Neurociência do Uso e da Dependência de Substâncias Psicoativas

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Neurociência do Uso e da Dependência de Substâncias Psicoativas
Neurociência do Uso e da Dependência de Substâncias Psicoativas
apresenta um resumo fundamentado do conhecimento atual das bases biológicas do uso e da dependência de substâncias, e discute as
relações destes comportamentos com fatores ambientais. O livro focaliza os mecanismos cerebrais específicos que comandam o desejo,
tolerância, suspensão e dependência de inúmeras substâncias psicoativas, incluindo tabaco, álcool e drogas ilícitas. Também são discutidas
as implicações éticas das novas estratégias de prevenção e tratamento,
e as implicações deste conhecimento para a saúde pública são traduzidas em recomendações para programas de vigilância a nível nacional
e internacional. As melhores evidências disponíveis, baseadas nas contribuições de muitos especialistas internacionais, são apresentadas de
acordo com as diversas escolas de pensamento e de áreas de pesquisa,
neste campo do conhecimento que cresce rapidamente.
Neurociência do Uso e da Dependência de Substâncias Psicoativas
destina-se a indivíduos com um conhecimento maior do que o básico
neste campo, incluindo cientistas de diversas disciplinas, cuidadores
de saúde, clínicos, assistentes sociais, estudantes universitários, professores de ciências e legisladores.
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NOTA
A menção de indústrias específicas ou certos produtos manufaturados não
significa que a Organização Mundial da Saúde endosse ou recomende como
preferência a outros de natureza similar que não mencionamos.
A Organização Mundial da Saúde e a Editora Publicadora não garantem
que as informações contidas nesta publicação estejam completas e corretas
e não se responsabilizam por qualquer prejuízo decorrente desta publicação.
A EDITORA
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Organização Mundial da Saúde
Genebra
ROCA
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Publicado pela World Health Organization em 2004 sob o título Neuroscience of
Psychoactive Substance Use and Dependence
Copyright © 2004 by World Health Organization
ISBN: 92-4-156235-8
O diretor geral da World Health Organization garantiu os direitos autorais da tradução
desta obra para a Editora Roca Ltda. numa única oportunidade.
Copyright © 2007 da 1ª edição pela Editora Roca Ltda.
ISBN-10: 85-7241-666-8
ISBN-13: 978-85-7241-666-5
Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida, guardada pelo sistema “retrieval”
ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, seja este eletrônico,
mecânico, de fotocópia, de gravação, ou outros, sem prévia autorização escrita da Editora.
Tradução
FÁBIO CORREGIARI
Médico Psiquiatra graduado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
Doutorando do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade
de São Paulo.
CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ.
N414r
Neurociência do uso e da dependência de substâncias psicoativas
/ Organização Mundial da Saúde ; [tradução Fábio Corregiari] .
– São Paulo : Roca, 2006
Tradução de: Neuroscience of psychoactive substance use and dependence
Inclui bibliografia
ISBN-10: 85-7241-666-8
ISBN-13: 978-85-7241-666-5
1. Drogas psicotrópicas – Efeitos psicológicos. 2. Abuso de substâncias –
Efeitos psicológicos. 3. Psicofarmacologia. 4. Transtornos relacionados com
substâncias. 5. Cérebro – Fisiopatologia. 6. Cérebro – Efeito de drogas.
I. Organizacão Mundial da Saúde.
06-3803.
CDD 615.788
CDU 615.214
2007
Todos os direitos para a língua portuguesa são reservados pela
EDITORA ROCA LTDA.
Rua Dr. Cesário Mota Jr., 73
CEP 01221-020 – São Paulo – SP
Tel.: (11) 3331-4478 – Fax: (11) 3331-8653
E-mail: [email protected] – www.editoraroca.com.br
Impresso no Brasil
Printed in Brazil
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AGRADECIMENTOS DA EDIÇÃO EM INGLÊS
A Organização Mundial da Saúde (OMS) agradece aos vários autores, revisores,
consultores e membros da equipe da OMS, cujo conhecimento tornou possível
esta publicação. Franco Vaccarino do Centre for Addiction and Mental Health e
da University of Toronto, Toronto, Canadá, foi o principal editor desta publicação, com a assistência de Susan Rotzinger do Centre for Addiction and Mental
Health. O primeiro e o último capítulos foram escritos por Robin Room do Centre for
Social Research on Alcohol and Drugs, University of Stockholm, Stockholm,
Suécia, com colaboração de Isidore Obot e Maristela Monteiro do Department of
Mental Health and Substance Abuse, OMS.
Um agradecimento especial é feito para as seguintes pessoas, cujas revisões,
com as quais contribuíram, formaram a base da publicação final:
Helena M. T. Barros, Federal University of Medical Sciences Foundation,
Porto Alegre, Brasil; Lucy Carter, Institute for Molecular Bioscience, University
of Queensland, St. Lucia, Queensland, Austrália; David Collier, Section of
Genetics, Institute of Psychiatry, London, Inglaterra; Gaetano Di Chiara,
Department of Toxicology, University of Cagliari, Cagliari, Itália; Patricia
Erickson, Centre for Addiction and Mental Health, Toronto, Ontário, Canadá;
Sofia Gruskin, Department of Population and International Health, Harvard
University School of Public Health, Boston, MA, EUA; Wayne Hall, Institute
for Molecular Bioscience, University of Queensland, St. Lucia, Queensland,
Austrália; Jack Henningfield, Johns Hopkins University School of Medicine e
Pinney Associates, Bethesda, MD, EUA; Kathleen M. Kantak, Department of
Psychology, Boston University, Boston, MA, EUA; Brigitte Kieffer, Ecole
Supérieure de Biotechnologie de Strasbourg, Illkirch, França; Harald Klingemann,
School of Social Work, University of Applied Sciences, Berne, Suíça; Mary
Jeanne Kreek, Laboratory of Biology of Addictive Diseases, Rockefeller
University, New York, NY, EUA; Sture Liljequist, Division of Drug Dependence
Research, Karolinska Institute, Stockholm, Suécia; Rafael Maldonado,
Laboratory of Neuropharmacology, Pompeu Fabre University, Barcelona,
Espanha; Athina Markou, Scripps Research Institute, La Jolla, CA, EUA; Gina
Morato, Federal University of Santa Catarina, Santa Catarina, Brasil; Katherine
Morley, Institute for Molecular Bioscience, University of Queensland, St. Lucia, Queensland, Austrália; Karen Plafker, Department of Population and
International Health, Harvard University School of Public Health, Boston, MA,
EUA; Andrey Ryabinin, Oregon Health Science University, Portland, OR, EUA;
Allison Smith, Department of Population and International Health, Harvard
University School of Public Health, Boston, MA, EUA; Rachel Tyndale,
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VI Agradecimentos da Edição em Inglês
Department of Pharmacology, University of Toronto, Toronto, Ontário, Canadá;
Claude Uehlinger, Psychosocial Centre of Fribourg, Fribourg, Suíça; Franco
Vaccarino, Centre for Addiction and Mental Health, Toronto, Ontário, Canadá;
Frank Vocci, National Institute on Drug Abuse, Bethesda, MD, EUA; David Walsh,
National Institute on Media and the Family, Minneapolis, MN, EUA.
A OMS também agradece às organizações científicas internacionais que forneceram documentos refletindo suas visões da pesquisa e do tratamento da
dependência de substâncias. Foram notáveis entre estas o College on Problems
of Drug Dependence (CPDD) e a International Society of Addiction Medicine
(ISAM).
Vários indivíduos participaram das conferências realizadas para discutir este
projeto. A primeira dessas conferências, que ocorreu em New Orleans, LA, EUA,
em 2000, foi realizada por profissionais experientes que representavam diversas
organizações internacionais, incluindo CPDD, International Society for
Biomedical Research on Alcoholism (ISBRA), National Institute on Drug Abuse
(NIDA), National Institute of Mental Health (NIMH) e alguns cientistas importantes nessa área (ver a lista a seguir). A segunda conferência ocorreu no México,
em junho de 2002, durante a qual uma publicação preliminar foi apresentada e
longamente discutida. Agradece-se às seguintes pessoas, pelas várias contribuições para esta publicação:
Hector Velasquez Ayala, Faculty of Psychology, Universidad Nacional
Autonoma de Mexico, Mexico City, México; Floyd Bloom, Scripps Research
Institute, La Jolla, CA, EUA; Dennis Choi, Department of Neurology, Washington
University School of Medicine, St. Louis, MO, EUA; Patricia Di Ciano, University
of Cambridge, Cambridge, Inglaterra; Linda Cottler, Department of Psychiatry,
Washington University, St. Louis, MO, EUA; Nady El-Guebaly, Faculty of
Medicine, University of Calgary, Calgary, Alberta, Canadá; Humberto Estanol,
National Council Against Addictions of Mexico, Mexico City, México; Hamid
Ghodse, St. George’s Hospital Medical School, London, UK; Steven Hyman,
National Institute of Mental Health, Bethesda, MD, EUA; Mark Jordan, Nyon,
Suíça; Humberto Juarez, National Council Against Addictions of Mexico, Mexico
City, México; Michael Kuhar, Division of Pharmacology, Emory University,
Atlanta, GA, EUA; Stan Kutcher, Canadian Institutes of Health Research, Ottawa,
Ontário, Canadá; Michel Le Moal, National Institute of Health and Medical
Research, Bordeaux, França; Scott MacDonald, Centre for Addiction and Mental Health, Toronto, Ontário, Canadá; Guillermina Natera, National Institute of
Psychiatry, Mexico City, México; Raluca Popovici, Pinney Associates, Bethesda,
MD, EUA; Linda Porrino, Wake Forest University School of Medicine, NC,
Winston-Salem, EUA; David Roberts, Wake Forest University School of
Medicine, NC, Winston-Salem, EUA; Robin Room, Centre for Social Research
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Agradecimentos da Edição em Inglês VII
on Alcohol and Drugs, University of Stockholm, Stockholm, Suécia; Christine
A. Rose, Pinney Associates, Bethesda, MD, EUA; Martin Stafstrom, Malmo
University Hospital, Lund University, Lund, Suécia; Julie Staley, Department of
Psychiatry, Yale University School of Medicine, New Haven, CT, EUA; Howard
Stead, Laboratory and Scientific Section, United Nations Office on Drugs and
Crime, Vienna, Áustria; Boris Tabakoff, University of Colorado School of Medicine,
Boulder, CO, EUA; Ambros Uchtenhagen, Institute for Research on Addiction,
Zurich, Suíça; George Uhl, Johns Hopkins University School of Medicine,
Baltimore, MD, EUA; Nora Volkow, Brookhaven National Laboratory, New York,
NY, EUA; Helge Waal, Oslo, Noruega; Roy Wise, National Institute on Drug
Abuse, Bethesda, MD, EUA. A OMS também é grata a Victor Preedy, King’s
College, University of London, Londres, que fez a revisão técnica final do
documento.
Agradecimentos especiais ao UK Department for International Development
(DFID), ao governo belga e ao Institute of Neurosciences, Mental Health and
Addiction of the Canadian Institutes of Health Research pelas contribuições
financeiras para o projeto.
O projeto que resultou nesta publicação foi iniciado por Maristela Monteiro,
que também dirigiu todas as atividades relacionadas a sua preparação, revisão e
publicação. Isidore Obot coordenou sua edição e produção. Agradecimentos particulares a Derek Yach e Benedetto Saraceno, que forneceram liderança para o
projeto e comentários que contribuíram para as várias versões. A OMS também
agradece aos seguintes membros da equipe do Department of Mental Health
and Substance Abuse por suas contribuições ao projeto: Vladimir Poznyak, José
Bertolote e Shekhar Saxena. Esta publicação também se beneficiou de contribuições dos seguintes membros atuais e ex-membros da equipe da OMS que
auxiliaram em diferentes aspectos: Caroline Allsopp, Alexander Capron, Joann
Duffil, Kelvin Khow, Tess Narciso, Mylene Schreiber, Raquel Shaw Moxam e
Tokuo Yoshida.
Esta publicação foi produzida com base no Programa de Ação Global em
saúde mental (PAGsm) do Department of Mental Health and Substance Abuse,
Organização Mundial da Saúde, sob a direção do Dr. Benedetto Saraceno.
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PREFÁCIO
O uso e a dependência de substâncias causam um prejuízo significativo a indivíduos e sociedades em todo o mundo. O Relatório Mundial da Saúde 2002 indicou
que 8,9% do prejuízo causado por doenças provêm do uso de substâncias psicoativas. O relatório mostrou que o tabaco contribuiu com 4,1%, o álcool, com
4% e as drogas ilícitas, com 0,8% do prejuízo das doenças em 2000. Grande
parte do prejuízo atribuível ao uso ou à dependência de substâncias é resultado
da grande variedade de problemas sociais e de saúde, incluindo o vírus da imunodeficiência humana (HIV)/síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS),
que se dissemina em muitos países por meio do uso de drogas injetáveis.
Esta publicação neurocientífica é a primeira tentativa da OMS fornecer
uma visão geral abrangente dos fatores biológicos relacionados ao uso e à
dependência de substâncias, resumindo a grande quantidade de conhecimento
obtida nos últimos 20 a 30 anos. Destaca também o estado atual do conhecimento dos mecanismos de ação de diferentes tipos de substâncias psicoativas
e explica como o uso dessas substâncias pode provocar o desenvolvimento da
síndrome de dependência.
Apesar de o foco estar nos mecanismos cerebrais, esta publicação, não
obstante, também aborda fatores sociais e ambientais que influenciam o uso e a
dependência de substâncias. Além disso considera os aspectos neurocientíficos
das intervenções, em particular, as implicações éticas de novas estratégias de
intervenções biológicas.
Os vários problemas sociais e de saúde, associados ao uso e à dependência
de tabaco, álcool e substâncias ilícitas, exigem maior atenção por parte da comunidade da saúde pública, e respostas políticas apropriadas são necessárias
para abordar esses problemas em diferentes sociedades. Muitas lacunas no nosso
entendimento sobre questões relacionadas ao uso e à dependência de substâncias
ainda precisam ser preenchidas, mas esta publicação mostra que já conhecemos
muito sobre a natureza desses problemas, o que pode ser utilizado para desenvolver respostas políticas.
Esta é uma publicação importante e eu a recomendo aos profissionais da
área de saúde, legisladores, cientistas e estudantes.
LEE Jong-wook
Diretor Geral
Organização Mundial da Saúde
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LISTA DE PUBLICAÇÕES DE EMBASAMENTO E DE
COLABORADORES
Helena M.T. Barros. The basic psychopharmacology of the addictive substances.
David A. Collier. The genetics of heroin abuse.
Michael J. Kuhar. Views of the College on Problems of Drug Dependence
regarding advances in research on drug abuse.
Gaetano Di Chiara. Psychobiology of drug addiction.
Patricia G. Erickson. Responding to substance dependence from an integrated
public health perspective.
Wayne Hall & Lucy Carter. Ethical issues in trialing and using cocaine vaccines
to treat and prevent cocaine dependence.
Wayne Hall, Lucy Carter & Katherine Morley. Ethical issues in neuroscience
research on addiction.
Sofia Gruskin, Karen Plafker & Allison Smith. A human rights framework for
preventing psychoactive substance use by youth, in the context of urbanization.
Jack E. Henningfield. Neurobiology of tobacco dependence.
Nady El-Guebaly. Views of the International Society of Addiction Medicine
(ISAM).
Kathleen M. Kantak. Pre-clinical and clinical studies with the cocaine vaccine.
Brigitte L. Kieffer. Neural basis of addictive behaviours: role of the endogenous
opioid system.
Harald Klingemann. Cultural and social aspects of drug dependence.
Mary Jeanne Kreek. The efficacy of methadone and levomethadyl acetate.
Sture Liljequist. The neurochemical basis of craving and abstinence to substance
abuse.
Rafael Maldonado. Recent advances in the neurobiology of cannabinoid
dependence.
Athina Markou. Comorbidity of drug abuse with mental illness provides insights
into the neurobiological abnormalities that may mediate these psychiatric
disorders.
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XII Lista de Publicações de Embasamento e de Colaboradores
Gina Morato. Biological basis for ethanol tolerance in animals and implications
for ethanol dependence.
Andrey E. Ryabinin. Genetics and neuroscience of alcohol abuse and
dependence: contributions from animal models.
Rachel Tyndale. Genetics of alcohol and tobacco use in humans.
Claude Uehlinger. Motivation aux changements de comportements addictifs.
Frank J. Vocci. Buprenorphine as a treatment for opiate dependence.
David Walsh. Slipping under the radar: advertising and the mind.
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ABREVIATURAS
2-DG
ADH
AIDS
ALDH2
AMPA
ARC
ATV
AVPI
cAMP
CCK
CID-10
COMT
CREB
CRF
CYPRA1
CYP2D6
CYP2E1
DBH
DMT
DNA
DOM
DRD1
DRD3
DRD4
DRD5
DSM-IV
DUDR
EEG
EMCDDA
ESPAD
ETA
FDA
FDG
GABA
HIV
IMAO
ISRS
LAAM
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2-desoxiglicose
álcool-desidrogenase
síndrome da imunodeficiência adquirida
aldeído-desidrogenase
alfa-amino3-hidroxi-5-metil-isoxazol-4-propionato
análise de risco comparativo
área tegumentar ventral
anos de vida perdidos ou com incapacitação
monofosfato de adenosina cíclico
colecistocinina
Classificação Internacional de Doenças – 10ª revisão
catecol-O-metiltransferase
proteína ligadora de elementos da resposta de AMP cíclico
fator de liberação de corticotropina
Citocromo P450 RA1
Citocromo P450 2D6
Citocromo P450 2E1
dopamina beta-hidroxilase
dimetiltriptamina
ácido desoxirribonucléico
dimetoxi-4-metilanfetamina
receptor de dopamina D1
receptor de dopamina D3
receptor de dopamina D4
receptor de dopamina D5
Manual para diagnóstico e estatística dos transtornos mentais – quarta
edição
Declaração Universal dos Direitos Humanos
eletroencefalograma
European Monitoring Centre for Drugs and Drug Addiction
European School Survey Project on Alcohol and Other Drugs
estimulantes tipo anfetamina
Food and Drug Administration (EUA)
Fluordesoxiglicose
ácido gama-aminobutírico
vírus da imunodeficiência humana
inibidor da monoamina-oxidase
inibidores seletivos de recaptura de serotonina
levo-alfa-acetil-metadol
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XIV Abreviaturas
LSA
LSD
LTQ
MAO
MDA
MDMA
mRNA
nAChR
NHSDA
NIDA
NMDA
NPY
OMS
PCP
PET
PGD
PMA
RMN
RMNf
SACENDU
SPECT
TDAH
TH
THC
TIC
TMA
TPAS
TPH
TUS
UDI
UNDCP
UNODC
UNODCCP
USDHHS
WMA
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amina do ácido d-lisérgico
dietilamida do ácido lisérgico
loci de traço quantitativo
monoamina-oxidase
metilenodioxianfetamina
3,4-metilenodioximetanfetamina
ácido ribonucléico mensageiro
receptor de acetilcolina nicotínico
National Household Survey on Drug Abuse
National Institute on Drug Abuse
N-metil-D-aspartato
neuropeptídeo Y
Organização Mundial da Saúde
fenciclidina
tomografia por emissão de pósitron
prejuízos globais das doenças
parametoxianfetamina
ressonância magnética nuclear
ressonância magnética nuclear funcional
South African Community Epidemiology Network on Drug Use
tomografia computadorizada por emissão de fóton único
transtorno de déficit de atenção e hiperatividade
tirosina-hidroxilase
tetra-hidrocanabinol
terapia de incremento motivacional
trimetoxianfetamina
transtorno de personalidade anti-social
triptofano-hidroxilase
transtornos do uso de substâncias
uso de droga injetável
United Nations International Drug Control Programme
United Nations Office on Drugs and Crime
United Nations Office for Drug Control and Crime Prevention
United States Department of Health and Human Services
World Medical Association (Associação Médica Mundial)
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ÍNDICE
Agradecimentos da Edição em Inglês .........................................................
Prefácio ..........................................................................................................
Lista de Publicações de Embasamento e de Colaboradores .....................
Abreviaturas .................................................................................................
1. Introdução .................................................................................................
Estrutura da Publicação ..............................................................................
Substâncias Psicoativas e seu Status Sociolegal ........................................
Uso Global de Substâncias Psicoativas ......................................................
Efeitos Adversos de Substâncias Psicoativas e seus
Mecanismos de Ação ..............................................................................
Dependência de Substâncias em relação à Neurociência ...........................
Prejuízos à Saúde pelo Uso de Substâncias Psicoativas ............................
2. Mecanismos Cerebrais: Neurobiologia e Neuroanatomia ....................
Introdução ..................................................................................................
Organização do Cérebro .............................................................................
Neurônio .....................................................................................................
Neurotransmissão .......................................................................................
Receptores ..................................................................................................
Neurotransmissores ....................................................................................
Genes ..........................................................................................................
Efeitos Celulares e Neuronais das Substâncias Psicoativas .......................
Conclusão ...................................................................................................
3. Processos Biocomportamentais Subjacentes à Dependência ...............
Introdução ..................................................................................................
Definição de Termos ..................................................................................
Recompensa da Droga isoladamente não Explica a
Dependência de Drogas ..........................................................................
Dopamina e Aprendizado por Reforço .......................................................
Dopamina e Sensibilização de Incentivo ...................................................
Resumo .......................................................................................................
4. Psicofarmacologia da Dependência para Diferentes Classes de Drogas ..
Introdução ..................................................................................................
Álcool (Etanol) ...........................................................................................
Sedativos e Hipnóticos ...............................................................................
Tabaco ........................................................................................................
Opióides .....................................................................................................
Canabinóides ..............................................................................................
Cocaína (Hidrocloreto e Crack) .................................................................
Anfetaminas ...............................................................................................
Ecstasy .......................................................................................................
Solventes Voláteis .......................................................................................
Alucinógenos .............................................................................................
Resumo .......................................................................................................
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88
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XVI Índice
5. Bases Genéticas das Dependências de Substância ................................
Introdução ..................................................................................................
Genética da Dependência de Tabaco ..........................................................
Genética da Dependência de Álcool ..........................................................
Genética da Dependência de Opióides .......................................................
Genética do Risco combinado de Dependência de Tabaco,
Álcool, Ópióides e outras Substâncias Psicoativas .................................
Fatores de Confusão em Estudos de Ligação e de Genes Candidatos ............
Questões Metodológicas ............................................................................
Direções Futuras ........................................................................................
Aspectos Sociais e Culturais ......................................................................
Resumo .......................................................................................................
6. Transtornos Co-mórbidos .......................................................................
Introdução ..................................................................................................
Hipóteses que Podem Explicar a Co-morbidade Observada ......................
Esquizofrenia .............................................................................................
Dependência de Psicoestimulantes (Cocaína e Anfetamina)
e Esquizofrenia ........................................................................................
Depressão ...................................................................................................
Discussão e Conclusões .............................................................................
7. Questões Éticas na Pesquisa Neurocientífica sobre Tratamento
e Prevenção da Dependência de Substância .......................................
Introdução ..................................................................................................
Tipos de Pesquisa Neurocientífica da Dependência de Substância ...........
Abordagem da Análise Ética ......................................................................
Ética da Experimentação em Animais na Pesquisa Neurocientífica ..........
Princípios Éticos na Pesquisa Biomédica em Humanos ............................
Questões Éticas Emergentes na Pesquisa Neurocientífica .........................
Questões Éticas na Pesquisa Epidemiológica da
Dependência de Substância .....................................................................
