguinhos,
conseguiu dar melhores condições de vida à esposa e aos filhos. O salário
era recebido quinzenalmente, e isso alegrava inclusive os vendeiros do
Fundão. Na hora em que Seu Dola e Seu Zeca entravam em uma venda,
eram logo atendidos, mesmo se outras pessoas estivessem na frente e já
tivessem feito o pedido. A maior parte desses outros consumidores era
de funcionários da UREMG (a escola, como se costumava dizer) e às
vezes ficava meses sem receber. Assim, para os donos do comércio era
mais garantido atender quem tinha dinheiro na mão.
Em 1968, a empreiteira demitiu os empregados e encerrou suas
atividades na pedreira. Era preciso encontrar novo emprego. Seu Dola ficou
trabalhando na roça, enquanto Zeca optou por concretizar uma idéia
antiga: em outubro, foi embora para São Paulo. Tornou-se um dos 128 mil
migrantes que anualmente procuravam melhores condições na capital
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Guardiões da Memória
paulista na década de 60. O crescimento acelerado da região metropolitana
oferecia oportunidades de emprego e atraía pessoas de vários cantos do
país, principalmente de Minas Gerais e de estados do Nordeste. Atraiu
também Seu Dola: diante da falta de serviço (chegava a ficar a semana
inteira à toa) e da falta de dinheiro para as compras essenciais, acompanhou
o irmão em janeiro de 1969.
Ele e Seu Zeca trabalharam para a Ceiet – Construção e
Exploração de Instalações Elétricas e Telefônicas, junto a outros
viçosenses (era muita gente lá). Embaixo das ruas, dos sons e do
movimento de São Paulo, atravessando avenidas em túneis, dentro de
buracos fundos, em meio ao barro, cavoucavam vias que seriam
posteriormente canalizadas e transpassadas por cabos elétricos e
telefônicos. Como serventes, faziam essa rede pela rua afora... Depois
passaram ao cargo de manileiro, sendo responsáveis por nivelar o chão
após a abertura das valetas e assentar a tubulação.
Moravam em alojamentos montados pela companhia, na área na
qual se realizava a obra. Percorriam pontos diversos da cidade, a cada
período estavam num bairro diferente. Para levantar as barracas, armavase o fundo, as laterais e o teto, colocando-se forro de madeira e cobertura
de zinco com o objetivo de evitar a passagem de água. O espaço não era
largo, mas ali ficavam seis funcionários (três camas de um lado, três do
outro). Havia um lugarzinho reservado para todos os empregados
almoçarem e assistirem televisão à noite. Foi a primeira oportunidade que
Seu Dola teve de ver as imagens da tela brilhante! Às oito horas,
acompanhava o conflito dos irmãos Diogo e Pedro Azulão, um a favor e
outro contra a construção de uma barragem na pequena cidade de Divinéia.
Eram os capítulos de Fogo Sobre Terra, novela de Janete Clair, com Regina
Duarte e Juca de Oliveira. Para ver como esses atores são antigos na televisão!
Seu Zeca também foi vigia dos alojamentos. Passava a noite andando
52
Homens direitos
para lá e para cá, à luz de óleo com estopa ou de uma lâmpada vermelha.
Tinha de ficar esperto com os meninos que saíam da escola e faziam
bagunça pelas ruas, às vezes mexendo em objetos da Ceiet. Então ele
conversava, explicava que precisava sustentar a família e, caso
acontecesse algum dano, seria responsabilizado e assim perderia
dinheiro. Em determinado bairro, a esposa de um cabo tinha o costume
de gritar a ele da janela: “Moço, não troca a sua vida por banana”.
Sugeria que tentasse outra profissão. Ele, porém, sabia que o salário de
banana, apesar de ser pouco, fazia uma fartura enorme para a vida da
esposa e dos filhos em Viçosa.
Em Viçosa, as mulheres cuidavam das crianças e administravam o
dinheiro. Recebiam pelo correio alguns trocados e, com a quantia, acertavam
as compras realizadas a fiado nas vendas. Já para os valores maiores,
precisavam aguardar a vinda de algum colega dos maridos, o que podia
demorar mais de dois meses. Eram responsáveis por todos os itens da
construção das casas em São José do Triunfo, onde as duas famílias
passariam a morar. Seu Dola e Seu Zeca conseguiam 10 dias de licença,
mais ou menos de quatro em quatro meses. Nessas ocasiões o tempo passava
rápido (que ruim, meu Deus, pensar em ir embora!).
As casas já estavam prontas quando voltaram de vez a Minas Gerais,
após cerca de 10 anos longe. A Ceiet iria diminuir os serviços em São Paulo
e fez um acordo com os funcionários. Acertou as contas, com a condição de
continuarem trabalhando com a companhia, no Rio de Janeiro. “Nóis vamo
passar em casa, porque lá é mais perto pra ir pro Rio”, disse Seu Zeca,
anotando o endereço da Rua Frei Caneca. Ele e Seu Dola nunca apareceram
por lá. Preferiram ficar em Viçosa, perto da família.
Os acabamentos das casas foram sendo feitos nos anos seguintes,
com o salário da escola – já denominada Universidade Federal de Viçosa.
Naquele final da década de 70, a instituição se expandia, aumentando o
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Guardiões da Memória
orçamento, as instalações físicas, o número de cursos e de servidores. Mais
uma vez, os irmãos trabalharam juntos; mais uma vez, em atividades
braçais... e não era fácil. Era brabo, Nossa Senhora! Tinham de roçar,
arrancar mato, limpar represa, plantar grama, de segunda a sexta. Às
vezes o chefe Chico Barbosa precisava de gente para o sábado, então no
dia anterior mandava fechar o relógio; os funcionários só podiam marcar
o ponto depois de uns 10 homens aceitarem o serviço extra. Assim, na
sexta-feira muitos estavam aborrecidos, sem saber se poderiam passar o
sábado em casa. Outra chateação acontecia na hora do café, às três da
tarde: havia professores da Universidade que telefonavam na Divisão de
Parques e Jardins e reclamavam de ver todo mundo sentado na grama,
sem fazer nada. Ainda havia quem reclamasse de Seu Zeca e Seu Dola
nos períodos de greve dos servidores. Eles eram alguns dos “traíras”, dos
“puxa-sacos”, que não paravam de trabalhar (e no fim, acabavam ficando
encarregados de mais tarefas).
Sempre agradeciam a Deus pela força. Mesmo se um dia não estivessem bem, cumpriam as ordens, sem resmungar. Não tinham preguiça.
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Seu Agustinho não tinha preguiça. O pai de Seu Dola e Seu Zeca
trabalhava de sol a sol, e também nos dias de chuva, para fazendeiros ou
em casa. Costumava chamar os filhos, que o acompanhavam por várias
roças, na maioria das vezes sem saber direito aonde iam. Pegava na enxada
logo no início da manhã; isso até no dia 13 de maio, depois de atravessar a
madrugada ao som de cantos e batuques, dançando o tempo todo e
passando pelas ruas do Fundão. Nem dormia. Ficava fora até amanhecer,
tomava café e ia capinar... o sono só vinha à tarde. O importante era
comemorar a abolição da escravatura, agradecer as bênçãos de Nossa
Senhora do Rosário, participar da banda de Congado.
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Homens direitos
Ô Maria, mãe de Deus
Ô Senhora do Rosário
Ô Maria, mãe de Deus
Ô Senhora do Rosário
Venha ver o seu Congado
Cor-de-rosa e azul claro
Venha ver o seu Congado
Cor-de-rosa e azul claro
Candeeiros improvisados iluminavam a noite em São José do
Triunfo. Eram pedaços grossos de bambu fincados no chão, cheios de
querosene. Em outubro, no mês do Rosário, acontecia a festa! Festa de
Firmino Necreto (o rei congo); de Adão Lúcio, de Antonio Fulosino de
Souza, de Cesário Leôncio da Paixão, de Clementino Eduardo, de Luís
Alves. Festa de José Augusto Virgílio, o Seu Agustinho. Festa da
comunidade. Festa de Nossa Senhora do Rosário.
Festa iniciada muito tempo atrás, no centro de Viçosa, quando existia
a Igreja Nossa Senhora do Rosário, na praça onde hoje se localiza a
Prefeitura. Em 1930, passou a ser realizada em São José do Triunfo, e teve
como rei festeiro (ou rei de compromisso) o avô de Seu Dola e Seu Zeca.
João Virgílio Lúcio ofereceu os comes e bebes para todo mundo, juntamente
com a rainha festeira, Francisca Simôa. Seu Augustinho assumiu a coroa
de rei festeiro no ano de 1937 e, como morava na Grota, organizou a comeria
na casa de um conhecido do Fundão. Dona Cila estava grávida do quarto
filho; ele nasceria dois meses depois e seria batizado de Geraldo.
Geraldo e José conviveram com as batidas e os rituais desde
pequenos. De vez em quando a casa na roça recebia os congadeiros para
os ensaios. A turma toda dançava, às vezes a chuva caía, e alguns rapazes
aproveitavam instantes de descanso para correr em direção aos pés de
55
Guardiões da Memória
laranja do terreiro. Zeca foi o primeiro a entrar, mais ou menos com 15
anos de idade. Pouco depois foi a vez de Dola, o irmão mais novo. Ninguém
precisou convidá-los; partiu deles a vontade de integrar a banda. Gostavam
de ser dançadores. Talvez por isso não ficassem cansados de ir a São José
do Barroso no sábado, andando cerca de 19 quilômetros e, após participar
do Congado durante todo o final de semana, retornavam novamente a pé,
na estrada de chão. Ou talvez a explicação é que eram doidos mesmo,
como pensaria Seu Zeca anos depois.
Os irmãos gostavam também de ver o pai dançando. Era
secretário: trabalhava com a espada, tendo como missão proteger a
bandeira com a imagem de Nossa Senhora do Rosário, junto com o
vassalo. Mesmo depois de um derrame, Seu Agustinho não parou de
dançar. Participava sempre, com a ajuda de uma bengala, e chegava a
esquecer alguns versos, mas continuava... continuou até o segundo
derrame, em 1982. Morava sozinho desde a morte de Dona Cila, três
anos antes. Foi levado à cidade, porém não conseguiu vingar. Os rins
pararam. Não existia tratamento como hoje.
Um grande interesse de Seu Agustinho em vida foi deixar escrito
uma embaixada de origem africana, guardada em sua memória. Tinha
receio de que, quando morresse, levasse o conhecimento com ele, sem passar
para os filhos. “Ô, Geraldo mais José, quero ensinar ocês essa embaixada”.
Eles concordavam com a idéia de colocar os versos no papel, mas sempre
adiavam para depois: “Um dia nóis faz, um dia nóis vamo”. O depois
nunca chegou, e nada foi registrado por Seu Agustinho, nem pelos demais
mestres; os antigos não tinham cultura de leitura.
Muitos ensinamentos ficaram na memória. Seu Dola e Seu Zeca
decoraram a embaixada verso por verso, ditas pelo pai, e aprenderam
outros conhecimentos no convívio com os mais velhos e na passagem por
diferentes cargos na hierarquia do Congado. Atualmente alguns desses
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Homens direitos
Seu Agustinho [no centro], em 1968
Da direita para a esquerda, Seu Agustinho,
Seu Cesário e Seu Expedito
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Guardiões da Memória
saberes estão escritos, embora quase não seja necessário consultá-los. De
qualquer forma, só podem ser lidos antes da festa. Até hoje, quando o
Congado anda pelas ruas, tem de sair tudo da cabeça.
Ô quizimbuia, ô quezimatinata, na festa do Rosandário de
Maria com tantas e canaia...
Ô, Lau lau o secretário da minha real pessoa.
Ô, Lau lau o secretário da minha real coroa.
Secretário de meu maior estado mandá nag que aqui presente
se acha seu real vassalo.
Vassalo, rei senhor quer saber que gente são estas que se
acha de senhor tumbanda?
Essa gente que se acha de senhor tumbanda é gente de um
festa, gente de um guerra que veio festejar a virgem santa
Rosandário de Maria, aquela santa que leva nois todos no céu, seja
tudo pelo amor de Deus.
Vassalo, vai e diga a rei senhor que dentro deste corpo
famado não se acha gente de um guerra, acha um grande
Moçambique, governador de muxoxo qual veio da embaixada
reclama de meu senhor.
Se é a sua majestade, cede a sua licença.
Se for ribubungo de um festa banca um festa mas um festa
que eu memo ei de bancá.
Se for ribubungo de um guerra banca um guerra mas um
guerra que eu memo ei de bancá.
Se for ribubungo de um guerra banca um guerra porque eu
mesmo ei de fazer de mim a minha proprotéia.
Esses são os embaixamento?
Faça aqui meu fidalgo, canta pra mim valsear.
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Homens direitos
Como me chama mumbuca aruá, tá enganado comigo aruá!
Não me faz eu ficar perturbado aruá, tá enganado comigo aruá!
Como me chama mumbuca aruá, tá enganado comigo aruá! Não
me faz eu ficar perturbado aruá, tá enganado comigo aruá!
Ô zinego ce acha que é mais de que a mim, eu sou mais
que vós todos!
Ei de pegá-lo, ei de esmagá-lo, ei de fazer ciririca capitão
da guarda.
Moçambique, moçambaque não me cante e não me irrite,
e não me saia mais daqui, não bule com minha zinquinhamba
enquanto não me dar um aviso. Aqui está o rei, pequeno vassalo,
protegendo esta banda.
Vassalo mirim faça para mim cambança, cambaleão! Acerta
as vozes, redobra os instrumentos e timaratim que era o congo.
É sim senhor, sim senhor sim!
O distrito de São José do Triunfo fica todo enfeitado com bandeiras
no mês de outubro, em preparação à grande festa. A programação tem
início em uma sexta, com a celebração de abertura da novena em louvor à
Senhora do Rosário. Na Igreja de São José, a imagem da santa é colocada
no altar, no lugar do patrono da igreja (ela é mantida guardada em dias
normais), e a reza acontece durante toda a semana. Pai Nosso que estais
no céu... Ave Maria, cheia de graça...
No sábado da semana seguinte, realiza-se a coroação de Nossa
Senhora. O apito comanda os instrumentos e os instrumentos produzem
os sons que percorrem as ruas e chegam à praça. Os congadeiros entram
na igreja, sem vestir o fardamento... nesta noite eles usam apenas calçados,
roupas e boinas brancas. Na frente encontra-se Seu Dola, o rei congo,
autoridade máxima e coordenador geral da irmandade. Ao lado está Seu
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Guardiões da Memória
Zeca, o capitão da guarda, responsável por comandar tudo o que acontece.
Usa a mesma faixa que ganhou em 1999, quando foi escolhido para assumir
o cargo. Com o término da noite de oração, os fogos de artifício colorem o
céu e iluminam os rostos de jovens e adultos. Ao som de cantorias e
tambores, as espadas se direcionam ao alto. O levantamento do mastro é
um anúncio: amanhã tem festa!
A partir das quatro da manhã, a banda de Congado percorre as
ruas da comunidade, visitando residências, parando diante de altares
montados em alguns portões, com velas e santos. A alvorada acontece até o
sol acordar; os participantes são recebidos com um café da manhã reforçado,
na casa do rei festeiro do ano anterior.
Veja que tão belo dia
Veja que tão bela hora
Ô que bandeira sagrada
Da virgem Nossa Senhora
Mais tarde, o movimento começa a crescer na Rua São Lourenço,
onde moram Seu Dola e Seu Zeca. Cerca de 65 congadeiros se reúnem,
separados em duas filas. Aí se destacam duas cores: na fila da direita, o
rosa; na da esquerda, o azul. São os tons do saiote e do capacete (um adorno
colocado na cabeça, enfeitado com fitas e espelhos) usados pelos integrantes
da banda, em homenagem ao manto e ao vestido de Nossa Senhora do
Rosário. Na frente, o sorridente rei congo apresenta-se com a coroa e a
capa, segurando o terço e a bengala. O capitão da guarda o acompanha,
assim como o rei do meio, cuja função consiste em tirar um jongo (puxar a
cantoria) e puxar também os instrumentos e os passos durante a dança. É
só dar um sinal com o apito e os outros atendem. Rogério de Souza da
Paixão, filho de Seu Zeca, é o rei do meio. O futuro rei congo.
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Homens direitos
Seu Dola [à esquerda]
e Seu Zeca [à direita],
na noite do levantamento do mastro
As duas filas, reunidas em frente à casa de Seu Zeca
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Guardiões da Memória
Congado passa pelas ruas de
São José do Triunfo [acima]
Bandeireiras e violeiros
em 1989 [à direita]
Seu Dola, à frente da banda,
em 1985 [abaixo]
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Homens direitos
Cortejo segue a imagem de Nossa Senhora do Rosário [acima]
até a chegada à igreja [abaixo], em 2007
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Guardiões da Memória
Congado, no
ano de 2008
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Homens direitos
A rainha conga, Dona Maria José
O violeiro João,
Seu Dola e
integrantes da
banda, em 2007
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Guardiões da Memória
O rei do meio Rogério [acima] e Dona Rê, acompanhando
o cortejo [abaixo], em 2008
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Homens direitos
O almoço é farto, mesmo com a enorme quantidade de pessoas que
fazem fila e se servem. Arroz, tutu, macarrão, frango, salpicão. Parece milagre:
a comida sempre dá e sobra! Quem paga são os reis de compromisso, é tudo
por conta deles. É muita despesa, mas ninguém reclama.
Chega a hora de buscar os reis festeiros e os príncipes em suas
casas. Olê, bambariá! Rei congo, capitão, rei do meio, rainha conga,
vassalos, secretários, bambas, guias e porta-bandeiras sobem e descem
ruas de São José do Triunfo. No meio das filas de congos, seguem os
casais que compõem o Reinado – damas com vestidos brancos e
cavalheiros de calça preta e camisa branca, protegendo as damas com
guarda-chuvas.
Os fiscais prestam atenção em tudo, principalmente nas crianças –
os jovens congadeiros no final da fila, com olhares atentos e pequenos
instrumentos. Sempre à frente, é carregada a imagem da protetora dos
negros, com o rosário nas mãos e Jesus Cristo no colo.
A Igreja de São José do Triunfo fica lotada na missa: os congadeiros
permanecem no meio, entre os bancos, durante a celebração. Não se pode
sentar, arregaçar as mangas compridas nem ficar saindo para beber água,
afinal trata-se de uma penitência.
Cantos. Ladainhas. Orações. Próximo do final, acontece a
esperada troca das coroas: os reis de compromisso do ano seguinte são
coroados pelo padre.
É noite de domingo e as feições dos participantes não aparentam
cansaço. O lanche sedia as conversas e as despedidas. Marca a espera de
que o ano seguinte chegue. Quando a festa chega ao fim, já existe gente
pensando na próxima, refletindo se vai estar vivo... Que Nossa Senhora do
Rosário, boa mãe, proteja a todos.
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Guardiões da Memória
Faltavam poucos dias para o Natal e Seu Dola estava preocupado
com a compra do peru que seria servido na noite de 24 de dezembro. Ele
havia passado por uma operação de rim, mas sentia-se bem: conversava
com os parentes que o visitavam, contava à médica do CTI como foi sofrido
na vida. O compadre Zeca notou o modo como o irmão se comportava, e
não acreditava no estado de saúde apontado pelo médico. “Doutor é assim
mesmo, eles põe as coisa muito aumentada”, disse ele a Dona Regina, quando
ela relatou a preocupação do Doutor Luciano com a febre interminável.
O paciente foi operado no dia 10 de dezembro de 2002 e, depois de
encaminhado ao CTI, pôde ficar num quarto. Voltou à mesa de cirurgia no
dia 15, dessa vez para colocar o dreno em cima da costela. Passou três dias
no CTI, sem roupa, coberto só com o lençol, e cheio de aparelhos, sem
poder levantar. Tinha de contar com a ajuda de alguém para comer.
Seu Dola levava capim para um boi. Veio a enchente. “Ai, meu Deus,
o capim tá dentro do balaio aqui!”. Com medo da força da água, forte o
suficiente para levar todo o capim embora, ele tinha de passar em uma ponte.
Tentava escapar, vendo a enchente em sua direção. Cada vez mais próxima.
Mais próxima. Gritou. “Que foi?”, uma voz perguntou. “É pesadelo”,
respondeu Seu Dola, aliviado ao acordar. “Pesadelo, hem, pesadelo”, zombou
o enfermeiro; talvez tenha pensado que era a morte chegando perto do doente.
Novamente foi mandado para um quarto. Não melhorou. No dia
19, véspera de seu aniversário, foi levado a Juiz de Fora, onde haveria melhor
tratamento. Na ambulância, estava preso na cama pela barriga,
balançando de um lado para o outro, com o dreno de um lado, o aparelho
de soro ligado do outro, com oxigênio e sonda de urina. Pensava que estava
bem, só iria a um lugar com mais recursos.
Dona Rê ainda se recuperava de uma cirurgia realizada há cinco
meses, para tirar uma massa por cima do rim. Mesmo assim acompanhou
o marido na ida a Juiz de Fora e lá o viu ser carregado pelos funcionários
68
Homens direitos
do hospital. Ficou perdida. Sozinha. Para aonde ia? Onde ficava o banheiro?
Estava dando tudo errado. Foi preencher a ficha e ouviu a conversa na
recepção: “Você viu, minha filha, aquele homem que chegou de Viçosa?
Aquele ali só Deus mesmo!”. Ficou calada, escutando. Naquele momento,
pelo que sabia, somente Seu Dola havia chegado de Viçosa. Terminando
de fazer a ficha, perguntou: “E agora, pra aonde eu vou?”. Informaram
que o paciente estava no terceiro andar e ela poderia subir de elevador.
“Tem alguém aí dentro?”. “Não, a senhora pode ir que não tem erro”. Não
quis saber de elevador nenhum. Preferiu as escadas. A cada lance de
degraus, acompanhava o número do andar. Um... dois... três. “Graças a
Deus!”. Entrou no quarto 314, cansada, quase sem ar, e encontrou o esposo
deitado, quieto, repousando. Ficou ali dias e noites.