Questões Éticas em Ensaios Clínicos de Tratamentos
Farmacológicos para Dependência de Substância ..................................
Ensaios Clínicos de Intervenções Farmacológicas Preventivas
para a Dependência de Substância ..........................................................
Implicações da Pesquisa Neurocientífica para os Modelos
de Dependência de Substância ................................................................
Implicações da Pesquisa Neurocientífica para o
Tratamento da Dependência de Substância .............................................
Resumo e Conclusões ................................................................................
8. Conclusão e Implicações para Políticas de Saúde Pública ...................
Introdução ..................................................................................................
Avanços na Neurociência do Uso e da Dependência
de Substâncias Psicoativas e suas Implicações .......................................
Avanços Potenciais em Política, Prevenção e Tratamento
a partir dos Achados Neurocientíficos ....................................................
Questões Éticas na Aplicação dos Achados Neurocientíficos ....................
Implicações para Políticas de Saúde Pública .............................................
Conclusão ...................................................................................................
Índice Remissivo ...........................................................................................
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239
CAPÍTULO 1
INTRODUÇÃO
Esta publicação descreve nosso entendimento atual da neurociência do uso e da
dependência de substâncias psicoativas. Ela chama a atenção para o crescimento
explosivo do conhecimento nessa área nas últimas décadas, que transformou
nosso entendimento da ação bioquímica das substâncias psicoativas e contribuiu para uma nova compreensão da motivação das pessoas para usá-las e por
que algumas as usam a ponto de causar danos ou de se tornarem dependentes.
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Estrutura da Publicação
Esta publicação é dividida em oito capítulos. Este capítulo introdutório tem a
intenção de fornecer o contexto e o embasamento desta publicação. O Capítulo 2
provê uma breve visão geral da neuroanatomia básica, da neurobiologia e da
neuroquímica. O Capítulo 3 apresenta a visão biocomportamental da dependência, que se baseia tanto na teoria do aprendizado como no conhecimento das
funções cerebrais. O Capítulo 4 discute a farmacologia e os efeitos comportamentais de diferentes classes de substâncias psicoativas, um ramo da ciência
também conhecido como psicofarmacologia. Nos Capítulos 2 a 4 consideramos
os processos neurobiológicos que são, em larga escala, uma herança comum a
todos os seres humanos. No Capítulo 5, nos voltamos para os estudos em genética, que focam, ao contrário, as diferenças que podem existir entre humanos na
sua herança genética. Esse capítulo revisa as evidências para uma contribuição
genética para a dependência de substâncias e compara a interação da genética
com fatores ambientais no desenvolvimento e na manutenção da dependência.
O Capítulo 6 considera as evidências neurocientíficas das interconexões específicas entre uso de substâncias e transtornos mentais, focando particularmente a
esquizofrenia e a depressão. O foco das referências muda novamente no Capítulo 7,
que discute questões éticas na pesquisa, no tratamento e na prevenção dos transtornos do uso de substâncias e, em particular, como essas questões podem se
aplicar à pesquisa neurocientífica e suas implicações. O Capítulo 8 versa sobre
as implicações da pesquisa em neurociência para a saúde pública e termina com
recomendações específicas para as políticas públicas.
Substâncias Psicoativas e seu Status Sociolegal
As substâncias psicoativas, mais comumente conhecidas como drogas psicoativas,
são as que, quando utilizadas, têm a habilidade de mudar os processos de consciência, humor e pensamento individuais. Como capítulos posteriores irão
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2 – Introdução
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explicar, os avanços em neurociência nos deram um entendimento muito melhor dos processos físicos pelos quais agem essas substâncias. As substâncias
psicoativas atuam no cérebro, em mecanismos que existem normalmente para
regular as funções do humor, do pensamento e da motivação. Nossa ênfase será
no álcool e em outros hipnóticos e sedativos, na nicotina, nos opióides, na cannabis, na
cocaína, na anfetamina e em outros estimulantes, nos alucinógenos e nos inalantes
psicoativos.
O uso dessas substâncias é definido em três categorias de acordo com seu
status sociolegal. Em primeiro lugar, muitas das substâncias são usadas como
medicações. A medicina ocidental e outros sistemas reconhecem, há muito tempo,
a utilidade dessas substâncias em aliviar a dor, promover o sono ou a vigília e aliviar
transtornos do humor. Atualmente, muitas medicações psicoativas são restritas
ao uso sob orientação médica, por meio de um sistema de prescrição. Em muitos
países, até um terço de todas as prescrições é dessas medicações. Um exemplo
disso é o uso do estimulante metilfenidato para tratar o transtorno de déficit de
atenção e hiperatividade na infância, que será discutido no Capítulo 4. Como
descrito no Capítulo 6, algumas substâncias são também, muitas vezes, utilizadas como automedicação para diminuir o sofrimento de transtornos mentais ou
físicos ou aliviar os efeitos colaterais de outras medicações.
Uma segunda categoria é a do uso ilegal ou ilícito. Em três convenções internacionais (Quadro 1.1), muitas nações se comprometeram a banir o tráfico e
o uso não médico de opióides, cannabis, alucinógenos, cocaína e de vários outros
estimulantes e de vários hipnóticos e sedativos. Complementando a lista, países
e jurisdições muitas vezes adicionaram suas próprias substâncias proibidas, por
exemplo, bebidas alcoólicas e diversos inalantes.
Apesar dessas proibições, o uso ilícito de substâncias psicoativas é muito
difundido em várias sociedades, particularmente entre adultos jovens; o propósito usual é aproveitar ou se beneficiar das propriedades psicoativas da substância.
O fato de ser ilegal pode também adicionar um frisson atraente e, assim, estreitar a identificação dos usuários com uma subcultura alternativa.
A terceira categoria de uso é o consumo legal ou lícito, qualquer que seja o
propósito do consumidor. Esses propósitos podem ser muito variados e não estão necessariamente ligados às propriedades psicoativas da substância. Por
exemplo, uma bebida alcoólica pode ser usada como alimento, ou para aquecer
ou esfriar o corpo, ou para matar a sede; ou pode ter uma função simbólica em
um brinde, ou como sacramento. Entretanto, qualquer que seja o propósito do
uso, as propriedades psicoativas da substância inevitavelmente a acompanham.
As substâncias psicoativas mais amplamente utilizadas são as seguintes:
cafeína e estimulantes relacionados, comumente usados na forma de café, chá e
muitos refrigerantes; nicotina, atualmente mais utilizada ao se fumar cigarros
de tabaco; e bebidas alcoólicas, disponíveis em diversas formas, incluindo
cervejas, vinhos e bebidas destiladas. Como o uso de substâncias cafeinadas é
Introdução – 3
Quadro 1.1 – Convenções sobre controle de drogas das Nações Unidas
85-7241-666-8
Os três principais tratados internacionais sobre controle de drogas se sustentam mútua
e complementarmente. Uma proposta importante dos dois primeiros tratados é
estabelecer medidas de controle aplicáveis internacionalmente, com o objetivo de
assegurar a disponibilidade de drogas narcóticas e substâncias psicotrópicas para
propósitos médicos e científicos e para prevenir seu desvio para canais ilegais. Também
incluem recomendações gerais sobre o tráfico ilícito e o abuso de drogas.
Convenção Única sobre Drogas Narcóticas, 1961
Esta convenção reconhece que medidas efetivas contra o abuso de drogas narcóticas
requerem ações coordenadas e internacionais. Existem duas formas de intervenção
e controle que trabalham juntas. Em primeiro lugar, ela procura limitar a posse, uso,
comércio, distribuição, importação, exportação, manufatura e produção de drogas
exclusivamente para propósitos médicos e científicos. Em segundo lugar, combate o
tráfico de drogas pela cooperação internacional para deter e desencorajar traficantes
de drogas.
Convenção sobre Substâncias Psicotrópicas, 1971
Esta convenção percebeu, com preocupação, os problemas sociais e de saúde pública
resultantes do abuso de certas substâncias psicotrópicas e foi concebida para prevenir
e combater seu abuso e o tráfico ilícito a que elas dão origem. Estabeleceu um sistema
de controle internacional para substâncias psicotrópicas em resposta à diversificação
e à expansão do espectro do abuso de drogas e introduziu controles sobre algumas
drogas sintéticas de acordo com seu potencial de abuso, por um lado, e de seu valor
terapêutico, por outro.
Convenção das Nações Unidas contra o Tráfico Ilícito de Drogas Narcóticas e
Substâncias Psicotrópicas, 1988
Esta convenção deu origem a um tratado internacional abrangente, efetivo e operacional
que foi direcionado especificamente contra o tráfico ilícito e que considerou vários
aspectos do problema como um todo, em particular, aqueles aspectos não enfrentados
pelos tratados existentes no campo das drogas narcóticas e substâncias psicotrópicas.
Forneceu medidas abrangentes contra o tráfico de drogas, incluindo recomendações
contra lavagem de dinheiro e o desvio de precursores químicos. Ela contribuiu para
a cooperação internacional por meio, por exemplo, da extradição de traficantes de
drogas, controle de remessas e transferência de procedimentos.
Fonte: Escritório das Nações Unidas para o Controle de Drogas e Prevenção do Crime (disponível
na Internet em http://www.odccp.org/odccp/un_treaties_and_resolutions.html).
Nota: Em outubro de 2002, o Escritório das Nações Unidas para o Controle de Drogas e Prevenção
do Crime mudou seu nome para Escritório das Nações Unidas para Drogas e Crime.
relativamente isento de problemas, não será mais abordado nesta publicação. Embora os inalantes também estejam amplamente disponíveis, são mais utilizados
com propósitos psicoativos por aqueles abaixo da idade de fácil acesso ao álcool,
ao tabaco e a outras substâncias psicoativas.
Ainda que exista uma razão clara para um status legal diferenciado para as
medicações, o motivo, para uma distinção, entre sustâncias que estão sob controle internacional e aquelas que não estão, é mais problemático. As substâncias
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3
07.02.07, 10:07
4 – Introdução
Uso Global de Substâncias Psicoativas
Tabaco
Muitos tipos de produtos com tabaco são consumidos ao redor do mundo, mas a
forma mais popular de uso da nicotina é pelo fumo de cigarros. Fumar é uma
atividade onipresente: mais de 5.500 bilhões de cigarros são manufaturados anualmente e existe 1,2 bilhão de fumantes no mundo. Espera-se que esse número
cresça para 2 bilhões em 2030 (Mackay e Eriksen, 2002; World Bank, 1999). O
tabagismo está se espalhando rapidamente em países em desenvolvimento e entre
mulheres. Atualmente, 50% dos homens e 9% das mulheres em países em desenvolvimento fumam, em comparação com 35% dos homens e 22% das
mulheres em países desenvolvidos. A China, em particular, contribui significativamente para a epidemia em países em desenvolvimento. De fato, o consumo
per capita de cigarros na Ásia e no Oriente é maior do que em outras partes do
mundo, com as Américas e a Europa oriental seguindo logo atrás (Mackay e
Eriksen, 2002).
Uma rede de trabalho concebida para descrever os diferentes estágios da
epidemia de tabagismo em diferentes regiões do mundo foi proposta por
Lopez, Collishaw e Piha (1994). Nesse modelo, existem quatro estágios da
epidemia em um continuum, variando de baixa prevalência de tabagismo até
um estágio, no qual cerca de um terço das mortes entre os homens em um
determinado país seja atribuível ao tabagismo. No estágio 1, menos de 20%
dos homens e uma porcentagem consideravelmente menor de mulheres fumam. Dados epidemiológicos disponíveis mostram que vários países na África
subsaariana entram nessa categoria, embora o tabagismo esteja crescendo
na região. Mostrou-se que o consumo anual per capita de cigarros lá é menor
que 100 (Corrao et al., 2000). Existe um uso disseminado de outros produtos
do tabaco (como rapé e tabaco para mascar) em alguns países, mas a extensão das conseqüências adversas para a saúde do uso dessas formas de tabaco
não está clara ainda.
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4
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85-7241-666-8
que estão incluídas nas convenções internacionais refletem entendimentos históricos, em ambientes culturais particulares, sobre o que deve ser visto como
especialmente perigoso ou estranho. Alguns psicofarmacologistas ou epidemiologistas, hoje em dia, por exemplo, podem argumentar que o álcool não
é intrinsecamente menos perigoso ou menos causador de danos do que as drogas
incluídas nas convenções internacionais. Além disso, como discutido a seguir, a
dependência da nicotina do tabaco é associada a mais mortes e doenças do que
a dependência de outras substâncias psicoativas. Como será visto nos capítulos
seguintes, o conhecimento crescente da neurociência do uso de substâncias
psicoativas tem enfatizado aspectos comuns da ação que se estende pelos três
status sociolegais nos quais as substâncias são divididas.
Introdução – 5
No estágio 2 da epidemia, cerca de 50% dos homens fumam e há um
percentual crescente de mulheres fumantes. Esse é o caso da China e do Japão e
de alguns países do norte da África e da América Latina. Em contraste, o estágio
3 descreve uma situação em que há um notável decréscimo no tabagismo entre
homens e mulheres, mas há uma mortalidade aumentada em conseqüência de
doenças relacionadas ao tabaco. Alguns países da América Latina e do sul e do
leste da Europa entram nessa categoria. Um estágio final é marcado pela diminuição da prevalência do tabagismo, um pico de mortes por doenças relacionadas
ao tabaco entre homens (correspondendo a cerca de um terço do total) e um
contínuo aumento das mortes por doenças relacionadas ao tabaco entre mulheres. Este é atualmente o caso da Austrália, do Canadá, dos EUA e da Europa
ocidental. A Tabela 1.1 mostra as taxas de tabagismo em homens e mulheres e o
consumo per capita de cigarros em países selecionados com dados para todas as
categorias de fumantes.
Álcool
O álcool e o tabaco são parecidos em vários aspectos: ambos são substâncias
legais, estão amplamente disponíveis na maior parte do mundo e são comercializados agressivamente por corporações transnacionais que visam às pessoas
jovens na publicidade e nas campanhas promocionais. De acordo com o Relatório
Tabela 1.1 – Prevalência de tabagismo entre adultos e jovens em países
selecionados
85-7241-666-8
País
Consumo
anual per
capita de
cigarros
Argentina
Bolívia
Chile
China
Cingapura
EUA
Gana
Indonésia
Jordânia
Malaui
México
Nepal
Peru
Polônia
Quênia
Sri Lanka
1.495
274
1.202
1.791
1.230
2.255
161
1.742
1.832
123
754
619
1.849
2.061
200
374
Prevalência de tabagismo (%)
Adultos
Homens
Mulheres
46,8
42,7
26,0
66,9
26,9
25,7
28,4
59,0
48,0
20,0
51,2
48,0
41,5
44,0
66,8
25,7
34,4
18,1
18,3
4,2
3,1
21,5
3,5
3,7
10,0
9,0
18,4
29,0
15,7
25,0
31,9
1,7
Jovens
Homens
Mulheres
25,7
31,0
34,0
14,0
10,5
27,5
16,2
38,0
27,0
18,0
27,9
12,0
22,0
29,0
16,0
13,7
Fonte: Mackay e Eriksen, 2002.
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5
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30,0
22,0
43,4
7,0
7,5
24,2
17,3
5,3
13,4
15,0
16,0
6,0
15,0
20,0
10,0
5,8
6 – Introdução
sobre o Status Global em Álcool (WHO, 1999) e como mostrado na Figura 1.1,
o nível de consumo de álcool tem diminuído nos últimos vinte anos em países
desenvolvidos, mas está aumentando em países em desenvolvimento, em especial na região do Pacífico Ocidental, onde o consumo anual per capita entre
adultos varia de cinco a nove litros de álcool puro, e também em países da antiga
União Soviética (WHO, 1999). Em grande parte, o aumento na taxa de consumo de
álcool em países em desenvolvimento se deve às taxas dos países asiáticos. O
nível de consumo de álcool é muito menor nas regiões da África, Mediterrâneo
Oriental e no Sudeste Asiático.
Existe uma longa tradição de pesquisa na epidemiologia do uso de álcool
em países desenvolvidos e aprendemos muito sobre a distribuição e os determinantes da ingesta alcoólica em diferentes populações. Por muitos anos, os
pesquisadores focaram o volume médio de álcool consumido para determinar o
nível de consumo alcoólico em certo país. Utilizando-se dados de produção ou
de venda a partir de registros oficiais, tende-se a subestimar o consumo, em
especial em países em desenvolvimento, nos quais o consumo não registrado de
bebidas produzidas localmente é significante. Com a finalidade de melhorar a
6
5
4
3
2
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Consumo anual per capita de álcool (L)
7
1
0
1960
1965
1970
1975
1980
Ano
1985
1990
1995
2000
Países desenvolvidos
Países em desenvolvimento
Antiga União Soviética
Figura 1.1 – Consumo anual per capita de álcool entre adultos com 15 anos ou mais.
Fonte: Room et al., 2002.
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6
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Introdução – 7
medida de consumo per capita, a Organização Mundial da Saúde (OMS) tem
patrocinado projetos de pesquisa em quatro países (Brasil, China, Índia e Nigéria)
para estabelecer o nível de consumo não registrado nesses países.
Espera-se que estimativas mais precisas do uso de álcool resultem em melhor entendimento da associação entre uso e problemas. Nesse sentido, o projeto
de análise de risco comparativo (ARC) da OMS é notável. A ARC utiliza os
dados de consumo per capita em conjunto com padrões de ingesta para associar
o uso com os prejuízos por doenças (Rehm et al., 2002). Uma abordagem de
padrões no consumo de álcool assume que o modo como o álcool é consumido
está intimamente associado com as doenças resultantes. Beber durante as refeições,
por exemplo, está associado com menos risco de problemas do que beber em
festas ou em lugares públicos. Na ARC, quatro valores padrões foram definidos,
sendo 1 o com menos danos e 4 o mais prejudicial. No valor padrão 1, ocorrem
poucas ocasiões de ingesta pesada e esta é feita freqüentemente durante as refeições, enquanto o valor padrão 4 é caracterizado por muitas ocasiões de consumo
pesado e de beber fora das refeições. A Tabela 1.2 mostra os valores padrões
para diferentes regiões da OMS, com cada região dividida em pelo menos duas
sub-regiões. Os valores para algumas regiões baseiam-se em dados agregados
limitados, sendo apenas indicativos do padrão de ingesta alcoólica nessas regiões.
Na região da África houve aumento contínuo no consumo per capita na década
de 1970 e um declínio a partir do início da década de 1980. Entretanto, o padrão de
ingesta tendeu em sentido dos níveis mais altos, com os homens, na maioria dos
países, bebendo no valor padrão 3 da estimativa ARC. Esse é o caso de Gabão,
Gana, Quênia, Lesoto, Senegal e África do Sul, por exemplo. Entretanto, apenas
em pouquíssimos países (por exemplo, Zâmbia e Zimbábue) o valor padrão é 4.
O padrão de prejuízo da ingesta em muitos países subsaarianos foi demonstrado em
diversos levantamentos (por exemplo, Mustonen, Beukes e Du Preez, 2001; Obot,
2001). Em grande parte dos países, as mulheres bebem muito menos do que os
homens e, em alguns, a taxa de abstinência em mulheres mais velhas é muito alta.
Na região das Américas, a ingesta alcoólica pesada (isto é, beber cinco ou
mais doses em apenas uma ocasião no último mês) é um comportamento de
ingesta comum entre jovens. Tanto o consumo de álcool como a ingesta pesada
são reportados muito mais freqüentemente entre homens do que em mulheres,
tanto no México como nos EUA (WHO, 1999; Medina-Mora et al., 2001). Embora
o México tenha um consumo per capita de álcool relativamente pequeno, o valor
padrão do país é 4. Isso ocorre porque há alta freqüência de ingesta pesada,
especialmente em jovens, em ocasiões festivas.
Ingesta alcoólica pesada entre jovens também é comum na região do Pacífico
Ocidental. Mesmo que haja algum declínio nas taxas de ingesta na Austrália e na
Nova Zelândia, 50% dos homens jovens nesses países, assim como na Coréia do
Sul e no Japão, bebem até a intoxicação. A Tabela 1.2 exibe os índices de abstinência para homens e mulheres, o consumo anual per capita na população geral e
entre pessoas que bebem e o padrão de ingesta alcoólica nas sub-regiões da OMS.
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7
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8
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96
19
43
67
19
96
99
23
75
74
10
22
46
11
82
83
13
16
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8,7
4,9
0,8
14,8
1,1
9,7
4,3
13,0
2,0
3,6
7,1
9,7
8,6
5,8
3,3
10,6
8,6
8,9
17,4
10,0
14,4
9,9
15,2
12,5
9,7
16,7
14,8
12,1
8,7
15,0
1,0
2,1
2,0
3,6
2,0
2,9
3,0
1,3
3,0
2,3
3,2
2,0
3,1
3,1
2,5
Fonte: Com base em estimativas para a avaliação do risco comparativo do Estudo sobre o Prejuízo Global das Doenças da OMS (ver Rehm et al., 2002).
* Para ajudar no processo de análise de mortes, análise do prejuízo das doenças e avaliação do risco comparativo, os 191 Países Membros da OMS foram
divididos em cinco estratos de mortalidade com base no nível de mortalidade infantil de crianças abaixo de 5 anos e na mortalidade em homens entre 15
e 59 anos. Os estratos de mortalidade são definidos da seguinte maneira: A: muito baixa em crianças e adultos; B: baixa em crianças e adultos; C: baixa
em crianças, alta em adultos; D: alta em crianças e adultos; E: alta em crianças, muito alta em adultos.
** Escores de 1 a 4, nos quais o nível 1 é o menos danoso e o nível 4 é o mais prejudicial.
73
70
42
47
40
91
53
44
27
25
26
65
Região Africana – D (por exemplo, Argélia, Nigéria)
Região Africana – E (por exemplo, Etiópia, África do Sul)
Região das Américas – A (por exemplo, Canadá, Cuba, EUA)
Região das Américas – B (por exemplo, Brasil, México)
Região das Américas – D (por exemplo, Bolívia, Peru)
Região do Sudeste da Ásia – B (por exemplo, Indonésia,
Tailândia)
Região do Sudeste da Ásia – D (por exemplo, Bangladesh,
Índia)
Região Européia – A (por exemplo, França, Alemanha,
Reino Unido)
Região Européia – B1 (por exemplo, Bulgária, Polônia, Turquia)
Região Européia – B2 (por exemplo, Armênia, Azerbaijão,
Tadjiquistão)
Região Européia – C (por exemplo, Federação Russa, Ucrânia)
Região do Mediterrâneo Oriental – B (por exemplo, Irã, Arábia
Saudita)
Região do Mediterrâneo Oriental – D (por exemplo, Afeganistão,
Paquistão)
Região do Pacífico Ocidental – A (por exemplo, Austrália, Japão)
Região do Pacífico Ocidental – B (por exemplo, China,
Filipinas, Vietnã)
Consumo
Consumo
Padrão de
per capita
per capita
ingesta
anual de álcool anual de álcool
alcoólica
na população entre bebedores danosa**
Homens Mulheres
geral (L)
(L)
Taxa de
absenteísmo
de álcool (%)
Sub-região da OMS
Tabela 1.2 – Taxa estimada de abstinência de álcool e padrões de ingesta alcoólica danosa em sub-regiões selecionadas* da OMS
8 – Introdução
Introdução – 9
Uso Ilícito de Substâncias Controladas
Dados do United Nations Office on Drugs and Crime (UNODC) mostram apreensões em larga escala de cocaína, heroína, maconha e estimulantes do tipo
anfetamina em diferentes partes do mundo. A disponibilidade de cocaína, de
heroína e de maconha depende do nível de cultivo em países fornecedores e do
sucesso ou fracasso de organizações de tráfico. Entretanto, mesmo com níveis
aumentados de atividades de coação legal, sempre parece haver droga suficiente
disponível para os usuários.