Três médicos cuidaram dele (o cardiologista, a pneumologista e o
nefrologista) e uma agulha pequena, igual uma formiguinha, era aplicada
em qualquer parte do corpo. Passou o aniversário, passaram-se dias de
tratamento, e Seu Dola tornou a ser operado no dia 30, para limpar a parede
respiratória com infecção. O Doutor Humberto, doutor dos rins, perguntou
se o “Seu Geraldo” queria passar o Ano Novo em casa. “É, doutor, se o
senhor deixar, o senhor é que manda, né, doutor”. “Se o senhor passar bem,
amanhã dou ao senhor alta”. Já no quarto, com fome depois de um período
longo de jejum, Seu Dola teve auxílio da filha Solange para comer sopa.
Amanheceu bom. Ficou alegre com as inesquecíveis palavras do
médico após o exame: “Da Doutora Lígia [a doutora de pulmão] o senhor tá
liberado, agora vou liberar o senhor, o senhor pode ir embora”. Seu Dola
mandou ligar para a família. Chegou no fim da tarde em Viçosa e pôde
passar a noite de 31 de dezembro com a esposa e os filhos. Só não pôde
fazer visita ao Seu Zeca. A cada ano, um combina de ir à casa do outro;
aquela era a vez de Seu Dola, mas o irmão entendeu o motivo. O importante
era a saúde do compadre.
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Guardiões da Memória
Eu vou, eu vou,
Eu vou, eu vou,
É debaixo da capa, ieu vou
É de Nossa Senhora, ieu vou
É debaixo da capa, ieu vou
É de Nossa Senhora, ieu vou
Não foi a primeira vez que ele passou por risco de vida (ou talvez
risco de morte). Na época do trabalho na pedreira, o barranco desceu
enquanto trabalhava no alto da rocha, a aproximadamente 60 metros de
distância do solo. Seu Dola estava amarrado pela cintura em uma árvore,
porém com o desabamento a árvore tombou e caiu. Restou apenas o guião,
a raiz mais funda. Foi terra passando, passando; quebrou-se a ponta do
currião (ou cinto, como o pessoal entende hoje em dia), caiu o chapéu de
palha novo que nunca mais veria... se o guião arrebentasse, ia junto. Nem
deu tempo de pensar em nada. Os colegas perto dele pensaram.
Conseguiram puxá-lo pela corda e salvá-lo.
Em São Paulo, mais riscos. Estava abrindo um túnel, próximo do
Hospital das Clínicas... agachado, cavoucava, cavoucava cada vez mais
fundo. Sentiu uma porção de barro na sua cabeça e rapidamente, por
reflexo, passou para trás. Logo caiu em sua frente um monte de terra,
fechando toda a passagem. Se atingisse o trabalhador da Ceiet, certamente
o deixaria soterrado. Não voltaria a ver a família em Minas.
Já em Minas, o servidor da UREMG roçava a grama do lago, perto
das quatro pilastras que marcavam a entrada da instituição. Então seu pé
escorregou e ele deslizou de uma vez em direção à água. Conseguiu
continuar segurando a foice, e assim afundava e retornava à superfície, ia
até embaixo e voltava a respirar. O companheiro Zé do Carmo encaixou a
sua foice com a dele, e outros quatro colegas – Pascoal, Jair, Vantoir e o
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Homens direitos
irmão Zeca – formaram uma corrente para tirá-lo de dentro d’água.
Ninguém sabia nadar. Quase sem fôlego, Seu Dola soltou sua foice, virou
o corpo e conseguiu segurar a do outro, com a mão esquerda, bem forte.
Foi arrastado para fora, igual um pedaço de pau, e colocado de barriga
para baixo. Na hora do almoço, o encarregado não permitiu que
continuasse trabalhando; o levou ao hospital, onde foram realizados
exames. Nenhum problema. Nem havia engolido água. O médico receitou
uns comprimidos e três dias de repouso. Aí pôde voltar ao serviço.
Duas décadas antes, ele já havia caído na água e quase se afogado.
No caminho para a pedreira, passava de bicicleta numa ponte de madeira
e ficou com medo de uma pequena parte quebrada. Freou, ao invés de
passar rápido, e o veículo empacou naquele ponto sem o forro. Foi parar
dentro do ribeirão gelado. Afundou e voltou à margem duas ou três vezes,
até conseguir segurar em uma porção de mato da beirada, onde os
pescadores geralmente se sentavam. Seu Zeca estava à frente, olhou para
trás e achou estranho não ver o compadre. Uai!? Voltou e, ao encontrá-lo
na água, desceu o caminhozinho dos pescadores e o ajudou a sair. Naquela
manhã geada, Seu Dola teve de voltar para casa, todo molhado,
empurrando a bicicleta (esta estava seca, havia permanecido na ponte).
Na Grota, ficou se aquecendo, sentado em cima do fogão, tremendo,
bebendo chá de canela preparado por Dona Rê. Pelo menos Seu Zeca
conseguiu explicar o ocorrido ao responsável por bater o cartão dos
funcionários, e Seu Dola teve o ponto marcado às sete horas, como se tivesse
chegado no horário. Do contrário, seria descontado de seu salário os valores
desse dia e do domingo seguinte.
O dedão do pé direito é preso, não tem muita destreza. Marca mais
um acidente, em um dia de trabalho na Setel. Estava limpando rocha
quando bateu numa pedra com a picareta e esta quicou em cima do dedo;
parou, ficou pendurada e cortou o nervo e a veia (emendadas depois no
71
Guardiões da Memória
hospital). No mesmo dedo entrou um espeto de churrasco. Dessa vez Seu
Dola capinava, de chinelo, atrás do pavilhão de aulas da Universidade. No
hospital, o médico fez exames e disse que não havia trauma; o paciente, no
entanto, afirmava sentir um pedaço ainda. E havia mesmo, bem grande,
como constatou o doutor após anestesiar e rasgar uma parte do pé.
Seu Dola foi operado de hérnia no abdômen, em 1996, e fez cirurgia
de próstata no ano seguinte. Durante o tratamento, ia a Belo Horizonte
várias vezes para a radioterapia e, por isso, precisava pegar atestado para
justificar a ausência no serviço. Os médicos sugeriram a aposentadoria por
invalidez, pois acreditavam que ele não ficaria mais firme no emprego, e
quanto mais atestado pegasse, seria pior para o salário mais tarde. Após 33
anos de contribuição, Seu Dola deixou de trabalhar. Fez um pedido a Nossa
Senhora do Rosário: se ficasse bom, direito, seria rei de compromisso na
festa do Congado. Ficou bom. Como havia gente na lista de espera para
assumir a coroa, cumpriu a promessa em 2000, junto com Dona Rê, a esposa
e companheira de sempre, na saúde e na doença.
Era toda essa história que Seu Dola contava à médica do CTI quando
foi operado de rim. Dizia como foi sofrido na vida e, graças às bênçãos de
Deus e de Nossa Senhora do Rosário, continuava no mundo. Curado dessa
última cirurgia, em 2002, hoje ele só toma remédio para pressão. Até já
pensou em reunir os congadeiros mais jovens para relatar as dificuldades
pelas quais passou. Seu Zeca, ao relembrar de tantos casos e problemas,
como a criação da família com poucos recursos e um acidente na pedreira
(machucou a mão e ficou com receio de ficar de atestado em casa; continuou
a trabalhar, apanhando pedra pesada), também exclama: “Fui muito
sofrido”. Ainda bem, dizem eles, que Nossa Senhora da Guia direciona no
caminho certo (porque ninguém anda sem ser guiado, igual automóvel).
Nossa Senhora do Rosário está sempre presente, defendendo, intercedendo.
Certa vez o médico aconselhou uma cirurgia a laser para a artrose
72
Homens direitos
do joelho de Seu Dola, embora admitisse que a melhora não seria em cem
por cento. Ele preferiu deixar como estava, andando com o auxílio da
bengala, arrastando a perna. Em 2007, na sexta-feira da Paixão de Cristo,
passou o dia na capela de São Vicente, em adoração ao Santíssimo
Sacramento. Voltou para casa. Mais tarde, sua sobrinha Vânia apareceu
com a bengala, perguntando ao tio se ele havia esquecido na igreja. “Não
sei. Uai, é mesmo, gente! Eu pus lá na mesa na capela de São Vicente”. A
filha Creide viu a cena e sugeriu que ele deixasse de usá-la, como nem
havia dado falta dela. Parou de andar com a bengala. Anda para cima e
para baixo e o joelho não dói. Só não dobra mais.
Toda vez que eu vou na igreja
Sempre tiro um momento
Toda vez que eu vou na igreja
Sempre tiro um momento
Pra fazer uma visita
O Santíssimo Sacramento
Pra fazer uma visita
O Santíssimo Sacramento
O Santíssimo sacramento
Bendito, louvado seja
O Santíssimo Sacramento
Bendito, louvado seja
Ele tá sempre presente
No altar da santa igreja
Ele tá sempre presente
No altar da santa igreja
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Guardiões da Memória
Seu Dola e Seu Zeca nem pensam em mudar de religião. Não largam
de jeito nenhum. Tudo já está bom, afirmam eles. “Graças a Deus”.
Continuam a homenagear Nossa Senhora do Rosário, com prazer e
animação (com mais vigor do que muitos jovens por aí); continuam a
cultura, a tradição e a missão do Congado. Aquilo que os antigos deixaram.
Contam o que o pai contou.
O rei congo compõe cantorias, sempre relacionando a inspiração
com a toada e a palavra certa para consoar (não pode começar de um jeito
e terminar de outro). O capitão da guarda costuma definir o Congado
como coragem, esperança, amor e fé. Ele tem tudo isso, e assim se sente
satisfeito de ser dançador. Só espera parar quando Deus o chamar.
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Caía um pé d’água e o furo no guarda-chuva não impedia que Seu
Zeca e Dona Ana se molhassem. Os dois caminhavam da roça ao Hospital
São Sebastião, no centro da cidade, levando o terceiro filho para consultar.
A mulher segurava Valderli de Souza da Paixão, um bebê bonito, com um
ano de idade, e trocava poucas palavras com o marido. Interrompeu o
silêncio para dizer: “vamo voltar?”. Seu Zeca achou estranha a vontade de
parar no meio do caminho: “Ah, boba, nóis já tá aqui, vamo acabar de
chegar?”. Dona Ana insistiu: “vamo voltar?”. Então ele compreendeu.
Retornaram, mudos, e levaram o menino à casa dos avós maternos, José
Quirino Alves e Maria Salomé. Estava morto.
Outra filha, Aparecida, faleceu de bobeira, segundo Seu Zeca. Havia
nascido prematura, de oito meses, e estava tão fraquinha que logo no dia
seguinte foi batizada. Quem sabe assim melhoraria. Foi levada pela
madrinha, pelo padrinho e pela madrinha de representa (aquela que
representava os pais, pois estes ficavam em casa antigamente). Na rua,
uma madame viu a criança e sugeriu que os três deixassem a menina no
74
Homens direitos
Seu Dola, o rei congo,
na noite do levantamento do mastro
[acima, em 2007] e no
cortejo, no momento
de tirar o rei e a rainha
de compromisso [ao
lado, em 2008]
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Guardiões da Memória
O capitão da guarda, Seu Zeca [2008]
76
Homens direitos
hospital, para ficar na incubadora, pois assim certamente ficaria mais forte.
Eles tiveram receio de tomar uma decisão sem a ordem dos pais. Contaram
a história quando voltaram à Grota e, no outro dia, Aparecida morreu,
sem doença, sem complicação.
José Onício, o primeiro filho de Dona Regina e Seu Dola, também
nasceu prematuro e chegou a ser batizado. Ficou três dias, só gemendo, e
não escapou. Anos depois, Seu Dola estava em São Paulo quando recebeu
o aviso da doença da filha Soleni, de dois anos e meio. Viajou no mesmo
dia, e ao retornar descobriu que ela já havia sido enterrada. Só então ficou
sabendo da história: a menina adoeceu e a mãe andou até São José do
Triunfo procurando condução à farmácia, no centro, onde a filha tinha se
consultado há 15 dias. Foi conversar com um morador do povoado. Esse
senhor possuía um jipe, talvez poderia ajudá-la. Não podia, alegou ele:
tinha compromisso. Um outro conhecido atendeu o pedido, avisando que
daria carona mesmo com o carro enguiçado. No meio da viagem, próximo
do Cantinho do Céu, o veículo não agüentou mais, e Dona Rê, grávida de
quatro meses, seguiu a pé com a menina gemendo, gemendo, naquela
canseira, naquela aflição! “Ô Cirlei, a menina tornou a ruindar de novo”,
disse à mulher da farmácia. “Vai direto pro hospital com ela, mas não
passa na praça não, passa pela linha que é mais depressa”. Andou rápido.
Já no hospital, o Doutor Carlos falou para ela entrar num quarto. As
enfermeiras chegavam toda hora para olhar. A menina parou de gemer.
“Faz favor, ela tá parada, vem ver como ela tá, pra mim acho que ela
morreu”, disse Dona Regina a uma enfermeira. O médico foi chamado e
entrou no quarto; examinou a criança e colocou a mão no pescoço da mulher
à sua frente. Tentou consolá-la antes de contar a notícia: “A senhora não
precisa ficar aborrecida não”.
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Guardiões da Memória
São cinco os filhos de Dona Rê e Seu Dola: Maria Anice, Solange,
Elenice, Ivani e Creide. A última mora em Belo Horizonte, os outros vivem
todos em São José do Triunfo. Já são 10 netos (alguns congadeiros, como
Tiago, que decora versos da embaixada com o avô) e quatro bisnetos.
Dona Ana e Seu Zeca têm oito filhos: Maria Eliana, José Dejair,
Elisabete, Evair, Rogério, Dalva, Odair e Elisete (José e Elisete residem fora,
na capital mineira, e Evair foi há pouco tempo para Florestal). Quantos
netos? Peraí, é preciso contar. São 24, além dos seis bisnetos. O filho Rogério
é o rei do meio e o futuro rei congo. Vai continuar a tradição? Sim, é uma
raiz, não pode acabar.
Na criação dos filhos, faltou dinheiro, faltou pão, faltou carne todo
dia. Não faltou o ensinamento da fé, do respeito e da honestidade (esta
última difícil e cansativa, porém a melhor coisa existente no mundo). Foram
os valores passados por Seu Agustinho e Dona Cila; foram os valores que
Seu Zeca e Seu Dola passaram para suas famílias.
Não é fácil construir a imagem de homem direito. Ambos
construíram. São muito considerados na comunidade de São José do
Triunfo: os vendeiros ficam até com ciúmes se eles não vão em suas lojas.
“Por que comprou lá? Eu tenho aqui”. Quando alguém doa dinheiro à
banda de Congado, por promessa à Nossa Senhora do Rosário, confia no
rei congo e no capitão da guarda. Sabe que eles compram itens necessários
em benefício à festa da santa e, caso sobre qualquer quantia, enviam à
igreja; não pegam nenhum alfinete em benefício próprio.
Hoje, eles tentam compreender a existência de tanta ruindade no
mundo, de tanta diferença em comparação a outros tempos. Porque as pessoas
antes viviam com dívidas, falta de serviço e de tratamento de saúde, mas não
se ouvia falar em vários casos de morte, diferentes tipos de drogas... Mesmo
em São Paulo não havia traiçoeragem. Andavam de noite em Santo Amaro,
para visitar as irmãs Cirene e Dalva no Jardim São Luís, e nada acontecia.
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Homens direitos
As crianças não respondiam para os pais – atualmente, afirmam
chamar o conselho tutelar se os pais brigarem com elas – e levavam castigo
na escola se fizessem algo errado – hoje denunciam ou batem nos professores
se um deles corrigi-los. Brincavam na rua, diferente dos jovens que dizem
ficar com depressão se não puderem usar o computador.
Antes, se deitassem nas escuras ruas do Fundão, o único risco era a
lambida de um cachorro. Agora há medo até dentro de casa. Ainda bem
que passam o dia inteiro lá na Grota, quase todos os dias da semana. Não
tem zoeira, não tem nada. Podem lembrar da infância alegre, embora
sofrida, rezar e pensar nos ensaios do Congado, quando chega a época de
uma apresentação ou da festa de Nossa Senhora do Rosário. Em alguns
dias os dois nem se vêem, ficam cada um em seu canto, com as esposas, às
vezes com filhos, netos e bisnetos. Voltam a São José do Triunfo no fim da
tarde, mais para dormir. Ih, é tão gostoso!
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Sempre
majestade
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O camarada não era católico nem crente. Não acreditava em nada.
Ficou sabendo da festa realizada na noite de 12 de maio e comentou com
um companheiro: “vou ver a macacada dançar”. Lá no Caxixe, zona rural
do município de Cajuri, as pessoas assistiam à banda de Congado. Tempo
de Seu Firmino, de Seu Adão, de Seu Agustinho. Tempo em que, na falta
de luz elétrica, as fogueiras clareavam o caminho.
O sujeito acompanhava perto de uma dessas fogueiras. Caiu dentro
dela (ninguém sabe como) e foi rolando, rolando, até no meio dos
dançadores. Começou a roncar igual porco. O cavaquinho tocava, as
espadas trabalhavam e nada de conseguir tirar o fogo dele. Alguns congados
o chamavam pelo nome, mas ele não respondia, continuava rolando e
roncando. Isso durou mais de três horas, aconteceu até o dia clarear. Muita
gente já havia ido embora, cismada, sem coragem de ver a cena. Então um
dos mestres conseguiu tirar aquilo do homem e ele conseguiu levantar-se.
O camarada não deveria ter abusado. Se não sabia o fundamento do
Congado, como é que pôde chegar e falar uma coisa dessa? Por que foi lá
então? Desse dia em diante, não disse mais nada e nunca mais foi ver a festa.
O senhor que relata essa história sabe a importância de respeitar o
fundamento; sabe a importância de pedir a proteção aos santos e aos anjos
da guarda. Porque o Congado tem dendê. Seu Chiquito procura controlar
tudo direitinho, para nada de mal acontecer. Sempre que o Congado sai às
ruas, acende velas, reza o Pai Nosso e a Ave Maria, pede a Nossa Senhora
85
Guardiões da Memória
para livrar de todo perigo. Para a defesa da banda; para a defesa das crianças,
que são inocentes. Duas folhas de arruda, duas de guiné, três dentes de alho:
é só esfregar nas mãos, cheirar, passar no rosto e na nuca. As bandeireiras
são as primeiras a passar a proteção, pois as três abrem a guia com a imagem
da Senhora do Rosário, e depois todos os congados repetem o gesto. Aí estão
preparados, com o corpo fechado, e podem começar.
No dia desse festejo
Tinha três anjo da guarda
No dia desse festejo
Tinha três anjo da guarda
E arretira minha gente
Que as espada é um perigo
E arretira minha gente
Que as espada é um perigo
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Antigamente, poucas pessoas andavam desarmadas pelas ruas. Os
congados, no entanto, precisavam andar limpos, puros mesmo, sem portar
nada perigoso. Por isso, os fiscais tinham de recolher facas, canivetes e
garruchas nos dias de festa. Guardavam os pertences dos outros na caparunga,
uma espécie de bolsa feita de couro de cabrito, com alça, para os fiscais
pendurarem no ombro. Ali podiam guardar dinheiro, relógio, guarda-chuva
e qualquer outro objeto que pudesse atrapalhar quem dançava.
Vestidos com trajes brancos, os fiscais eram responsáveis também
por prestar atenção nas filas e verificar se tudo estava em ordem (como
ainda fazem, hoje sem tanta preocupação com armas; as poucas pessoas
que as possuem costumam deixá-las em casa). Não é qualquer um que
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Sempre majestade
pode assumir o cargo, pois se trata de uma grande responsabilidade: é
preciso ter coragem e saber conversar com a turma, saber corrigir se alguém
fizer algo errado.
Antonio Fulosino de Souza tinha coragem. Sabia corrigir. Era
um bom fiscal da banda de São José do Triunfo: nas vésperas do
Congado no Fundão, em Cachoeirinha ou em outras localidades, ele ia
a pé avisar os dançadores que moravam na roça. Batia de porta em
porta, para dar o recado a Seu Cesário, no Macuco; João e Nenê, no
Buieié; Quinho Rosa, no Sapé...
Quem gostava da notícia sobre a proximidade da festa era o filho
Francisco. Ficava aflito esperando o dia. Embora ainda tropeçasse em alguns
passos, estava sempre alegre, procurando aprender. Às vezes os mestres
antigos apontavam o erro, outras vezes só o olhar de um deles mostrava
que alguma coisa não estava certa. Aí era necessário corrigir logo, copiar
rapidamente quem estava à frente (porque o jogo de pé não podia ficar
diferente, senão viraria baile).
Francisco de Souza era novo, tinha mais ou menos 15 anos. Entrou
no Congado por promessa da mãe: sentia uma chieira no peito (uns falariam
bronquite, mas ele nunca soube o nome) e, mesmo tomando um monte de
remédios, não melhorava. “Sabe de uma coisa, Antonio?”, disse Dona
Laurinda certa vez ao marido: “Eu vou pôr Chiquito no Congado pra Nossa
Senhora tirar essa chieira. Porque essa é uma santa muito milagrosa, nóis
já fez todo jeito pra ele, não tem jeito, então Nossa Senhora vai tirar”.