De acordo com estimativas do UNODC (UNODCCP, 2002), aproximadamente 185 milhões de pessoas fazem uso ilícito de um tipo ou outro de substância
ilegal. A Tabela 1.3 mostra que a maconha é consumida pelo maior número de
usuários de drogas ilícitas, seguida por anfetaminas, cocaína e opióides.
O uso de drogas ilícitas é uma atividade predominantemente masculina, muito
mais do que o tabagismo ou o consumo de álcool. O uso de drogas também é mais
prevalente entre jovens do que em faixas etárias mais elevadas. Vários levantamentos nacionais e multinacionais têm fornecido dados sobre o uso de drogas em
diferentes grupos. Por exemplo, nos EUA, o estudo National Household Survey
on Drug Abuse (NHSDA) tem servido como fonte de informações úteis sobre o
uso de drogas na população geral e o projeto Monitorando o Futuro fornece
dados sobre o uso de drogas em jovens em escolas secundárias. O European
School Survey Project on Alcohol and Other Drugs (ESPAD), uma iniciativa do
Conselho da Europa, tornou-se fonte de informações sobre o uso de drogas em
jovens para muitos países europeus. O European Monitoring Centre for Drugs
and Drug Addiction (EMCDDA) também fornece dados regularmente sobre o
Tabela 1.3 – Prevalência anual de uso de drogas ilícitas globalmente no período
1998 a 2001
Todas as Maconha
drogas
ilícitas
Estimulantes
do tipo
anfetamina
Cocaína Todos Heroína
os
opióides
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Anfetaminas Ecstasy
Nº de
usuários
(em milhões)
Proporção da
população
global (%)
Proporção da
população
com 15 anos
ou mais (%)
185,0
147,4
33,4
7,0
13,4
12,9
9,20
3,1
2,5
0,6
0,1
0,2
0,2
0,15
4,3
3,5
0,8
0,2
0,3
0,3
0,22
Fonte: UNODCCP, 2002.
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10 – Introdução
Efeitos Adversos de Substâncias Psicoativas e seus
Mecanismos de Ação
Na maioria dos casos, as pessoas usam substâncias psicoativas porque esperam um
benefício com a utilização, seja pela experiência de prazer ou pelo alívio da dor.
O benefício não é necessariamente obtido diretamente da ação psicoativa da substância. Alguém que tome cerveja com os colegas pode se sentir mais motivado pelo
sentimento de companheirismo que isto traz do que pelo efeito psicoativo do etanol.
Entretanto, o efeito psicoativo está, de qualquer forma, presente e, em geral,
pelo menos perifericamente envolvido na decisão de usar.
A despeito do benefício real ou aparente, o uso de substâncias psicoativas
também carrega um potencial para o dano, seja a curto ou a longo prazo. Esse
dano pode resultar da quantidade acumulada da substância psicoativa utilizada,
por exemplo, o efeito tóxico do álcool acarretando cirrose hepática. Efeitos danosos também podem resultar do padrão de uso ou pela forma ou meio pelo qual
ela é utilizada (Fig. 1.2). O padrão de uso é de importância óbvia – por exemplo,
no caso de morte por overdose – não apenas em termos da quantidade utilizada
em uma ocasião, mas também em termos do contexto de uso (por exemplo, uso
de heroína acompanhado por ingesta alcoólica pesada). A forma ou o meio de
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uso de drogas (incluindo métodos danosos de uso, como uso de drogas injetáveis
[UDI]) em países europeus. Enquanto levantamentos nacionais em jovens e adultos são feitos regularmente em alguns países, dados confiáveis sobre o uso de
drogas quase sempre faltam na maioria dos países em desenvolvimento.
Projetos como o South African Community Epidemiology Network on Drug
Use (SACENDU) e a rede regional relacionada começaram a abordar essa falta
de informação.
Os dados na Tabela 1.3 mostram que 2,5% da população global total e 3,5%
das pessoas com 15 anos ou mais usaram maconha pelo menos uma vez em um
ano entre 1998 e 2001. Em muitos países desenvolvidos, por exemplo, no Canadá, nos EUA e em países europeus, mais do que 2% dos jovens relataram uso de
heroína e quase 5% relataram ter fumado cocaína ao longo da vida. De fato, 8%
dos jovens da Europa Ocidental e mais de 20% deles nos EUA relataram uso de
pelo menos um tipo de droga ilícita que não maconha (UNODCCP, 2002). Existem evidências de aumento rápido no uso de estimulantes do tipo anfetamina
entre adolescentes na Ásia e na Europa. O uso de drogas injetáveis também é um
fenômeno crescente, com implicações na disseminação da infecção pelo vírus
da imunodeficiência humana (HIV) em um número cada vez maior de países.
O uso não-médico de medicações (por exemplo, benzodiazepínicos, analgésicos, anfetaminas, etc.) é reconhecidamente muito comum, mas faltam estatísticas
globais.
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Introdução – 11
utilização pode também ser crucialmente importante. Muitos dos efeitos adversos à saúde de fumar tabaco, por exemplo, provêm não da nicotina em si, mas do
alcatrão e do monóxido de carbono que são liberados quando a nicotina é
consumida na forma de cigarros. De maneira similar, os efeitos adversos de
utilizar a droga por via injetável são evidentes no caso do uso de heroína.
Os principais efeitos danosos decorrentes do uso de substâncias podem ser
divididos em quatro categorias (ver Fig. 1.2). Em primeiro lugar, existem efeitos
crônicos na saúde. Para o álcool, isso inclui cirrose hepática e uma série de outras
doenças crônicas; para a nicotina utilizada na forma de cigarros, inclui câncer
de pulmão, enfisema e outras doenças crônicas. Pelo compartilhamento de seringas, a heroína injetável é um vetor principal para a transmissão de agentes
infecciosos como HIV e o vírus da hepatite C. Em segundo lugar, existem efeitos biológicos da substância na saúde, agudos ou a curto prazo. Notadamente,
para drogas, como os opióides e o álcool, incluem a overdose. Também estão
classificadas nessa categoria as casualidades decorrentes do efeito da substância
em coordenação motora, concentração e julgamento em circunstâncias em que
essas qualidades são exigidas. Casualidades resultantes de dirigir após beber
álcool ou depois de usar drogas apresentam-se proeminentemente nessa categoria,
Forma e padrões de
uso da substância
Quantidade utilizada
da substância
Efeitos psicoativos
(intoxicação)
Efeitos tóxicos e
outros efeitos
bioquímicos
Doença
crônica
Dependência
Acidentes/lesões
(doença aguda)
Problemas
sociais
agudos
Problemas
sociais
crônicos
Figura 1.2 – Mecanismos que relacionam o uso de substâncias psicoativas a problemas
de saúde e sociais. Note-se que alguns efeitos são benéficos e não tóxicos, por exemplo,
uso leve e regular de álcool como potencialmente redutor do risco de doença cardíaca
coronariana. Fonte: Adaptado de Babor et al., 2003.
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12 – Introdução
Dependência de Substâncias em relação à Neurociência
Historiadores sociais descobriram que o conceito de dependência tem uma história
específica, tornando-se uma idéia comum primeiro em culturas industrializadas
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mas, além disso, outros acidentes, suicídio e (pelo menos para o álcool) assaltos
estão incluídos. A terceira e a quarta categorias de efeitos danosos compreendem as conseqüências sociais adversas do uso da substância: problemas sociais
agudos, como terminar um relacionamento ou sofrer uma detenção, e problemas sociais crônicos, como falhas no trabalho ou no papel familiar. Estas últimas
categorias são importantes em relação ao álcool e muitas drogas ilícitas, mas
são pobremente mensuradas e na maioria das vezes excluídas das medidas de
efeitos sobre a saúde, como no Prejuízo Global das Doenças (PGD).
Como descrito anteriormente, a probabilidade de ocorrência dessas categorias de efeitos danosos também depende de quanto da substância é utilizada, de
que forma e com que padrão de uso. Esses aspectos do uso podem ser pensados
como ligados a diferentes tipos de problemas de saúde e sociais por três principais mecanismos de ação (ver Fig. 1.2). Um mecanismo envolve o efeito tóxico
imediato da substância, seja imediatamente (por exemplo, envenenamento) ou
acumulativo ao longo do tempo (por exemplo, cirrose). Um segundo mecanismo
de ação envolve a intoxicação ou outros efeitos psicoativos da substância. Um
acidente de trânsito pode resultar, por exemplo, do fato de o motorista do carro
estar sob influência de sedativos. Um empregado de uma loja de varejo pode
apresentar-se intoxicado no trabalho após usar maconha e, por causa disso, ser
demitido pelo gerente.
O terceiro mecanismo envolve a dependência da substância. Dependência de
substância – ou síndrome de dependência – é atualmente a terminologia técnica
para o conceito de adicção. No centro desse conceito está a idéia de que o controle
ou a volição do usuário sobre o uso de drogas foi perdido ou prejudicado. O usuário não está mais escolhendo usar simplesmente em razão dos aparentes benefícios;
o uso tornou-se habitual e a fissura para voltar a usar mostra que o usuário sente
que o hábito não está mais sob seu controle. A dependência do usuário é vista,
assim, como impelindo para mais utilização, apesar das conseqüências adversas
que poderiam ter dissuadido os não-dependentes de fazer uso adicional.
A ligação entre o uso de substâncias e danos em um caso particular pode,
evidentemente, envolver mais de um desses três mecanismos. Benzodiazepínicos
podem estar envolvidos em um caso de suicídio, por exemplo, tanto pelo desespero do usuário pelos distúrbios trazidos para sua vida em conseqüência da
dependência de drogas, como em virtude da disponibilidade de meios de suicídio
pela overdose. Entretanto, um mecanismo também pode agir sozinho. É importante ter em mente, além disso, que a dependência não é o único mecanismo que
potencialmente liga o uso de substâncias aos danos de saúde e sociais.
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Introdução – 13
no início do século XIX. O termo era inicialmente aplicado ao álcool e depois
estendido aos opióides e outras substâncias psicoativas (Ferentzy, 2001; Room,
2001). No caso do álcool, o termo equivalente se tornou alcoolismo por volta da
década de 1950, ao passo que a aplicação geral da idéia de dependência de
fumar cigarros é mais recente. Enquanto a idéia geral de dependência é atualmente bem estabelecida na maior parte do mundo, pesquisas comparativas
descobriram que existe variação significativa entre culturas na aplicabilidade e
no reconhecimento de noções específicas e conceitos associados a ela.
Como definido na CID-10 – Classificação Internacional de Doenças – 10ª
Revisão – Classificação dos Transtornos Mentais e do Comportamento, a dependência do uso de substâncias inclui seis critérios (Quadro 1.2); um caso que
seja positivo em pelo menos três desses critérios é diagnosticado como dependente. Alguns dos critérios são mensuráveis em termos biológicos, enquanto
outros não. Os dois critérios mensuráveis biologicamente, com mais facilidade,
são o terceiro e o quarto no Quadro 1.2: abstinência – a ocorrência de sintomas
físicos e psicológicos quando o uso da substância é reduzido ou descontinuado
– e tolerância – a noção de que quantidades cada vez maiores da droga são
necessárias para se atingir o mesmo efeito, ou a mesma quantidade produz menos
efeitos. Os outros quatro critérios para dependência incluem elementos cognitivos,
que são menos acessíveis à mensuração biológica, mas estão se tornando mais
mensuráveis por meio técnicas de neuroimagem (ver Cap. 3). No sexto critério,
por exemplo, o conhecimento do usuário de conexões causais específicas deve
ser verificado, algo não acessível a medidas biológicas diretas ou a um modelo
animal. O primeiro critério, intenso desejo ou sensação de compulsão, requer
questionamento quanto à autopercepção do usuário e se relaciona com a noção
de fissura pela substância. Mostrou-se difícil a concordância com uma definição de
fissura e a aplicabilidade de modelos biológicos ao conceito permanece controversa (Drummond et al., 2000). Os critérios para dependência de substâncias na
quarta edição do Manual para Diagnóstico e Estatística (DSM-IV) da American
Psychiatric Association (1994) são similares àqueles da CID-10 (Quadro 1.3),
assim como àqueles em muitas pesquisas. Outros termos utilizados em relação ao
uso de substâncias psicoativas são apresentados no Quadro 1.4.
Uma dificuldade adicional é que a definição do diagnóstico de dependência,
como descrito anteriormente, requer que o caso seja positivo em quaisquer três
dos seis critérios. Isso significa que um caso pode se qualificar para dependência sem ser positivo em nenhum dos dois critérios biologicamente mensuráveis
e que qualquer caso qualificado como dependente deve ser positivo em pelo
menos um critério que não é mensurável, por completo, biologicamente.
Portanto, uma dificuldade presente na neurociência das substâncias psicoativas
é que, enquanto a maioria dos efeitos mostrados na Figura 1.2 é diretamente
mensurável, a dependência de drogas não, tanto na maneira como é definida tecnicamente, quanto como é quase sempre entendida na sociedade mais ampla.
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14 – Introdução
Quadro 1.2 – Critérios para dependência de substância na CID-10
Fonte: WHO, 1992.
Entretanto, como será discutido posteriormente nesta publicação, os neurocientistas têm feito alguns avanços no entendimento do porquê humanos acham
o uso dessas substâncias atraente na primeira vez, quais são os mecanismos da
psicoatividade e as mudanças neurobiológicas que ocorrem com a utilização
pesada e repetida da substância.
Prejuízos à Saúde pelo Uso de Substâncias Psicoativas
Nenhuma avaliação global está disponível sobre os danos sociais pelo uso de
substâncias (como mostrado na Fig. 1.2). No entanto, existe agora uma tradição
em desenvolvimento para estimar a contribuição do uso do álcool, do tabaco e
de drogas ilícitas para os prejuízos globais com as doenças. A primeira tentativa
significante quanto a isso foi o projeto inicial da OMS sobre os prejuízos globais de doenças e ferimentos (Murray e Lopez, 1996). Fundamentadas em uma
medida padrão conhecida como anos de vida perdidos ou com incapacitação
(AVPI), estimativas do prejuízo imposto à sociedade em decorrência de morte
prematura e anos vividos com incapacitação foram avaliadas. O projeto PGD
mostrou que o tabaco e o álcool foram causas principais de mortalidade e
incapacitação em países desenvolvidos com expectativa de que o impacto do
tabaco cresça em outras partes do mundo.
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Três ou mais dos seguintes devem ter sido experimentados ou exibidos conjuntamente
em algum momento do último ano:
• Um desejo intenso ou sensação de compulsão para fazer uso da substância.
• Dificuldades em controlar comportamentos relacionados ao uso da substância em
termos de seu início, término, ou a quantidade utilizada.
• Um estado de abstinência fisiológica quando o uso da substância é interrompido
ou reduzido, tal como evidenciado por: a síndrome de abstinência característica da
substância; ou o uso da mesma (ou proximamente relacionada) substância com a
intenção de aliviar ou evitar sintomas de abstinência.
• Evidência de tolerância, tal como doses maiores da substância psicoativa são
necessárias para atingir o mesmo efeito originalmente produzido por doses menores.
• Negligência progressiva de atividades prazerosas ou interesses alternativos em
razão do uso da substância psicoativa, grande quantidade de tempo é necessária
para obter ou consumir a substância ou se recuperar de seus efeitos.
• Persistir com o uso da substância apesar de evidências claras de conseqüências
evidentemente danosas, como danos ao fígado em virtude da ingesta alcoólica
excessiva, estados de humor depressivo em conseqüência do uso pesado de
substâncias ou comprometimento das funções cognitivas relacionado à droga.
Esforços devem ser feitos para determinar que o usuário esteja realmente, ou se
seria esperado que estivesse, consciente da natureza e da extensão do dano.
Introdução – 15
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Quadro 1.3 – Critérios para dependência de substância no DSM-IV
De acordo com o DSM-IV, dependência de substâncias é:
Um padrão desadaptativo de uso de substância, provocando comprometimento ou
sofrimento clinicamente significante, manifestado por três (ou mais) dos seguintes,
ocorrendo a qualquer tempo no mesmo período de 12 meses:
• Tolerância, definida por qualquer dos seguintes:
– Necessidade de quantidades marcadamente maiores da substância para atingir
a intoxicação ou o efeito desejado.
– Efeito marcadamente diminuído com o uso continuado da mesma quantidade da
substância.
• Abstinência, manifestada por qualquer dos seguintes:
– Síndrome de abstinência característica da substância.
– A mesma substância (ou proximamente relacionada) é utilizada para aliviar ou
evitar sintomas de abstinência.
• A substância freqüentemente é utilizada em quantidades maiores ou por um período
de tempo mais longo do que pretendido.
• Há desejo persistente ou esforços sem sucesso para diminuir ou controlar o uso da
substância.
• Uma grande quantidade de tempo é gasta em atividades necessárias para obter a
substância (por exemplo, visitando múltiplos médicos ou dirigindo longas distâncias),
utilizando a substância (por exemplo, fumando um cigarro depois do outro), ou se
recuperando dos seus efeitos.
• Atividades sociais, ocupacionais ou recreativas são abandonadas ou reduzidas
devido ao uso da substância.
• O uso da substância é mantido apesar do conhecimento da ocorrência de problema
físico ou psicológico recorrente ou persistente que provavelmente foi causado ou
exacerbado pela substância (por exemplo, uso atual de cocaína não obstante o
reconhecimento de depressão induzida por ela, ou ingesta alcoólica continuada
apesar do reconhecimento que uma úlcera piorou em conseqüência do consumo
de álcool).
Fonte: American Psychiatric Association, 1994.
A confiabilidade do PGD e de outras estimativas de mortes e doença depende
da qualidade dos dados em que se baseiam. Os dados utilizados nessas análises
foram, na maioria, provenientes de estudos conduzidos em países desenvolvidos
(em especial nos EUA e países europeus) e alguns poucos levantamentos, muitas
vezes não representativos, em países em desenvolvimento. A dificuldade inerente
de se avaliar a prevalência do uso de substâncias e a associação entre uso e problemas também significa que as estimativas de prejuízo são altamente aproximadas.
Entretanto, o PGD fornece, pela primeira vez, um conjunto de dados globais sobre
o prejuízo da dependência/uso de álcool e de outras drogas e existem esforços
contínuos de prosseguir com estimativas mais precisas dos prejuízos relacionados
às mortes e às doenças associadas com substâncias lícitas e ilícitas.
O Relatório Mundial da Saúde 2002 (WHO, 2002) incluiu um novo conjunto
de estimativas, para o ano 2000, dos prejuízos atribuídos a tabaco, álcool e outras
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16 – Introdução
Quadro 1.4 – Definições de termos relacionados ao uso de substâncias psicoativas
Fonte: Adaptado de Lexicon of alcohol and drug terms, WHO (1994).
drogas. Essas estimativas são fundamentadas em dados que são significativamente mais completos e com metodologias mais defensáveis e não existe dúvida
de que elas serão melhoradas ainda mais nos próximos anos. A Tabela 1.4 mostra os resultados das estimativas de 2000 em termos da mortalidade atribuível a
cada classe de substâncias, assim como uma medida dos AVPI. Note que o efeito
protetor estimado para doenças do coração em decorrência da ingesta alcoólica
moderada foi subtraído para calcular o resultante prejuízo negativo do álcool
(isto explica os números negativos na tabela).
Entre os dez fatores de risco principais, em termos de prejuízos evitáveis, o
tabaco foi o quarto e o álcool o quinto colocado em 2000 e ambos permanecem
no topo da lista nas projeções para 2010 e 2020. O prejuízo atribuível estimado
em 2000 foi de 59 milhões de AVPI para o tabaco, 58 milhões para o álcool e 11
milhões para as drogas ilícitas. Em outras palavras, o tabaco e o álcool responderam por 4,1 e 4%, respectivamente, do prejuízo das doenças em 2000, enquanto
drogas ilícitas responderam por 0,8%. Os prejuízos atribuíveis ao tabaco e ao
álcool são particularmente agudos entre homens em países desenvolvidos (em
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Uso prejudicial
Um padrão de uso de substância psicoativa que causa danos à saúde. O dano pode
ser físico ou mental.
Uso perigoso
Um padrão de uso de substância psicoativa que aumenta o risco de conseqüências
prejudiciais para o usuário.
Intoxicação
Uma condição que se segue à administração de substâncias psicoativas e resulta em
distúrbios no nível de consciência, cognição, percepção, afeto ou comportamento, ou
outras funções ou respostas psicofisiológicas. Os distúrbios são relacionados ao efeito
farmacológico agudo e às respostas aprendidas da substância e se resolve com o
tempo, com recuperação completa, exceto quando ocorre lesão de tecido ou outras
complicações. Estas podem incluir trauma, aspiração de vômito, delirium, coma e
convulsões e outras complicações médicas. A natureza dessas complicações depende
da classe farmacológica da substância e do modo de administração.
Abuso de substância
Uso persistente ou esporádico de droga, de maneira inconsistente ou não relacionada
a práticas médicas aceitáveis. Um padrão desadaptativo de uso de substância
acarretando comprometimento ou sofrimento clinicamente significantes, manifestado
por um (ou mais) dos seguintes: falha em completar as obrigações principais em
casa, na escola ou no trabalho; uso da substância em situações nas quais seja
fisicamente arriscado; problemas legais recorrentes relacionados com a substância;
uso continuado da substância apesar de problemas sociais ou interpessoais
persistentes ou recorrentes exacerbados pelo efeito da substância.
Introdução – 17
Tabela 1.4 – Percentual de mortalidade total global e AVPI atribuíveis a tabaco,
álcool e drogas ilícitas, 2000
Fator de risco
Países em
desenvolvimento
com alta
mortalidade
Países em
desenvolvimento
com baixa
mortalidade
Países
desenvolvidos
Mundo
Homens Mulheres Homens Mulheres Homens Mulheres
Mortalidade
Tabaco
Álcool
Drogas ilícitas
7,5
2,6
0,5
1,5
0,6
0,1
12,2
8,5
0,6
2,9
1,6
0,1
26,3
8,0
0,6
9,3
-0,3
0,3
8,8
3,2
0,4
AVPI
Tabaco
Álcool
Drogas ilícitas
3,4
2,6
0,8
0,6
0,5
0,2
6,2
9,8
1,2
1,3
2,0
0,3
17,1
14,0
2,3
6,2
3,3
1,2
4,1
4,0
0,8
Fonte: WHO, 2002.
especial na América do Norte e Europa), nos quais o tabaco, o álcool e as drogas
ilícitas respondem por 17,1, 14 e 2,3%, respectivamente, do prejuízo total (ver
Tabela 1.4).
A Tabela 1.4 oferece ampla evidência de que o prejuízo das doenças pelo
uso de substâncias psicoativas, tomadas em conjunto, é substancial: 8,9% em
termos de AVPI. Entretanto, os achados do PDG reenfatizam que o principal
prejuízo global se deve às substâncias lícitas e não às ilícitas.
A ênfase primária, todavia, não está nas conseqüências danosas que podem
resultar do uso de substâncias (exceto na medida em que ocorrem no sistema
nervoso) nem está primariamente nas qualidades tóxicas das substâncias. Ao
contrário, a ênfase está nos padrões de uso de substâncias e nos mecanismos de
psicoatividade e da dependência (como indicado na Fig. 1.2). Como dependência se refere aos mecanismos pelos quais o uso se sustenta ao longo do tempo –
dessa forma multiplicando as probabilidades de conseqüências danosas do uso
– atenção especial é dada à neurociência da dependência.