Pouco tempo depois, a família agradecia: Nossa Senhora levou o
problema para longe! O jovem deixou de sentir a chieira e não deixou de
dançar. Continuou aflito, esperando o dia, sem se importar de ir ao trabalho
após passar a noite de 12 para 13 de maio em claro, comemorando a
libertação dos escravos. Nem se importava de caminhar de Cachoeirinha,
onde morava com os pais, ao Fundão ou a outros lugares onde também se
87
Guardiões da Memória
realizava festa. Para ir a São José do Barroso, por exemplo, saía com a
turma no sábado de manhã e andava, andava... chegava lá por volta das
quatro da tarde. Vinha a janta. Tempo para descanso? Quase nada, pois
quando começava a anoitecer, todos se dirigiam à igreja, levantavam o
mastro e iniciavam os passos e as cantorias.
Viemo de longe, chegamos agora
Viemo de longe, chegamos agora
Viemo na festa de Nossa Senhora
Viemo na festa de Nossa Senhora
De madrugada, respeitando a tradição, levantavam-se para a
alvorada. Mais tarde almoçavam e participavam da missa. Só no fim
da noite vinha um tempo para descansar: dormiam lá e retornavam na
segunda-feira, mais uma vez a pé. Na terça, não havia descanso: era
dia de trabalho.
Esse era o tempo em que muita gente dançava na banda. Cerca de
100 pessoas participavam, entre moradores de São José do Triunfo e
Cachoeira de Santa Cruz (não havia criança pequena; raramente, uma em
cada fileira). Há mais ou menos 20 anos, depois do falecimento de Cesário
Leôncio da Paixão (um dos reis do meio), seu filho José Cesário, juntamente
com Seu Chiquito, liderou a separação dos integrantes e a montagem de
uma outra banda. Não era conseqüência de nenhuma briga, afirmavam;
apenas estava ficando difícil lidar com a grande quantidade de pessoas,
ainda mais por serem de várias comunidades. Eles fizeram alguns ensaios
para ver se a idéia daria certo, convidaram novos membros e deram origem
a uma nova banda de Congado. A banda de Cachoeirinha.
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Sempre majestade
Nos finais de semana, especialmente naqueles dias de calor, era bom
demais tirar a roupa, entrar por baixo da queda d’água e deixar o líquido
refrescante bater na cabeça! A pequena cachoeira recebia uma porção de
gente; as crianças eram maioria, brincando e tomando banho na água que
caía da pedreira; limpa, pura, quem quisesse podia até engolir!
Essa cachoeirinha batizou o povoado de casinhas miúdas, sem luz
elétrica nem água encanada, com pés de cambará no meio da rua, pastos
e altas capoeiras por onde andavam tatus e gambás. Distante
aproximadamente 14 quilômetros do centro de Viçosa, Cachoeira de Santa
Cruz foi reconhecido como distrito somente em 31 de dezembro de 1962,
na mesma lei que elevou Cajuri a município e criou o distrito viçosense do
Silvestre. O “sobrenome” Santa Cruz pode ter se originado de cruzeiros de
madeira existentes por lá, que recebiam velas, sediavam momentos de
oração e apresentavam símbolos da Paixão de Cristo, ou das pequenas
cruzes coloridas fixadas nas paredes das casas, cujos enfeites eram trocados
de ano em ano, em maio, no Dia de Santa Cruz (esse costume ainda é
praticado, mas não por todos os moradores). No mês de dezembro, no Dia
de Santa Bárbara, pequenas cruzes eram colocadas nas plantações, para
protegerem as roças da ventania.
Logo na entrada da comunidade, antes de chegar à capela, havia a
parte conhecida como Patrimônio, onde as casas barreadas de pau-a-pique
corriam sério perigo: se uma lá do início pegasse fogo, o incêndio se alastrava
para as vizinhas, como num efeito dominó. Nas vezes em que isso ocorreu,
foi necessária a ajuda de vários moradores, jogando água e retirando sapé
– senão, Nossa Senhora, tudo poderia terminar queimado.
A casa de Seu Chiquito não se diferenciava das demais. Quando
chovia, a família precisava colocar uma lona no teto, tentando evitar que a
água molhasse os móveis. Havia apenas quatro cômodos, além de uma
fossa do lado de fora – um buraco coberto por uma casinha, que servia de
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Guardiões da Memória
banheiro. Os moradores tomavam banho do lado de dentro – o chamado
“banho de cavalo”, no qual uma pessoa debruçava-se enquanto a outra
ensaboava suas costas e enxaguava. Plantavam milho, feijão, arroz, criavam
porcos e dormiam em catres, um tipo de cama com uma tábua por cima e
outra estreita por baixo. Viviam ali Seu Antonio, Dona Lucinda e os filhos
José, João, Inácia, Luzia, Filomena, Pedro, Francisco e Sebastião (o sétimo
filho nasceu miudinho, prematuro de sete meses, no dia 07 de junho de
1934, quando a família ainda morava no Macuco).
As crianças tinham dois pares de roupa: uma para usar todos os
dias, outra para o domingo. Chiquito chupava cana na entrada do Fundão,
no antigo canavial de Tião da Silva, e ia à missa nas ocasiões em que havia
padres para celebrar (como os padres Alberto e Chico, de São Miguel do
Anta, que chegavam montados em burros). Os avós maternos eram
Bermino de Souza e Dona Maria Bermino, uma índia morena clara com
cabelo comprido até embaixo. Ela havia sido apanhada na mata, ali mesmo
na região, como costumava contar. Falava um português enrolado e comia
carne crua. Isso mesmo, carne crua: lavava, comia e dava aos netos, muitos
deles acostumando o paladar ao sabor do alimento frio. Carne de boi, de
passarinho, de galinha (esta última não era muito boa, tinha um cheiro
esquisito, parecido com ovo).
Os meninos trabalhavam desde cedo. Acompanhavam o pai nas
atividades de carpinteiro, roceiro, serrador e pedreiro, ou ficavam capinando
no quintal de casa. Seu Antonio definia antes uma quantidade de carreiras
de milho para cada um – três becos no mínimo – e ai de quem não cumprisse
até a hora de seu retorno! A mãe tinha suas próprias tarefas – cozinhar,
costurar, varrer, lavar, passar e tecer esteiras –, porém costumava ajudar os
filhos, escondida do marido, quando percebia que eles não dariam conta
de fazer tudo sozinhos.
Brincadeira, só de noite. Apesar de participarem das cantigas de
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Sempre majestade
roda com as meninas, era comum que os garotos as deixassem de lado e
fossem jogar peteca e futebol. Corriam atrás da bola mesmo nas noites
escuras; se ela passasse a porteira na entrada da rua, era gol; às vezes
desaparecia na capoeira ou escapulia ladeira abaixo... lá iam os meninos
tentando encontrá-la, para o jogo recomeçar.
Chiquito e os irmãos não voltavam tarde, pois precisavam dormir e
acordar cedo para o trabalho no outro dia. E escola? Não iam, o pai não
permitia. Leitura dos filhos era cabo de enxada. Disse isso na cara de uma
professora que bateu na porta de sua casa: “Ô, Seu Antonio, vim aqui
matricular seus filhos pro senhor pôr eles na aula, pra eles estudar, já tão
grandinhos”. Nem foi convidada a entrar. Ficou para fora, enquanto as
crianças ouviam a conversa. Elas não se meteram; não tocavam no assunto
de ter ensino, com medo de apanhar. O pai batia até com porrete.
O interessante – e irônico – nessa história é que Seu Antonio sabia
ler e escrever. Era o único da casa com esses conhecimentos (seu sogro
também não deixara Dona Lucinda freqüentar a escola). Os filhos
observavam sua letra bonita, a cada oração escrita em papel para quem o
procurava. Ele geralmente recebia muitas pessoas em sua casa. Ih, muitas
pessoas! Era benzedor: curava mau olhado, dor de dente, doença nos olhos
(se o camarada estivesse com vento na vista, tirava). Nunca cobrava nada.
Os filhos o ajudavam no serviço sem nunca terem pego num tostão;
não ganhavam trocado nem para comprar uma bala. Já tinham feijão com
arroz em casa, precisavam mais de quê?, perguntava Seu Antonio. Quando
Seu Chiquito tinha uns 15 anos, ele e o irmão Pedro trabalhavam em
domingos e outros horários de folga. Com o dinheiro compravam caderno,
lápis e querosene. Interessados em saber assinar o próprio nome e aprender
mais um bocado de coisa, assistiam de noite às aulas na casa de Sebastião
Gonçalves, um senhor que morava perto da praça e ensinava aos dois as
lições de um livro. Tudo isso escondido de Seu Antonio.
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Guardiões da Memória
Porém, ele ficou sabendo. Não gritou, não proibiu. Só passou a dar
mais serviço a eles, impedindo que sobrasse tempo livre; as poucas horas
de descanso deixaram de ser suficientes. Seu Chiquito nunca precisou bater
o dedão de tinta em documentos, mas durante sua vida não soube ler e
escrever muito além disso (só com a ajuda de outra pessoa perceberia que
o sobrenome registrado do pai no seu RG, diferentemente do Fulosino
falado por todos, era Euflosino).
Os jovens não puderam terminar os estudos. A leitura foi cabo
de enxada.
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O fazendeiro Sebastião Cardoso instalou um dínamo na cachoeirinha que deu nome ao povoado. Não atrapalhou a diversão de quem
tomava banho, pois o aparelho foi colocado em lugar separado. O dínamo
transformava a força da queda d’água em energia elétrica para sua casa
(quem também quisesse tinha de pagar); era desligado na parte da manhã
e voltava a funcionar perto do fim da tarde. A luz produzida era vermelha,
fraquinha, por isso chamada de tomatinho.
Seu Sebastião convidava a comunidade para ouvir o rádio.
Quando chegava o dia de um jogo ou de uma festa bonita, a turma se
juntava para ouvir. Tinha uns que ficavam impressionados com aquela
caixinha falante: como saía a voz dali? Às vezes as pessoas se reuniam
para ouvir os moradores de Cachoeirinha que tocavam em programas
da Rádio Montanhesa.
Seu Chiquito nunca se apresentou no rádio, mas nessa mesma
época fazia serenata com amigos, no escuro ou iluminado pela lua cheia.
Ele no pandeiro, Zé Potoca no cavaquinho, Vicente Efigênio e Ladinho
Ferreira no violão. Os jovens solteiros combinavam de se encontrar
depois do serviço e pegar os instrumentos. Alternavam as vozes (dois
92
Sempre majestade
cantavam primeiro, depois outros dois, para descansar) e andavam cada
noite em um lugar: Cachoeira de Santa Cruz, Cascalho, Caxixe, São
Miguel do Anta. Paravam na frente de residências, cantavam e seguiam
caminho afora. Muitos moradores abriam a janela e espiavam, e
eventualmente alguns convidavam os quatro rapazes para entrar e tomar
um cafezinho. Certa vez um parente do Zé Potoca elogiou a voz boa e
alta de Seu Chiquito e, conversa vai, conversa vem, prometeu dar-lhe
um terno quando se casasse.
Ele cumpriu a promessa. Se, no tempo de namoro, o cantor de
voz boa e alta saía com Maria da Paixão vestindo camisa e calça de
saco (a primeira peça tingida com anil do pasto, a segunda tingida com
barro podre, ambas feitas pela mãe), no dia de seu casamento Seu
Chiquito teve um terno cinza novinho. Claro que não iria sujar a roupa
no caminho para a igreja: deu uns trocados para um menino carregar a
mala com as vestes do matrimônio, enquanto seguiu com o padrinho e
os convidados até Cajuri, sob um sol forte, em um percurso de mais ou
menos uma hora (para quem conhecia dois atalhos). Chegando no
município, parou em uma casa qualquer. “Posso trocar uma roupa aí
pro casamento?”. “Ih, à vontade, pode entrar pro quarto aí, arruma
aí”. Depois de aprontar-se de acordo com a ocasião, dirigiu-se à igreja e
trocou as alianças com Maria da Paixão.
Na hora do retorno, os recém-casados tiraram as roupas da
cerimônia, voltando a vesti-las somente ao chegar em Cachoeirinha.
Lá, cada um foi para um canto: cada um tomou banho, se arrumou e
ficou bonitinho de novo, para o baile na casa da noiva. Baile com sanfona
a noite inteira! Teve mesa com café e quitanda à meia noite, oferecida a
todos os convidados, e para aqueles que vieram de longe foi servida
outra mesa de manhã.
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Guardiões da Memória
Prepare seu café e também sua merenda
Prepare seu café e também sua merenda
O perigo que houver, Nossa Senhora te defenda
O perigo que houver, Nossa Senhora te defenda
João Pedro Nascimento e Idalina Maria do Carmo, pais de Dona
Maria, foram responsáveis pela organização da festa. Seu Antonio e Dona
Lucinda ajudaram com a compra e a preparação da comida. Mas nenhum
deles foi ao casamento. Esse era o costume na época: os pais ficavam em
casa, muitas vezes cuidando dos preparativos da comemoração.
Seu Chiquito morou com a mulher na casa dos sogros. Depois
se mudou para a roça, bem na entrada do povoado; numa casinha de
rato, como apelidava ele, devido à grande presença dos roedores. O
casal vivia nesse lugar quando o primeiro filho adoeceu. José Evaristo
tinha um ano e meio de idade. Foi levado pelo pai ao Hospital São
Sebastião, onde ficou internado.
Mais de um mês depois, Seu Chiquito esperava na porta do hospital,
aflito, contando no relógio os minutos restantes para o horário de visitas.
Chegou a perguntar na entrada se o filho estava bem e ouviu resposta
positiva. Quando entrou no quarto, deparou-se com o menino paralisado.
Morto. O pai ficou em choque. Nervoso, em poucos segundos carregou
José, com lençol e tudo, sem pensar muito bem o ato. Deixou o hospital,
apertando o menino contra o peito, e caminhou... caminhou com ele nas
costas, caminhou sem ver nenhum enfermeiro correr atrás, para impedi-lo
ou mesmo para explicar o ocorrido. Caminhou e parou por um instante na
principal via de São José do Triunfo, cuja continuação levaria a
Cachoeirinha. Sentou-se numa moita de bambu, perto do campo de
futebol, e escondeu-se do sereno grosso que havia começado a cair. Sabia
que não tinha condições de pedir abrigo na casa de ninguém, pois não se
94
Sempre majestade
Quadro de Seu Chiquito e Dona
Maria da Paixão, no dia do
casamento [acima]
Fotografia 3x4 de Seu Chiquito
ainda jovem [ao lado]
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Guardiões da Memória
pode entrar carregando um corpo. Enfim, a chuva abrandou um bocado –
Nossa Senhora deve ter ajudado, pensou ele, arrumando melhor o filho e
continuando a caminhada. Chegou na casa do sogro, lá pelas três da tarde,
com o garoto nos braços, sem vida.
Seu Chiquito esperou. Esperou, mas ninguém se ofereceu para
enterrar o menino. No dia seguinte, procurou um de seus conhecidos, mas
ele já havia saído para a roça. Então passou a mão na enxada e entrou no
cemitério, onde às vezes era chamado para abrir covas, ganhando um
dinheiro extra. Pediu a ajuda de Nossa Senhora. Só ela daria força. Cuidadosamente, iniciou a árdua tarefa: cavou a sepultura do próprio filho,
bem ao lado de outras crianças. No lado dos inocentes. Tapou direitinho a
terra e ajeitou a pequena cruz.
Adeus, adeus,
Que ele agora vai embora
Nesta sua despedida
Muita gente boa chora
Nunca entrou com processo ou ao menos foi tirar satisfação no
hospital. Sabia que, sendo pobre, não valeria de nada. E ainda perderia
um dia de serviço.
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Quando o clima coopera com a expectativa dos produtores, no mês
de maio os pés de café já começam a amadurecer. Então as lavouras se
enchem de safristas, trabalhadores volantes contratados para recolher e
ensacar os frutos no período da safra.
Muita coisa vai mudando com a modernidade. Hoje em dia, por
exemplo, existem máquinas que substituem a mão-de-obra humana. O
96
Sempre majestade
terreno acidentado da Zona da Mata, porém, dificulta a atuação das
chamadas derriçadeiras. Portanto, muita coisa continua como antigamente:
cerca de 99% da atividade na região depende do trabalho manual. Os
safristas ainda são fundamentais no processo de colheita.
Os instrumentos agora são diferentes. Na época em que Seu
Chiquito comandava o serviço dos safristas, trabalhava-se com uma
paradeira amarrada na cintura, deixando as mãos livres para apanhar o
café. Ao atingir determinada quantidade, colocava-se a paradeira no chão,
retiravam-se galhos e folhas e despejava-se o conteúdo em um balaio. Seu
Chiquito enchia em média sete ou oito por dia – o que determinava a quantia
recebida (atualmente, a paradeira e os balaios não são mais usados; foram
substituídos, respectivamente, por uma lona esticada no chão e por caixotes).
Na fazenda de José Jacinto da Silva, o compadre Dedeco, Chiquito
Fulosino era o empregado pé de boi: aquele que ficava de olho em tudo e
liderava os demais, deixando o patrão tranqüilo se precisasse viajar. Certo
dia, enquanto tomava conta de umas safristas e ao mesmo tempo peneirava
um punhado de café, antes de colocar no balaio, uma jararaca camuflada
em meio às folhas prendeu os dentes na sua mão. A cobra amarela ficou
agarrada ali, até ser arremessada no chão e morta pelas mulheres próximas
dele (ainda bem, porque dizem que quando mulher mata é melhor para a
cura do ferimento).
O veneno da jararaca é altamente letal para seres humanos e animais
domésticos. Profissionais da área de saúde recomendam a procura urgente
por tratamento hospitalar se determinada pessoa sofrer qualquer dentada.
Seu Chiquito não procurou nem precisou de consulta médica. Deixou o
cafezal e, pela estrada, praticou a primeira simpatia conhecida para o veneno
não subir: passou de fasto (ou de costas) a cada ponte e a cada bueiro. Do
contrário, poderia ficar no meio do caminho. Já em Cachoeirinha, sentindo
a cabeça doer, doer muito, foi atrás do benzedor Sebastião Gonçalves, o
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Guardiões da Memória
mesmo que o ensinou a ler e a escrever. O homem benzeu e recomendou
que engolisse contas (sementes de quiabo, parecidas com as contas de Nossa
Senhora), seguidas de um copo cheio de cachaça. Todos os dias. Logo o
ferimento inchou, mas deixou de doer. A dor de cabeça acabou também.
Foram 40 dias de resguardo, sem poder se mexer muito. Com o fim do
prazo, acabou o problema: a mão ficou nova em folha, pronta para a
próxima tarefa do Dedeco. O empregado de confiança, pé de boi, não levou
prejuízo: continuou recebendo salário durante esse tempo.
Antigamente era assim mesmo: médico, só em caso muito grave.
As mulheres não iam ter filhos no hospital – somente se as parteiras
recomendassem, ao perceberem que as condições eram críticas. Dona
Josefina Resende realizava partos na comunidade (há uma rua de
Cachoeirinha com o seu nome), assim como Dona Idalina, sogra de Seu
Chiquito, que sempre era procurada em casa e vivia andando de um lado
ao outro para cuidar de grávidas e recém-nascidos. O genro até aprendeu
um pouco de seus conhecimentos: ficou sabendo, por exemplo, que para
ter um parto livre de dor, a mulher deveria andar o dia inteiro com um
travesseirozinho pendurado no pescoço, feito com a bolsa da fêmea do
gambá, chamado de breve. Assim a criança estava protegida. Já se o menino
ficasse amarrado na barriga, complicando o nascimento, só havia uma
explicação: a mãe havia passado no meio da cerca de arame ou por baixo
de cabresto de cavalo. Jamais poderia ter feito uma coisa dessa.
Nesse tempo de simpatias, benzições e parteiras, havia também
muitos causos de assombração. Em Cachoeirinha, a população ainda conta
lendas de estranhos acontecimentos ocorridos há muitos anos, na fazenda
amarela localizada na entrada do distrito. Fazenda mal-assombrada.
Dizem que três irmãos eram os donos da propriedade: um morreu e os
outros dois, sem ter descendentes, preferiram deixar a herança deles ao
diabo. Quando faleceram, foram enterrados lá mesmo, sem nenhuma cruz.
98
Sempre majestade
Depois disso, começaram a acontecer coisas estranhas: um menino aparecia
e desaparecia, um homem chegou a tomar uma coça sem saber de quem...
Ninguém pára ali, até hoje. Sempre muda. Como narram a história
de Dona Loca: a mulher entrou no quarto para cuidar de umas roupas no
armário. A porta fechou e a deixou trancada ali, sozinha. Só ela e Deus. Por
sorte, um camarada ouviu seus gritos ao longe e correu à fazenda. “Quem
fechou a senhora aí, dona?”, perguntou Sebastião de Almeida à senhora
na janela, entretanto ela não sabia responder. A porta da cozinha também
estava trancada; ele precisou arrombá-la, fazendo o mesmo com a porta
do quarto. Dona Loca, aliviada e amedrontada, foi embora correndo, para
nunca mais voltar.
Já o Sofena ficou contrariado numa noite em que acendeu a luz da
lamparina e esta apagou. Tornou a acender, a luz apagou outra vez.
Esquisito... No dia seguinte, ao meio-dia, ouviu uma voz grossa masculina:
“Se for pra ficar aqui tem que fazer uma combinação comigo”. Sofena
olhou para um lado, olhou para o outro. Ninguém. Ouviu mais uma vez a
voz: “Pro senhor ficar aqui, tem que fazer uma combinação comigo”.
Sofena não quis saber de combinação alguma; correu do lugar e gritou à
primeira pessoa de carne e osso que avistou: “Toca, Chiquito, essa criação
pra trás, que eu já to mudando”. Pois é, Seu Chiquito estava ali perto,
pastorando vacas na estrada de chão.
Ele, inclusive, conta ter presenciado um caso: estava em companhia
de rapazes e moças, ouvindo sanfona perto da fazenda. Às 10 horas da
noite, eles escutaram o barulho de cacos de vidro se quebrando e o casarão
amarelo desabando, e rapidamente se dirigiram ao local. Viram a casa em
pé, perfeitinha. Pensaram em voltar, porém enxergaram um homem saindo
debaixo dela, vestido de branco. Os rapazes tentaram apanhá-lo, sem
sucesso, e todos viram a criatura passar pelo portão, pela estrada, pela moita
de bambu e retornar ao lugar de onde aparecera.