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CAPÍTULO 2
MECANISMOS CEREBRAIS: NEUROBIOLOGIA E
NEUROANATOMIA
Introdução
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A dependência de substâncias é um transtorno que envolve os sistemas motivacionais do cérebro. Como qualquer transtorno específico de um órgão ou
sistema, primeiro deve-se entender o funcionamento normal desse órgão ou sistema para se entender a disfunção. Como o cérebro produz comportamentos e
pensamentos, transtornos do cérebro podem resultar em sintomas comportamentais altamente complexos. O cérebro pode sofrer de vários tipos de doenças
e traumas, desde condições neurológicas, como acidentes vasculares cerebrais e
epilepsia, até doenças neurodegenerativas, como as doenças de Parkinson e de
Alzheimer, ou infecções ou lesões cerebrais traumáticas. Em cada um desses
casos, o comportamento produzido é reconhecido como parte do transtorno.
Da mesma forma, na dependência, a produção comportamental é complexa,
mas é principalmente relacionada aos efeitos das drogas no cérebro. Os tremores da doença de Parkinson, as convulsões da epilepsia, até mesmo a melancolia
da depressão são amplamente reconhecidos e aceitos como sintomas de uma
doença cerebral de base. A dependência não foi reconhecida previamente como
um transtorno cerebral, do mesmo modo que as doenças psiquiátricas e mentais
não eram anteriormente vistas como resultado de um transtorno do cérebro. Entretanto, com os avanços recentes da neurociência, está claro que a dependência
é um transtorno do cérebro como qualquer outra doença neurológica ou psiquiátrica. Novas tecnologias e pesquisas forneceram meios de visualizar e medir
mudanças em funções cerebrais, desde os níveis moleculares e celulares até
alterações em processos cognitivos complexos que ocorrem com o uso de substâncias a curto e a longo prazos.
Este capítulo revisa princípios básicos da anatomia e da função cerebral
para fornecer um embasamento a partir do qual a neurociência da dependência
pode ser discutida.
Organização do Cérebro
O sistema nervoso é o principal sistema de comunicação do cérebro e é dividido
nas regiões central e periférica. O sistema nervoso central é composto pelo cérebro e pela medula espinhal, e o sistema nervoso periférico, por todos os nervos
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20 – Mecanismos Cerebrais: Neurobiologia e Neuroanatomia
Sulco central
Giro pré-central
Giro pós-central
Gânglios basais
Lobo frontal
Lobo
parietal
Prosencéfalo
Hemisfério
cerebral
Diencéfalo
Mesencéfalo
Lobo temporal
Lobo occipital
Metencéfalo
Mesencéfalo
Tronco cerebral
Ponte
Bulbo
Cerebelo
Medula espinhal
Cervical
Torácica
Lombar
Sacral
Figura 2.1 – Sistema nervoso central. Fonte: Reproduzido de Kandel, Schwartz e Jessell,
1995, com permissão dos editores.
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fora destes. A medula espinhal controla ações reflexas e retransmite informações sensoriais e motoras entre o corpo e o cérebro, assim o organismo pode
responder apropriadamente ao ambiente.
A região do cérebro na qual este encontra a medula espinhal é chamada de
rombencéfalo e é composta pelo mielencéfalo (medula) e pelo metencéfalo (ponte
e cerebelo) (Fig. 2.1). A medula é vital na manutenção da vida e controla processos como respiração, os batimentos cardíacos e o fluxo sanguíneo. A medula
também contém receptores para drogas opióides, como heroína e morfina, e este
é o motivo pelo qual essas drogas podem causar depressão respiratória e morte.
A ponte é uma estação de retransmissão de sinais provenientes do córtex para o
cerebelo, que está envolvido na movimentação corporal e na coordenação.
Acima do rombencéfalo está o mesencéfalo (ver Fig. 2.1), que contém duas
áreas muito importantes na dependência de substâncias. A área tegumentar ventral (ATV) é rica em corpos celulares dopaminérgicos e se projeta para o sistema
límbico e regiões do prosencéfalo. A ATV está envolvida na sinalização da importância de estímulos que são críticos para a sobrevivência, como aqueles
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Mecanismos Cerebrais: Neurobiologia e Neuroanatomia – 21
associados com a alimentação e a reprodução. Entretanto, muitas drogas psicoativas
também têm efeitos intensos nessa região cerebral, a qual contribui para a dependência ao sinalizar para o cérebro que as substâncias psicoativas são muito
importantes de uma perspectiva motivacional. As projeções dopaminérgicas da
ATV para o nucleus accumbens (discutido adiante) são conhecidas como sistema dopaminérgico mesolímbico e é o sistema neurotransmissor mais fortemente
implicado no potencial de produção de dependência das drogas psicoativas (Wise,
1998). Esse conceito-chave será discutido em mais detalhes nos Capítulos 3 e 4.
Outra estrutura mesencefálica importante é a substância negra, que também tem
projeções dopaminérgicas para o prosencéfalo, mas essas vias estão envolvidas
na coordenação e execução de movimentos corporais. A degeneração de neurônios
da substância negra provoca os sintomas característicos da doença de Parkinson.
Finalmente, o prosencéfalo, que é composto pelo diencéfalo e o telencéfalo
(hemisférios cerebrais) (ver Fig. 2.1). Áreas importantes do diencéfalo (Fig. 2.2)
são o tálamo, o hipotálamo e o lobo posterior da hipófise. O hipotálamo é crítico
na regulação de sinalizações hormonais e funções corporais básicas – envolvendo, por exemplo, balanço hídrico, temperatura corporal e hormônios reprodutivos
– assim como para responder a mudanças nessas funções. O hipotálamo também secreta hormônios que vão até o lobo posterior da hipófise. O tálamo funciona
como estação de retransmissão para informações sensoriais e motoras que vão
para e vêm do córtex para outras áreas do cérebro e do corpo.
Hemisférios cerebrais
Tálamo direito
Massa intermédia
Tálamo esquerdo
Hipotálamo
Cerebelo
Ponte
Bulbo
Figura 2.2 – Diencéfalo. A figura mostra a localização dos dois lobos do tálamo, ligados pela
massa intermédia. Abaixo do tálamo está o hipotálamo e a hipófise posterior, que regulam
funções autonômicas, endócrinas e viscerais. Fonte: Reproduzido de Pinel, 1990, com
permissão dos editores.
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22 – Mecanismos Cerebrais: Neurobiologia e Neuroanatomia
Sulco central
Frontal
Frontal
Parietal
Parietal
Occipital
Occipital
Fissura lateral
LATERAL
Temporal
MEDIAL
Temporal
Frontal
Fissura longitudinal
Sulco central
Parietal
Temporal
DORSAL
Occipital
VENTRAL
Figura 2.3 – Hemisférios cerebrais. O telencéfalo é composto de dois hemisférios cerebrais
separados pela fissura medial longitudinal. Cada hemisfério é subdividido em quatro lobos:
frontal, parietal, occipital e temporal. Fonte: Reproduzido de Kolb e Whishaw, 1996, com
permissão dos editores.
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O telencéfalo do prosencéfalo é a área mais altamente desenvolvida do cérebro
e é composta de dois hemisférios cerebrais separados pela fissura longitudinal (Fig.
2.3). A camada mais externa do cérebro é o córtex, que é constituído por camadas de
células nervosas ou neurônios e tem uma estrutura altamente pregueada, a qual aumenta sua área de superfície e o número de neurônios que ele contém. Abaixo do
córtex, correm milhões de axônios que interconectam os neurônios e permitem que
áreas diferentes do cérebro se comuniquem e coordenem o comportamento.
Cada hemisfério cerebral é dividido em quatro lobos: frontal, parietal, temporal e occipital (ver Fig. 2.3). Diferentes áreas do cérebro são especializadas
para funções diferentes (Fig. 2.4). O córtex associativo motor, por exemplo, está
envolvido na coordenação dos movimentos do corpo e o córtex motor primário
está envolvido na execução desta função. Da mesma maneira, existe um córtex
sensorial primário que recebe informações de cada um dos órgãos do sentido.
Informações das áreas sensoriais primárias vão para áreas associativas sensoriais
do córtex, que estão envolvidas com a percepção e a memória que tenham conexão com os órgãos dos sentidos. Aqui, as informações de diversos órgãos dos
sentidos podem ser combinadas para formar percepções complexas (Fig. 2.5). O
córtex está envolvido em muitos aspectos da dependência de substâncias, desde
os efeitos das drogas psicoativas sobre as sensações e percepções, até os comportamentos e pensamentos complexos envolvidos na fissura por drogas e no
Mecanismos Cerebrais: Neurobiologia e Neuroanatomia – 23
Córtex motor primário
Fissura central
DORSAL
Córtex somatossensorial primário
Lobo frontal
Lobo parietal
Lobo occipital
POSTERIOR
ANTERIOR
Córtex visual primário (a
maior parte não visível
neste ângulo)
Lobo temporal
Córtex auditivo primário
(a maior parte não
visível neste ângulo)
Cerebelo
Figura 2.4 – Regiões estruturais e funcionais do córtex cerebral. É estruturalmente diferenciado
em quatro lobos, podendo também ser diferenciado em áreas especializadas funcionalmente.
Fonte: Reproduzido de Carlson, 1988, com permissão dos editores.
Córtex motor primário
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Lobo frontal
Execução de movimento
Lobo parietal
Percepção da
localização espacial dos
limites
Lobo occipital
Planejamento do
movimento
Informações auditivas e
memórias
Lobo temporal
Percepção visual
Figura 2.5 – Relação entre diferentes regiões funcionais do cérebro. A informação recebida
dos córtices sensoriais primários é integrada nas áreas associativas primárias, que estão
envolvidas na percepção e na memória. Fonte: Reproduzido de Carlson, 1988, com permissão
dos editores.
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24 – Mecanismos Cerebrais: Neurobiologia e Neuroanatomia
Quadro 2.1 – Técnicas de neuroimagem
Tomografia por emissão de pósitron
A PET é uma técnica para visualizar a atividade em diferentes regiões do cérebro.
Fornece informações sobre a atividade metabólica em certa região do cérebro. Mais
comumente, a pessoa recebe uma injeção de um composto radioativo que pode ser
seguido da corrente sanguínea até o cérebro. Esse é geralmente 2-desoxiglicose
marcada (2-DG), que é capturada por neurônios ativos em decorrência de sua
similaridade com a glicose. Dessa forma, áreas que estão mais ativas metabolicamente
irão capturar mais glicose e 2-DG. Diferentemente da glicose, a 2-DG não é metabolizada
e, assim, se acumula no neurônio. Isto pode ser visualizado como imagens bi ou
tridimensionais com diferentes cores no PET scan indicam diferentes níveis de
radioatividade (azul e verde indicam áreas de pouca atividade e amarelo e vermelho,
áreas de alta atividade). Usando compostos diferentes, PET scans podem ser utilizados
para mostrar fluxo sanguíneo, metabolismo de oxigênio e glicose e a concentração
de drogas nos tecidos do cérebro vivo. O fluxo sanguíneo cerebral regional pode ser
medido utilizando-se imagens de PET com um traçador de fluxo como água [15O]
para avaliar o fluxo sanguíneo em determinada área. A marcação seletiva de
radiotraçadores permite especificidades bioquímicas altamente seletivas com baixas
concentrações de traçadores.
Tomografia computadorizada por emissão de fóton único
Similar à PET, a tomografia computadorizada por emissão de fóton único (SPECT)
utiliza traçadores radioativos e um scanner para gravar dados que um computador
usa para construir imagens bi ou tridimensionais de regiões cerebrais ativas. Entretanto,
os traçadores da SPECT são mais limitados que os traçadores de PET em relação
aos tipos de atividade cerebral que podem monitorar e os traçadores de SPECT
também se deterioram mais lentamente que muitos traçadores de PET, significando
que os estudos de SPECT requerem períodos mais longos de teste e reteste que os
estudos de PET. No entanto, como os traçadores de SPECT têm duração maior, não
precisam de um ciclotron externo para serem produzidos. Estudos com SPECT também
necessitam de menos suporte de equipes técnicas e médicas do que os estudos com
PET. Enquanto o PET é mais versátil do que o SPECT e produz imagens mais
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Ressonância magnética nuclear
A ressonância magnética nuclear (RMN) utiliza campos magnéticos e ondas de rádio
para produzir imagens em duas ou três dimensões de alta qualidade de estruturas
cerebrais sem injeção de marcadores radioativos. O cérebro pode ser visualizado
com alto nível de detalhes. Embora a RMN forneça apenas imagens estáticas da
anatomia cerebral, a RMN funcional (RMNf) pode fornecer informações funcionais
por meio da comparação do sangue oxigenado e desoxigenado, o que fornece
informações sobre mudanças na atividade cerebral em regiões específicas em resposta
a vários estímulos, como drogas, sons, figuras, etc. A RMNf pode produzir imagens
da atividade cerebral tão rápido quanto uma por segundo, enquanto a tomografia por
emissão de pósitrons (PET) geralmente leva 40s ou muito mais para produzir imagens
da atividade cerebral. Portanto, com a RMNf, há uma precisão temporal maior. A
RMNf tem a vantagem de ter a maior resolução espacial entre as técnicas de imagem
e não requer o uso de radiação ionizante, por conseguinte, fornece maior segurança
experimental e a capacidade de retestar sujeitos múltiplas vezes. A espectroscopia
por ressonância magnética é utilizada para se obter informações sobre a composição
química de uma região cerebral particular.
Mecanismos Cerebrais: Neurobiologia e Neuroanatomia – 25
detalhadas com um grau maior de resolução, particularmente de estruturas cerebrais
mais profundas, o SPECT é considerado menos caro do que o PET e pode objetivar
muitas das mesmas questões de pesquisa em dependência de drogas que o PET
pode.
Eletroencefalograma
Eletroencefalograma (EEG) utiliza eletrodos colocados no couro cabeludo para detectar
e medir padrões da atividade elétrica emanada do cérebro em conseqüência da
comunicação entre neurônios. O EEG pode determinar as intensidades relativas e as
posições da atividade elétrica em diferentes regiões cerebrais em frações de segundos
depois que um estímulo é administrado. Entretanto, a resolução espacial do EEG não
é tão boa quanto em outras técnicas de imagem. Como resultado, as imagens de
EEG da atividade elétrica cerebral são freqüentemente usadas em combinação com
outras técnicas, como RMN, para melhor determinar a localização da atividade no
cérebro.
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Fonte: Aine CJ, 1995; National Institute on Drug Abuse, 1996; Volkow et al., 1997; Gatley e
Volkow, 1998.
uso descontrolado de substâncias. Técnicas de neuroimagem como a tomografia
por emissão de pósitron (PET) mostraram mudanças em áreas do córtex depois
de uso tanto a curto, como a longo prazo (ver Quadro 2.1 e Cap. 4 para detalhes).
Abaixo do córtex estão outras estruturas importantes. Os gânglios basais
(Fig. 2.6) são estruturas envolvidas em comportamentos motores voluntários
consistindo no caudado, no putâmen, no globo pálido e na amígdala (a amígdala
é também parte do sistema límbico e será discutida na próxima seção). O caudado
Dois lobos do tálamo
Globo pálido direito
Globo pálido esquerdo
Cabeça do caudado
Putâmen esquerdo
Cauda do caudado
Amígdala esquerda
Figura 2.6 – Gânglios basais. Os gânglios basais mostrados são constituídos por algumas
estruturas envolvidas na execução de respostas motoras voluntárias. Fonte: Reproduzido de
Pinel, 1990, com permissão dos editores.
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26 – Mecanismos Cerebrais: Neurobiologia e Neuroanatomia
e o putâmen juntos são conhecidos como striatum. Logo abaixo do striatum está
uma área-chave para dependência de substância e para a motivação, conhecida
como nucleus accumbens, o qual é constituído de regiões central e capsular.
(Nota: agrupamentos de neurônios com estrutura e funções similares constituem núcleos do cérebro, não confundir com os núcleos de células individuais.) O
nucleus accumbens é uma área cerebral muito importante, envolvida na motivação e aprendizado, e sinalizando o valor motivacional do estímulo (Robbins e
Everitt, 1996; Cardinal et al., 2002). Substâncias psicoativas aumentam a produção de dopamina no nucleus accumbens, o que é considerado um evento
significante no reforço da droga. Isso será discutido adiante, nos Capítulos 3 e 4.
Outra região relevante para a neurociência da dependência é o sistema límbico
(Fig. 2.7). Este é composto por uma série de estruturas interconectadas que são
importantes em relação à emoção, à motivação e ao aprendizado. O sistema límbico
tem papel vital no desenvolvimento da dependência e interage com o córtex e o
nucleus accumbens. Estruturas essenciais do sistema límbico são o hipocampo,
que tem papel importante na memória, e a amígdala, que é crítica na regulação
emocional. Todas essas áreas recebem informações sensoriais de outras áreas cerebrais para auxiliar a coordenação de respostas emocionais e comportamentais
apropriadas aos estímulos externos.
Giro do cíngulo direito
Giro do cíngulo esquerdo
Fissura longitudinal
Tálamo esquerdo
Fórnix esquerdo
Hipocampo esquerdo
Septo
Bulbo olfativo
Bulbo
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Hipotálamo
Corpo mamilar
Amígdala esquerda
Figura 2.7 – Principais estruturas do sistema límbico (ver prancha colorida). Fonte: Reproduzido
de Pinel, 1990, com permissão dos editores.
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Mecanismos Cerebrais: Neurobiologia e Neuroanatomia – 27
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Neurônio
A comunicação no cérebro se dá entre as células nervosas ou neurônios. As
substâncias psicoativas alteram vários aspectos da comunicação entre neurônios,
como será discutido a seguir. Os neurônios são células altamente especializadas
que existem com diferentes formas, tamanhos e variedades. Entretanto, compartilham as seguintes regiões básicas estruturais: corpo celular ou soma, dendritos,
axônios e botões terminais (Fig. 2.8) (Carlson, 1988).
Corpo Celular
O corpo celular ou soma é o centro metabólico do neurônio e contém o núcleo e
outras estruturas que mantêm o neurônio. Uma membrana especializada que
ajuda a regular o ambiente interno da célula envolve o corpo celular. Ela é seletivamente permeável, permitindo que apenas certas moléculas entrem ou saiam
do corpo celular, com a finalidade de manter o funcionamento adequado da
célula.
Por definição, o corpo celular é a parte do neurônio que contém o núcleo
(Fig. 2.9). O núcleo contém o material genético ácido desoxirribonucléico
(DNA). O DNA é utilizado na divisão celular e no crescimento, mas também
Botão terminal
Vesículas sinápticas
Sinapse
Membrana celular
Núcleo
Nódulo de Ranvier
Citoplasma
Axônio
Corpo celular
Cone de implantação do axônio
Bainha de
mielina
Sinapse axodendrítica
Dendrito
Sinapse axossomática
Axônios desmielinizados
Figura 2.8 – Estrutura do neurônio. Fonte: Reproduzido de Pinel, 1990, com permissão dos
editores.
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28 – Mecanismos Cerebrais: Neurobiologia e Neuroanatomia
DNA
Núcleo
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mRNA
A
Ribossomo
B
mRNA
C
Aminoácidos
Ribossomo
Proteína
D
Figura 2.9 – Síntese de proteínas. Porções do DNA do núcleo de um neurônio são codificadas
em RNA mensageiro. Os ribossomos no corpo celular utilizam o RNA mensageiro para
sintetizar proteínas. (A) Passo 1. Fitas de mRNA duplicam porções do código genético a
partir do DNA no núcleo que são levadas para o citoplasma. (B) Passo 2. No citoplasma, as
fitas de mRNA ligam-se aos ribossomos. (C) Passo 3. Os ribossomos se movem ao longo
das fitas de mRNA lendo o código genético e criam a cadeia apropriada de aminoácidos a
partir dos aminoácidos do citoplasma. (D) Passo 4. As proteínas são liberadas no citoplasma.
Fonte: Reproduzido de Pinel, 1990, com permissão dos editores.
tem um papel em neurônios maduros, onde é utilizado para sintetizar proteínas em resposta a uma grande variedade de estímulos. Substâncias psicoativas
podem afetar a expressão do DNA resultando em mudanças de curto e longo
prazo na função neuronal e, em última análise, no comportamento. Isso será
discutido em mais detalhes no final deste capítulo.
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Mecanismos Cerebrais: Neurobiologia e Neuroanatomia – 29
Dendritos
Dendritos são processos altamente ramificados que se estendem do corpo celular do
neurônio e que recebem mensagens químicas de outros neurônios (ver Fig. 2.8).
Essa ramificação e espículas dendríticas (pequenas expansões da superfície dos
dendritos com as quais um botão terminal de outro neurônio forma uma sinapse),
permitem que vários neurônios diferentes convirjam para uma única célula nervosa,
facilitando a coordenação e a integração de muitas mensagens complexas. O número
de espículas dendríticas pode aumentar ou diminuir após a exposição a substâncias
psicoativas (Sklair-Tavron et al., 1996; Robinson e Kolb, 1999; Eisch et al., 2000),
portanto, alterando a comunicação entre neurônios e, muito provavelmente, contribuindo para os efeitos comportamentais e neurológicos da substância. Isso também
será discutido em mais detalhes no final deste capítulo.
Axônio
O axônio é um longo e delgado processo que se estende a partir do corpo celular
e carrega informações do corpo celular para os botões terminais (ver Fig. 2.8).
Certas substâncias, como os neurotransmissores, são transportadas ao longo dos
axônios que também propagam os impulsos nervosos (ver a seguir). A área na
qual o axônio deixa o corpo celular é conhecida como cone de implantação.
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Botões Terminais
Os botões terminais são as estruturas bulbares encontradas no final dos axônios (ver
Figs. 2.8 e 2.10). No botão terminal, moléculas de sinalização química (que serão
mais discutidas na seção de neurotransmissão) são armazenadas em pequenos pacotes
ou vesículas. Quando um sinal apropriado chega ao botão terminal, o neurotransmissor
é liberado na sinapse ou fenda sináptica, o espaço entre o botão terminal e a membrana da célula nervosa ou dendrito com o qual ele está se comunicando. A membrana
do botão terminal que está transmitindo a mensagem é conhecida como membrana présináptica e a membrana do neurônio que a recebe é conhecida como membrana
pós-sináptica. A fenda sináptica contém fluido extracelular, através do qual as substâncias químicas podem se difundir e interagir com uma variedade de proteínas de
membrana, conhecidas como receptores.
Mudanças na liberação ou na recaptura de neurotransmissores têm papel
importante no mecanismo de ação de muitas substâncias psicoativas. A cocaína
e a anfetamina, por exemplo, bloqueiam a recaptura de dopamina e noradrenalina,
prolongando, dessa forma, as ações desses neurotransmissores. Esses mecanismos serão examinados em mais detalhes no Capítulo 4.
Neurotransmissão
Potencial de Ação
Os neurônios se comunicam uns com os outros por meio de um método altamente especializado, preciso e rápido. O potencial de ação é um impulso elétrico
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30 – Mecanismos Cerebrais: Neurobiologia e Neuroanatomia
Mitocôndria
Vesícula sináptica
Fenda sináptica
Membrana pós-sináptica
Cisterna liberando vesícula preenchida
com neurotransmissor
Membrana pré-sináptica
breve que viaja ao longo do axônio e permite que um neurônio se comunique
com outro pela liberação de um neurotransmissor. O potencial de ação é possível graças à membrana seletivamente permeável que mantém um gradiente
químico e elétrico através da membrana conhecido como potencial de membrana. A membrana em repouso é polarizada; entretanto, ela pode ser despolarizada
se for permitida a difusão de íons, que é o que acontece durante um potencial de
ação (Fig. 2.11).
Um canal iônico é um poro na membrana pelo qual íons podem passar sob
determinadas circunstâncias (por exemplo, existem canais de Na+, K+ e Ca2+).
Existem canais que só se abrem sob certas circunstâncias, como a uma voltagem
de membrana particular (conhecidos como canais iônicos dependentes de voltagem). A despolarização em uma área local do neurônio modifica a voltagem
nessa área que, se for forte o suficiente, pode fazer com que canais iônicos dependentes de voltagem se abram, permitindo a difusão iônica. Dessa forma,
áreas adjacentes tornam-se seqüencialmente despolarizadas, permitindo a propagação do sinal. Esse sinal pode ser propagado ao longo do axônio com extrema
rapidez. Um potencial de ação é um evento tudo ou nada, se o estímulo despolarizante é suficiente para atingir um limiar, o potencial de ação será iniciado e
irá viajar sem decréscimo até o fim do axônio.
Após a despolarização, a membrana torna-se repolarizada rapidamente pela
abertura de canais de K+ dependentes de voltagem que também são abertos
pela despolarização, mas apenas após pequeno atraso (aproximadamente 1ms).
Os canais de Na+ também não se mantêm abertos, mas são inativados após certo
período. Esses fatores permitem transmissão rápida e o término da mensagem.
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Figura 2.10 – Botão terminal e sinapse. Fonte: Reproduzido de Pinel, 1990, com permissão
dos editores.
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mV
50
30
Fase de despolarização
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0
O potencial de membrana em qualquer
momento depende de quantos e de
quais canais estão abertos
Despolarização suficiente do axônio
resulta em um potencial de ação
Canal de K+ aberto
-30
Limiar
-50
Potencial de
repouso
Fase de hiperpolarização
-70
Canal
de K+
aberto
Canais
de Na+
fechados
Os canais de K+ abertos
criam o potencial de
repouso
.
Canal de
Na+ aberto
Canais de Na+ abrem,
despolarizando a célula
até o limiar
Canal de
K+ fechado
Canais de
Na+ inativados
Canal de
K+ aberto
.
Canais adicionais de Na+
dependentes de voltagem
se abrem, causando rápida
mudança de polaridade – o
potencial de ação
Os canais de Na+ são
inativados; canais de K+
dependentes de voltagem
abrem, repolarizando e até
hiperpolarizando a célula
(fase de hiperpolarização)
Todos os canais
dependentes de voltagem
se fecham. A célula
retorna ao seu potencial
de repouso
Figura 2.11 – Potencial de ação. Durante um potencial de ação, canais de sódio sensíveis à
voltagem se abrem provocando rápido influxo de sódio e resultando em despolarização da
célula. Esta é repolarizada pela abertura de canais de potássio que permitem o efluxo de
potássio da célula e restauram o potencial de membrana de repouso. Bombas iônicas ativas
posteriormente trocam sódio por potássio na célula (ver prancha colorida). Fonte: Reproduzidos
de Rosenzweig, Leiman e Breedlove, 1999, com permissão dos editores.
Liberação de Neurotransmissores
Os potenciais de ação permitem que mensagens sejam propagadas ao longo dos
axônios em um neurônio. No entanto, para a comunicação se completar, a mensagem tem que ser transmitida entre neurônios. Isso ocorre nas sinapses dos botões
terminais, pela liberação de neurotransmissores. Estes são substâncias químicas
liberadas por um neurônio e que interagem com receptores em outro neurônio, acarretando mudança nele. Serão discutidos em mais detalhes a seguir.
Os botões terminais contêm pequenas estruturas, chamadas de vesículas, que
são pacotes de neurotransmissores que foram transportadas desde o corpo celular.
Quando um potencial de ação chega ao botão terminal, canais de Ca2+ dependentes de voltagem se abrem, permitindo que Ca2+ entre no botão terminal e ative
certo número de processos que provoca liberação do neurotransmissor na fenda
sináptica. Uma vez na fenda, os neurotransmissores se difundem e se ligam a
receptores pós-sinápticos.
A mensagem química precisa terminar de algum modo e isso ocorre por
vários mecanismos. Um é por degradação enzimática do neurotransmissor na
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32 – Mecanismos Cerebrais: Neurobiologia e Neuroanatomia
fenda e outro pela recaptura ativa do neurotransmissor pela membrana présináptica. Um dos mecanismos de ação primário da cocaína é bloquear a recaptura
de neurotransmissores aumentando, dessa forma, suas concentrações na fenda
sináptica e seus efeitos. As anfetaminas atuam revertendo o mecanismo de recaptura, então o neurotransmissor é liberado na fenda sináptica independentemente
de potenciais de ação. Esses mecanismos serão discutidos em mais detalhes no
Capítulo 4. Quando o neurotransmissor se liga ao seu receptor na célula póssináptica, esta pode se tornar tanto mais como menos excitável e, portanto, mais
ou menos provável de desencadear um potencial de ação. Esses são conhecidos
como potenciais pós-sinápticos excitatórios e inibitórios respectivamente.
Receptores
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Os receptores são proteínas complexas localizadas em regiões diferentes da
membrana celular e com as quais os neurotransmissores se ligam para iniciar a
comunicação de um sinal entre neurônios. Existem receptores específicos para
cada neurotransmissor encontrado no cérebro. Substâncias psicoativas são capazes de se ligar a esses receptores interferindo com a neurotransmissão normal.
Diferentes classes de substâncias ligam-se a diferentes receptores, causando, assim,
os efeitos característicos de cada classe de substâncias – por exemplo, opióides,
como a heroína e a morfina, se ligam a receptores opióides, canabinóides ligamse a receptores canabinóides e a nicotina se liga a receptores nicotínicos no
cérebro – e têm efeitos poderosos no comportamento. Esse e outros mecanismos serão discutidos em mais detalhes no Capítulo 4.
Existem dois mecanismos básicos de transdução de sinal que são importantes quando se consideram as ações de substâncias psicoativas. A ligação de
neurotransmissores a receptores pode causar a abertura de canais iônicos diretamente, através de canais iônicos abertos por ligantes (Fig. 2.12). A ligação de
um ligante com o receptor abre o canal iônico, permitindo rápidas mudanças na
membrana pós-sináptica. Um exemplo desse tipo de canal é o receptor de ácido
gama-aminobutírico (GABA) tipo A, ao qual se ligam os benzodiazepínicos e
barbitúricos, aumentando a abertura deste canal. Alternativamente, a ligação do
ligante pode resultar em propagação do sinal pela geração de segundos mensageiros. O segundo mensageiro pode tanto abrir um canal iônico como pode iniciar
uma série de reações bioquímicas, acarretando mudanças a longo prazo na função
neuronal na célula pós-sináptica. Existem muitas vias de segundos mensageiros;
isso aumenta a diversidade de sinais que podem ser enviados e as conseqüências
desses sinais. Um exemplo desse tipo de receptor é chamado de receptor acoplado
à proteína G. Receptores de dopamina são receptores acoplados à proteína G e,
dependendo do subtipo de receptor de dopamina, os ligantes podem tanto estimular como inibir a produção de monofosfato de adenosina cíclico (cAMP).
Substâncias psicoativas podem ter efeitos a longo prazo na função do cAMP,
como será discutido em mais detalhes no final deste capítulo.
Mecanismos Cerebrais: Neurobiologia e Neuroanatomia – 33
Os receptores têm papel não apenas nos efeitos imediatos, reforçadores das
substâncias psicoativas, mas também nos processos de tolerância e abstinência.
Exemplos específicos serão discutidos no Capítulo 4, mas, como um exemplo, a
tolerância aos benzodiazepínicos e barbitúricos desenvolve-se por mudanças na
estrutura do receptor GABA-A. O receptor se adapta à presença da substância,
provocando tolerância. Dessa forma, doses mais altas são necessárias para se
obter o efeito. Quando a substância é retirada, sintomas de abstinência surgem
em conseqüências dessas mudanças estruturais que ocorreram para acomodar a
presença da substância.
Neurotransmissores
Um neurotransmissor pode ser definido como uma substância química que é
liberada na sinapse por um neurônio e que afeta outra célula de maneira específica (Kandel e Schwartz, 1985). Um neurotransmissor também deve atender aos
seguintes critérios:
•
•
•
•
Íons
Sintetizado no neurônio.
Presente no neurônio pré-sináptico.
Liberado em quantidade suficiente para ter efeito pós-sináptico.
Tem o mesmo efeito se liberado por meios naturais (endogenamente) ou
se aplicado como uma droga (exogenamente).
Ligação do
neurotransmissor
Ligação do
neurotransmissor
Neurotransmissor
Receptor
Neurotransmissor
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Exterior da célula
Abertura do
canal iônico
Interior da célula
α
Proteína G
Íons
Fluxo de íons
cruzando a membrana
Abertura do canal
A
A proteína G é ativada
Subunidades de proteína G ou
mensageiros intracelulares
modulam os canais iônicos
Fluxo de íons
cruzando a membrana
B
Figura 2.12 – Dois tipos de sinapses químicas. (A) Mostra a ligação e a abertura de um canal
iônico aberto por ligante. (B) Demonstra a ativação de um receptor acoplado à proteína G,
resultando na abertura de um canal iônico via segundo mensageiro (ver prancha colorida).
Fonte: Reproduzido de Rosenzweig, Leiman e Breedlove, 1999, com permissão dos editores.
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34 – Mecanismos Cerebrais: Neurobiologia e Neuroanatomia
Acetilcolina
A acetilcolina é um neurotransmissor produzido a partir da colina, que provém
da dieta. Ela é formada por meio de uma reação enzimática com a coenzima A.
A acetilcolina tem papel importante no aprendizado e na memória e acredita-se
que esteja envolvida na doença de Alzheimer. Neurônios que sintetizam e liberam acetilcolina são chamados neurônios colinérgicos. Os corpos celulares estão
localizados nos núcleos da base, mas se projetam amplamente para o córtex. Os
receptores de acetilcolina são canais de cátion controlados por ligantes e existem dois subtipos principais, nicotínicos e muscarínicos, nomeados de acordo
com a responsividade à nicotina e à muscarina, respectivamente. Receptores para
acetilcolina foram implicados na dependência de nicotina e podem também contribuir para os efeitos da cocaína e da anfetamina.
Ácido Gama-aminobutírico
O GABA é amplamente distribuído pelo sistema nervoso e é um aminoácido
formado a partir do aminoácido glutamato. O GABA é um neurotransmissor
que atua em dois subtipos distintos de receptores, nomeados GABA-A e GABAB. Os receptores GABA-A formam um canal para o íon cloreto. A ligação do
GABA aos receptores GABA-A abre esse canal, resultando em rápida difusão
de íons cloreto para dentro da célula, hiperpolarizando-a dessa forma e tornando-a
menos propensa a disparar um potencial de ação. Os efeitos sedativos e redutores de ansiedade dos benzodiazepínicos, dos barbitúricos e do álcool são derivados
de seu efeito no receptor GABA-A. Medicações antiepilépticas também atuam
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Ele também precisa ter um mecanismo específico para sua remoção da fenda sináptica.
Muitos tipos de neurotransmissores já foram descobertos, mas em geral existem
três categorias: neurotransmissores aminoácidos, neurotransmissores derivados
de aminoácidos e peptídeos, que são cadeias de aminoácidos. Os transmissores
aminoácidos incluem glutamato, GABA, glicina e aspartato. As monoaminas
(noradrenalina e dopamina [catecolaminas] e serotonina [indolamina]) são derivadas de aminoácidos. Neurotransmissores peptídicos de moléculas grandes
geralmente são sintetizados no corpo celular e transportados ao longo do axônio
para os botões terminais. Neurotransmissores de moléculas pequenas podem ser
sintetizados nos terminais.
Existem regiões distintas no cérebro nas quais há corpos celulares para um
neurotransmissor específico e outras regiões ou áreas de projeção para as quais
os axônios desses corpos celulares se projetam e em que o neurotransmissor é
finalmente liberado. Dessa maneira, nem todo neurotransmissor é liberado em
cada região cerebral. Isso permite que certas áreas do cérebro tenham funções
específicas. Alguns dos mais importantes neurotransmissores que dizem respeito
à neurociência da dependência são discutidos a seguir.
Mecanismos Cerebrais: Neurobiologia e Neuroanatomia – 35
facilitando a função do receptor GABA-A e bloquear o efeito do GABA pode
levar a convulsões. Esse é o motivo pelo qual a abstinência de benzodiazepínicos
e de álcool pode resultar em convulsões. Os receptores GABA-B são acoplados
à proteína G e a ligação do GABA ao GABA-B abre um canal de potássio.
Glutamato
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O glutamato é um neurotransmissor aminoácido excitatório, encontrado em todo
o cérebro. Ele é derivado de proteínas na dieta e é produzido por processos
metabólicos nas células. O glutamato atua em quatro subtipos de receptores: Nmetil-D-aspartato (NMDA), alfa-amino3-hidroxi-5-metil-isoxazol-4-propionato
(AMPA), de kainato e no receptor de glutamato metabotrópico. Alguns receptores de glutamato são acoplados a canais de sódio e, assim, podem mediar ações
rápidas (aproximadamente 1ms), enquanto outros receptores são acoplados a
canais de potássio através de proteína G e, assim, levam aproximadamente 1s
para responder. O glutamato é importante para o aprendizado e tem papel essencial no hipocampo. Alucinógenos, como a fenciclidina (PCP), atuam no subtipo
NMDA do receptor de glutamato. Além disso, acredita-se que vias glutamatérgicas têm papel muito importante em modular respostas neurais a várias outras
substâncias psicoativas.
Dopamina
A dopamina é um neurotransmissor derivado do aminoácido tirosina e relacionado estruturalmente à noradrenalina. A dopamina produz potenciais póssinápticos inibitórios. Está envolvida com os movimentos, o aprendizado e a
motivação. A dopamina tem função soberana na neurobiologia da dependência e será discutida em mais detalhes nos Capítulos 3 e 4. Os genes dos receptores de dopamina também vêm sendo altamente implicados na dependência
de substâncias em geral, assim como nas dependências de álcool e de nicotina.
Existem duas projeções dopaminérgicas principais no cérebro. Uma, a via
mesolímbica, projeta-se da ATV para o nucleus accumbens. Essa via parece
ser direta ou indiretamente ativada pela maioria das substâncias psicoativas.
Proximamente associado a ela, está a via dopaminérgica mesocortical, que se
projeta da ATV para o córtex. A segunda maior via dopaminérgica projeta-se
da substância negra para o striatum e é conhecida como via nigroestriatal. Na
doença de Parkinson, essa via sofre degeneração, provocando os distúrbios de
movimento característicos. A função dopaminérgica excessiva nos sistemas
dopaminérgicos mesolímbico e mesocortical, acredita-se, acarreta delírios e alucinações na esquizofrenia. É interessante notar que certas substâncias, como a
cocaína e as anfetaminas, podem, em altas doses, mimetizar algumas das características da esquizofrenia e do transtorno bipolar, pelas mesmas ações básicas
no sistema dopaminérgico.
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Noradrenalina
A noradrenalina é outra catecolamina que é derivada da tirosina. Corpos celulares que sintetizam noradrenalina são encontrados no lócus cerúleo e projetam-se
difusamente pelo cérebro. A noradrenalina está envolvida nas respostas de vigília e estresse. A cocaína e as anfetaminas afetam a transmissão de noradrenalina
aumentando sua concentração na fenda sináptica. Esse aumento na noradrenalina sináptica contribui para os efeitos estimulantes e recompensadores da cocaína e
das anfetaminas e também para a sensação de nervosismo e ansiedade que pode
acompanhar o uso dessas substâncias.
Serotonina
A serotonina, como a dopamina e a noradrenalina, é uma monoamina. É uma
indolamina derivada do aminoácido triptofano. Está envolvida na regulação do
humor, da vigília, da impulsividade, da agressividade, do apetite e da ansiedade.
Os corpos das células que sintetizam serotonina são encontrados no mesencéfalo
na região chamada de núcleos da rafe. Esses neurônios se projetam para várias
áreas no cérebro como o córtex, o hipotálamo e o sistema límbico. Existem
muitos subtipos de receptores de serotonina. No corpo, ela é encontrada no trato
gastrointestinal, nas plaquetas e na medula espinhal. Muitas drogas antidepressivas agem aumentando a ação da serotonina no cérebro. A serotonina também
está envolvida nas ações primárias de algumas drogas psicoativas, como a
dietilamida do ácido lisérgico (LSD) e o ecstasy, e nos efeitos da cocaína, das
anfetaminas, do álcool e da nicotina.
Peptídeos
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Peptídeos são cadeias de dois ou mais aminoácidos unidos por ligações peptídicas.
Existem vários peptídeos que estão difusamente distribuídos pelo sistema nervoso e pelo menos 200 neuropeptídeos identificados até esta data. Alguns são
hormônios que causam a liberação de outros hormônios, como o hormônio
liberador de corticotropina, de prolactina, de hormônio de crescimento, e há uma
grande variedade de peptídeos que foram originalmente descobertos no intestino, mas que também têm ações no cérebro, como colecistocinina, substância P e
polipeptídeo intestinal vasoativo. Os opióides endógenos também são uma classe importante de neurotransmissores peptídeos. Substâncias como a heroína e a
morfina se ligam aos receptores utilizados pelos opióides endógenos. Os peptídeos
controlam uma ampla variedade de funções no corpo, desde a ingesta alimentar
e o balanço hídrico, até modular a ansiedade, a dor, a reprodução e os efeitos
prazerosos dos alimentos e das drogas. Embora os opióides sejam largamente
reconhecidos como envolvidos na dependência de substâncias, outros peptídeos
também mostraram ter um papel (Kovacs, Sarnyai e Szabo, 1998; McLay, Pan e
Kastin, 2001; Sarnyai, Shaham e Heinrichs, 2001).
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Genes
Dentro do núcleo da célula estão os cromossomos feitos de cadeias de DNA. Os
cromossomos são feitos de diferentes grupos de instruções, ou genes, que codificam proteínas. O ácido ribonucléico mensageiro (mRNA) faz cópias de seções
do DNA que são transportadas para o citoplasma. No citoplasma, o mRNA se
liga aos ribossomos que lêem o código genético e produzem as proteínas apropriadas a partir de aminoácidos do citoplasma (ver Fig. 2.9). Essas proteínas são
utilizadas para exercer as funções da célula.
Os genes podem ser ligados ou desligados em diferentes momentos ao longo
da vida de um organismo. Alguns genes são ligados ou expressos apenas durante
o desenvolvimento. Outros são expressos em resposta a certos estímulos. Comer certos alimentos, por exemplo, podem aumentar a expressão de genes que
codificam as enzimas que irão degradar os constituintes do alimento. Expor-se
ao sol pode estimular a expressão de outros genes que fazem a pele tornar-se
mais pigmentada. Da mesma forma, drogas de todos os tipos podem provocar
mudanças na expressão gênica no cérebro. Mudanças na expressão gênica podem ocasionar mudanças na síntese protéica, que podem ter conseqüências tanto
a curto, como a longo prazo no comportamento. Esse conceito será abordado
em mais detalhes adiante.
Existem tanto semelhanças, como diferenças genéticas entre os seres humanos. Os mecanismos básicos de ação das drogas são comuns a todos. Entretanto,
existe variação individual considerável na resposta a essas drogas, no tipo particular de certos genes e na maneira pela qual estes interagem com o conjunto
de genes e com o ambiente no qual aquele indivíduo vive. As principais diferenças
genéticas atualmente conhecidas como relevantes para a dependência serão discutidas no Capítulo 5.
Efeitos Celulares e Neuronais das Substâncias Psicoativas
Efeitos Celulares
As substâncias psicoativas têm efeitos imediatos na liberação de neurotransmissores ou em sistemas de segundos mensageiros, mas também existem várias
mudanças que ocorrem na célula, tanto a curto, como a longo prazo, após uso
único ou repetido da substância.
Os locais primários de ação para a maioria das substâncias psicoativas são
os receptores da membrana celular e os processos de transdução de sinal em
cascata associados. Os efeitos a longo prazo, que surgem com a dependência de
substâncias, são geralmente mediados por alterações na transcrição, que acarreta
expressão genética alterada e mudanças subseqüentes na síntese de proteínas.
Como essas proteínas afetam a função do neurônio, essas mudanças se manifestam ao final por meio de comportamentos alterados do indivíduo. Entre as
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Papel da Proteína Ligadora de Elementos da Resposta
de Monofosfato de Adenosina Cíclico
O AMP cíclico estimula a expressão da CREB, que é um fator de transcrição. A
transcrição e a expressão gênica nos neurônios são reguladas por numerosos
fatores de transcrição. Estes são proteínas que se ligam a regiões dos genes para
aumentar ou diminuir sua expressão. Foi mostrado que as funções de diversos
fatores de transcrição são alteradas pelo uso de substâncias e, dessa maneira,
estão implicadas na dependência.
Alterações nas vias reguladas pela CREB estão entre as adaptações relacionadas à exposição crônica a substâncias psicoativas mais bem caracterizadas,
existindo evidência de regulação para cima e sensibilização de mecanismos ligados a cAMP/CREB (Nestler, 2001).
Papel do Regulador de Transcrição Fos
Outros fatores de transcrição induzidos pela exposição a substâncias psicoativas
pertencem à família da proteína Fos de genes de ativação imediata (immediate
early genes). Os produtos desses genes são induzidos muito rapidamente (daí o
nome) e têm papeis importantes na transdução de sinais mediados por receptor em
mudanças na expressão gênica. Essas mudanças na expressão gênica afetam a
expressão e a função de proteínas neuronais. Administrações isoladas de uma substância provocam aumento transitório em vários membros da família da proteína
Fos, mas com o uso crônico, uma variante modificada da FosB, delta-FosB, que é
mais estável, se acumula e persiste no nucleus accumbens (Hope et al., 1994). A
delta-FosB, uma vez gerada, tem meia-vida incomumente prolongada, resultando
em níveis persistentemente elevados (Keltz e Nestler, 2000). O acúmulo de delta-
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mudanças moleculares mais bem estabelecidas após o uso crônico de substâncias
é uma regulação para cima (upregulation) ou superativação da via do cAMP. O
cAMP é um segundo mensageiro intracelular que pode iniciar uma ampla variedade de mudanças na célula pós-sináptica.
A habilidade da exposição crônica aos opióides de regular para cima a via
do cAMP é conhecida há décadas (Sharma, Klee e Nirenberg, 1975). Além dos
opióides, a regulação para cima da via do cAMP foi observada em resposta ao
uso crônico de álcool e cocaína (Unterwald et al., 1993; Lane-Ladd et al., 1997).
Quando um sistema que foi regulado para cima pelo uso crônico de substâncias
é agudamente exposto à substância, o efeito agudo diminui, representando tolerância celular. Na ausência da substância, o sistema regulado para cima contribui
para os sintomas de abstinência (Nestler e Aghajanian, 1997). Os efeitos de um
sistema de AMPc regulado para cima foram demonstrados em várias outras regiões cerebrais, como o nucleus accumbens, o striatum, a ATV, o lócus cerúleo
e a substância cinzenta periaquedutal (Cole et al., 1995; Lane-Ladd et al., 1997;
Nestler e Aghajanian, 1997).