99
Guardiões da Memória
Ainda bem que um missionário acalmou tudo aquilo, realizando uma missa
ali, a pedido da comunidade. No fim da celebração, saiu debaixo do prédio
um pneu grande, pneuzão mesmo, desses de trator; desceu pela estrada e
desapareceu pela capoeira afora. O missionário foi benzendo a aparição,
expulsando aquele nome besteirento que não precisa ser nomeado.
Cruz credo!
São histórias de um tempo de assombração, parteiras, benzições
e simpatias.
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Ô, estrela d’alva
Ô, clareando o dia
Ô, estrela d’alva
Clareou, clareando o dia
O dia tá amanhecendo
Da Virgem Nossa Senhora
Ô, estrela d’alva
Clareou, clareando o dia
Ô, estrela d’alva, lelelê
Clareando o dia, lelelê
O dia estava clareando e o motorista parou num lugar para os
passageiros comerem um lanche. A viagem durava mais de 12 horas; já
haviam passado pela capital paulista e andariam ainda cerca de 60
quilômetros para chegarem ao destino. O transporte da usina carregava
pessoas para trabalharem em São Roque, no interior de São Paulo, e as
pessoas carregavam sonhos de conseguirem uma vida melhor. Porque na
terra natal não havia emprego, tampouco salário adequado para cuidar
da família. Alguns homens até levavam as esposas e os filhos. Seu Chiquito
100
Sempre majestade
preferiu ir sozinho, assim seria mais fácil adequar-se à nova vida e ir embora
caso os planos dessem errado.
Desceram do caminhão. Sim, percorreram todo o percurso na
carroceria, coberta com lona e aberta só na traseira. Pau-de-arara mesmo.
Na venda no meio da estrada, o dono puxou conversa, queria saber de
onde vinham. “Nóis tamo vindo de Cachoeirinha”, disse Seu Chiquito,
“conhece Cachoeirinha?”. “Não”. “Conhece Viçosa?”. “Não”. Falou
que haviam saído na tarde do dia anterior e que o caminhão andava
pouco, precisava parar de vez em quando, e a estrada de terra também
não colaborava. O proprietário da venda anunciou que ninguém ali
pagaria nada. Poderiam se alimentar, tomar café, sem se preocupar com
a despesa. Ele contou que sentia dó ao ver viajantes de longe, a maioria
com pouco dinheiro no bolso.
De barriga cheia (e com o bolso nem tanto, como previra o
homem), os migrantes continuaram a viagem a São Roque. Na usina de
álcool e de cachaça, instalaram-se em barracas de tábua, onde ficariam
alojados. Ali dormiam até às cinco da manhã e retornavam depois das
seis da tarde, para tomar banho e preparar a marmita do almoço. Só que
não enchiam a barriga: se em Minas o acordo firmado pelos representantes
da empresa (sem assinatura, só de boca) era pagar as despesas e o sustento
dos trabalhadores, antes do pagamento no fim do mês, na usina tiveram
de se virar para comer, por vezes chupando cana para matar a fome,
como fazia Seu Chiquito.
Trabalhou no canavial apenas um dia. Foi o suficiente para desafiar
a mulher que dizia terminar o serviço mais rápido do que qualquer um.
Ele prestou atenção no modo de trabalho dela e logo cortou mais cana em
menos tempo, entre assovios e gritarias dos companheiros. Os encarregados
ficaram sabendo do caso e decidiram evitar confusão, transferindo-o a outro
setor. Passou então a amarrar a cana que chegava do trator; transferido
101
Guardiões da Memória
novamente, pois aquele serviço era leve, ideal aos mais velhos e não a
jovens como ele. Começou a empurrar o bagaço para alimentar a fornalha
que produzia cachaça.
Ficou na usina somente uns três meses. O pagamento não saiu como
o combinado e, por isso, um dos companheiros de viagem, que havia levado
a família junto, ficou nervoso, saiu reclamando e apontando o facão para
quem aparecia na sua frente. Depois disso, os próprios empregados
decidiram chamar a polícia, cobrar o patrão e ir embora.
Seu Chiquito voltou a Cachoeirinha – dessa vez, pelo menos, de
ônibus. Reviu a mulher e os filhos (já tinha três nessa época) e ficou uns
cinco meses trabalhando novamente na roça, até decidir voltar a São Paulo.
Foi funcionário da Ceiet – Construção e Exploração de Instalações Elétricas
e Telefônicas, passando fios de luz por debaixo do chão e cavoucando túneis
por ruas e avenidas, junto com outros viçosenses, incluindo dois conhecidos
de muito tempo atrás, parceiros de Congado desde crianças: Zeca e Dola,
filhos do mestre Seu Agustinho. Chegou a ficar dois meses em Curitiba,
fazendo o mesmo serviço de instalação e manutenção para a empresa.
Almoçava e jantava na venda de um homem conhecido ali no Paraná, que
deixava os funcionários pagarem quando recebessem salário, mantendo
como garantia os documentos em posse dele. Esse senhor era mineiro e,
adivinhe só, da cidade de Viçosa.
Seu Chiquito morava em um alojamento, montado cada hora em
um bairro. Os percevejos nos colchões incomodavam de tal maneira que
foram, afirmaria ele, o principal motivo de ter deixado a Ceiet quando
retornou a São Paulo. Não enfrentou nenhum problema para procurar
emprego: naquela década de 70, as placas nas ruas ofereciam vagas, em
grande parte na área de construção civil. Foi em uma empresa de construção
que Seu Chiquito trabalhou, fazendo limpeza dos restos de materiais
deixados pelos pedreiros e carpinteiros no meio do caminho. Pedaço de
102
Sempre majestade
tijolo, pedaço de tábua, pedaço de pau com prego... ele e os colegas também
mineiros procuravam deixar tudo um brinco, porque qualquer resto podia
juntar poeira ou, pior, causar um acidente.
Foi porteiro em uma outra obra, em Santo Amaro. Dormia ali e
ficava na porta para fiscalizar os pertences dos demais companheiros, na
hora da entrada e da saída, para evitar que alguém roubasse instrumentos
e materiais. Seu Chiquito ficava com pena de revistar as bolsas, que
geralmente continham apenas a marmita do almoço, e como nunca viu
nada de errado, parou de ficar olhando. “Pode passar”. Muitos agradeciam
e comentavam: “nunca vi um porteiro bom igual esse”.
Nesses cerca de quatro anos longe da família, Seu Chiquito pedia
que um ou outro colega escrevesse cartas para Dona Maria; traduzia as
saudades em falas, enquanto o companheiro traduzia as falas em letras, e
informava também a data que depositaria algum dinheiro no banco.
Voltava para Viçosa de vez em quando, em alguns dias de licença (para
participar do Congado, em outubro, sempre dava um jeito). Em um desses
dias em casa, de folga por duas semanas, foi convidado por Chico Barbosa
para trabalhar na escola – a Universidade Federal de Viçosa.
Anos antes, Seu Chiquito já havia feito uns serviços na casa dele.
Chamado para capinar moita de laranja, cumpriu a tarefa de manhã até
o meio da tarde. “Uai, já cabô?”, estranhou Francisco Barbosa; disse que
os homens costumavam gastar quatro dias. “Quatro dia? Já cabei, o senhor
faz favor de ir lá oiar se tá a gosto do senhor”. Ele olhou e demonstrou
surpresa. Assim que a Universidade abriu vaga para novos funcionários,
no período de expansão após ter se tornado federal, Barbosa fez questão
de chamá-lo. Nessa época não havia concurso público: entrava quem
tinha mão calejada.
Decidido a pedir a conta na construção, Seu Chiquito voltou a São
Paulo. O pessoal não gostou de ficar sem o bom porteiro, mas ele insistiu
103
Guardiões da Memória
que não mais ficaria, acertando o pagamento ou não. Conseguiu voltar
com um pouco de dinheiro no bolso e começou no novo emprego.
Embora não conste seu nome nos livros sobre a história da
Universidade, Francisco de Souza trabalhou na criação dos lagos da
instituição. Até meados da década de 70, quem passava pelas quatro
pilastras, na entrada da UFV, via o córrego São Bartolomeu. A paisagem
atual foi resultado de uma série de obras de infra-estrutura no campus,
feita não só com objetivos paisagísticos, mas também para conter enchentes
na cidade, como a ocorrida em 1948. Seu Chiquito foi um dos homens
encarregados de retirar os pés de goiaba e de banana nas margens do
córrego, o barro fedorento e alguns pedaços de madeira jogados por lá;
depois roçou toda a beirada, plantou grama. Foi pesado! Serviço bruto.
Ainda plantou árvores, limpou o brejo onde há pouco tempo foi construído
o Departamento de Bioquímica e ajudou a cobrir com sapé o galpão do
Recanto das Cigarras.
Nos três primeiros meses de trabalho, mais ou menos, ia e voltava a
pé. Sem automóvel, sem bicicleta (nem sabia andar) e sem muito dinheiro
para pagar ônibus, saía de Cachoeirinha às quatro da madrugada, quando
a maioria das pessoas estava dormindo, e retornava às oito da noite, quando
muitos já tinham se acomodado. Às vezes o Barbosa segurava os
funcionários até umas sete horas, então Seu Chiquito chegava mais tarde
em casa, tomava banho e ia para a cama, com o corpo doendo. Os filhos
quase não o viam nos dias de semana. E não era perigoso andar pela
capoeira no escuro? Nunca viu nada, nem rato atravessando na frente.
Pedia a Nossa Senhora para guiá-lo e seguia o caminho.
Depois comprou uma bicicleta. Os filhos ficaram encantados com a
Monark Centauro vermelha, ano 75. No início, ele continuou a sair cedo,
porque tinha de aprender a andar no veículo. Montava de um lado, caía do
outro. Descia as ladeiras com medo. Conseguiu sozinho, sem ninguém segurar.
104
Sempre majestade
O caminho foi encurtado após três anos de trabalho. Quando a
Universidade comprou um terreno em São José do Triunfo, Seu Chiquito
foi transferido para a chamada Horta Nova. Enquanto o colega Vicente
Rosado ficava responsável pelas plantações de cebola, alho, repolho,
beterraba, cenourinha, ele era encarregado de tomar conta dos demais
funcionários. Limpava, atendia telefonemas, marcava encomendas.
Aposentou-se 23 anos depois.
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Na pequena casa barreada de sapé, a família se aquecia do frio em
volta de uma fogueira. As crianças observavam o modo como o pai
produzia som dos instrumentos. As mãos batucavam nas caixas e
dedilhavam a viola e o cavaquinho, enquanto a voz cantarolava ou explicava
aos filhos como deveriam tocar. As mãos pequenas arriscavam os primeiros
acordes. A mãe também participava da festinha, que não tinha dia certo
para acontecer. De vez em quando, aparecia alguém de fora, mas
geralmente apenas os moradores da casa se reuniam. Passavam a noite
juntos, ouvindo, aprendendo, ensinando, fazendo composições.
Do casamento entre Seu Chiquito e Dona Maria da Paixão, nasceram
Maria das Graças, Maria Terezinha, João Cláudio, Paulo Roberto, Veromeu
e Eleni (todos conhecidos pelos diminutivos: Mariinha, Terezinha,
Joãozinho, Paulinho, Verinho, Ninha). Calmo, o pai nunca brigou com a
esposa na frente dos garotos. Dizia que o casal deveria resolver problemas
de forma tranqüila. Também procurou não repetir as rígidas atitudes de
seu pai, que foi deixado de lado pelos filhos quando cresceram (Seu Chiquito
orgulha-se hoje por todos viverem perto dele).
Difícil foi contar a eles, anos depois, sobre o falecimento da mãe. No
dia em que Dona Maria passou mal, o marido conseguiu condução e a
levou ao hospital. Ficou à espera de atendimento, aflito com a demora,
105
Guardiões da Memória
enquanto a mulher dizia: “vou morrer, vou morrer”. Ele ajudou uma
enfermeira a deixá-la num quarto, onde seria internada, e foi avisado de
que podia ir embora, retornar no dia seguinte para visitá-la. Seu Chiquito
voltou a pé para Cachoeirinha e, quando estava chegando em casa, um
homem o alcançou de moto e deu a informação: Maria da Paixão havia
falecido, aos 40 anos, vítima de um derrame.
Ih, que sacrifício! Não queria que os filhos ficassem sabendo logo,
depois pensou melhor: esconder seria uma bobeira. Deu enfim a notícia.
Apenas Maria das Graças tinha se casado, os outros moravam com ele;
Paulo, Veromeu e Eleni eram ainda crianças. Passou a cuidar dos meninos
pequenos e das tarefas domésticas: limpava, lavava roupa e deixava a
comida pronta de madrugada, antes de ir para o trabalho na Universidade.
Retornava na hora do almoço, comia com os filhos, voltava ao serviço.
Foi nessa época que Paulo Roberto ficou doente, com uns caroços
na pele. Permaneceu internado no hospital durante cinco longos meses,
emagrecendo, enfraquecendo; os médicos não conseguiam diagnosticar
a doença. Ele só piorava, chegou a pesar menos de 30 quilos. Com a
ajuda de um funcionário da Prefeitura, o pai conseguiu ambulância
para levá-lo a Belo Horizonte. Embora as chances de cura fossem
remotas, lá haveria melhores possibilidades de tratamento. O menino
tinha cerca de 13 anos e passou meses na cama, ora ligado a aparelhos,
ora sedado, ora passando por vários exames. Quase não recebia visitas:
Seu Chiquito não podia viajar freqüentemente, por causa do emprego,
e quem mais aparecia era o irmão Joãozinho, a cada 15 dias. A família
costumava ligar ao hospital, para saber o estado de saúde de Paulinho.
Se não estivesse bem, alguém arrumava um jeito de ir vê-lo.
Descobriram enfim vários microorganismos no seu sangue, que
haviam se hospedado em seu corpo durante o trabalho em um curral de
porco. Ele começou a melhorar. Só então se deu conta da sua situação, de
106
Sempre majestade
onde estava. Teria passado três meses ou mais no hospital? Não saberia
definir. Andando na cadeira de rodas, precisando de ajuda para as
necessidades fisiológicas e falando pouco, devido aos aparelhos e remédios,
ele pediu a Deus uma oportunidade: “sou dançante de Nossa Senhora do
Rosário, da Irmandade do Congado, então se Deus achar que eu preciso
de viver, faça alguma coisa por mim, me dá mais tempo”. Fez a promessa:
“vou sair lá da minha casa, da casa do meu pai, de joelho e vou até no
altar da igreja”.
Começou a notar a constante presença de um homem vestido de
branco perto de sua cama. Sempre o mesmo homem, indo de um lado ao
outro, sem trocar palavra. O médico tinha passado por ali? “Não, médico
não veio ainda não, vai vir”, respondia uma das enfermeiras quando ele
comentava o que via. Ficou na dúvida, sem deixar de enxergar o mesmo
homem de vestimenta clara.
Conseguiu fazer fisioterapia e, pouco a pouco, recobrar os
movimentos. Ia até um lugar e voltava, ajudava as enfermeiras a levar
remédios a outros pacientes. Com dificuldades, voltou a andar. Foi liberado
um ano depois da internação naquele hospital; um ano e meio depois de
ficar longe da família, dos amigos, da escola. Voltou para casa, onde nem
havia mais roupas suas, e onde esperavam por ele os irmãos, o pai e a
madrasta, Dona Maria José.
Seu Chiquito já havia ido a Belo Horizonte para contar ao filho
sobre o interesse em casar-se com Dona Maria José, perguntando se
tinha uma opinião contrária. Paulinho disse que respeitaria a vontade
do pai, e a mesma atitude tiveram os irmãos; alguns, inclusive, já
costumavam sugerir ao pai um segundo casamento – afinal estava novo
e precisava de ajuda com as atividades da casa. Assim, depois de quatro
anos viúvo, Seu Chiquito trocou as alianças novamente, dessa vez com
outra Maria.
107
Guardiões da Memória
Já a conhecia de vista, mas foi após os comentários do pai dela (“Cê tem
que casar com a minha filha. Cê é trabalhador...”) que começou a reparar
melhor. Ela passava, abanava a mão, ele abanava também. “Nesse pau
tem mel”, pensou. Então se encontraram, conversaram, marcaram o
casamento. Juntos tiveram três filhos – José Roberto, Maria Júlia e Juliana –
e vivem muito bem até hoje, como comenta Seu Chiquito.
Aposentado, ele mora na mesma rua onde passou a infância, no
terreno que pertenceu ao primeiro sogro. Gosta de ficar no quintal, cuidando
das plantações de aipo, manga, capiçoba, goiaba, limão, laranja, cebolinha,
couve, uva, manjericão (tudo cultivado sem nenhum remédio, diferente
dos alimentos vendidos no supermercado). Lá também tem marcela, boa
para dor de barriga; puejo , para gripe; artimijo, para mulher quando está
de fase, e folha de fumo, usada tanto por fumantes quanto por aqueles que
deixam a folha preguenta no galinheiro, capturando os piolhos. A abregira é utilizada por benzedor e benzedeiras, a conta de larma de Nossa
Senhora serve para fazer terço e a arruda e a guiné são ingredientes da
proteção preparada para o Congado.
Todo dia aparece um filho e fica batendo papo, ou um neto corre
pela casa (netos são muitos e bisnetos já são cinco). Paulinho passa sempre
para ver o pai, nos intervalos do trabalho (é gari em Cachoeirinha), nos
intervalos do artesanato (faz maquetes de casas e miniaturas) e nos
intervalos da escola (voltou a estudar há pouco tempo). O rei festeiro de
2009 relembra a doença, a promessa a Nossa Senhora do Rosário e o dia
em que saiu daquela casa e, de joelhos, foi ao altar da Igreja Santo Antonio,
na praça de Cachoeirinha. Era a véspera do dia 13 de maio, durante a
comemoração do fim da escravidão. Feliz e com saúde, voltou dançando
com a banda, tocando viola, como faz até hoje.
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Sempre majestade
O quadro de Seu Chiquito e Dona Maria José fica
pendurado na parede da sala
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Guardiões da Memória
Paulinho, coroado rei novo na missa realizada em 2008
Seu Chiquito cuida das plantas de sua horta
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Sempre majestade
A Rua Josefina Resende, onde mora Seu Chiquito
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Guardiões da Memória
Bem ao lado da casa de Seu Chiquito, mora o rei do meio Antonio
Francisco de Sousa. Esse senhor de 76 anos, mesmo com problemas de
saúde, faz questão de estar presente em todas as festas e oferecer café com
broa aos congados no dia de Santo Antonio. Sempre participa do Congado
com respeito, afirma com feição séria. Porque é um ato religioso. Qualquer
um que errar, não tiver respeito, é mandado embora, cortado na hora!
Seu Antonio sabe muita cantoria e muito conhecimento do Congado.
Não aprendeu nada pela leitura, e sim com os ensinamentos do mestre
Antonio Coelho, em Barroso, na cidade onde nasceu. Para explicar o
surgimento da banda de congo, costuma recordar a história da escravidão,
quando negro sofria, negro apanhava, negro comia na cuia e trabalhava
sem parar. Era uma sujeira, uma época triste até para alguns brancos: “já
viu Sinhá Moça? Lembra dela, da novela que cabô há poucos ano agora? A
Sinhá Moça, tadinha, eles pôs ela pra puxar rabo de cavalo”. Com essa
explicação, ele deixa claro que o Congado é antigo, do tempo de Tiradentes
e de Dom Pedro II.
Seu Antonio apóia-se em uma bengala para andar. Mas se for para
cantar, recitar embaixadas, falar da festa de Nossa Senhora do Rosário
ou relatar como aconteceu a aparição da santa, parece se esquecer do
objeto e por vezes o utiliza como se fosse uma espada, como nos tempos
em que era corta-vento:
Hoje, dia 13 de maio
Discutindo com os poeta
Respectiva lei sagrada
Benzo o vinho, e benzo a água
Na hora de contemplar
Nossa Senhora Rainha Isabel
Nos deu a liberdade!
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Sempre majestade
Seu Antonio Teresa, como é conhecido, trabalhou na roça, vendeu
esteiras feitas pela esposa (Dona Luzia, irmã de Seu Chiquito), participou
há muitos anos da Folia de Reis e da Charola de São Sebastião na terra
natal. Passou também por muita coisa ruim nesse mundo. Atualmente,
reclama de ficar com uma soneira, uma fraqueza, e de enxergar quase
nada. Diz que às vezes senta-se num banquinho e, triste, fica pensando se
um dia vai ficar curado da vista.
Nos dias de festa, Seu Chiquito fica olhando o cunhado enquanto
dança; pega na mão dele quando percebe que está saindo da fileira ou
aproximando-se de um lugar perigoso. O bom é que, nessas datas, Seu
Antonio geralmente demonstra melhor saúde: conversa com todo
mundo, fica dia e noite na rua, à frente das fileiras, ao lado dos outros
dois reis do meio: Seu Chiquito e Seu João, pai e filho. Por que continua?
Sua resposta é simples: dança porque gosta. Faz a sua parte, para não
deixar a tradição acabar.
João Cláudio de Souza entrou na fileira ainda novo, com uns seis,
sete anos, em uma comemoração do 13 de maio. Dona Maria da Paixão
ficou receosa: “filho, vai nada, com esse frio, cê não vai agüentar”, mas ele
foi assim mesmo, agüentou passar toda a madrugada. Lá na Grota, na
casa de Seu Agustinho, aproveitou o intervalo para o lanche e sentou-se
num canto à beira do fogo. Passou a mão na viola do pai, enquanto as
irmãs bandeireiras tocaram as caixas, deixando os mais velhos admirados.