Mecanismos Cerebrais: Neurobiologia e Neuroanatomia – 39
FosB foi mostrado após uso crônico de cocaína, opióides, anfetamina, nicotina,
fenciclidina e álcool (Keltz e Nestler, 2000). Isso ocorre no nucleus accumbens e
no striatum dorsal e é um processo específico de drogas psicoativas (Moratalla et
al., 1996; Keltz e Nestler, 2000). A delta-FosB elevada pode então continuar a
afetar a expressão de muitos outros genes nos mesmos neurônios, os quais, por
alterações na transmissão sináptica, serão capazes de influenciar várias funções
neuronais localmente e em outras regiões cerebrais para as quais esses neurônios
se projetam. Isso fornece algum entendimento sobre a natureza das mudanças de
longa duração na composição neuronal que ocorrem e persistem muito além do
período do efeito agudo da droga.
Papel dos Sistemas de Receptores-alvo das Drogas
A estimulação repetitiva de receptores por drogas pode provocar alterações no
número e na função dos receptores. Por exemplo, exposição de longa duração à
nicotina aumenta o número de receptores nicotínicos de acetilcolina no cérebro
(Wonnacott, 1990; Marks et al., 1992).
O desenvolvimento de tolerância e dependência da morfina e de outros
opióides tem algumas características particulares. Quando o receptor µ-opióide
é ativado por opióides endógenos no cérebro, o receptor é internalizado pela
célula, como um meio de desligar o sinal ativador (Pak et al., 1996; Law, Wong
e Loh, 2000). Esse processo de dessensibilização do receptor é altamente protegido por receptores acoplados à proteína G. Em contraste, a ativação do receptor
µ-opióide pela morfina (Matthes et al., 1996) não induz a internalização do
receptor (ou o faz de maneira muito lenta) e ocorre prolongação anormal do
sinal ativador na superfície celular sem dessensibilização (Whistler et al., 1999).
Essa propriedade particular da morfina é fundamental em sua habilidade de induzir tolerância e abstinência.
Efeitos Neuronais
Como a dependência de substâncias induz alterações de comportamento de longa
duração e quase permanentes, a probabilidade de mudanças duradouras nos circuitos neurais é alta, influenciadas pela remodelagem e reestruturação dos
neurônios, como conseqüência das mudanças moleculares induzidas.
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Plasticidade Sináptica
A reorganização dos circuitos neurais pelas substâncias psicoativas pode ocorrer
pelas mudanças na liberação de neurotransmissores, no status dos receptores de
neurotransmissores, na sinalização mediada pelos receptores, ou no número de canais iônicos regulando a excitabilidade neuronal. Os mecanismos que mediam a
procura e o consumo compulsivo de drogas parecem mimetizar os mecanismos fisiológicos de aprendizado e memória (Hyman e Malenka, 2001; Nestler, 2001). Existem
muitos paralelos entre os processos que mediam o aprendizado e a memória e a
dependência de substâncias, que serão examinados em mais detalhes no Capítulo 3.
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Alterações na Estrutura Sináptica
Conclusão
Este capítulo forneceu uma visão geral da função cerebral normal e dos vários
processos distintos que interagem para produzir o comportamento. Alterações
em qualquer desses passos do processo (geração de potenciais de ação, mudanças
na atividade elétrica ou na condutância química, liberação de neurotransmissores,
recaptura de neurotransmissores, mudanças na função de segundos mensageiros,
expressão gênica alterada, conectividade sináptica alterada) podem alterar a função de outros processos interativos que, em última análise, podem afetar o
comportamento. Como será visto nos próximos capítulos, as substâncias psicoativas podem alterar profundamente processos neuronais, resultando nas características
comportamentais da dependência.
Os efeitos psicoativos e recompensadores imediatos do uso de substâncias
podem ser explicados ao se entender o mecanismo de ação farmacológico destas.
Além do mais, o desenvolvimento de tolerância e de abstinência e os efeitos de
longa duração do uso de substâncias também podem ser entendidos pelo conhecimento do mecanismo de ação da droga. Os efeitos das substâncias psicoativas
em processos mais complexos, tais como a motivação, também podem ser entendidos pelo conhecimento de seus efeitos no cérebro. Seus efeitos nos sistemas
motivacionais no cérebro serão discutidos no Capítulo 3. Os efeitos específicos
das principais substâncias psicoativas serão explorados no Capítulo 4.
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Alterações estruturais em diversas regiões cerebrais como conseqüências do uso
de substâncias têm sido mostradas. Os neurônios têm processos multiplamente
ramificados chamados dendritos e, após a ativação de um neurônio particular, o
aumento de espículas dendríticas é indicativo de estado ativado. A administração
de cocaína foi associada com um aumento acentuado no número de espículas
dendríticas nos neurônios do nucleus accumbens e do córtex pré-frontal (Robinson
e Kolb, 1999). Em contraste, há relativa perda de dendritos em algumas áreas,
como no hipocampo, em resposta ao uso crônico de morfina (Sklair-Tavron et
al., 1996; Eisch et al., 2000). Algumas das modificações comportamentais de
longa duração, vistas com o uso crônico de substâncias, irão, sem dúvida, se
relacionar com essas mudanças estruturais. Muitas das mudanças sinápticas são
vistas como mediadas por processos similares àqueles descobertos no aprendizado e memória (Hyman e Malenka, 2001).
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CAPÍTULO 3
PROCESSOS BIOCOMPORTAMENTAIS
SUBJACENTES À DEPENDÊNCIA
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Introdução
Este capítulo foca processos cerebrais envolvidos nos efeitos recompensadores
do uso de substâncias psicoativas, no reforço e no desenvolvimento da dependência. Sistemas biológicos, que evoluíram para guiar e direcionar o comportamento
para estímulos que são críticos para a sobrevivência, são recrutados e anormalmente fortalecidos pelo uso repetitivo de substâncias psicoativas, resultando no
ciclo de comportamentos característico da dependência.
Descreve também as hipóteses e evidências atuais sobre as bases biológicas
dos fatores psicológicos e comportamentais que contribuem para a dependência
de substâncias. A dependência é o resultado de interação complexa dos efeitos
fisiológicos das drogas nas áreas cerebrais associadas com motivação e emoção,
combinados com o aprendizado sobre a relação entre drogas e sinais relacionados
a drogas, e todos estes têm uma base biológica. Esses processos de aprendizado
são criticamente dependentes dos mesmos sistemas motivacionais e emocionais
do cérebro que são influenciados pelas substâncias psicoativas (Hyman e
Malenka, 2001).
Embora cada classe de substâncias psicoativas tenha seu mecanismo de ação
farmacológico particular (ver Cap. 4), todas as substâncias psicoativas ativam o
sistema dopaminérgico mesolímbico (Fig. 3.1). Este capítulo foca mecanismos
comuns a todas as substâncias psicoativas e que são responsáveis pelo conjunto
de sintomas característicos da dependência de substâncias. O sistema dopaminérgico mesolímbico, em particular, será ressaltado em razão de seu papel-chave
nos processos de aprendizagem e motivacionais. Em cada caso, diferenças individuais na biologia e no ambiente vão afetar os efeitos neurobiológicos das
substâncias psicoativas; entretanto, aqui são apresentados os mecanismos básicos que podem estar subjacentes ao desenvolvimento da dependência de uma
perspectiva biocomportamental.
A primeira seção deste capítulo fornece uma visão geral da teoria do aprendizado, da sua terminologia e de como ela se relaciona com a dependência. A próxima
seção explica como as propriedades particulares das substâncias psicoativas podem provocar dependência pela sensibilização do valor incentivador das drogas.
Os processos de abstinência e tolerância também são considerados. Finalmente,
diferenças individuais nas respostas às substâncias psicoativas serão discutidas.
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44 – Processos Biocomportamentais Subjacentes à Dependência
Córtex pré-frontal
Nucleus accumbens
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ATV
Figura 3.1 – Via dopaminérgica mesolímbica. Fonte: site do National Institute on Drug Abuse
(NIDA) http://www.drugabuse.gov/pubs/teaching/largegifs/slide-9.gif.
Definição de Termos
A ciência do comportamento está interessada em estudar os aspectos do comportamento que possam ser vistos e verificados objetivamente e em descrever o
comportamento em termos dos estímulos e das respostas a eles. O desenvolvimento da dependência pode ser visto como um processo de aprendizado, no
sentido em que mudanças duradouras no comportamento resultam de interações com
as drogas e com os ambientes relacionados a elas. As substâncias psicoativas
causam profunda ativação de áreas específicas do cérebro envolvidas na motivação, nomeadas sistema dopaminérgico mesolímbico (ver Fig. 3.1). Por meio de
processos de aprendizado associativos, isso pode acarretar sintomas clássicos
da dependência após exposição repetitiva.
O Quadro 3.1 apresenta algumas definições de termos utilizados.
Princípios básicos do aprendizado vêm sendo estudados há décadas e aplicados ao campo da dependência de drogas. As duas principais teorias do aprendizado e comportamento são relevantes: condicionamento clássico ou pavloviano
e condicionamento instrumental ou operante.
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Processos Biocomportamentais Subjacentes à Dependência – 45
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Quadro 3.1 – Definições
Abstinência
Mudança comportamental desadaptativa, com alterações fisiológicas e cognitivas
concomitantes, que ocorre quando as concentrações da substância no sangue ou
nos tecidos caem em um indivíduo que tenha mantido uso pesado e prolongado da
substância.
Aprendizado
Processo que resulta em mudança relativamente permanente no comportamento ou
no potencial comportamental fundamentado na experiência.
Cognição
O processo de conhecer, incluindo observar, lembrar, raciocinar, etc., assim como o
conteúdo desses processos, como conceitos ou memórias.
Condicionamento clássico
Também chamado condicionamento pavloviano após os experimentos de Pavlov com
cães, nos quais estímulos como o som de uma campainha, repetidamente pareado
com a apresentação de alimento, acarretaram, no fim, salivação nos cães na ausência
de comida. O condicionamento clássico é a forma mais simples de aprender novas
respostas a estímulos e sobre a relação entre estímulos. É uma forma de aprendizado
em que um estímulo previamente neutro (estímulo condicionado) ganha poder sobre
o comportamento pela associação com um estímulo biologicamente relevante (estímulo
incondicionado) e pode eliciar a mesma resposta comportamental ou fisiológica
(resposta incondicionada) que o estímulo incondicionado. A resposta ao estímulo
condicionado é chamada resposta condicionada.
Dependência
Agrupamento de sintomas cognitivos, comportamentais e fisiológicos indicando que
o indivíduo continua o uso da substância apesar de problemas significativos
relacionados à substância.
Emoção
Fenômeno complexo, incluindo estado de alerta fisiológico, sentimentos, processos
cognitivos e reações comportamentais que ocorrem em resposta a situações percebidas
como pessoalmente significativas.
Estímulo
Qualquer evento no ambiente que seja detectado pelos órgãos dos sentidos pode ser
um estímulo.
Estímulo condicionado
No condicionamento clássico, o estímulo previamente neutro que passa a eliciar uma
reposta condicionada.
Fissura
Fissura por droga é o desejo pelos efeitos previamente experimentados de uma
substância psicoativa. O desejo pode se tornar intenso, compelindo para o uso, e
pode aumentar na presença de sinais tanto internos como externos, particularmente
com a percepção da disponibilidade da substância. É caracterizado por aumento na
probabilidade de comportamento de busca pela droga e, em humanos, de pensamentos
relacionados à droga.
(Continua)
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46 – Processos Biocomportamentais Subjacentes à Dependência
Quadro 3.1 – (Cont.) Definições
Hábito
Comportamento realizado automaticamente, em resposta a estímulos específicos,
que independe de seu resultado.
Habituação
Diminuição na capacidade de um estímulo de eliciar resposta.
Incentivo-motivação
Motivação em conseqüência de estímulos que eliciam respostas com base nas suas
contingências com outros estímulos (princípio pavloviano).
Memória
A capacidade mental de armazenar e, mais tarde, reconhecer ou relembrar eventos
que foram experimentados previamente.
Reforçador
Estímulo que fortalece respostas às quais seja contingenciado (isto é, às quais
confiavelmente se segue).
Reforço
O aumento na probabilidade de que um comportamento volte a ocorrer em razão de
suas conseqüências.
Resposta condicionada
No condicionamento clássico (ou pavloviano), a resposta eliciada por um estímulo
previamente neutro, que ocorre como resultado do pareamento de um estímulo neutro
com um estímulo incondicionado.
Sensibilização
Aumento no efeito da droga após uso repetido. Pode ser expressa como sensibilização
comportamental e, presumivelmente, resulta de sensibilização neural. (Aumento na
capacidade do estímulo de eliciar resposta.)
Tolerância
Diminuição no efeito da mesma dose da droga após uso repetido.
Condicionamento Clássico ou Pavloviano
O condicionamento clássico ou pavloviano baseia-se em relações estímulo-resposta simples como ilustrado na Figura 3.2.
• Um estímulo, como o surgimento de uma luz, normalmente não elicia
uma resposta particular, ou seja, é um estímulo neutro.
• Quando uma lufada de ar é lançada no olho, ela necessariamente elicia
uma resposta: o olho pisca. A lufada de ar é um estímulo não condicionado e o piscar do olho é uma resposta não condicionada. A resposta não
condicionada ocorre em resposta ao estímulo não condicionado.
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Recompensa
Estímulo primário, incondicionado, que utiliza modalidades sensoriais (por exemplo,
gustativa, tátil, térmica) e fornece sentimentos de prazer ou bem-estar.
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Processos Biocomportamentais Subjacentes à Dependência – 47
• O estímulo não condicionado (lufada de ar) é repetidamente pareado com
o estímulo neutro (luz).
• Por fim, a luz isoladamente é capaz de eliciar a mesma resposta (piscar do
olho) que a lufada de ar, assumindo que uma lufada de ar iria se seguir. A
luz é agora conhecida como estímulo condicionado e a resposta a ela é a
resposta condicionada.
Esse tipo de condicionamento pode acontecer inclusive com comportamentos
complexos como respostas emocionais e a fissura por drogas. Propagandas de
produtos com álcool e tabaco geralmente tentam parear seus produtos com
imagens que criam uma resposta emocional positiva. Isso resulta na associação formada no cérebro entre o produto e a resposta emocional evocada pela
propaganda. Para o indivíduo com dependência de substância, a visão da
parafernália relacionada à droga (por exemplo, seringas, instrumentos para
fumar) ou a exposição a ambientes nos quais as drogas foram previamente
usadas pode induzir a fissura pelas drogas e a recaída do uso da substância
pelos processos do condicionamento clássico. Como discutido posteriormente
neste capítulo, as bases neurobiológicas dessas associações com respeito à
dependência de substâncias psicoativas parecem ser sinais dopaminérgicos no
nucleus accumbens.
Condicionamento Instrumental ou Operante
O condicionamento instrumental ou operante difere do condicionamento clássico
ou pavloviano na medida em que, neste último, o organismo não tem controle
Estímulo neutro
Sem resposta
Estímulo não
condicionado
Resposta não
condicionada
Estímulo não
condicionado
Resposta não
condicionada
Estímulo neutro
Estímulo
condicionado
Resposta
condicionada
Figura 3.2 – Condicionamento clássico ou pavloviano (ver texto).
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48 – Processos Biocomportamentais Subjacentes à Dependência
Reforçador
Um reforçador é comumente definido como um estímulo que aumenta respostas
às quais seja contingente (isto é, às quais ele freqüentemente se siga). Assim, se
alguém põe dinheiro em uma máquina de vendas para obter uma barra de chocolate, o chocolate atua como reforçador ao comportamento de colocar dinheiro
na máquina.
Recompensa
É um termo quase sempre usado na psicobiologia da dependência de substâncias
para descrever os efeitos prazerosos da droga. Em geral, recompensas são estímulos que fornecem motivação positiva para o comportamento.
Uma característica fundamental das recompensas é a transferência de suas
propriedades motivacionais para estímulos que predizem sua ocorrência e o aumento das respostas às quais sejam contingentes. Por essa razão, recompensas
são reforçadores. Embora muitas drogas sejam utilizadas por suas propriedades
de produzir prazer ou recompensadoras, isso não pode explicar toda a gama de
processos comportamentais envolvidos na dependência de substâncias (Robinson
e Berridge, 2000). Muitos estímulos podem servir como recompensas, mas poucos
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sobre a apresentação do estímulo. Por exemplo, quando o estímulo condicionado (luz) surge, a resposta condicionada (piscar de olhos) ocorre. Em contraste,
no condicionamento instrumental, o comportamento do organismo produz o
estímulo. Isto é, o comportamento ocorre devido às conseqüências que ele produz; ele é instrumental em produzir conseqüências. Muitas vezes, referem-se a
eles como comportamentos direcionados à meta. Existem três categorias principais
de condicionamento instrumental, como ilustrado na Figura 3.3: reforço positivo, reforço negativo e punição. No reforço positivo, um comportamento provoca
estímulo prazeroso, que reforça a repetição do comportamento. Por exemplo,
animais podem ser treinados para pressionar uma alavanca para obter uma bolinha de comida. Assim, o comportamento produz a comida, que é o estímulo. Se
o animal deseja comida, ele aprende a pressionar a alavanca para obtê-la. No
reforço negativo, um comportamento elimina ou previne um estímulo aversivo
o que, novamente, reforça o comportamento ou aumenta a probabilidade do
comportamento voltar a ocorrer. Na punição, o comportamento elicia um estímulo aversivo. Nesse caso, o comportamento é menos provável de ocorrer
novamente. O condicionamento instrumental é importante no uso e na dependência de substância, uma vez que a pessoa executa respostas operantes quando
escolhe adquirir e usar substâncias psicoativas para experimentar seus efeitos.
Sistemas dopaminérgicos mesolímbicos também são vistos como importantes
no aprendizado instrumental sobre os efeitos das substâncias psicoativas.
As seções seguintes irão examinar aspectos da teoria do aprendizado à medida que se relacionam com a dependência.
Processos Biocomportamentais Subjacentes à Dependência – 49
Reforço positivo
+
Estímulo prazeroso
ou agradável
Comportamento
Reforço negativo
+
Elimina ou previne
estímulo aversivo
Comportamento
Punição
–
Comportamento
Estímulo aversivo
Figura 3.3 – Exemplos de condicionamento instrumental (ver texto).
têm o valor profundo de se sobrepor a tudo como as substâncias psicoativas têm,
tanto assim que podem causar sintomas e comportamentos característicos da
dependência (ver Cap. 1).
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Incentivo
O termo incentivo foi originalmente usado para se referir à habilidade de certos
estímulos de eliciar padrões de resposta espécie-específicos, como orientação,
aproximação e exploração (Bindra, 1974). Esse termo indica que a resposta é
uma conseqüência do estímulo (incentivo). Dessa forma, enquanto reforçadores
atuam como conseqüências da resposta, incentivos atuam como premissas. Um
exemplo de um incentivo é um estímulo associado com alimento, como o cheiro, a visão de um restaurante ou uma propaganda de comida. Esses estímulos
podem liberar certas respostas que dirigem a atenção e o comportamento para a
aquisição do alimento e ativam os circuitos motivacionais do cérebro com o
objetivo de consegui-lo. Esse exemplo ilustra que os incentivos têm duas propriedades. A primeira é uma propriedade direcional que promove respostas dirigidas
para o incentivo e a recompensa para a qual ele foi condicionado. A segunda é
uma propriedade de ativação que promove um estado de incremento motivacional.
Essas duas propriedades têm suas rotas biológicas no sistema dopaminérgico
mesolímbico e atuam juntas para direcionar o comportamento para as metas.
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50 – Processos Biocomportamentais Subjacentes à Dependência
Motivação
É a distribuição de recursos atencionais e comportamentais para estímulos de
acordo com suas conseqüências preditas. A motivação, portanto, envolve o aprendizado de relações preditivas (contingências) entre estímulos neutros e aqueles
biologicamente significativos e entre respostas e seus resultados. O aprendizado
dessas contingências habilita o sujeito a atuar de maneira que resulte nos desfechos
mais desejáveis.
Respostas Incentivo-motivacionais
Recompensa da Droga isoladamente não
Explica a Dependência de Drogas
A auto-administração de drogas para uso não terapêutico e não médico é provavelmente tão antiga quanto a civilização e a cultura humana e comprova que as
drogas agem como reforçadores positivos (Johanson e Uhlenhuth, 1978). Adicionalmente, a propriedade de eliciar sentimentos prazerosos também indica que as
drogas são realmente recompensadoras. As propriedades recompensadoras da droga
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Responder de maneira incentivo-motivacional é responder com base na motivação eliciada por um estímulo externo. A resposta é uma função do valor percebido
do estímulo pelo organismo. A base dessa forma de resposta motivada foi gravada
pela evolução no cérebro dos organismos, inclusive humanos. Assim, certos estímulos, como o gosto de um doce ou o som de um predador, evocam respostas
que, dependendo do estímulo, envolvem aproximar-se ou evitar o objeto ou organismo do qual se originam. A resposta incentivo-motivacional é, entretanto,
sujeita aos princípios do condicionamento e, portanto, estímulos associados com
os estímulos não condicionados primários podem adquirir propriedades incentivo-motivacionais. Assim, indivíduos com dependência de substância podem
procurar pessoas ou lugares previamente associados com o uso da droga.
Como um exemplo de resposta incentivo-motivacional, considere o exemplo
anterior da visão ou cheiro de alimento. Se a pessoa não está com fome, pode
haver pouco valor incentivo-motivacional e nenhuma atenção será direcionada
para o alimento, sem tentativa de obtê-lo. Se a pessoa está com fome, o incentivo
do alimento pode fazê-la se orientar para o alimento, começar a salivar e se preparar para comer. Se extremamente com fome, o valor incentivo-motivacional do
alimento será muito alto e pode levar a pessoa a focar especificamente o alimento,
excluindo outros estímulos, a tornar-se preocupada com alimento e, possivelmente, se engajar em comportamentos arriscados com o objetivo de obtê-lo. De maneira
similar, como descrito nas seções seguintes, uma vez que as drogas se tornam
reforçadores condicionados, seu valor incentivo-motivacional pode se tornar maior
do que qualquer outra motivação competidora.
Processos Biocomportamentais Subjacentes à Dependência – 51
não necessariamente consistem em sensações totalmente prazerosas, como os efeitos típicos das anfetaminas e da heroína ou do crack inalado (base de cocaína),
mas podem ter formas mais leves de hedonismo, como alívio da tensão, redução
da fadiga, aumento do alerta, ou melhora do desempenho. Essas sensações positivas podem explicar por que as drogas são usadas, mas não necessariamente por que
podem produzir o repertório comportamental característico da dependência. Em
particular, a recompensa da droga sozinha não pode explicar a dependência de
drogas, uma condição caracterizada pelo uso compulsivo e repetitivo de drogas e
pelo foco do comportamento motivado para as drogas excluir metas alternativas e pela
ocorrência de problemas familiares, sociais e médicos.
Claramente, as propriedades recompensadoras das drogas, pelo menos na
medida em que as entendemos em comparação com recompensas convencionais, não explicam completamente as anormalidades comportamentais associadas
com seu uso.
No contexto da dependência, é importante lembrar que durante a vida muitas pessoas experimentam uma variedade de drogas potencialmente causadoras
de dependência, mas a maioria não se torna dependente. Portanto, as questões se
tornam especificamente:
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• Qual é o processo pelo qual o comportamento de usar drogas, em certos
indivíduos, evolui para os padrões compulsivos do comportamento de usar
e buscar drogas que ocorre à custa da maior parte das outras atividades?
• A que se deve a inabilidade de alguns usuários compulsivos de drogas de
parar de usá-las?
Uma complexa inter-relação de fatores psicológicos, neurobiológicos e individuais parece ser responsável. Esta seção irá abranger alguns dos princípios
gerais relacionados aos efeitos das substâncias psicoativas nos processos de
aprendizado e motivacionais que podem ocorrer durante o desenvolvimento da
dependência. Claramente, a genética individual e o pano de fundo ambiental
influenciarão a expressão comportamental final dessas influências. Esses fatores serão considerados separadamente em outras seções desta publicação. A
discussão a seguir tem a intenção de fornecer informações sobre como o uso de
substâncias interage com os sistemas motivacionais no cérebro e contribuem
para o desenvolvimento da dependência.
Dependência de Drogas como Resposta ao Incentivo-motivação
Embora não suficientes, as propriedades recompensadoras das drogas são, de
qualquer forma, necessárias para seus efeitos de produzir dependência por pelo
menos duas razões. Primeiro, a recompensa da droga, por promover a autoadministração dela, é necessária para a exposição repetitiva à droga. Em segundo
lugar, as propriedades recompensadoras das drogas são necessárias por atribuir
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52 – Processos Biocomportamentais Subjacentes à Dependência
Dependência de Droga como Resposta à Abstinência da Droga
Além do entendimento da dependência de droga em termos das teorias de incentivos, ela também pode ser vista como resposta às reações de abstinência.
Teorias iniciais da dependência de drogas, por exemplo, colocaram maior ênfase nos efeitos físicos da abstinência como um fator da dependência de droga
(Himmelsbach, 1943). Nesse aspecto, as conseqüências físicas adversas dos efeitos da abstinência são vistas como determinantes motivacionais chaves do uso
sustentado de drogas pelos mecanismos de reforço negativo (ver Fig. 3.3). Entretanto, é possível haver dependência sem abstinência e abstinência sem
dependência. Por exemplo, é possível ter dependência de cocaína ou álcool, mas
não experimentar sintomas de abstinência entre os episódios de uso. Também
pode haver sintomas de abstinência na ausência de dependência como após uso
médico prolongado de benzodiazepínicos ou morfina. Esses fatores são reconhecidos nos critérios diagnósticos, nos quais a abstinência não é necessária
nem suficiente para o diagnóstico de dependência (ver Cap. 1). Por essas razões,
teorias mais recentes sobre a dependência tiraram a ênfase dos sintomas físicos
de abstinência em favor da dependência motivacional produzida, em parte, por
estados de humor negativos induzidos pela abstinência, como a anedonia e a
disforia. Esse estado, por meio de mecanismos de reforço negativo, poderia manter a auto-administração da droga, porque esta remove o estado emocional
negativo da abstinência (Koob et al., 1989, 1997). A vantagem dessa versão
moderna, sobre as teorias iniciais de dependência física, é que a dependência
motivacional tem propriedades que são comuns a diferentes classes de substâncias psicoativas, enquanto as propriedades de dependência física diferem
amplamente de uma classe para outra.
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– por um mecanismo de aprendizado associativo – valor motivacional positivo a
estímulos que predizem a disponibilidade de drogas e atuam como incentivos
poderosos ao comportamento de busca de drogas.
Como as drogas psicoativas têm propriedades fortemente reforçadoras e como
essas propriedades reforçadoras podem aumentar o valor motivacional das drogas e de estímulos associados a drogas (por exemplo, ambientes nos quais as
drogas são utilizadas, a presença de traficantes e usuários de drogas, a visão do
aparato para uso de droga) pelo pareamento repetido, a resposta incentivomotivacional para as drogas e os estímulos associados a elas são aumentados
(Wikler, 1973; Goldberg, 1976; Stewart, de Wit e Eikelboom, 1984; Childress et
al., 1988; O’Brien et al., 1992; Robinson e Berridge, 1993; Di Chiara, 1998).
Portanto, a droga é usada, tem efeitos recompensadores e reforça o comportamento de uso e os estímulos associados. A questão é então: por quê as substâncias
psicoativas são reforçadores tão poderosos que podem acarretar o desenvolvimento de dependência?
Processos Biocomportamentais Subjacentes à Dependência – 53
Dopamina e Aprendizado por Reforço
O papel da dopamina no aprendizado por reforço de resposta está na rota dos
modelos atuais de respostas instrumentais (Montague, Dayan e Sejnowski, 1996;
Schultz, Dayan e Montague, 1997). Esse é o porquê, embora diferentes classes
de substâncias psicoativas tenham variados mecanismos de ação farmacológicos
primários, a dopamina é importante para o desenvolvimento de dependência
para todas as classes, em decorrência do seu papel crítico no aprendizado por
reforço de resposta. Quase todas as substâncias psicoativas com propriedades reforçadoras ativam dopamina mesolímbica, seja direta ou indiretamente. De acordo
com esses modelos, a dopamina é liberada em resposta à recompensa não esperada. Isso provoca fortalecimento das conexões sinápticas em vias neurais que
conduz ao comportamento que esteve associado com a recompensa. Ainda que as
substâncias psicoativas atuem por uma ampla variedade de mecanismos farmacológicos primários, quase todas, no final, influenciam a função dopaminérgica
mesolímbica, motivo pelo qual a dopamina é um neurotransmissor tão importante na neurociência da dependência. A dopamina é liberada em resposta a
todas as recompensas não esperadas, reforçando, dessa forma, os comportamentos que causaram a ocorrência da recompensa.
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Drogas Produtoras de Dependência como Substitutos
de Reforçadores Convencionais
Reforçadores relacionados ou não a drogas (por exemplo, estímulos associados
com alimento, água ou sexo) compartilham similaridades comportamentais e
neuroquímicas. Por exemplo, reforçadores relacionados ou não a drogas compartilham a propriedade de ativar a transmissão dopaminérgica preferencialmente
na região do nucleus accumbens conhecida como concha (Pontieri, Tanda e Di
Chiara, 1995; Robbins e Everitt, 1996; Bassareo e Di Chiara, 1997; Tanda,
Pontieri e Di Chiara, 1997; Bassareo e Di Chiara, 1999). Por essa razão, as
drogas produtoras de dependência reproduzem certos efeitos neuroquímicos
centrais de reforçadores convencionais (Di Chiara et al., 1993), obtendo, assim,
significância motivacional no cérebro.
As drogas que produzem dependência, entretanto, diferem de reforçadores
convencionais à medida que seus efeitos estimulantes na liberação de dopamina
no nucleus accumbens são significativamente maiores do que reforçadores naturais, tais como alimentos. Enquanto o alimento aumenta os níveis de dopamina
no nucleus accumbens em torno de 45%, as anfetaminas e a cocaína elevam o
nível de dopamina em cerca de 500% (Hernandez e Hoebel, 1988). O sistema
dopaminérgico mesolímbico reforça comportamentos e sinais que estão associados com os estímulos que são críticos para a sobrevivência, como alimentação e
reprodução. Como as substâncias psicoativas também ativam esse circuito tão
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54 – Processos Biocomportamentais Subjacentes à Dependência
Dopamina e Sensibilização de Incentivo
Pensou-se originalmente que a dopamina mediaria as propriedades recompensadoras ou hedônicas de reforçadores relacionados ou não a drogas (Wise,
1982). Entretanto, evidências obtidas subseqüentemente sugeriram que a dopamina afetaria a motivação para responder pela recompensa, em vez da experiência
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poderosamente e com tanta confiabilidade, o comportamento de consumir drogas e os estímulos associados são registrados no cérebro como criticamente
importantes. A estimulação repetitiva e profunda da transmissão dopaminérgica
induzida pelas drogas no nucleus accumbens fortalece anormalmente as associações
estímulo-drogas (aprendizado por incentivo pavloviano). Por esse mecanismo,
os estímulos, que estão associados ou predizem as drogas, recebem grande valor
motivacional, tornando-se, portanto, capazes de facilitar um comportamento que
seja instrumental para a auto-administração da droga.
A reincidência no uso da substância é sabidamente desencadeada por pistas
previamente pareadas com o uso de substância, pela influência ou presença da
droga (Stewart, 2000). Todos esses fenômenos são mediados por aumento na
dopamina mesolímbica. Assim, a atividade nesses circuitos pode mediar não
apenas os efeitos recompensadores primários das drogas, mas também o condicionamento de estímulos secundários e a habilidade desses estímulos de desencadear
fissura e recaída.
Técnicas de imagem funcional cerebral (ver Cap. 2) estão começando a revolucionar o estudo de conceitos antes obscuros, como fissura, que agora podem
ser visualizados em regiões cerebrais particulares. Por exemplo, a ativação do
sistema dopaminérgico mesolímbico e de outras regiões cerebrais pela cocaína
(Breiter et al., 1997), heroína (Sell et al., 1999), álcool (Wang et al., 2000),
nicotina (Volkow et al., 1999), ou qualquer outra substância psicoativa pode ser
observada utilizando técnicas funcionais de imagem. Além do mais, respostas
cerebrais a preditivos de drogas ou a pistas associadas com o uso de drogas
podem ser mensuradas. Isso é muito importante em termos do estudo da fissura
e da recaída. Quando pistas visuais ou verbais associadas com heroína ou cocaína
são apresentadas a pessoas que usam essas substâncias, elas resultam em ativação metabólica em regiões cerebrais associadas com a expectativa de recompensa
e aprendizado (Childress et al., 1999; Sell et al., 1999; Wang et al., 1999; Sell et
al., 2000). Esses estudos também descobriram que auto-relatos de fissura ou
urgência para usar correlacionam-se fortemente com mudanças metabólicas
em regiões cerebrais específicas. Isso indica que conceitos antes imensuráveis,
como a fissura, estão agora começando a ser fenômenos quantificáveis e
mensuráveis associados com regiões cerebrais específicas. Além disso, o condicionamento de estímulos secundários com os efeitos das drogas também pode ser
mensurado.
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Processos Biocomportamentais Subjacentes à Dependência – 55
da recompensa propriamente dita (Phillips e Fibiger, 1979; Gray e Wise, 1980).
Nessa base, foi formulada a hipótese que a dopamina media as propriedades
incentivo-motivacionais tanto de reforçadores primários (recompensas) como
de reforçadores secundários (Gray e Wise, 1980).
A hipótese anterior foi depois modificada para distinguir entre as propriedades recompensadoras das drogas e as propriedades eliciadoras de resposta das
drogas. À dopamina mesolímbica foi atribuído papel no eliciamento de resposta,
mas não na recompensa (Robinson e Berridge, 1993; Berridge, 1996; Berridge e
Robinson, 1998; Robinson e Berridge, 2000). Em outras palavras, as razões pelas
quais as pessoas apreciam os efeitos primários das substâncias psicoativas podem
ter relação com seus efeitos em diferentes sistemas neurotransmissores, mas o
desejo de repetir o uso da droga vem da ativação do sistema dopaminérgico mesolímbico cerebral que guia o comportamento motivado. Como as substâncias
psicoativas ativam o sistema dopaminérgico mesolímbico e como este tem papel
primário em guiar o comportamento motivado, a exposição repetida do cérebro a
substâncias psicoativas faz com que associações fortes sejam formadas. O mecanismo pelo qual a dopamina exerce sua função é chamado de sensibilização de
incentivo. Assim, o cérebro torna-se mais sensível ou sensibilizado aos efeitos
motivacionais e recompensadores das substâncias psicoativas.
Foi formulada a hipótese de que esse processo de sensibilização de incentivo
produz padrões compulsivos de comportamento de busca de droga. Por meio de
aprendizado associativo, o valor de incentivo aumentado torna-se focado especificamente em estímulos relacionados à droga, levando a mais e mais padrões
compulsivos de comportamentos de busca e uso de drogas.
Sensibilização Psicomotora
A maioria dos estudos laboratoriais, mostrando que a administração repetida de
substâncias psicoativas pode produzir sensibilização do sistema dopaminérgico
mesolímbico, envolve duas medidas: medidas dos níveis de dopamina e seus metabólitos no nucleus accumbens e medidas dos efeitos de ativação psicomotora
das drogas, como as suas habilidades em aumentar a atividade locomotora em
animais de laboratório. Estudos sobre os efeitos de ativação psicomotora das
drogas são relevantes para a dependência porque o sistema dopaminérgico
mesolímbico controla tanto a locomoção como o comportamento e a locomoção
é um ensaio comportamental mais facilmente observável da função do nucleus
accumbens (Wise e Bozarth, 1987).
Existe, atualmente, evidência considerável de que a administração intermitente e repetida de substâncias que estimulam a psicomotricidade resulta em
aumento progressivo em seus efeitos de ativação psicomotora. A sensibilização
psicomotora foi mostrada para anfetaminas, cocaína, metilfenidato, fencanfamina,
morfina, fenciclidina, ecstasy, nicotina e etanol (Robinson e Berridge, 1993).
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A sensibilização é marcadamente persistente e animais que foram sensibilizados podem permanecer hipersensíveis aos efeitos de ativação psicomotora
das drogas por meses ou anos (Robinson e Becker, 1986; Paulson, Camp e
Robinson, 1991). É importante notar que a sensibilização pode se desenvolver
mesmo após a droga ser auto-administrada (Hooks et al., 1994; Phillips e Di
Ciano, 1996; Marinelli, Le Moal e Piazza, 1998) e que, dessa forma, os modelos
experimentais são válidos do uso de substâncias por humanos.
Sensibilização e Recompensa da Droga
Estudos mostram que a sensibilização resulta dos efeitos de ativação psicomotora,
assim como dos efeitos recompensadores das drogas psicoativas (Schenk e
Partridge, 1997). Portanto, com a exposição repetida às drogas ao longo do tempo, seus efeitos recompensadores subjetivos são aumentados. (Note que isso
contrasta com a tolerância a curto prazo que pode ocorrer em uma única sessão
de consumo de droga. A sensibilização se desenvolve em dias, semanas ou meses.)
Imagina-se que a mudança do uso de substância para a dependência de substância pode estar proximamente relacionada com o fenômeno da sensibilização
(Deroche, Le Moal e Piazza, 1999).
Existe um grande conjunto de dados mostrando que a sensibilização está
associada a mudanças marcadas no sistema dopaminérgico mesolímbico. Existem tanto mudanças pré-sinápticas (aumento na liberação de dopamina) como
mudanças pós-sinápticas (alterações na sensibilidade de receptores). Ademais,
modificações estruturais na resposta neuronal no nucleus accumbens e no córtex
pré-frontal também se seguiram à sensibilização por anfetaminas e cocaína
(Robinson e Kolb, 1997; 1999).
Sensibilização e Tolerância
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É importante, nesse ponto, enfatizar, novamente, que esta discussão foca a sensibilização do sistema dopaminérgico mesolímbico, isto é, o aumento da dopamina
no nucleus accumbens, que é observado na exposição repetida à droga e que foi
relatado para substâncias psicoativas de todas as classes.
A tolerância pode ser definida como uma determinada droga produzir efeitos
declinantes com doses repetidas ou quando doses maiores precisam ser administradas para produzir o mesmo efeito (Jaffe, 1985, 1990). Existe tolerância diferencial
aos estimulantes psicomotores, significando que a tolerância se desenvolve para
alguns dos efeitos da droga, mas não para outros. Na realidade, como será discutido, alguns efeitos da droga aumentam após uso repetido da droga. Em humanos,
a tolerância rapidamente se desenvolve aos efeitos anoréxicos e aos efeitos letais
das anfetaminas e da cocaína (Angrist e Sudilovsky, 1978; Hoffman e Lefkowitz,
1990). Entretanto, não se observou tolerância ou mudança na sensibilidade
das respostas comportamentais após doses orais diárias repetidas de 10mg de
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D-anfetamina (Johanson, Kilgore e Uhlenhuth, 1983). De maneira similar, não se
desenvolve tolerância para o barato subjetivo, após doses orais diárias repetidas
de 10mg de metanfetamina, mas a tolerância se desenvolve para os efeitos cardiovasculares com doses diárias repetidas (Perez-Reyes et al., 1991). Alguma tolerância
aguda parece se desenvolver para os efeitos cardiovasculares da cocaína mesmo
em um período de 4h de infusão (Ambre et al., 1988). Os efeitos subjetivos,
comportamentais e cardiovasculares também diminuem após doses orais seqüenciais de D-anfetamina, apesar dos níveis plasmáticos substanciais, sugerindo
tolerância aguda (Angrist et al., 1987). A tolerância não se desenvolve para o
comportamento estereotipado e para a psicose induzida por estimulantes e, de
fato, esses efeitos comportamentais parecem mostrar sensibilização ou aumento
com a administração repetida (Post et al., 1992). Resultados similares foram observados em estudos animais, com a tolerância se desenvolvendo aos efeitos
anoréxicos e letais da anfetamina, mas não ao comportamento estereotipado
(Lewander, 1974). Isso também é verdadeiro para a tolerância à nicotina, ao álcool e
aos benzodiazepínicos, que também se desenvolve para alguns efeitos da droga,
mas não para outros. A tolerância em classes específicas de substâncias psicoativas
será discutida mais adiante no Capítulo 4.
A tolerância também pode se desenvolver como resultado de indução
enzimática metabólica, isto é, enzimas que estão envolvidas no metabolismo da
droga podem aumentar sua atividade na presença de concentrações crescentes
da droga. O metabolismo do álcool e da nicotina pelas enzimas do citocromo
P450 no fígado pode ser aumentado dessa forma e, assim, doses maiores são necessárias para que a droga atinja os mesmos efeitos que tinha antes da indução
enzimática. A tolerância também pode se desenvolver em conseqüência das
mudanças no número ou na sensibilidade dos receptores. Esses conceitos serão
discutidos no Capítulo 4.
Embora a tolerância e a sensibilização a diferentes aspectos dos efeitos das
drogas possam coexistir (Hyman e Malenka, 2001), sensibilização e tolerância
são essencialmente fenômenos distintos.
A sensibilização ocorre em conexão com os efeitos recompensadores das
substâncias psicoativas e parece ser muito importante na aquisição do uso persistente de substância (Schenk e Partridge, 1997). Essa sensibilização pode ocorrer
tanto por intermédio de fatores pré-exposição quanto ambientais, como o estresse
(Antelman et al., 1980; Cador et al., 1992; Deroche et al., 1992; Henry et al.,
1995; Badiani, Oates e Robinson, 2000). Uma característica-chave da sensibilização é que ela é duradoura (Robinson e Becker, 1986). Ao contrário, a tolerância
aos efeitos comportamentais de uma droga parece ser mais transitória e associada com alta freqüência de seu uso em curto período (Schenk e Partridge, 1997).
Novamente, é fundamental enfatizar que a tolerância e a sensibilização podem
coexistir em relação a diferentes aspectos dos efeitos da droga (Hyman e Malenka,
2001) e que a tolerância pode ter tanto aspectos agudos como crônicos.
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58 – Processos Biocomportamentais Subjacentes à Dependência
Diferenças Individuais
Resumo
A dependência de substância pode ser vista como o resultado da ação de vários
fatores. Nos estágios iniciais do uso de substância, como resultado da curiosidade, por pressão, fatores de marketing social, onipresença da exposição, traços de
personalidade e outros fatores relacionados, o sujeito entra em contato com a
droga com efeitos produtores de dependência. As propriedades reforçadoras
da droga, em conjunto com a configuração biológica individual e o pano de fundo
ambiental, podem facilitar a exposição adicional à droga. Propriedades de aprendizado associativo, relacionadas à liberação de dopamina no nucleus accumbens,
também aumentam os efeitos reforçadores da droga e do ambiente e das emoções associadas com seu uso. Nesse estágio, o sujeito responde a estímulos da
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Existem diferenças individuais em fatores biológicos e ambientais que mediam
os efeitos reforçadores das substâncias psicoativas. Diferenças individuais em
resposta ao primeiro uso da droga podem determinar quem mais provavelmente
usará a droga outra vez (Davidson, Finch e Schenk, 1993). Em modelos animais, existem diferenças comportamentais claras que podem predizer quais
animais são mais prováveis de desenvolver sensibilização e aprender a autoadministrar drogas mais rapidamente (Piazza et al., 1990; Hooks et al., 1992;
De Sousa, Bush e Vaccarino, 2000; Sutton, Karanian e Self, 2000). Esses fatores
comportamentais estão relacionados à dopamina mesolímbica aumentada em
animais suscetíveis, tanto na linha de base como após recompensas de alimentos
ou drogas (Sills e Crawley, 1996; Sills, Onalaja e Crawley, 1998). Esses achados
levaram a sugestões de que pode haver um fenótipo associado com a função
dopaminérgica mesolímbica em humanos que poderia predizer aqueles que
seriam mais suscetíveis ao desenvolvimento de dependência de substância
(Zuckerman, 1984; Bardo, Donohew e Harrington, 1996, Dellu et al., 1996;
Depue e Collins, 1999).
Para resumir, substâncias que produzem dependência compartilham a habilidade de produzir mudanças persistentes em regiões cerebrais que estão
envolvidas em processos de incentivo-motivação e recompensa e essas mudanças tornam essas regiões hipersensíveis (sensibilizadas). Existe uma grande
quantidade de evidência que dá suporte a essa alegação. A persistência de
sensibilização neural pode levar indivíduos suscetíveis à recaída, muito tempo
após a descontinuação do uso da substância. A recaída pode ocorrer após
estresse, exposição à droga ou a uma droga similar ou a pistas de drogas.
Diferenças individuais em fatores genéticos e ambientais, entretanto, vão ter
efeitos mitigantes nos efeitos recompensadores primários das substâncias
psicoativas.
Processos Biocomportamentais Subjacentes à Dependência – 59
droga e relacionados a ela de maneira não diferente das respostas motivacionais
normais. Pela ativação de centros emocionais e motivacionais do cérebro, processos de aprendizado são evocados. É importante notar aqui que a exposição a
substâncias psicoativas e o uso de substância na vida diária e pela mídia, particularmente quando apresentados em ambiente positivo, podem provocar emoções
prazerosas. Um indivíduo pode facilmente tornar-se condicionado a associar
essas emoções com o uso da substância, resultando em aprendizado, atenção
focada, facilitação da memória e o desenvolvimento de atitudes que rodeiam o
uso da substância que guia a motivação. Esses fatores todos interagem com fatores
individuais, biológicos, sociais e culturais para determinar se o uso de substância
será ou não repetido e se o uso repetido de substância resultará no conjunto de
sintomas conhecido como dependência.
Com a exposição sucessiva à droga, há associação repetida da sua recompensa e estímulos relacionados a ela paralelamente à estimulação da transmissão
dopaminérgica no nucleus accumbens, resultando na atribuição de valor motivacional aos estímulos associados à droga. Esse é o estágio de sensibilização de
incentivo. Nele, a pessoa ainda pode controlar o consumo da droga na ausência
de estímulos relacionados a ela e não é dependente, mas pode experimentar
conseqüências de saúde e sociais do seu uso de substâncias. Esse estágio é muitas vezes chamado de uso prejudicial de substância.
O estágio de dependência é clinicamente definido por, pelo menos, três dos
seguintes:
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• Desejo intenso ou sentimento de compulsão para usar a substância.
• Dificuldades em controlar o comportamento de uso da substância em termos de seu início, término ou quantidade utilizada.
• Estado fisiológico de abstinência.
• Evidência de tolerância.
• Negligência progressiva de prazeres ou interesses alternativos.
• Persistência no uso apesar de evidência clara de conseqüências prejudiciais.
A busca compulsiva pela droga e a fissura são eliciadas pelas drogas ou
estímulos associados (ver Cap. 1).
A neurociência foca os eventos que causam cada um desses sintomas. Entretanto, alguns comportamentos são mais facilmente estudados do que outros.
A tolerância e a abstinência foram relativamente mais fáceis de definir e mensurar
em animais de laboratório, o que resultou em maior entendimento dos efeitos
das drogas na saúde e das conseqüências a longo prazo do uso de substância.