Passados quase 40 anos, continua desde então acompanhando Seu
Chiquito. Tornou-se rei do meio, com o pai e o tio, em 2004, em um
cargo sem hierarquias: não existe um ou outro rei mais importante.
Quando a festa em Cachoeirinha está chegando, Seu Chiquito
contata os companheiros da banda para os ensaios (se forem necessários) e
faz a contagem do número de integrantes. O número precisa ser par – se
for 12 de um lado da fileira, tem de ser 12 do outro, ninguém pode ficar
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Guardiões da Memória
sozinho. Ele e Seu João vão a todas as novenas, porque assim fica mais fácil
conversar com o pessoal. Essas noites de oração do terço, realizadas dias
antes da festa, são também uma preparação. Os reis fazem orações à
Senhora do Rosário, pedindo a ela que abençoe quem vai dançar no
Congado, quem vai assistir e quem não poderá comparecer nos dias de
festejo. A pessoa pode estar presente ou não, ser negra ou branca, tanto faz,
diz Seu Chiquito: a santa vai atender todos que acreditam nela.
Cheguemo com alegria,
Com alegria
Louvemos a Maria
Hoje é seu dia,
Hoje é seu dia
No rosário de Maria
“Acerta a voz, firma o instrumento, pra mim quero congo!”. Seu
Chiquito abre a cantoria e comanda o início da festa no sábado à noite,
em Cachoeirinha. Misturam-se os primeiros gestos, os primeiros toques,
os primeiros passos. Nessa hora, ele sente a intercessão de Nossa Senhora
do Rosário, a santa milagrosa que o ajuda a dançar mesmo se estiver
com o corpo ruim. Sente a proteção de Santa Efigênia, de São Cosme, de
São de Damião, de São Benedito. Sente a presença dos mestres antigos,
mestres sabidos do Fundão.
Às 23 horas, após a última novena, os congados buscam o mastro
e o carregam em procissão até a frente da igreja de Santo Antonio. Ocorre
então o levantamento do mastro, e ao redor dele concentram-se as velas,
chocam-se as espadas, movimentam-se os corpos. A figura de Nossa
Senhora do Rosário fica no alto, apontada para o céu; acima de quem, lá
de baixo, ora por ela.
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Sempre majestade
O animado Antonio Teresa
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Guardiões da Memória
Seu João segue os passos do pai,
como rei do meio
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Sempre majestade
A imagem de Nossa Senhora do Rosário, na noite do levantamento do
mastro, em 2008 [acima]; Banda de Cachoeirinha em Capivara [abaixo]
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Guardiões da Memória
Banda de Cachoeirinha em
Capivara, São Miguel do
Anta, 2008
ma]
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Sempre majestade
Seu Chiquito, rei
do meio [ao lado]
Alvorada em Capivara [2008]
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Guardiões da Memória
Padre coroa o novo
rei festeiro [2008]
A rezadeira Benega,
na missa realizada no
domingo, em Cachoeirinha [2008]
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Sempre majestade
Momentos da missa [2008]
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Guardiões da Memória
A rainha festeira, durante a missa, em 2008 [acima]
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Sempre majestade
Viva Maria no céu,
Viva Maria no céu
Com seu terço na mão
Contemplando o mistério,
Oi, viva Maria no céu!
As atividades do dia seguinte começam bem cedo. Os congados
que decidem tirar um cochilo precisam levantar-se antes das quatro horas.
Alguns nem dormem, como é o caso de Seu Chiquito: ele passa a noite em
claro e por isso fica responsável por olhar as crianças nas vezes em que a
banda faz a festa em outros lugares. Ainda está escuro quando as fileiras se
organizam e saem para a alvorada. Percorrem as ruas de Cachoeirinha,
cantinho por cantinho, inclusive becos; à medida que o distrito aumenta,
aumentam as vias por onde o Congado passa. Nas encruzilhadas, os
vassalos e os corta-ventos batem as espadas, pedindo licença e protegendo
todos de qualquer perigo. Muitos moradores levantam-se da cama e saem
no portão ou abrem as janelas, para ver a banda passar.
O café finaliza a alvorada, por volta das oito e meia da manhã. Os
congados reúnem-se novamente mais tarde, na Rua Josefina Resende, já
vestidos de rosa e azul, como em São José do Triunfo. Vão almoçar na casa
do rei e da rainha festeiros (se os dois não são casados, as duas fileiras separamse e reencontram-se depois da comida). Arroz, frango, macarrão, tutu. Devem
evitar comer muito, para nenhum deles passar mal depois; pular de barriga
cheia, com sol quente, não dá certo! Quem pode abusar mais é a assistência,
as pessoas da comunidade e de outras localidades que assistem e
acompanham a banda por onde for. Acompanham quando a banda tira
os reis novos e os reis velhos de suas casas. Acompanham quando a banda
tira o príncipe e a princesa. Acompanham o cortejo em direção à igreja.
É lá que acontece o momento mais bonito da festa, como defendem
123
Guardiões da Memória
os três reis do meio: o padre tira as coroas dos reis festeiros daquele ano e
as coloca nos reis do ano seguinte. O povo festeja os reis novos, que vão
oferecer a comeria da próxima festa. O casal balança os bastões, saudado
pelos cantos “ei, ei, ei, ... é nosso rei”; “inha, inha, inha, ... é a rainha”.
Com os olhos marejados, Seu Chiquito fica satisfeito; a tradição está
garantida, vai continuar.
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A troca de coroas continua há uns 10 anos em Capivara, na zona
rural do município de São Miguel do Anta. A igreja nem estava pronta
quando a banda de Cachoeirinha passou a fazer a festa também por lá,
organizada por Zé Alicate. Filho de Seu Antonio Teresa, José Francisco de
Oliveira quis levar o Congado ao lugar para onde ainda jovem se mudou,
se casou e teve filhos. Todos os anos, no mês de setembro, a banda vai a
Capivara no sábado e, como nas ruas de Cachoeira de Santa Cruz, segue o
ritual até domingo. São poucas as diferenças: a alvorada, por exemplo, é
feita de caminhão, porque as casas são distantes umas das outras.
Em 2008, durante o festejo, Zé Alicate foi convidado a assumir o
cargo de rei do meio. Os integrantes da banda também foram consultados
e, como todos aceitaram, passou a ficar ao lado de Seu Antonio, de Seu
Chiquito e de Seu João. No início, sem usar a capa, vai aprender as
embaixadas e tomar coragem; coragem para, junto com João Cláudio,
liderar os congados e toda a festa quando os pais não estiverem vivos.
Seu João estava achando difícil encontrar alguém com
responsabilidade para ficar com ele. Muitas pessoas não demonstram
interesse como antigamente. Os filhos não ligam tanto assim. É, parece
que as gerações vão mudando. Por isso tem receio de que, daqui uns 10 ou
15 anos, o Congado acabe.
Muitas coisas já acabaram. A água pura da cachoeirinha, aquela
124
Sempre majestade
que deu nome ao povoado de casas miúdas, não serve mais para o banho.
Os filhos não tomam mais a bênção dos pais, as professoras não podem
mais usar vara de marmelo e sair sozinho por aí é perigoso, percebe Seu
Antonio. “Tá tudo metade”, costuma dizer. Mesmo o Congado para ele é
metade de antes: não há tantos versos e embaixadas, como no tempo de
Antônio Coelho, em Paula Cândido; de Zé Lúcio, em Airões; de Seu
Agustinho, de Seu Zé de Vito, de Seu Adão, em São José do Triunfo.
Seu Chiquito percebe que muita coisa mudou. Algumas para melhor:
aposentadoria, acesso à educação, melhores condições de vida, possibilidade
de ter em casa alimento, sofá, colchão de espuma. Tudo o que só os ricos
tinham antes, o pobre tem. Às vezes, diante da televisão, do DVD ou da
lâmpada acesa, ele lembra da falta de energia elétrica até poucos anos atrás.
Recorda-se das primeiras vezes tomando banho de chuveiro, em que a
família ficava com medo; todos molhavam primeiro a mão, depois os
braços e nem tiravam a sujeira direito, pois se lavavam depressa. Onde já
se viu, força de luz esquentar água?! E aquela chieira então? Chiiii!!!
Talvez um dia o Congado acabe. Seu Chiquito ficou sabendo que
em São Miguel do Anta existe apenas um rei do meio, já com idade
avançada, e ninguém tem interesse em assumir o cargo. Talvez o mesmo
aconteça em Cachoeira futuramente. De qualquer forma, ele não pensa
em parar. Enquanto for vivo e poder mexer com o corpo, jamais vai
largar. Vai continuar, como fizeram os antigos mestres, ficar ao lado do
filho e ensinar o jogo de pé aos netos. Vai pegar na mão de Seu Antonio,
caso necessário, até terminarem juntos a dança. Porque Congado é assim:
quem é rei sempre é majestade.
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De olho
no futuro
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E vem estrela d’alva
Pode vim clarear
É o vento que balança a foia
Deixa a foia balançar
É o vento que balança a foia
Deixa a foia balançar
O vento faz as folhas da guiné balançarem, e as telhas dos dois
antigos casarões protegem o pequeno arbusto dos raios do sol. Ninguém
sabe definir quem a plantou ou há quanto tempo a guiné está ali (estimase que em torno de 120 a 150 anos). Sua localização talvez não seja por
acaso: muitas pessoas acreditam na sua capacidade de captar más vibrações,
sendo indicada para as portas das residências. Segundo histórias contadas
antigamente, a planta era também reconhecida por suas propriedades
abortivas, usada por algumas escravas para interromper a gravidez quando
esperavam filhos de fazendeiros.
O arbusto de guiné está no mesmo lugar pelo menos há 73 anos,
conforme registro numa antiga foto, e na frente das mesmas casas – embora
atualmente uma apresente a pintura descascada e a outra anuncie na parede
um candidato político. Nesse período todo, a planta testemunha as
mudanças de uma tranqüila cidade mineira, distante 19 quilômetros de
Viçosa e 253 quilômetros da capital. Testemunhou, inclusive, a mudança
131
Guardiões da Memória
administrativa da vila conhecida como São José do Barroso para o
município de Paula Cândido, em 1953.
Seu Zizinho nasceu nesse mesmo ano, em Porto Firme, e mudou-se
para a cidade cinco anos depois. Hoje, se alguém procura por ele, sempre
existe uma pessoa na rua que sabe indicar onde mora. A maioria da
população só não sabe dizer quem é Sebastião Ambrósio Jerônimo. Mas
pelo apelido, os moradores conhecem o rei congo da banda Antônio Coelho,
que nos finais de outubro ou início de novembro sai com o reinado pelas
ruas de Paula Cândido, na festa de Nossa Senhora do Rosário, como faz há
muitos anos sua família. Procura passar com a banda por todo canto,
porque caso esqueça de algum lugar, no outro dia há reclamação. O pessoal
é assim, fica à espera do Congado; assiste, elogia, vai atrás da banda,
participa da missa e demonstra o desejo de que a festa continue, permaneça
viva, como a guiné em frente à Praça do Rosário.
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O corta-vento Raimundo Jerônimo era um dos seis homens com a
função de proteger o rei, a rainha, os congados e a bandeira da Senhora do
Rosário. Batia a espada no chão e nas espadas dos outros colegas, tomando
o cuidado de não machucar ninguém. Vivia em Porto Firme, mas ia para
Paula Cândido quando chegava a data de dançar o Congado. Tinha uma
casa na roça, e assim podia levar Dona Luzia Inês e os filhos Maria das
Graças, Sebastião Ambrósio e Francisca. Por volta de 1958, decidiu ficar
definitivamente em Paula Cândido, na mesma casinha, buscando
melhores condições financeiras para cuidar da família.
Fazia poucos anos que o governador de Minas, Juscelino Kubitschek
de Oliveira, havia assinado a emancipação da cidade. O povoamento do
lugar, porém, teve início cerca de 200 anos antes, com a expedição do
bandeirante Francisco Barroso Pereira. Ele tinha a intenção de descobrir ouro
132
De olho no futuro
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Guardiões da Memória
Plano detalhe de fotografia tirada em 1934 ou 1935, registrando a Festa do
Rosário na Rua Capitão Martinho. No centro, destacam-se os Reis do Rosário.
Ao fundo, próximo das janelas do casarão à direita, aparece o arbusto de guiné
134
De olho no futuro
pelos sertões da região do Xopotó, onde hoje se localiza a cidade do Alto
Rio Doce, e o arraial de São José do Barroso surgiu no meio dessa expedição.
Em 1785, o fazendeiro José Gomes Barroso conseguiu sesmarias
na região (antigamente, ensinava-se nas escolas que ele teria sido o
fundador da localidade). Seu filho, João Gomes Barroso, doou 200
alqueires de terra em 1837 para a criação de uma capela no patrimônio.
No mesmo ano, São José do Barroso foi elevado a distrito e passou a
pertencer a Santa Rita do Turvo (a atual cidade de Viçosa). Depois
pertenceu ao município de São Januário de Ubá, a partir de 1854, e a
Visconde do Rio Branco, de 1882 a 1953, ano em que foi emancipado. A
denominação da nova cidade homenageia Francisco Gomes de Paula
Cândido, nascido em 1806, na Fazenda do Macuco (então pertencente
ao município de Piranga, hoje situada em Paula Cândido). O homem
ingressou no Seminário de Mariana, estudou na França, militou na
política, foi presidente da Academia Imperial de Medicina e ainda
Conselheiro de Dom Pedro II.
Nesse lugar com tantas histórias e personagens, a festa de Nossa
Senhora do Rosário é a festa mais antiga e por muito tempo uma das
poucas realizadas no ano inteiro. Os moradores esperavam ansiosamente
o dia do Congado homenagear a santa – era a época na qual os devotos
agradeciam, os rapazes arrumavam namoradas e as famílias que viviam
na roça iam para suas casas da cidade, onde ficavam por alguns dias.
Um documento de 1853 já cita a existência de um casal de escravos
reconhecido como reis; ambos teriam participado das decisões sobre o início
da construção da Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Mas é de 1862 o
primeiro registro da festa na cidade: no dia 26 de janeiro, como aponta o
livro da igreja, comemorou-se a coroação dos chamados Reis do Congado.
Tais festejos continuaram sendo anotados nos anos posteriores, sem
interrupção, e, em 1879, fez-se a primeira menção ao Rei do Rosário,
135
Guardiões da Memória
mudando a nomenclatura anteriormente utilizada.
Chamados de uma forma ou de outra, os reis sempre eram escravos
e nunca tinham seus nomes registrados. Consta nos documentos: escravo
de Fulano de tal. Seus proprietários levavam a fama e pagavam os gastos
do evento realizado. Depois da Lei Áurea, assinada pela Princesa Isabel
em 1888, as coroações prosseguiram e os nomes dos antigos senhores
continuaram aparecendo nos documentos. Os reis eram classificados dessa
vez como âmagos de Fulano de tal. Isso demonstra o interesse de muitos
negros em permanecer nas fazendas, trabalhando de graça, mesmo após
o fim do sistema escravista. Somente em 1906, São José do Barroso conheceu
o primeiro casal de reis brancos: Maximiano de Melo e Clotilde Lote. A
partir de então, outros fazendeiros começaram a receber a coroa; o motivo
provável era a dificuldade (ou a impossibilidade) dos negros libertos arcarem
com os altos custos.
Outra mudança ocorreu em 1915. Antes realizada em um dia, a
festa passou a ser feita em dois: 31 de outubro e 01 de novembro (podia
cair na segunda, quinta, sábado, domingo... a data não mudava). Dois
anos depois, começaram a ser realizadas as orações do terço durante
todo o mês de outubro.
Me dá meu terço
Esse terço é de eu rezar
Esse terço, ele é meu
Ele há de me salvar
Na década de 40, uma senhora fazia orações pedindo a proteção da
Virgem do Rosário para seu filho, o jovem Domingos Teixeira Valente, um
dos quatro habitantes de São José do Barroso convocados para combater
na Segunda Guerra. Maria Rita de Oliveira prometeu à santa que, se ele
136
De olho no futuro
voltasse vivo, seria rainha festeira. Dizem que ela era uma cozinheira muito
boa e comia doces compulsivamente; quando o filho foi aos campos de
batalha na Europa, teria prometido também não colocar uma bala sequer
na boca enquanto ele não retornasse. Em 1945, Domingos voltou são e
salvo e, em outubro, foi Rei do Rosário ao lado de Dona Maria. “E vem
hoje a mãe e o filho agradecer à excelsa virgem, render em homenagem à
grande mãe de Deus, recebendo a santa coroa do Rosário, a fim de fazerem
a festa para o fim que têm”, diz a ata da igreja.
Nessa época, existiam duas bandas rivais: a de Barroso e a da
comunidade de Airões – a primeira liderada pelo mestre Joaquim Coelho,
a outra liderada por seu irmão, Antônio Coelho. Ficava a critério dos reis
festeiros escolherem qual das duas tocaria na festa, e por isso existia a
rivalidade: ambas queriam ser chamadas, não gostavam da idéia de ficar
um ano ou mais de fora. Essa história começou no século anterior, por
volta de 1888: até essa data havia apenas um grupo, formado na maioria
por moradores de Airões e do Córrego do Garapa; a separação ocorreu
depois da abolição da escravatura.
O pai de Joaquim e Antônio (ainda não foi encontrado registro
do nome dele) dirigia a banda de Barroso. Com a sua morte, os dois
filhos quiseram assumir o cargo, mas, sem firmarem acordo entre si,
Joaquim ficou ali como rei congo e Antônio tomou frente do Congado
de Airões. Tempos depois, as divergências entre os irmãos Coelho
diluíram, a comunidade de Airões passou a ter festa própria e algumas
pessoas passaram a dançar nas duas bandas, como acontece até hoje.
Quando Seu Joaquim faleceu, seu filho Antônio Coelho Sobrinho
(conhecido como Antônio Coelhinho) assumiu a liderança da banda.
Outro filho, Zé Coelho, criou uma banda em Porto Firme, que durou
somente alguns anos.
O corta-vento Raimundo Jerônimo dançava em Porto Firme e em
137
Guardiões da Memória
Barroso. E foi Barroso, já denominada de Paula Cândido, para onde ele
se mudou com a esposa e os três filhos, morando na pequena casinha
da roça.
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O menino viu o estrago e saiu correndo, enquanto a irmã mais
velha tentava apagar o fogo. Minutos antes, ele procurava bananas no
meio da palha. Na roça plantava-se muito milho e a palha que sobrava
era usada dentro da casa, onde eram guardados cachos da fruta para
amadurecer mais rápido. Naquele dia estava escuro, bem difícil de
encontrar o que ele queria. O garoto vasculhava a palha com uma mão
e segurava a lamparina com a outra, até que sem querer colocou fogo
naquele monte. O menino saiu correndo, com medo das chamas
atingirem o sapé e a casa começar a queimar. Nem viu como Maria das
Graças conseguiu conter o estrago, nem se teve ajuda. Para sorte dele,
não houve grandes prejuízos; para seu azar, depois apanhou dos pais
de currião (ou cinto, como se fala hoje em dia).
Não era aquela a primeira vez que apanhava e tampouco seria a
última. Zizinho fazia muita arte, e estava acostumado quando Dona
Luzia pegava a varinha e ia atrás dele ou de suas irmãs. Seu Raimundo
também batia, mas geralmente estava fora, no trabalho, e a mãe passava
mais tempo com os filhos em casa.
A casa era barreada de pau-a-pique, com quatro cômodos: uma
cozinha, uma salinha e dois quartos – em um deles ficavam os pais, no
outro as crianças. As camas também eram de pau-a-pique, feitas a partir
de buracos no chão e pedaços fincados de pau, como se fossem grades,
amarrados com arames. Essa armação era coberta com bambu e uma esteira
por cima, onde a família se acomodava para dormir.
Passar barro branco no chão para deixá-lo claro, ir ao banheiro no
138
De olho no futuro
lado de fora, buscar água numa mina próxima e usar lamparina faziam
parte da rotina dos moradores. Dona Luzia ficava todas as manhãs
cozinhando e levava o almoço para o marido e os filhos; depois se juntava
a eles e aos serviços da roça. Lá eles eram meeiros: ganhavam metade
dos lucros das plantações e o dono das terras outra metade. A comida
era preparada no forno a lenha e, na inexistência de geladeira, tinha de
ser feita todo dia, na hora de cada refeição. Alimento, pelo menos, não
faltava. Havia muita fartura!
O prato precisava ser equilibrado no colo, mesmo quando comiam
dentro de casa, pois não existia mesa na cozinha. Apenas um banco.
Também não existiam móveis: as roupas eram guardadas em caixas
grandes. Foi mexendo numa dessas caixas que Zizinho aprontou mais uma
arte. Tinha mais ou menos 10 anos e estava sozinho em casa (tinha ido
tomar café no descanso do trabalho). Achou um objeto estranho. “Uai,
que negócio é esse?”. Puxou para ver se saía alguma coisa e deu um tiro!
Tinha encontrado um revólver de Seu Raimundo, escondido entre as roupas.
Para sorte dele, acertou só a parede; para seu azar, apanhou do pai.
Seu Zizinho jogava bola, rodava peão, brincava de piço-piço e bolinha
de gude, soltava pipa e gostava de pular no ribeirão com a turma. Primeiro
deixava o milho moendo e às vezes vendia um pouco para comprar pão
com salame, depois corria para a água com uns 10 amigos, onde ficava
bastante tempo, sem pensar na hora. Chegava todo molhado em casa!
Também ia para a escola, embora muitas vezes não entrasse na sala; ficava
escondido, quietinho, no meio do mato. Quando a aula acabava, se juntava
com os colegas. Quem o visse ali, com o caderno na mão, poderia jurar que
ele tinha passado o tempo todo estudando. A escola não oferecia merenda
(cada um levava a sua) e funcionava em um galpão, com um banco e uma
grande mesa. Não havia separação de séries: os mais adiantados aprendiam
lições diferentes dos iniciantes.
139
Guardiões da Memória
Lá as aulas iam até o terceiro ano. Seu Zizinho fez a quarta série
no meio urbano, no Grupo Escolar Professor Samuel João de Deus (um
prédio histórico, situado na Rua Monsenhor Lisboa, que virou cartório
e posteriormente Casa da Cultura, porém foi demolido há pouco tempo
por uma administração municipal). Os homens ficavam na parte de
trás da sala e as mulheres na frente. As professoras eram bravas: Dona
Magali e Dona Vera batiam em alunos e colocavam alguns de castigo,
obrigando-os a ficar depois da aula. Um desses era Seu Zizinho, que
não tinha muito tempo para fazer o dever de casa (estudava à noite,
depois de trabalhar o dia todo) e, mesmo sem se esconder no mato,
arrumava um jeito de conseguir dar umas faiadas. Vez ou outra fazia
bagunça e metia-se no meio de brigas, na época em que a turma de
cima da ponte não combinava com a turma de baixo (Seu Zizinho ficava
do lado destes). Levou bombas, tirando o diploma somente com uns 16
anos, e não continuou os estudos, porque o ginásio era pago.
Com cerca de 12 anos, ele havia se mudado com a família da
roça para a cidade. A pequena casa possuía banheiro e luz elétrica: os
jovens ficavam encantados no início com a iluminação, brincando de
acender e apagar, acender e apagar, acender e apagar. De tanto acender
e apagar, queimavam várias lâmpadas. Era preciso trocá-las
constantemente, mas o pai não ficava bravo. Ninguém precisava sair
correndo, com medo de ter feito um estrago.
Aos 18, Seu Zizinho tinha de correr por outro motivo. Corria pelo
campo de terra, preparando a bola para o chute do atacante. Era meiaesquerda no time do União Esporte Clube, exercendo a mesma posição
que os craques Zico, do Flamengo; Gerson, do Botafogo, e Rivelino, do
Corinthians, desempenhariam naquela década de 70. Vestindo camisa
listrada verde e branca e calção branco, o titular camisa 10 participava de
campeonatos em Paula Cândido e em outras cidades, na maioria das vezes
140
De olho no futuro
transportado de caminhão com os outros colegas.
O União Esporte Clube era rival do Ari Barroso Futebol Clube. Ambos
revezavam a conquista de títulos: quando um era campeão, o outro era vice.
O futebol movimentava a rotina de Paula Cândido desde que o Ari Barroso,
fundado em 06 de julho de 1941, disputava jogos contra o Dez de Novembro
Futebol Clube. O primeiro era formado por jovens do Partido Republicano,
enquanto os jogadores do segundo seguiam o Partido Progressista. Essa
luta política no campo atraía torcedores em tardes de domingo e gerava
várias notícias comentadas ao longo da semana, inclusive na zona rural.
Anos depois, uma turma de garotos começou a treinar no campo
do Ari Barroso, intitulando-se como a equipe juvenil. No dia 04 de janeiro
de 1954, essa turma criou o União, a princípio jogando em um pasto
emprestado. Depois o time conseguiu um terreno adequado para o campo,
se fortaleceu e revelou jogadores talentosos. Alguns deles foram contratados
em equipes de Brasília, Belo Horizonte e Rio de Janeiro.
O fazendeiro Antônio Gandra, um entusiasta do esporte na cidade
(era ele quem levava os jogadores do União em seu caminhão), viu dois
de seus filhos entrarem no América, de Belo Horizonte. Apreciando os
passes e os lances do meia-esquerda Zizinho, chutando com o pé direito
e o pé esquerdo, Gandra conseguiu marcar um teste para o jogador no
mesmo time dos filhos. Teria grandes chances de conquistar uma vaga.
Seu Raimundo, no entanto, não deixou que o filho levasse a idéia
adiante. Precisava trabalhar, ajudar no sustento da casa, e o futebol profissional iria oferecer um salário baixo (diferentemente de hoje em dia). Além
disso, os pais não queriam que se mudasse para outra cidade. Assim, o camisa
10 continuou correndo ali mesmo, pelos campos de terra em Paula Cândido
e na região, conquistando títulos com o União. Ou ficando em vice.
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Guardiões da Memória
Seu Raimundo e Dona Luzia
Ônibus da empresa Transportes
Uruguai, do Rio de Janeiro
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De olho no futuro
Somo todo brasileiro
Nascido em Minas Gerais
Vamo nóis pedir a Deus
Que a Senhora do Rosário
E também a São Benedito
Que abençoe o meu trabalho
Um dia aqui, outro dia ali, Seu Zizinho vivia fazendo bicos.
Desde os 15 anos, não trabalhava mais com Seu Raimundo; já fazia
serviços por conta própria, geralmente capinando. Só que esses serviços
foram ficando cada vez mais difíceis de arrumar ou de garantirem
dinheiro suficiente no final do mês. Com 19 anos, decidiu tentar emprego
no Rio de Janeiro. Os pais não gostaram muito da idéia, mas dessa vez
ele foi. Morou um tempo com o tio materno Antônio Coelho Sobrinho,
que, mesmo vivendo na capital fluminense, liderava a banda de Congado
em Paula Cândido (todo ano, quando chegava a festa de Nossa Senhora
do Rosário, o rei congo tirava folga, voltava à cidade natal e passava
uns dias na casa da irmã Luzia).
O primo Antonio Marcelo, mecânico de uma empresa de ônibus,
conseguiu arranjar vaga para Seu Zizinho, que logo na primeira semana
no Rio passou a ser funcionário da Transportes Uruguai, lavando veículos
e recolhendo os lixos deixado pelos passageiros. Ficava das 10 horas da
noite às seis da manhã na garagem da empresa, limpando os ônibus com
mais ou menos quatro colegas.
Seu Zizinho mudou-se para a casa de outro irmão de sua mãe,
Luís Coelho, onde teve maior convivência com primos da mesma faixa
etária. Saiu da Transportes Uruguai, após cerca de dois anos, e fez bicos
com o tio, como servente de pedreiro. Isso até conseguir trabalho em
uma empresa de construção de navios.
143
Guardiões da Memória
Naqueles meados da década de 70, no auge do milagre econômico
brasileiro, a indústria naval do país era uma das mais competitivas do
mundo todo. O Brasil ocupava o segundo lugar entre os países construtores,
ficando apenas atrás do Japão. No Rio de Janeiro, o setor gerou mais de 40
mil empregos diretos, sem contar os mais de 200 mil indiretos na indústria
subsidiária. Entre esses 40 mil estava Seu Zizinho, mineiro que até enjoaria
de ver o mar depois de ficar aproximadamente dois anos próximo dele, das
seis da manhã às duas da tarde. Carregava chapas de aço, que eram
posteriormente soldadas por outros colegas (para quem não tem idéia de
como é feito um veículo desse porte, funciona basicamente assim: grandes
chapas de aço, cortadas em formato pré-determinado, são soldadas a outras
e formam um bloco; como num jogo de montar, cada bloco é carregado
por guindastes e soldado a outros, seguindo a planta do navio). Após toda
a montagem, Seu Zizinho era um dos vários funcionários que limpavam a
parte de dentro e ainda pintavam tudo. Trabalhava na obra de cima a
baixo. Era bonito ver a embarcação pronta; dava vontade de ser
transportado também. Mas nunca chegou a andar de navio.
A cabeça esquentou e Seu Zizinho decidiu ir embora do Rio (por
terra, não pelo mar). Voltou a Paula Cândido, onde ficou uns dois meses, e
escolheu partir novamente, tentar a sorte em Belo Horizonte. Não como
jogador de futebol. Foi servente de pedreiro, mais ou menos por um
semestre, e então se mudou a São Paulo. A vida era sofrida: morava na
favela da Vila da Paz, trabalhava à noite, às vezes fazia serviço extra no
domingo para melhorar o salário. Nossa Senhora! A vida era corrida: às
seis e meia da tarde saía de casa e pegava o metrô da Linha 1 – Azul, sem
ouvir cumprimentos de “bom dia” e pedidos de “licença”.
Mas a vida também era boa: Seu Zizinho ainda considera São Paulo
a melhor capital para se viver. Lá morava com a irmã Francisca, o marido
e o filho dela, e era vizinho de muitos mineiros. Passeava direto com uma
144
De olho no futuro
turminha pelo centro da cidade. Torcia pelo Corinthians e ia, de vez em
quando, a jogos no Morumbi. Assistiu a algumas corridas de Nelson Piquet
no Autódromo de Interlagos. Via de fora, pelo portão, e mesmo se não
fosse ouvia de sua casa os barulhos de motor aos domingos. O autódromo
ficava bem próximo de onde morava.
Seu Zizinho ficou oito anos em São Paulo, todos estes como
funcionário da Bafema. A indústria produzia papéis e embalagens de bala,
biscoito, cigarro, comprimido. Seu Zizinho trabalhava o dia todo (ou as
noites todas, como fez durante três anos) operando máquinas, rápidas
máquinas que passavam as bobinas das embalagens, com velocidade de
uns 80 quilômetros por hora. Pelo menos era a estimativa de Seu Zizinho,
que tinha de verificar se algum desenho estava fora do padrão. Olhava de
baixo para cima, pois do contrário não conseguia visualizar direito os borrões
de imagens que corriam na sua frente. Dificilmente havia alguma errada.
As bobinas gastavam cerca de duas a três horas para acabar. Aí ele era um
dos encarregados de substituí-las por novos cilindros. Quando a embalagem
mudava – de bala para biscoito, por exemplo – também era um dos
empregados responsáveis por trocá-los.
O marido de Francisca já pensava em deixar a cidade. Ao ser
demitido do emprego, decidiu voltar a Paula Cândido. Seu Zizinho estava
empregado na Bafema, mas não quis ficar sozinho. “Ah, vou embora
também”. Pediu para ser mandado embora? Não, fez uns trambiques.
Começou a faltar e a levar atestados médicos, então foi despedido também
e retornou a Paula Cândido, levando algumas economias e uma televisão
de 17 polegadas, com imagem preta e branca. De volta a Minas, trabalhou
mais uma vez na roça, como não fazia há muito tempo, e depois ficou
numa oficina, onde serrava madeira e montava móveis. Cadeira, porta,
janela, mesa. Aprendeu rapidamente o ofício.
Conheceu Maria de Fátima, uma jovem de 16 anos, e, depois de
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Guardiões da Memória
três meses de namoro e mais três de noivado, foi realizada a cerimônia de
união entre Sebastião e Maria de Fátima (ou Zizinho e Fatinha), no dia 15
de dezembro de 1984, na Igreja de São José. Duas fotografias registraram
a data – uma conhecida da noiva, Hermínia, era de São Paulo e havia
perguntado à Dona Fatinha se ela pagaria a alguém por esse serviço; ao
ouvir resposta negativa (o motivo era a falta de dinheiro), Hermínia tirou
as duas fotos para serem guardadas de recordação. Uma sumiu, a outra
ainda fica guardada, entre os álbuns de imagens da família, de festas do
Congado e dos quatro filhos do casal: Adalberto, Aldair, Fernanda e Adriana.
No começo nem tinham casa própria. Seu Zizinho morava com a
esposa na casa dos pais, Seu Raimundo e Dona Luzia. Depois montaram
um barraco nos fundos. Dona Fatinha não é muito de ficar sonhando com
o que não tem, mas nessa época ficava pensando em ter um lugar para ela,
o marido e os filhos. Um lugar que não fosse tão escuro (de noite, a paisagem
atrás da casa era um breu só). Em 1986, aproximadamente, ela e cinco de
seus irmãos ganharam lotes da Prefeitura, em um bairro que até então era
despovoado, só tinha mato.
Aos poucos, quando as economias permitiam, foram subindo a casa
e fazendo os acabamentos. No início nem havia portão na entrada: era
uma cerca de bambu que marcava o espaço da casa. Dona Fatinha sempre
gostou de receber visitas, mas nesse tempo tinha vergonha que vissem sua
cozinha, inacabada, geralmente com as paredes preteadas devido ao uso
do fogão à lenha. Aos poucos conseguiu colocar piso e construir mais um
quarto, a varanda e a parte de cima da casa, onde hoje Dona Fatinha
estende as roupas no varal. Ela ainda espera fazer uma laje.
Dona Fatinha espera pelo marido de segunda a sábado, quando
ele sai de ônibus ou de caminhão para a lavoura, às cinco e meia da
manhã, sem ainda ver o sol. Trabalha em uma das fazendas do Doutor
Sebastião, numa rotina de serviço pesada, braçal. Pega na enxada, mexe
146
De olho no futuro
com a lavoura, capina, apanha café. Às vezes volta cedo, outras vezes
chega na hora do anoitecer.
É assim, nos momentos bons e de dificuldades, que Seu Zizinho
e Dona Fatinha cuidaram dos filhos. Agradecem a Deus, pois hoje estão
todos criados – a mais nova, Adriana, tem 16 anos. Rezam a Nossa
Senhora do Rosário. Porque sem reza, dizem eles, não são ninguém.
Porque sem a proteção de Deus e de Nossa Senhora, a família não tem
nada. No álbum de retratos, agora se vê a imagem de mais uma pessoa.
É Gabrielly, a netinha nascida em maio de 2008, filha de Fernanda.
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Quando a gente gosta de algo, a gente gosta mesmo. Assim pensa
Seu Zizinho, que começou a participar do Congado com seis anos de
idade. Miudinho, via o pai como corta-vento, enquanto já batia o pandeiro
e ensaiava os passos no Córrego do Garapa. Continuou na adolescência,
mas deixou a banda nos cerca de 13 anos que ficou fora, trabalhando no
Rio, em Belo Horizonte e em São Paulo. Se num desses lugares escutasse o
barulho da caixa batendo, procurava dar a volta e não passar por perto. Se
visse uma banda de Congado em outra localidade, ficava incomodado.
Era uma sensação estranha; como se ali, nos sons, nos cantos, no bater das
espadas, estivesse uma parte dele.
Retornando a Paula Cândido, retornou à banda do tio Antônio
Coelhinho, dessa vez assumindo o cargo de corta-vento. Não dançou com
Seu Raimundo, pois o pai não ficava mais com a espada. Com idade
avançada, desempenhava a função de fiscal. Aliás um bom fiscal, que
prestava atenção em tudo e não bebia na festa.
O novo corta-vento passou a aprender as músicas, as embaixadas,
o modo de tirar a rainha da casa dela. Tudo sozinho, só de olhar e prestar
atenção. O tio não ensinava nada. Demonstrava não se interessar em
147
Guardiões da Memória
Seu Zizinho voltando do trabalho
Dona Fatinha com a neta Gabrielly
148
De olho no futuro
passar os conhecimentos de rei congo. Até que ficou doente, em 1995, poucos
dias antes de uma festa em Monte Celeste, onde a banda tocaria. O rei do
meio Zé Alexandrinho incentivou Seu Zizinho a tomar frente do Congado,
no lugar do tio. O sobrinho de Antônio Coelho Sobrinho concordou e, se de
início estava acanhado, foi se acostumando e agüentou passar três dias
cantando sozinho. Realizou-se a festa. Tudo deu certo.
Após esse dia, muitos congados, entre os quais Mundico de Fulô e
Joaquim Libânio, brigaram e romperam com Antônio Coelhinho. Assim,
Seu Zizinho foi rei congo na festa de Paula Cândido e continuou liderando
a banda nos anos seguintes. O tio não gostou e muitos de seus netos foram
contra a mudança. Antônio Coelho chegou a montar uma outra banda e
sair com ela; foi até a porta da igreja e, lá chegando, viu o sobrinho e os
antigos companheiros já realizando a missa. Tentou unir-se a eles, mas não
permitiram que ele fizesse isso. Teve de voltar para casa. Morreu cerca de
cinco anos depois. Quando estava doente, sem condições de dançar, passou
a receber a visita do Congado em sua casa. Sem brigas. Seu nome continuou,
como antes, a ser usado para intitular a banda.
Todos os anos, na última semana de outubro ou na primeira de
novembro, a Banda de Congos Antônio Coelho sai às ruas nos dois dias de
festa em Paula Cândido (geralmente no sábado e no domingo). Na véspera
do primeiro dia, sem vestirem a farda, os congados se reúnem na frente da
casa de Seu Zizinho, rezam e saem em busca do mastro, na casa dos reis
velhos de compromisso (aqueles que receberam a coroa no anterior).
Senhora do Rosário
Que tá nas alturas
Venho pedir licença
Pro Congado entrar na rua
149
Guardiões da Memória
No início da noite, a comunidade se dirige à Igreja de Nossa
Senhora do Rosário. Os quatro algarismos acima da entrada indicam
os vários anos de existência do lugar sagrado: 1853. Acima dessa data,
no topo da igreja, uma cruz iluminada se destaca diante do céu negro.
Abaixo, nas ruas de paralelepípedo, as vozes e o movimento dos
congados se destacam diante das pessoas que, em pé ou sentadas nos
degraus da igreja, fotografam, admiram, dançam e cantam junto.
Acontece então a reza do terço, na última noite depois de um mês
inteiro de novena. As luzes de um grande terço no fundo do altar indicam
o andamento das orações: a cada Pai Nosso e Ave Maria, uma lâmpada
vermelha se acende.
Durante a missa, acontece três vezes a coroação da imagem de
Nossa Senhora. Entram três mulheres, a passos lentos. Uma segura o
terço, a outra uma rosa, a outra a coroa. Cada objeto é colocado em um
lugar específico: nas mãos, nos pés e na cabeça da santa. São as três
senhoras quem fazem a coroação, de costas para o altar, de frente aos
fiéis que aclamam a Virgem com palmas. Para encerrar a noite, o Congado
faz o levantamento do mastro, ao lado da igreja.
O primeiro dia de festa começa bem cedo, de madrugada. É a
alvorada! Nesse momento, os congados dançam e cantam pela cidade,
antes do sol nascer até a hora em que todo o caminho já está claro.
Andam por todo lado, por volta das seis da manhã tomam café na casa
dos reis velhos de compromisso, depois andam novamente. Mais tarde,
por volta das nove e meia, todos estão com as vestes e as fitas
multicoloridas. Azul, verde, amarelo e vermelho... Seu Zizinho, cuja
cor preferida é o amarelo, lidera os congados, compartilhando as
responsabilidades com os reis do meio Zé Diquinho, Eduardo, Jorginho
(de São Geraldo) e Juca (de Brás Pires).
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De olho no futuro
Eu sou rei congo
Pode me chamar que eu vou
Lá na casa da Rainha
Tem um jardim de flor
As cores se encontram a outros tons ao lado da Igreja São José,
para a realização do Reinado. A Banda de Congos busca os reis de
compromisso na casa deles (geralmente é a mesma, porque em Paula
Cândido são raras as vezes nas quais os reis não são casados). Nessas
várias cores que compõem o cenário, estão os tons dos vestidos longos
de meninas e adolescentes chamadas de criadas. Cada uma delas é
acompanhada de um pajem. Os pajens são os garotos e os adolescentes
de roupa social responsáveis por segurar um guarda-chuva (o uso do
guarda-chuva, dizem alguns, é originário da época de escravidão; as
criadas negras teriam o costume de esconder no cabelo o ouro que
garimpavam e, por isso, precisariam se proteger da chuva, para que o
precioso metal não molhasse).
O Reinado segue formado pela Banda de Congos, pelos reis de
compromisso, pelas criadas, pelos pajens, pela banda de música e pelos
reis de promessa. Esses reis usam roupas normais e se diferenciam por
pequenas coroas. São devotos de Nossa Senhora ou pessoas que querem
agradecer determinada graça alcançada.
A Igreja de Nossa Senhora do Rosário se enche novamente, para
a celebração da missa. A santa é coroada, os reis ficam sentados num
espaço todo decorado, os fiéis cantam em louvor. Enquanto a missa
acontece, os congados almoçam (na Escola Estadual Samuel João de
Deus, no Colégio Coronel Antonio Faustini Duarte ou na Casa Paroquial).
Comem arroz, tutu, farofa, carne. A entrada para o almoço é aberta
somente para quem tem convite – antigamente, os reis tinham o
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Guardiões da Memória
compromisso de fazer comida para a cidade toda, mas a grande despesa
fez com que poucas pessoas tivessem interesse; por isso resolveu-se restringir
o banquete. Os reis, os membros da banda de música, as criadas e os pajens
também comem, depois da missa.
À tarde, acontece na igreja a chamada. Nessa ocasião, os reis de
promessa, aqueles que usam coroas menores, oferecem espórtulas
(determinada quantia em dinheiro). Em uma mesa localizada em frente
ao altar, os mesários anunciam no microfone o nome e o valor oferecido
por cada pessoa. A banda de música toca então um curto número musical
em homenagem a esse rei ou rainha de promessa. E o detalhe é que o
montante em dinheiro fica guardado num bauzinho azul, usado pelos
fazendeiros desde tempos remotos da festa (esses fazendeiros eram os
mesários, enquanto hoje seus descendentes continuam com a função). Quem
também faz contribuições são os juízes, porém eles não usam coroas e
ajudam porque foram convidados pelos reis de compromisso. São uns dos
50 a 100 representantes de famílias que receberam uma carta do casal real,
solicitando a colaboração. Após a chamada, os reis de compromisso são
levados para casa. Um morador da cidade, João Paula Cândido, costuma
oferecer um jantar como pagamento de uma promessa.
A festa continua no segundo dia, pela manhã, quando o Reinado
se forma novamente, dessa vez contando também com a presença dos
reis novos de compromisso. Ocorre a missa, o almoço, a chamada (com
outros reis de promessa, totalizando, em ambos os dias, cerca de 50) e
a procissão levando e louvando Nossa Senhora do Rosário, Santa
Efigênia e São Benedito. Na Igreja São José, acontece a bênção do
Santíssimo Sacramento.
Quando a comunidade volta à Igreja Nossa Senhora do Rosário,
acontece a transmissão das coroas: os reis novos são coroados, ficando
responsáveis por bancar o festejo do ano seguinte. O Reinado deixa os reis
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De olho no futuro
Seu Zizinho dança na frente das fileiras [acima e abaixo, de frente]; o filho
Aldair, o primeiro à esquerda [abaixo], fica na frente para marcar os passos
e ser seguido pelos demais
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Guardiões da Memória
Banda de Paula Cândido, em 2008
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De olho no futuro
Os reis do meio Eduardo [no alto] e Zé Diquinho [acima]
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Guardiões da Memória
Pajem protege criada com guarda-chuva
Reis de promessa, também protegidos por guarda-chuvas
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De olho no futuro
Hora do almoço
Corta-vento ergue a espada
para passagem dos integrantes do cortejo [abaixo]
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Guardiões da Memória
Nas mãos de Emerson, uma antiga fotografia mostra os fazendeiros
responsáveis pela chamada, na mesa montada em frente ao altar
[acima]; hoje é organizada pelos descendentes desses fazendeiros,
que depositam o dinheiro arrecadado no mesmo baú [abaixo]
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De olho no futuro
velhos em suas casas, depois fazem o mesmo com os reis novos. Nas duas
residências, são oferecidas mesas de doces para todo mundo, à vontade. A
Banda de Congos encerra a dança. Dança que permanece em silêncio
durante os próximos 12 meses.
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Emerson Rodrigues Lisboa sempre foi devoto de Nossa Senhora do
Rosário. Por isso tinha a intenção de assumir a coroa de rei festeiro há muitos
anos. Mas depois daquele dia em que quase morreu, essa intenção
transformou-se para ele em obrigação. Foi a forma escolhida para, ao lado
da esposa, agradecer à santa, demonstrar a gratidão por protegê-lo nos
momentos difíceis e por estar vivo.
Ele nem se lembra muito bem do acidente. Vigilante da Universidade
Federal de Viçosa, fazia patrulhamento, em cima de uma moto, em direção
ao Bairro do Acamari. Em uma das saídas alternativas da Universidade,
próxima ao Laboratório de Tecnologia de Celulose e Papel, um carro no
sentido contrário chocou-se contra ele. Emerson quebrou 14 ossos, ficou 10
dias no hospital – três no CTI – e passou por várias cirurgias.
Desde janeiro de 2006, quando ocorreu o acidente, anda com platina
na perna e uma haste no fêmur (perdeu 10 centímetros do osso). Está
afastado do trabalho: se quiser retornar, terá de passar por uma nova
cirurgia, para alongar o fêmur. Tomou muitos remédios, o que afetou alguns
de seus órgãos e resultou em uma pancreatite crônica. Teve um abcesso –
um tipo de furúnculo, do tamanho de uma maçã, que concentrou pus e
sangue acumulado pelo corpo. Nossa Senhora, o ano de 2006 foi terrível
para ele; ficou mais no hospital do que em casa.
No ano anterior, Emerson havia conseguido concretizar a idéia de
registrar em cartório a banda de Congado. Embora nunca tenha dançado
na fileira, toda vida teve interesse por assuntos referentes aos patrimônios
159
Guardiões da Memória
da cidade. Quando a Casa da Cultura estava para ser demolida, por
exemplo, ficou sabendo que documentos antigos seriam perdidos e correu
para preservá-los. Hoje guarda muitos desses documentos em sua casa,
até o dia em que exista um local apropriado, como uma nova Casa da
Cultura ou uma Secretaria de Cultura, ainda inexistente em Paula Cândido.
O Congado dependia muito de ajuda para a realização da antiga
festa. Havia pessoas que ofereciam peças de roupas, um ou outro
instrumento, mas estava difícil manter os itens necessários para mais de 80
componentes. Emerson conversou então com Seu Zizinho, convidou amigos
e fez o rascunho de um estatuto. Foi difícil conseguir membros para formar
uma diretoria. Os interessados, porém, conseguiram o apoio de algumas
pessoas; arrumaram a papelada, aprovaram o estatuto e fizeram o registro
no cartório de Viçosa. No dia 30 de novembro de 2005, a Banda de Congos
Antônio Coelho tornou-se pessoa jurídica, uma entidade cultural sem fins
lucrativos, com a proposta de “promover e desenvolver a cultura, a tradição
afro-brasileira, proporcionar recreação através de suas apresentações,
abrilhantar as festividades cívicas e religiosas e promover a integração sóciorecreativa da juventude”. A estrutura é formada por diretoria, diretor
artístico, assembléia e conselho fiscal. A diretoria tem mandato de cinco
anos e, na atual gestão, Emerson Rodrigues Lisboa é o presidente e Sebastião
Ambrósio Jerônimo é o vice-presidente. Seu Zizinho também é diretor
artístico, função que deve ser exercida pelo rei congo. Todos os integrantes
da banda maiores de idade têm direito a voto.
Com o registro, foi possível inscrever um projeto no edital da Lei
Estadual de Incentivo à Cultura, em 2006. O objetivo era reestruturar a
banda, conseguindo recursos para vestimentas e novos instrumentos.
Emerson leu propostas aprovadas em anos anteriores, participou de cursos
de treinamento, foi ao Palácio das Artes, em Belo Horizonte, para conversar
com pessoas capazes de explicar os caminhos a seguir. Com a ajuda de
160
De olho no futuro
alguns conhecidos, escreveu o projeto e encaminhou à Secretaria de
Cultura de Minas Gerais. Na lista dos aprovados, divulgada em
novembro, entre tantas localidades do Estado, estava o nome da Banda
de Congos Antônio Coelho!
A próxima tarefa era conseguir captar os recursos, porque a
aprovação na Lei de Incentivo não valeria de nada se nenhuma empresa se
interessasse em patrocinar o projeto. Teriam o ano de 2007 para arrumar a
verba. “Zizinho, vai dar certo, a gente vai conseguir o dinheiro”, comentou
o presidente certa vez com o vice. “Mas pode tá preparado porque tem
gente que não ajuda e depois vai achar que a gente tá levando vantagem”.
Janeiro, fevereiro, março. O prazo foi ficando curto. Abril, maio,
junho. Enfim, na metade do ano, a empresa Cataguases-Leopoldina aceitou
bancar os custos. Emerson foi à casa de Seu Zizinho contar a boa notícia.
Os dois logo marcaram de fazer algumas compras de material em Ubá. A
verba foi chegando aos poucos, mensalmente. Ao todo receberam R$ 22
mil para gastar com o que julgassem necessário: compra de instrumentos,
sapatos e tecidos; pagamento de costureiras; lanche para incentivar os
congados a freqüentarem os ensaios. Ainda ganharam R$ 5500 de
divulgação: foram feitos cartazes, outdoors e chamadas em rádio,
anunciando a festa de outubro.
Houve quem comentasse que Seu Zizinho e Emerson se
aproveitaram da situação, pegando parte do dinheiro. Alguns disseram
que o valor recebido tinha sido maior do que o anunciado por eles. Os
dois não se preocuparam muito com isso; já haviam previsto
anteriormente, preferiram levar na esportiva. Seu Zizinho fez questão
de afirmar nunca ter lucrado com o projeto. Ao contrário, perdeu dias
de serviço cuidando do assunto. Emerson preferiu reunir os congados
numa confraternização em sua casa – aliás, a casa dele é a sede da
banda – e mostrar de forma transparente o valor e a proposta do projeto.
161
Guardiões da Memória
Depois de ter feito isso, ouviu pedidos de desculpas, de pessoas que
assumiram não terem entendido direito.
Tudo o que foi comprado fica guardado com Seu Zizinho, num
pequeno espaço erguido em sua casa, montado com ajuda de várias
pessoas para esse fim. Isso com o intuito de evitar que aconteça algo ou
que alguém saia na rua com calça, camiseta, calçado, e estrague para a
próxima festa. Nesse espaço onde tudo fica guardado em armários
brancos, não falta na parede a bandeira de uma bonita senhora, colocada
ali para proteger os pertences.
Que senhora é essa
Que tá na bandeira
A Senhora do Rosário
Ela é verdadeira
Dona Fatinha foi a responsável, em 2008, por lavar as cerca de
80 peças de roupas brancas antes da festa. Até aí não via tanto problema.
Mas passar... ih, passar ela não gosta! Ainda bem que pôde contar com
a ajuda de Adriana, a filha mais nova. Até 2006, tinha a ajuda da mãe,
Dona Maria Mendes. Mesmo sem enxergar direito, a esposa de Benjamin
Nicolau passava as vestimentas na máquina e costurava com as pontas
dos dedos. Dona Fatinha já não gostava muito de costurar e agora fica
triste porque se recorda da mãe. Entretanto, faz o que pode para auxiliar
o marido e a banda de congos. Participa com amor. Só de ouvir o batido
da caixa, sente a perna tremer.
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As calças brancas no varal de Dona Fatinha e nos corpos dos
congados apresentam o emblema da empresa patrocinadora. Isso é ruim,
162
De olho no futuro
Emerson e a esposa
Letícia, como reis
festeiros novos, em
2008 [acima]
Espada com logotipos
do Governo de MG
e da empresa patrocinadora [ao lado]
163
Guardiões da Memória
Camiseta (frente) no varal de Dona Fatinha
Camiseta (costas) da Banda de Congos Antônio Coelho
164
De olho no futuro
descaracteriza a tradição? Não, acredita Seu Zizinho. A verba ajudou muito,
deu mais força ao grupo, permitiu que ficasse mais conhecido na região.
No momento, a Banda de Congos Antônio Coelho aguarda o
patrocínio de um novo projeto, já aprovado pela Lei Estadual de Incentivo
à Cultura, também sob responsabilidade de Emerson. A preocupação agora
é com a pesquisa histórica do Congado em Paula Cândido: a formação de
uma equipe de profissionais capacitados para analisar documentos, verificar
registros em cidades como Mariana, restaurar objetos, procurar antigos
congados que se mudaram e podem ter levado algo importante ou ter uma
anotação guardada. Uma preocupação de entender melhor o passado –
será que antes de 1862 já existiam reis negros e festas de Nossa Senhora do
Rosário? – e deixar preservado o patrimônio para o futuro – quem sabe,
daqui há alguns anos, o material coletado possa ficar disponível numa nova
Casa da Cultura ou talvez num Museu do Congado?
Seu Zizinho fica de olho no futuro. Já está preparando pessoas para
continuar a tradição e ficar em seu lugar. Não quer deter o conhecimento
só com ele: estimula cada um a aprender um pouquinho, principalmente
os três reis do meio e o filho. Tempos atrás, buscou uma embaixada com
um congado antigo, nascido em Paula Cândido, que vive atualmente em
Viçosa. Seu Zizinho foi até a casa desse senhor, no distrito conhecido como
Cachoeirinha, anotou os versos e distribuiu aos companheiros. Versos de
uma embaixada longa, escrita numa folha de papel, ensinada pelo rei congo
Antonio Francisco de Sousa, o Seu Antonio Teresa.
Zé Diquinho é um dos reis do meio que são estimulados por Seu
Zizinho. Primo do rei congo, Seu Zé é o segundo na hierarquia e, assim
como cultiva o Congado, cultiva a terra. Trabalha na horta da Prefeitura,
com plantação de repolho, alface, couve. O que vier, é com ele mesmo. De
tanto lidar com a terra, ele percebe que, ao contrário de antigamente, hoje
é preciso ficar colocando remédio no mato. Antes não precisava de tanta
165
Guardiões da Memória
adubação. Parece que a terra está cansada... Só espera que o mesmo não
aconteça com a tradição de sua família. Procura deixar as crianças
acompanharem, seguirem os cantos e irem aprendendo também,
guardando na memória. Guardando a memória.
Felizmente, os pequenos demonstram bastante interesse; muitos
gostariam de dançar durante o ano todo. Já entre os adolescentes, a vontade
parece ser menor. Alguns ficam com vergonha de usar saia, mudam de
religião ou deixam a banda quando começam a namorar. Outros escolhem
continuar, como Aldair, filho de Seu Zizinho. Ele acompanha o pai desde
os cinco anos de idade (a mãe, orgulhosa, lembra de certa vez em que ele
era pequenininho e levou um esbarrão de alguém que dançava de costas;
caiu deitado no chão e todo mundo saiu correndo para socorrê-lo). Aldair
inclusive fez curso de fabricação de instrumentos, para ajudar a consertar
quando necessário.
Antes os instrumentos eram todos artesanais. Tudo muito trabalhoso:
para fazer a percussão, era necessário esticar o couro, molhar, deixar uns
três dias de molho, depois esticar na caixa, colocar para secar um bom
tempo... Havia dificuldade também para conseguir calçado, fitas, fardas.
Não era fácil fazer a festa. E os mestres mais antigos ainda sofreram
preconceito nas épocas deles, tinham até de entrar em silêncio na igreja.
Hoje em dia existe mais ajuda, mais facilidade de comprar os
elementos necessários aos dias de festejo. O mesmo acontece com a vida
de Seu Zizinho: embora o dinheiro ainda seja difícil, existe mais conforto,
mais recursos. A cozinha da casa não é mais preteada. A família tem três
aparelhos de TV. Todos os filhos tiveram a oportunidade de estudar, em
escolas melhores do que antigamente.
As coisas vão mudando com o tempo. Seu Zizinho e Dona Fatinha
já são avós. Viram a filha Fernanda sair de casa, mudar-se para São Geraldo.
Muitas coisas não mudam tanto com o tempo. O Congado em Paula
166
De olho no futuro
A família reunida na Festa do Rosário. Da esquerda
para a direita: Dona Fatinha, Adalberto, Adriana,
Seu Zizinho, Fernanda e Aldair
167
Guardiões da Memória
Cândido continua, desde 1862, e a memória se perpetua. O arbusto de
guiné na Praça do Rosário ainda se mantém vivo, enfrentando o vento e se
protegendo do sol. Talvez a planta não seja mais usada para provocar
abortos, mas em muitos lugares do Brasil é indicada para curar paralisia,
reumatismo, dor de dente, dor de garganta. Dizem que é ótima contra
falta de memória.
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Sonhos de
menina
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Em outra ocasião, a terra era preta. Como se o adubo e o esterco já
estivessem nela mesma. A terra era fértil, dava milho, arroz, verdura, mais
de uma vez ao ano. Às vezes nem era necessário se preocupar em fazer a
colheita, porque ainda havia sobrado um rebarbozinho da anterior. A
medicina também vinha da terra: folhas e raízes eram usadas para curar
doenças. Não havia esse negócio de comprar remédio na farmácia, nem de
consultar seu doutô.
Nessa ocasião, só se encontrava terra vermelha no cemitério. Entre
as cruzes, as flores e as mensagens de despedida, era possível ver o solo
com aquela superfície de cor diferente, mais clara, bonita. “Meu Deus, que
terra bonita a terra de cemitério”, admirava-se a pequena menina, nos
tempos em que andava vestida por aí com roupa de algodão, de pezinho
no chão, sem se preocupar se os outros julgavam sua aparência.
Os pombos ficavam aos montes pelo caminho. Os meninos
costumavam apanhá-los e bater na cabeça dos bichos com pedaços de pau.
Pá, pá, pá. Da mesma forma como os negros eram tratados nas fazendas,
na época da escravidão. A jovem Quininha já sabia histórias desse tempo
de cativeiro, a maioria contadas por gente de sua família. Ainda pequena,
ela recebeu a visita da tia-avó, uma senhora que usava lenço na cabeça,
cobrindo a ausência de fios de cabelo, e havia sido escrava. A menina e os
irmãos ficaram arrepiados ao ouvir vários casos ocorridos com ela. Era
tanta judiação, Meu Deus do céu! A tia-avó mostrou a marca nas costas, ali
175
Guardiões da Memória
presente desde o dia no qual o sinhô quis apontar em brasa sua tentativa
de fuga. Como se fosse animal, portava a grande letra “F”: Fugida.
Hoje em dia, Dona Quininha é quem conta histórias e fala de
recordações (às vezes com lenço na cabeça), numa narrativa leve, dramática,
engraçada, pausada, capaz de fazer os ouvintes visualizarem o cenário
onde os casos aconteceram, como uma viagem no tempo. O tempo em
que a terra era preta.
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A Princesa Isabel já havia assinado a lei libertando os negros do
cativeiro, mas alguns ex-escravos permaneceram nas fazendas. Não
quiseram ir embora. Havia quem tentasse convencê-los a mudar de idéia,
afinal estavam livres. Eles, porém, teimavam em continuar na vida de
sempre. Preferiam ficar perto dos antigos proprietários, convivendo com
eles. Na Fazenda Calambau isso também aconteceu, lá no arraial de Santa
Efigênia. Uma família de negros, descendente de africanos da região do
Congo, convivia bem com o sinhô e a sinhá, ia à missa com eles todos os
domingos e não via motivo para abandoná-los.
Assim ficaria a situação daqueles ex-escravos. No entanto, certo dia,
cavaleiros passaram pela propriedade, levantaram uma bandeira e um
paletó e solicitaram a presença do dono da fazenda. “Olha, de hoje a um
mês, se essa gente não sair daqui do seu terreno, continuar trabalhando,
nós vamo matar um a um. Não vai ficar nenhum vivo, vamo matar tudo e
você vai perder o terreno. Que todo mundo por aí já saiu, seu terreno não
saiu ninguém”. Os homens montados em cavalos foram embora; dali a
um mês, voltariam para fiscalizar e provavelmente cumprir a ameaça.
O dono ficou preocupado e aborrecido. Decidiu reunir todos e pediu
a eles para se retirarem. “Oh, gente, agora chegou a hora, não tem mais
jeito. Porque pra mim ver vocês morrendo, eu prefiro ficar só. Não quero
176
Sonhos de menina
ver vocês morrendo não”. Então as pessoas ficaram tristes, tiveram de pegar
os poucos pertences e concordaram em andar pelo mundo afora, em busca
de um lugar para ficar. Somente uma velha senhora não aceitou: “Eu num
saio daqui. O sinhô pode perdê terreno, perdê o que perdê, pode perdê até
a vida, sinhô mais sinhá, mais eu num saio daqui não”. Ficaria ali até morrer:
“Ou eu vô por a vela na mão de sinhá ou sinhá põe a vela na minha mão”.
Não adiantava insistir; tinha nascido e sido criada na fazenda, só sairia
quando chegasse a hora de partir da terra.
A mulher idosa viu o marido, os filhos e demais parentes partirem.
Antes, fez questão de deixar com eles a imagem de Nossa Senhora do
Rosário, uma imagem grande, de barro. “Cês vão levá essa santa, que ela
vai acompanhar ocês. E daqui eu vô rezar, porque eu nunca mais vô ver
ocês. E nem ocês me ver. Isso é serviço de seu avô”. Chegou o momento da
despedida... era o início de uma longa viagem.
Sinhô dono da casa, vou saindo devagar
Sinhô dono da casa, vou saindo devagar
O caminho é muito longo e eu não posso demorar
Adeus, adeus, que agora vou-me embora
Adeus, adeus, que agora vou-me embora
Você fica aí com Deus
Eu vou com Nossa Senhora
Você fica aí com Deus
Eu vou com Nossa Senhora
Na longa viagem, montados em burros, o picuá ficava pendurado
nas costas. Era tipo de um saco para colocar objetos, uma parte dividida
no lado direito da pessoa, outra parte no lado esquerdo. A vida assemelhavase com a dos ciganos: andavam por todo canto, à noite armavam uma
177
Guardiões da Memória
espécie de barraca, dormiam em esteiras, cozinhavam. As barracas
protegiam da chuva. Eles levavam certa quantidade de criação e assim
podiam matar uma galinha num dia, um porco em outro, tirar toicinho,
torresmo. Carne era a comida mais certa, misturada vez ou outra com
canjiquinha, angu, mingau de couve.
Passaram-se meses, anos. Os peregrinos chegaram em Pedra do
Anta, então um pequeno arraial com um cemitério no meio da rua.
Encontraram lugar para demarcar um terreno: de uma árvore lá em cima
a uma outra na parte debaixo, escolheram o grande espaço onde passaria
a ser a terra deles. Ali fizeram uma casa e passaram a viver. Plantavam,
colhiam, criavam animais. Cabritos, porcos, bois ficavam soltos (não existia
esse negócio de precisar fazer prisão). Havia comida, havia medicina da
terra... não havia sal. Era necessário comprar dos tropeiros que vinham
de longe (antigamente, na falta de automóveis, qualquer local acabava
sendo longe). A venda não era feita por quilo, mas por prata – a medida
era um prato cheio de sal. E dinheiro? A família de ex-escravos não tinha,
começou a vender partes do terreno para conseguir pagar as despesas;
foi vendendo, vendendo, diminuindo o terrenaço. Até perdê-lo, ficando só
com uma casinha perto da igreja.
O senhor mais velho dessa família faleceu. Depois de tanto tempo
longe da fazenda, de viverem como ciganos e encontrarem um local para
se fixar, é que ocorreu a primeira morte. Um viajou, outros faleceram e
alguns se mudaram para Ponte Nova.
Os povoados de Minas Gerais tradicionalmente recebiam nomes
relacionados a um santo, um acidente geográfico, uma propriedade antes
conhecida ou um morador ilustre. O arraial de Ponte Nova, todavia, fugiu
à regra. A origem do nome, segundo alguns historiadores, origina-se de
uma nova ponte construída na segunda metade do século XVIII, sobre o
rio Piranga, em substituição a uma mais antiga. Era ali que passavam as
178
Sonhos de menina
tropas em direção a Ouro Preto e Mariana. Há quem defenda outra
justificativa: a constante mudança de pontes no local. Por serem frágeis,
normalmente ficavam danificadas depois das chuvas e, assim, tinham de
ser freqüentemente substituídas por pontes novas.
A partir de 1754, aproximadamente, numa época em que muitos
colonizadores já se distanciavam das regiões mineradoras, o governador
da Província de Minas concedeu sesmarias a alguns homens, no território
onde se formaria a cidade. Os fazendeiros se mudaram para as extensões
de terra concedidas, desbravaram a mata e implantaram a produção
agrícola, com mão-de-obra escrava. Enfrentavam grande número de
doenças, provocados pelo clima úmido, e os ataques dos índios botocudos
(ou borus, como os índios se identificavam). No século XIX, a agricultura e
a pecuária já apresentavam sinais de desenvolvimento, o que contribuiu
para a elevação do arraial à categoria de freguesia ou paróquia, em 1832.
O mesmo Decreto Imperial, assinado em 14 de julho, beneficiou outro lugar
próximo, a cerca de 50 quilômetros dali: Santa Rita do Rio Turvo, que tinha
como filiais os curatos de São José do Barroso e Conceição do Turvo.
Em 1857, Ponte Nova foi reconhecida como vila e município. Porém,
somente cinco anos depois o município foi devidamente instalado, com a
definição dos locais onde funcionariam as instituições públicas. A localidade
foi se desenvolvendo durante as décadas seguintes. Em 1885, a estrada de
ferro The Leopoldina Railway foi estendida a Ponte Nova, estabelecendo
o tráfego definitivo no ano seguinte. No dia 03 de junho de 1886, o Imperador
Dom Pedro II visitou pessoalmente a ferrovia – e surpreendeu o povo ao se
curvar em um chafariz público, pegar a água com as mãos no formato de
concha e bebê-la.
Por volta de 1895, os administradores públicos se preocuparam em
ampliar o território urbano. Dessa forma, a Câmara Municipal comprou
as terras de uma antiga fazenda, a Fazenda das Palmeiras, onde passaria a
179
Guardiões da Memória
existir o bairro com o mesmo nome. No início do século XX, aproximadamente no ano de 1909, os habitantes da cidade começaram a ter acesso a
abastecimento de água. Os serviços de luz elétrica foram inaugurados com
festa em 01 de novembro de 1913. Até então, poucos lampiões de
querosene iluminavam as ruas.
A cidade foi mudando, crescendo, aumentando o número de pessoas.
Pessoas que chegaram de longe e pessoas que ali nasceram.
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No dia 13 de janeiro de 1927, Dona Idalina lavava roupa na beira
do córrego. Já tinha 27 filhos e, grávida de mais um, trabalhava assim
mesmo. Era parteira, benzedeira e costurava cobertor, calçado, fronha,
toalha e vestes de algodão para a família. Quase não dormia. Ainda cortava
lenha, matava animais, cozinhava. Naquele dia, ensaboando as peças de
roupa, sentiu a filha começando a nascer. A criança foi saindo, saindo, e
Dona Idalina foi tirando sem ajuda de ninguém, pois estava sozinha.
Embrulhou o bebê na saia e foi para casa, ainda presa pelo cordão umbilical.
Conhecida como Seidala, essa senhora costumava andar de
branco, com um lenço na cabeça e porretinho na mão. Até os 21 anos
de idade, morou na Fazenda Calambau com familiares. Depois
caminhou por aí, à procura de um lugar para ficar, morou em Pedra do
Anta e acabou fixando residência na cidade de Ponte Nova. Casou-se
com João Quirino da Rocha, nascido na Bahia, um senhor que trabalhava
em terreno de fazendeiro o dia todo, enquanto existisse hora do dia.
Seidala nunca teve uma consulta sequer com um médico (ou seu doutô,
como dizia) e morreu aos 113 anos de idade. Teve 14 filhos e 14 filhas
com Seu João, nenhum deles no hospital. A última a nascer foi Joaquina,
a menina que ganhou o apelido de Quininha e, embora tenha nascido
em janeiro, foi registrada em 30 de março. Aos 13 anos, quando foi bati180
Sonhos de menina
zada, seu nome mudou. Passou a ser Maria Theodora (mas ela preferia o
primeiro, e por isso continuaria sendo chamada pelo mesmo apelido).
Dona Quininha também teve os dois filhos sozinha, sem ninguém
para ajudar. Tinha se casado com João Deodoro da Silva, mas ele não estava
em casa no nascimento de Adolfo nem de Vicente. Dona Quininha já tinha
se acostumado a trabalhar grávida; até colhia café. Ouvia comentários de
outras mulheres, mas achava tudo uma bobagem. Precisava trabalhar,
uai, ganhar o sustento, como ia fazer?
Quando nasceu o filho Vicente, ela tinha acabado de lavar roupas.
Torceu algumas peças e pendurou no varal rapidamente. Naquele momento
se preparava para ir ao município de Teixeiras, como fazia uma vez por mês,
rezar por Nossa Senhora. Iria andando, porque não tinha dinheiro para pagar
condução. Escutou os toques do sino e pensou consigo que deveria se
apressar: “Eu falei que eu hoje vou lá em Teixeira, visitar Nossa Senhora, e já
vou”. Antes de chegar na porta da cozinha, porém, o segundo filho começou
a nascer. Sentiu dores de contração? Não, coisa rápida. As mulheres de hoje
é que ficam sentindo uma porção de dor, segundo Dona Quininha.
O menino bateu com a testa no chão. Com o impacto, seus olhos
ficaram afundados no rosto. A mãe ficou preocupada. Ia ter um filho aleijado.
Ao ver a criança, uma comadre exclamou: “Cruz! Cruz! Eu num vô pegar
nesse menino não! Num vô pegar nele porque eu vô oiar primeiro pra cara
dele. Ele tá com esses oinho de sapo!”. Apesar de ter rido da situação, a
mulher quis ajudar. Foi a Teixeiras, comprou óleo de capauva, pediu para
o padre Napoleão benzer e voltou a Ponte Nova. Passou o óleo em Vicente.
Enquanto as mãos acariciavam o menino, ela pedia a Nossa Senhora para
ajudá-lo. Dona Quininha ainda estava preocupada. Imaginava o filho
crescido, feio, sem conseguir arranjar namorada. Ninguém iria aceitá-lo
espiando com um olho virado para um lado, um olho virado para o outro.
Uns oito dias depois, o problema se resolveu. Os olhos ficaram direitos,
181
Guardiões da Memória
estufaram para fora. Quem vê seu rosto hoje, não imagina a situação
ocorrida quando pequeno. Não vê mais olhos de sapo.
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Ajoelhada, Dona Quininha ouve os gritos da neta Jussara Jurema
Rodrigues. “A pedra balanceou. Acorda, negro, cativeiro acabou”. A avó,
vestida de branco, com uma coroa prateada na cabeça, olha para os lados,
como quem não entende o que está acontecendo. A neta continua: “Acabou
a chibatada, acabou tudo. Acorda, nego, estamos livres. Cativeiro acabou.
Temos festa!”. Dona Quininha se levanta e ri. A risada ecoa pelo espaço da
Escola Municipal Dr. José Mariano. Então ela e a neta batem as espadas e o
Congo Nossa Senhora do Rosário dança, canta, até finalizar a manhã festiva.
Antigamente, o Congado em Ponte Nova contava com grande
quantidade de pessoas. Um cortejo enorme passava pelas ruas da cidade,
atraindo a atenção dos moradores. A festa dedicada a Nossa Senhora
do Rosário, no entanto, deixou de ser promovida durante muitos anos.
Dona Quininha jamais esqueceu a tradição da qual seus familiares
participaram. Na tentativa de resgatá-la, teve o apoio do Grupo Afro
Ganga Zumba, uma entidade fundada em 1988, cujo objetivo é valorizar
e fortalecer a cultura afrodescendente.
Os membros do grupo, entre eles Seu Pedrinho Catarino, auxiliaram
Mãe Quininha (é assim que ela é chamada na comunidade) com a realização
da primeira Missa Conga, em 2004. Apesar da ajuda, ela fez questão de
cuidar dos preparativos. Ia para cima e para baixo, ia atrás do que precisasse.
Quando alguém ficava apreensivo, deixando transparecer a incerteza de que
as coisas dariam certo, Dona Quininha afirmava o contrário, com convicção.
Tentou, lutou, sonhou (Seu Pedrinho diria que ela tem sonhos de
menina). No dia 26 de outubro de 2008, a risada que ecoava pela escola
fazia parte de uma interpretação do fim do cativeiro. “Temos festa!”. Mas
182
Sonhos de menina
Dona Quininha continuou sorrindo o tempo todo, mostrando a felicidade
por ter conseguido. Pela terceira vez, tinha realizado a Missa Conga.
O Congo Nossa Senhora do Rosário é liderado por ela e Vicente
Theodoro da Silva (o filho que mora em Belo Horizonte, mas sempre vai
ajudá-la). Antes da missa, a banda se reúne com outras bandas convidadas,
de localidades da região, num encontro de congadeiros. Em 2008, isso
aconteceu logo no início do dia, com um café da manhã servido na Escola
Municipal Nossa Senhora de Fátima. De lá, as bandas andaram em ruas
do Bairro de Fátima, uma comunidade reconhecida em 2007 como
remanescente de quilombo. A imagem da Senhora do Rosário ficou à frente,
junto com a de São Benedito, seguida de quem dançava e tocava, usando
saias azuis ou vermelhas com fitas penduradas e uma camiseta com os
dizeres “Mãe Quininha”.
Então, Mãe Quininha e os congadeiros entraram na Paróquia São
Pedro, no Bairro das Palmeiras, para a celebração da Missa Conga. Essa
missa, promovida um ano sim, outro não, é celebrada ao som de tambores,
pandeiro, atabaque, violas, chocalhos, violões e vozes. Fortes vozes do Coral
Folclórico e de Raízes Ganga Zumba, homenageando Nossa Senhora do
Rosário com cantos ancestrais.
Oi beija-flor, toma conta do jardim
Oi beija-flor, toma conta do jardim
Vai buscar Nossa Senhora
Pra tomar conta de mim
Sinhá Rainha, sua casa cheira
Sinhá Rainha, sua casa cheira
Cheira cravo, rosa e flor de laranjeira
Cheira cravo, rosa e flor de laranjeira
183
Guardiões da Memória
Dona Quininha, na
Escola Municipal Dr.
José Mariano
184
Sonhos de menina
Seu Pedrinho posa para foto com imagem de São Benedito
Vicente, filho de Dona Quininha
185
Guardiões da Memória
A equipe responsável pelo café [acima] - à esquerda, Dona Efigênia, que além
dos dotes culinários também participa do Coral de Raízes Folclóricas;
Pessoas servem e são servidas no almoço [abaixo]
186
Sonhos de menina
Momentos da
III Missa Conga,
em 2008
187
Guardiões da Memória
O reis congos Antonio e Joana, durante a missa [2008]
188
Sonhos de menina
189
Guardiões da Memória
Dona Quininha junto a familiares que integram a banda,
entre eles a neta Jussara Jurema [primeira à direita]
190
Sonhos de menina
Cantos. Orações. Comunhão. Perto do fim da missa, os reis do
Congo Nossa Senhora do Rosário, Antonio José Moreira e Joana Maciel,
apanham suas coroas no altar e as colocam sobre suas cabeças.
Arrecebê, Senhô Rei
Arrecebê, Senhô Rei
A sua coroa de ouro
Arrecebê, Senhô Rei
Arrecebê, Sá Rainha
Arrecebê, Sá Rainha
A sua coroa de prata
Arrecebê, Sá Rainha
O Congo dança, comemora, mistura as cores de saias, capas e
coroas, entre sons de cantos e espadas se chocando. O padre abençoa as
bandeiras, os instrumentos, os bastões e as mãos levantadas.
No ano de 2008, a Missa Conga aconteceu de manhã, e ao fim
dela os presentes foram convidados para o almoço do outro lado da
rua, na Escola Municipal Dr. José Mariano. Arroz, batata palha,
strogonoff de frango. Crianças, jovens, adultos e senhores de idade
ficaram juntos no espaço, saboreando a comida, conversando. Lá no
pátio também houve dança, também houve festa. Foi onde Dona
Quininha se ajoelhou e ouviu o chamado da neta: “A pedra balanceou.
Acorda, negro, cativeiro acabou”.
.
.
.
.
.
Parecia que estava chegando a hora de partir da terra. Encontravase dentro de um buraco. Nu, como nasceu, e todo amarrado, sem poder
191
Guardiões da Memória
comer ou beber, o negro aguardava a morte. Sofrera toda a vida naquela
fazenda. Um lugar onde se judiava demais dos escravos, lugar onde
muitos tinham as mãos decepadas, os pés mutilados, as cabeças
espancadas. Como os pombos. Pá, pá, pá. Então apareceu... uma luz
muito bonita. “Ah lá, ah lá”, exclamou. “Ah lá, ah lá!”. Viu o clarão, viu
a figura difusa de algumas pessoas. Assentada num trono, uma linda
senhora carregava o filho no colo. Nossa Senhora do Rosário.
Dona Quininha ainda narra a história do dia em que a santa
apareceu para os escravos e só ficou na capela quando os negros
carregaram a imagem. Os brancos até tentaram, mas não conseguiram.
Pelo pensamento, Nossa Senhora informou a Princesa Imperial a
respeito do milagre. Assim, a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea,
libertando os negros da escravidão, em 13 de maio de 1888.
Na casa de Dona Quininha, a imagem de barro fica na sala, em
frente à porta. A mesma imagem que apareceu para os escravos, segundo
conta. A mesma imagem que a bisavó entregou aos familiares, quando
estes foram embora da fazenda para sempre, em caminhada. A santa
de barro foi transportada na cabeça, nas mãos, debaixo dos braços, sob
o sol e sob a chuva, e nunca quebrou ou ficou danificada.
O mundo é cheio de viravolta. Cheio de viravolta. Nas vias e nas
encruzilhadas, muitas coisas deixaram de existir, como a escravidão e a
terra preta, ou estão quase acabando, como as parteiras, as benzedeiras
e as assombrações. Outras ainda continuam, como a santa de barro e
o Congado.
A festa em Ponte Nova ficou por muitos anos parada. Mas Dona
Quininha, com seus sonhos de menina e com a ajuda de quem sonha
ao lado dela, afirma que vai prosseguir com o Congo até quando puder.
Até a hora em que Deus a chamar.
192
Sonhos de menina
Se a morte não me matar, tamborim
Se a terra não me comer, tamborim
Ai, ai, ai, tamborim
Para o ano nós voltaremos, tamborim
193
Notas:
1. Os versos inseridos no corpo do texto compreendem cantos e embaixadas do
Congado, ditas e cantadas pelos próprios entrevistados, anotadas por mim nos
momentos de festa ou consultadas em materiais de registro. A embaixada do capítulo
2, disposta nas páginas 58 e 59, foi transcrita do livro O Triunfo do Rosário, de Eliane
Campos. No mesmo capítulo, a cantoria da página 68 foi transcrita do documentário
Gengibre.
2. Em 2008, Seu Zizinho não integrou a Banda de Congos Antônio Coelho, durante a
146ª Festa de Nossa Senhora do Rosário de Paula Cândido, realizada nos dias 30, 31
de outubro e 01 de novembro.
3. Um dos casarões descritos no início do capítulo 4 foi demolido em outubro de 2008.
Na oportunidade em que me deparei (surpreso!) com a demolição, pareceu-me que o
arbusto de guiné também havia sido retirado.
195
ENTREVISTADOS
Francisco de Souza
Geraldo Augusto Virgílio
José da Paixão Virgílio
Maria Theodora da Silva
Sebastião Ambrósio Jerônimo
Antonio Francisco de Oliveira
Efigênia de Castro da Gama Catarino
Emerson Rodrigues Lisboa
João Cláudio de Souza
José do Carmo de Oliveira
Maria de Fátima Jerônimo
Paulo Roberto de Souza
Pedro Antônio Catarino
Regina Maria de Jesus
Waldir Batalha
Auxiliaram com informações:
Aguinaldo Pacheco, Francisco Assis de Souza, Gustavo Soares Sabioni,
José Mário da Silva Rangel, Juliano Gomes de Souza e moradores das quatro
comunidades.
197
CRÉDITOS DAS IMAGENS
* As fotografias originais de acervo pessoal não apresentavam autoria, portanto
estão identificadas apenas pelas pessoas que as disponibilizaram. Teremos prazer
em creditar esses fotógrafos em próximas edições, caso se manifestem.
Acervo - Banda de Congos Antônio Coelho: p. 134.
Acervo pessoal - Seu Chiquito: p. 95 [abaixo].
Acervo pessoal - Seu Dola: p. 42 [abaixo]; p. 57 [acima]; p. 62 (3 fotos).
Acervo pessoal - Seu Zeca: p. 57 [abaixo].
Acervo pessoal - Seu Zizinho: p. 142 [acima]; p. 153 (2); p. 167.
Acervo pessoal - Antonio Sérgio de Oliveira e Irene Luchete: p. 199.
Biblioteca Nacional: p. 23.
Felipe Luchete: Capa; p. 17; p. 24 (2 fotos); p. 27 (3); p. 28 (2); p. 33
(2); p. 37; p. 42 [acima]; p. 61 (2); p. 63 (2); p. 64 (2); p. 65 (2); p. 66 (2); p. 75
(2); p. 76; p. 83; p. 95 [acima]; p. 109 (2); p. 110 (2); p. 111; p. 116 (2); p. 117
(3); p. 118 (2); p. 119 (2); p. 120 (2); p. 121 (2); p. 122 (2); p. 129 (frame de
vídeo); p. 133 (2); p. 148 (2); p. 154 (2); p. 155 (2); p. 156 (2); p. 157 (2); p.
158 (2); p. 163 (2); p. 164 (2); p. 173 (frame de vídeo); p. 184 (2); p. 185 (2);
p. 186 (2); p. 187 (2); p. 188 (2); p. 189 (2); p. 190.
Luiz Bareza: p. 142 [abaixo].
Piquerobi de Souza: p. 115.
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outubro de 2008.
205
APRESENTANDO O AUTOR
por Irene Luchete e Antonio Sérgio de Oliveira
Em julho de 1986, Irene Luchete e Antonio Sérgio de Oliveira foram
passar alguns dias na fria cidade mineira de Monte Verde. Passearam pelas
ruas principais da cidade, subiram no monte onde se avista os campos do
Jordão, alimentaram-se bem e geraram um novo ser humano. Aos 23 dias
de abril de 1987, nasceu Felipe Luchete de Oliveira, com 49 cm e 3,200 kg
na cidade de Jundiaí, distante 60 km de São Paulo.
Desde tenra idade, Felipe demonstrava amor pelos livros e pela
arte de representar. Quando seus pais liam uma história infantil,
escreviam-na conforme a narrativa feita por ele, e depois ele a ilustrava.
Aos seis anos, seu pai quis saber qual curso ele gostaria de fazer.
Respondeu, imediatamente: “Teatro”. Meses depois de começar as aulas
no grupo do ator Cláudio Mello, as cortinas se abriram e um menino
vestido de sapo saiu correndo pelo palco. Foi a primeira das várias peças
infantis que representou. A falta da leitura impedia que decorasse suas
falas sem que sua mãe soubesse o conteúdo antes da apresentação. Então
ele solicitou a ajuda dela, iniciando em casa o processo de alfabetização
com muita rapidez.
Com 12 anos fazia aulas de sapateado e oficina de teatro, dirigido
pelo bailarino Jô Martin. Lá despertou seu interesse pelo jornalismo,
escrevendo periodicamente um informativo sobre as atividades da academia.
Concomitantemente fazia dança de salão com Carlos Brajon, e inclusive
207
Guardiões da Memória
chegou a fazer parte do grupo de instrutores e fez apresentações em eventos
dançantes realizados por essa academia.
Em 2001, aos 14 anos, participou de um curso de preparação e
desenvolvimento para atores e apresentadores de TV, dirigido pelo Renato
Mindu, participando de alguns programas televisivos na TVE local como
repórter juvenil. Com os colegas do curso, foi voluntário em um projeto
que, por meio de atividades lúdicas como teatro, desfile de modas, dança e
jogos de passa ou repassa, estimulava crianças e adolescentes de uma
comunidade a refletirem sobre a leitura, o respeito pelos diferentes, a
importância de jogar o lixo no lixo, o perigo das drogas.
Quando terminou a oitava série, Felipe já tinha a certeza de que
seria jornalista, devido à facilidade na elaboração de textos e a
desinibição na exposição de trabalhos na escola. Cursou o ensino médio
no Colégio Técnico Vasco Antonio Venchiarutti, com o intuito de fazer
um segundo grau de bom nível. Nessa época, fez parte do grupo de
teatro Ação e Expressão, dirigido pelo professor Marcos Freitas. Com
esse grupo, participou em 2003 de um concurso regional de grupos
teatrais (Palco Livre da TV Tem, afiliada da TV Globo), ficando em
terceiro lugar. Em 2003 e 2004, concorreu no Festival Jundiaiense de
Monólogos – categoria juvenil, sendo classificado como finalista em
ambos os anos e conquistando o segundo lugar no festival de 2004.
Em 2005, com 17 anos, foi aprovado no vestibular da Universidade
Federal de Viçosa, iniciando o sonhado curso de jornalismo. Estudou, fez
amigos, organizou eventos, foi repórter de bicicleta com a amiga Ellen
Araujo, integrou o Programa Gengibre e foi tão bem recebido pelos
moradores da cidade que seu medo inicial por estar cerca de 700 km distante de seu lar dissipou-se rapidamente. Neste final de 2008, prestes a
adentrar um novo mundo, já começou a sentir saudades.
208
Apresentando o autor
209
Guardiões da Memória: Lembranças de Congados conta
momentos da vida de cinco senhores que vivem na região
circunvizinha da cidade mineira de Viçosa. Seu Dola, Seu Zeca,
Seu Chiquito, Seu Zizinho e Dona Quininha são Guardiões da
Memória: suas falas carregam saberes ancestrais, relações com o
sagrado, vivências alegres, experiências de sofrimento. São
memórias que preservam e constroem cultura. Se a princípio
parecem distintas, as histórias se inter-relacionam em muitos
momentos, levando o leitor a deparar-se com encruzilhadas no
meio do caminho.

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