Conceitos, como fissura, perda de controle e uso persistente, vêm sendo mais
difíceis de estudar em laboratório. No entanto, estudos modernos de neuroimagem
do cérebro humano estão ajudando pesquisadores a entender esses processos
em mais detalhes do que nunca e, pela primeira vez, fornecendo imagens obje-
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60 – Processos Biocomportamentais Subjacentes à Dependência
Quadro 3.2 – Tipos de intervenções psicoterápicas/comportamentais
Terapias cognitivo-comportamentais
As terapias cognitivo-comportamentais se focam em: alterar os processos cognitivos
que provocam comportamentos desadaptativos dos usuários de substância; intervir
na cadeia de eventos comportamentais que resultam no uso da substância; ajudar os
pacientes a lidar, com sucesso, com a fissura aguda e crônica pela droga; e promover
e reforçar o desenvolvimento de habilidades sociais e comportamentos compatíveis
com a manutenção da ausência de uso da droga. O fundamento da terapia cognitiva
é a crença que identificando e subseqüentemente modificando padrões de pensamento
desadaptativos, os pacientes podem reduzir e eliminar sentimentos e comportamentos
negativos (por exemplo, o uso de substância).
Prevenção de recaída
Abordagem do tratamento, na qual técnicas cognitivo-comportamentais são usadas
na tentativa de ajudar os pacientes a desenvolver maior autocontrole com o objetivo
de evitar a recaída. Estratégias específicas da prevenção de recaída incluem discutir
a ambivalência, identificar desencadeantes emocionais ou ambientais da fissura e do
uso da substância e desenvolver e revisar estratégias de enfrentamento específicas
para lidar com estressantes internos e externos.
Manejo de contingências
Tratamento comportamental com base no uso de conseqüências predeterminadas
positivas ou negativas para recompensar a abstinência ou punir (e assim dissuadir)
comportamentos relacionados à droga. As recompensas podem incluir vales – recebidos
pela ausência de drogas em amostras de urina – que podem ser trocados por itens
mutuamente acordados (por exemplo, entradas de cinema) ou reforço comunitário, em
que membros da família ou seus equivalentes reforçam comportamentos que
demonstram ou facilitam a abstinência (por exemplo, participação em atividades
positivas). Conseqüências negativas de retornar ao uso de substância podem incluir
notificações em processos legais, para empregadores ou membros da família.
Terapia de incremento motivacional (TIM)
Esta modalidade de tratamento breve é caracterizada por abordagem empática na
qual o terapeuta ajuda a motivar o paciente perguntando os prós e os contras de
comportamentos específicos, explorando as metas do paciente e a ambivalência
associada à busca destas e escutando de maneira reflexiva. A terapia de incremento
motivacional demonstrou eficácia substancial no tratamento da dependência de
substância.
Fonte: The American Journal of Psychiatry, 1995.
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tivas, mensuráveis de fenômenos previamente não caracterizados como a fissura.
Também é interessante relacionar esses processos de aprendizado biocomportamental às terapias comportamentais que algumas vezes são empregadas no
tratamento da dependência de substância (Quadro 3.2). Terapias cognitivas e
motivacionais são elaboradas para agir nos mesmos sistemas motivacionais do
cérebro que são afetados pela dependência de substância. Essas terapias tentam
substituir a motivação para o uso de drogas pela motivação para se engajar em
outros comportamentos. Note que essas terapias se baseiam nos mesmos princípios
Processos Biocomportamentais Subjacentes à Dependência – 61
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de aprendizado e motivação utilizados para descrever o desenvolvimento da
dependência. O manejo das contingências, por exemplo, usa os princípios de
reforço positivo e de punição para manejar o comportamento. Terapias cognitivocomportamentais e prevenção de recaídas ajudam a pessoa a desenvolver novas
associações estímulo-resposta que não envolvem o uso de substância ou fissura.
Esses princípios são utilizados numa tentativa de desaprender os comportamentos relacionados à dependência e aprender respostas mais adaptativas.
Mecanismos neurobiológicos similares estão envolvidos no desenvolvimento
da dependência, assim como estão envolvidos no aprendizado para superá-la.
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CAPÍTULO 4
PSICOFARMACOLOGIA DA DEPENDÊNCIA
PARA DIFERENTES CLASSES DE DROGAS
Introdução
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A proposta deste capítulo é fornecer uma visão geral das principais classes de
substâncias psicoativas e de seus efeitos particulares e comuns no cérebro. O
capítulo anterior introduziu os conceitos biocomportamentais que explicam como
uma substância* com propriedades recompensadoras pode ser reforçadora, fazendo com que a auto-administração da substância seja repetida e como isso
pode provocar sensibilização de circuitos motivacionais no cérebro e, em última
análise, dependência. Este capítulo irá discutir cada classe de substâncias psicoativas, seus mecanismos de ação, efeitos comportamentais, desenvolvimento
de tolerância ou abstinência, conseqüências neuropsicológicas a longo prazo e
tratamentos farmacológicos potenciais (Tabelas 4.1 e 4.2). Finalmente, efeitos
neurobiológicos e celulares comuns das substâncias psicoativas serão apresentados. Pelo entendimento dos efeitos agudos e crônicos da ação da droga, terapias
direcionadas podem ser desenvolvidas e questões sobre como e por que algumas
drogas podem ser usadas por certos indivíduos sem causar dependência, enquanto outras ocasionam dependência crônica e recaídas, podem ser mais bem
entendidas.
Sempre é importante lembrar que diferenças individuais em fatores genéticos, biológicos, sociais e culturais influenciam os efeitos de uma substância em
uma pessoa e o resultado do seu uso. Este capítulo apresenta os efeitos comumente
conhecidos das drogas a partir de pesquisas em grandes amostras de pessoas e
em animais de laboratório.
A farmacologia das substâncias psicoativas comuns é apresentada: álcool,
sedativos/hipnóticos, nicotina, opióides, maconha, cocaína, anfetaminas, ecstasy,
solventes voláteis e alucinógenos. Para cada uma destas, é fornecida uma breve
revisão sobre:
• Manifestações comportamentais do uso agudo e crônico da droga em humanos e em modelos animais.
* Os termos substância, droga, substância psicoativa ou droga psicoativa são utilizados de
maneira intercambiável nesta publicação e podem se referir a nicotina, álcool ou outras drogas.
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Nicotina
Hipnóticos e
sedativos
Tolerância
Ocorre tolerância
metabólica devido
à indução
enzimática
Tolerância
comportamental se
desenvolve pelo
aprendizado
Tolerância também
se desenvolve por
meio de mudanças
no receptor GABA-A
Benzodiazepínicos:
Sedação
Desenvolve-se
facilitam a abertura
Anestesia
rapidamente para
por GABA do canal
Incoordenação
a maioria dos efeitos
de cloreto GABA-A
motora
(exceto
Barbitúricos: liga-se
Prejuízos cognitivos
anticonvulsivante) em
a um local específico Prejuízos de memória razão de mudanças
no ionóforo de GABA
no receptor GABA-A
e aumenta a
condutância de
cloreto
Agonista do receptor Alerta, atenção,
Tolerância se
colinérgico nicotínico concentração e
desenvolve pelos
Aumenta o influxo de
memória
fatores
sódio através do
aumentadas;
metabólico assim
canal, causando
diminuição da
como por mudanças
despolarização
ansiedade e do
no receptor
apetite; efeitos
semelhantes aos
estimulantes
Sedação
Memória prejudicada
Incoordenação
motora, diminuição
da ansiedade
Etanol
Aumenta a atividade
dos receptores
GABA-A
Efeitos
comportamentais
Substância Mecanismo de ação
primário
Efeitos do uso
prolongado
Irritabilidade,
hostilidade,
ansiedade, disforia,
humor deprimido,
diminuição da
freqüência cardíaca,
aumento do apetite
Ansiedade, alerta,
inquietação, insônia,
excitabilidade,
convulsões
Os efeitos na saúde
do tabagismo estão
bem documentados.
Dificuldade em
separar os efeitos da
nicotina de outros
componentes do
tabaco
Prejuízos de memória
Tremores,
Alterações na função
transpiração, fraqueza, e na morfologia
agitação, náusea,
cerebrais
cefaléia, vômitos
Prejuízos cognitivos
Convulsões
Diminuição do volume
Delirium tremens
cerebral
Abstinência
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Tabela 4.1 – Resumo das características de substâncias psicoativas selecionadas
66 – Psicofarmacologia da Dependência para Diferentes Classes de Drogas
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Cocaína
Euforia, analgesia,
sedação, depressão
respiratória
Relaxamento,
aumento da
percepção sensorial,
diminuição da
memória a curto
prazo, incoordenação
motora, analgesia,
efeitos antiemético e
antiepiléptico,
aumento do apetite
Bloqueador dos
Aumento do alerta,
transportadores de
da energia e da
monoaminas
atividade motora,
(dopamina,
sensação de
noradrenalina e
competência; euforia,
serotonina) (aumenta ansiedade,
as monoaminas na
inquietação,
fenda sináptica)
paranóia
Agonistas dos
receptores opióides
mu e delta
Canabinóides Agonistas do
receptor CB1
Opióides
Talvez tolerância
aguda a curto
prazo
Desenvolve-se
rapidamente para a
maioria dos efeitos
Não muita, exceto
queda após a
subida
Rara, talvez devido à
meia-vida longa dos
canabinóides
Dessensibilização a
Lacrimejamento,
curto e longo prazos nariz escorrendo,
do receptor
bocejos, sudorese,
Adaptações em
inquietação,
mecanismos de
calafrios, cãibras,
sinalização
dores musculares
intracelular
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(Continua)
Déficits cognitivos,
anormalidades no
córtex orbitofrontal
na PET
Função motora
prejudicada
Diminuição dos
tempos de reação,
anormalidades no
EEG, isquemia
cerebral, infartos,
hemorragias
Mudanças a longo
prazo nos receptores
e peptídeos opióides
Adaptações nas
respostas de
recompensas,
aprendizado e
estresse
Prejuízos cognitivos,
risco de recaídas e
exacerbação de
doenças mentais
Psicofarmacologia da Dependência para Diferentes Classes de Drogas – 67
68
07.02.07, 10:20
Mecanismo de ação
primário
Aumento da liberação
de dopamina
nos terminais
nervosos pelo
transportador de
dopamina
Não depende de
potenciais de ação
Inibe a monoaminaoxidase (MAO)
Bloqueia a recaptura
de serotonina
Anfetaminas
Ecstasy
Aumento de
autoconfiança,
empatia,
entendimento,
sensações de
intimidade,
comunicação, euforia
e energia
Aumento do alerta,
da vigília, da
atividade motora,
da fala, da
autoconfiança, da
concentração e de
sensações de
bem-estar; diminui
a fome, aumenta as
freqüências cardíaca
e respiratória, euforia
Efeitos
comportamentais
Pode se desenvolver
em alguns
indivíduos
Desenvolve-se
rapidamente para
os efeitos
comportamentais e
fisiológicos
Tolerância
Náusea, rigidez
muscular, cefaléia,
perda do apetite,
visão turva, boca
seca, insônia,
depressão,
ansiedade, fadiga,
dificuldade de
concentração
Fadiga, aumento
do apetite,
irritabilidade,
depressão
emocional,
ansiedade
Abstinência
Neurotóxico para os
sistemas
serotonérgicos
cerebrais, resultando
em conseqüências
comportamentais e
fisiológicas
Distúrbios de sono,
ansiedade,
diminuição do
apetite, aumento da
pressão arterial;
diminuição de
dopamina,
precursores,
metabólitos e
receptores cerebrais
Efeitos do uso
prolongado
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Substância
Tabela 4.1 – (Cont.) Resumo das características de substâncias psicoativas selecionadas
68 – Psicofarmacologia da Dependência para Diferentes Classes de Drogas
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69
Tolerância se
desenvolve
rapidamente para
os efeitos físicos e
psicológicos
Aumentos da
freqüência cardíaca,
da pressão arterial,
da temperatura
corporal;
Diminuição do
apetite, náuseas,
vômitos,
incoordenação
motora, dilatação
pupilar, alucinações
Alucinações
Classes:
LSD: agonista do
auto-receptor
de serotonina
PCP: antagonista do
receptor de
glutamato NMDA
Atropínicos:
antagonistas do
receptor colinérgico
muscarínico
Alguma tolerância se
desenvolve (difícil
de estimar)
Solventes voláteis Mais provavelmente Tontura, desorientação,
mediada por
euforia, tonteira,
receptores GABA-A elevação do humor,
alucinações,
delírios,
incoordenação,
distúrbios visuais,
diminuição da
ansiedade, sedação
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Sem evidência
Aumento da
suscetibilidade a
convulsões
Episódios psicóticos
agudos ou crônicos,
flashbacks ou
reexperimentação
dos efeitos da droga
longo tempo depois
do uso
Mudanças na ligação
e na função de
receptor de dopamina;
diminuição na função
cognitiva; seqüelas
psiquiátricas ou
neurológicas
Psicofarmacologia da Dependência para Diferentes Classes de Drogas – 69
07.02.07, 10:20
70 – Psicofarmacologia da Dependência para Diferentes Classes de Drogas
Tabela 4.2 – Características das principais classes de substâncias psicoativas
Exemplos
Efeitos comportamentais mais comuns
Estimulantes
Anfetaminas
Cocaína
Ecstasy
Nicotina
Estimulação, vigília, aumento de energia
e da concentração, diminuição do
apetite, aumento da freqüência cardíaca
e da respiração, paranóia, pânico
Depressores
Álcool
Relaxamento, desinibição, prejuízos motor,
Sedativos/hipnóticos de memória e cognitivos,
Solventes voláteis
diminuição da ansiedade
Alucinógenos
Canabinóides
LSD
Fenciclidina
Alucinações, aumento da percepção
sensorial, déficits motores e cognitivos
Opióides
Morfina
Heroína
Euforia, analgesia, sedação
• Mecanismos de ação moleculares e bioquímicos nas principais áreas cerebrais envolvidas com os efeitos agudos.
• Desenvolvimento de tolerância e abstinência.
• Adaptações neurológicas (efeitos diretos e indiretos) decorrentes do uso
prolongado.
• Informações sobre as abordagens terapêuticas farmacológicas disponíveis
para cada classe de droga.
Modelos animais são freqüentemente empregados com o objetivo de se entender melhor as bases biológicas do uso e da ação da droga. Os seguintes modelos
animais mostram confiabilidade quando usados para estudar aspectos seletivos
da dependência e do uso de substâncias em humanos:
•
•
•
•
Auto-administração.
Auto-estimulação intracerebral.
Preferência por lugar.
Discriminação de drogas.
Existem vários procedimentos diferentes em cada um destes modelos, como
revisado extensamente por Koob (1995). As propriedades reforçadoras das drogas fazem com que animais de diferentes espécies desempenhem tarefas operantes
para auto-administrar drogas. É considerado um modelo do potencial para produzir dependência das drogas e também é amplamente utilizado em avaliações
pré-clínicas de novas terapias. A auto-estimulação de certas áreas cerebrais ativa
os circuitos cerebrais que são provavelmente ativados por reforçadores naturais.
As substâncias psicoativas são testadas nesse paradigma para verificar se diminuem o limiar de recompensa e se influenciam nos processos de recompensa e
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Classe
Psicofarmacologia da Dependência para Diferentes Classes de Drogas – 71
reforçamento. Preferência por lugar utiliza um procedimento de condicionamento pavloviano para avaliar o reforço da droga. Pode-se assumir que um animal
que escolha passar mais tempo em uma área que foi pareada com o efeito de
certa droga expressa o reforço positivo experimentado naquele lugar. O último
modelo, isto é, a discriminação de drogas, assume que o estímulo discriminador
de uma droga em animais seja um reflexo do efeito subjetivo da droga em humanos. Esses efeitos serviriam como pistas internas que induziriam efeitos similares
aos de drogas psicoativas bem conhecidas.
A pesquisa sobre dependência vem sendo difícil para os neurocientistas,
pois ela é constituída por vários componentes comportamentais e fisiológicos,
alguns dos quais podem ser prontamente mensurados, tais como os sintomas de
abstinência, enquanto outros são mais difíceis de estudar experimentalmente,
como a fissura e a perda de controle.
Modelos animais vêm sendo muito úteis no estudo do uso de substância e
dos seus efeitos físicos a curto e longo prazos. Outros componentes da dependência são mais difíceis de ser estudados ou são exclusivos de seres humanos
como a fissura, as conseqüências sociais do uso de substância e os sentimentos
de perda de controle sobre o uso de substância. Entretanto, desenvolvimentos da
neurociência em relação aos anos anteriores têm aumentado muito a capacidade
de se estudar mudanças na função e na composição cerebral humana utilizando
ressonância magnética nuclear funcional (RMNf), fluxo sanguíneo cerebral regional e tomografia por emissão de pósitrons (PET).
Grandes avanços no entendimento e no tratamento da dependência vieram
do entendimento de mecanismos básicos da ação da droga e das conseqüências a
longo prazo para a saúde. Vêm surgindo alguns tratamentos de sucesso, como
metadona para a dependência de heroína, adesivos de nicotina para a dependência de nicotina e várias farmacoterapias para a dependência de álcool.
O desenvolvimento de tratamentos e medicações é promissor, mas traz com
ele uma multidão de questões éticas que precisam ser abordadas (ver Cap. 7). No
entanto, é importante entender primeiro a biologia por trás dessas novas abordagens de tratamento, assim como a pesquisa e os modelos animais utilizados para
aumentar a compreensão sobre os efeitos do uso de substâncias psicoativas.
Álcool (Etanol)
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Introdução
Bebidas com álcool (álcool etílico ou etanol) são consumidas ao redor do mundo
com propósitos recreativos ou religiosos (Jacobs e Fehr, 1987). É produzido
pela fermentação e destilação de produtos agrícolas.
O etanol é quase sempre usado via oral e é rapidamente absorvido pelo intestino delgado para a corrente sanguínea. A demora no esvaziamento gástrico causada,
por exemplo, pela presença de alimentos, retarda a absorção. A metabolização
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72 – Psicofarmacologia da Dependência para Diferentes Classes de Drogas
de primeira passagem pela álcool-desidrogenase gástrica e, subseqüentemente,
hepática, diminui a biodisponibilidade do etanol, enquanto o gênero e a variabilidade genética podem explicar diferenças individuais nos níveis de álcool no
sangue. Quantidades muito pequenas de álcool podem ser excretadas sem modificação na urina, suor e na respiração, enquanto a maior parte é metabolizada
para acetaldeído pela álcool-desidrogenase, catalase e enzimas microssomais
P450, a maior parte no fígado. Logo após, o acetaldeído é convertido em acetato
pela aldeído-desidrogenase hepática. Como será discutido no Capítulo 5, os efeitos do
etanol diferem muito entre indivíduos, em razão da variação genética dessas enzimas metabólicas. Isso pode contribuir para o fato de que algumas pessoas são
mais propensas do que outras ao desenvolvimento da dependência de álcool.
Efeitos Comportamentais
Mecanismo de Ação
O etanol eleva a atividade inibitória mediada por receptores do ácido gamaaminobutírico A (GABA-A) e diminui a atividade excitatória mediada por
receptores de glutamato, especialmente por receptores de N-metil-D-aspartato
(NMDA). Esses dois mecanismos de ação podem estar relacionados ao efeito
sedativo geral do álcool e ao comprometimento da memória durante períodos de
intoxicação. Os receptores GABA-A são sensíveis ao etanol em diferentes regiões
cerebrais e estão claramente envolvidos nos seus efeitos agudos, na tolerância,
na dependência e na auto-administração do etanol (Samson e Chappell, 2001;
McBride, 2002). A ativação de receptores GABA-A media vários dos efeitos
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Em humanos, os efeitos comportamentais agudos do álcool variam entre indivíduos, de acordo com muitos fatores como dose, velocidade da ingesta, massa
corporal, nível sanguíneo de álcool e o tempo desde a dose anterior. O etanol tem
efeitos comportamentais bifásicos. Em doses baixas, os primeiros efeitos observados são aumento de atividade e desinibição. Em doses mais altas, as funções
cognitivas, sensoriais e motoras tornam-se comprometidas. Os efeitos no humor e
nas emoções variam muito de pessoa para pessoa (Jacobs e Fehr, 1987).
O etanol é auto-administrado via oral por animais. Ratos criados seletivamente com alta preferência por etanol irão, de modo cconfiável, se auto-administrar
etanol por ingesta de livre escolha e responderão operantemente ao etanol oral
em quantidades que produzam concentrações sanguíneas de álcool farmacologicamente significativas. Comparados com ratos sem preferência, os ratos com
preferência por álcool são menos sensíveis aos efeitos sedativos/hipnóticos do
etanol, desenvolvem, com mais rapidez, tolerância a altas doses de etanol e mostram sinais de dependência física com abstinência (McBride e Li, 1998). O etanol
aumenta a sensibilidade dos animais à recompensa por estimulação cerebral
(Kornetsky et al., 1988), ao condicionamento por preferência de lugar (Grahame
et al., 2001) e à discriminação de droga (Hodge et al., 2001).
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Psicofarmacologia da Dependência para Diferentes Classes de Drogas – 73
comportamentais do álcool, incluindo a incoordenação motora, a ação ansiolítica
e a sedação (Grobin et al., 1998).
Os efeitos reforçadores produzidos pelo etanol são provavelmente relacionados ao aumento na freqüência de disparos de neurônios dopaminérgicos na
área tegumentar ventral (ATV) (Gessa et al., 1985) e à liberação de dopamina no
nucleus accumbens (Di Chiara e Imperato, 1988a), provavelmente como conseqüência secundária da ativação do sistema de GABA ou da ativação de opióides
endógenos (O’Brien, 2001). O aumento na atividade dopaminérgica ocorre apenas enquanto a concentração sanguínea de etanol está aumentando. A elevação
na dopamina mesolímbica é crítico para os efeitos reforçadores das substâncias
psicoativas (ver Cap. 3).
Estudos de imagem do metabolismo cerebral mostraram que o álcool diminui
a atividade metabólica nas regiões occipitais cerebrais e aumenta o metabolismo
no córtex temporal esquerdo (Wang et al., 2000; Fig. 4.1).
Tolerância e Abstinência
O etanol induz diversos tipos de tolerância. Entre eles, está a tolerância comportamental que se refere ao aprendizado adaptativo de controlar alguns dos
efeitos do etanol (Vogel-Sprott e Sdao-Jarvie, 1989). Tanto o aprendizado operante
como o associativo podem ter papel no desenvolvimento de tolerância ao álcool
e de tolerância cruzada com outras drogas. Muitos dos mecanismos neurais re-
Placebo
Etanol (0,75g/kg, po)
Figura 4.1 – Imagens de PET com fluordesoxiglicose (FDG) de indivíduos normais após
placebo (soda dietética) e etanol (0,75g/kg) (ver prancha colorida). Fonte: Wang et al.,
2000. Reproduzido com permissão dos editores.
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74 – Psicofarmacologia da Dependência para Diferentes Classes de Drogas
Adaptações Neurobiológicas ao Uso Prolongado
O consumo crônico de álcool pode induzir alterações na maioria, se não em todos
os sistemas e estruturas cerebrais. Em animais e humanos, alterações específicas
ocorrem na função e na morfologia do diencéfalo, de estruturas do lobo temporal
medial, do prosencéfalo basal, do córtex frontal e do cerebelo, enquanto outras
estruturas, como o núcleo caudado, parecem relativamente não afetadas (ver Cap. 2).
As alterações neuropatológicas nas estruturas mesencefálicas e corticais estão
correlacionadas com comprometimento dos processos cognitivos. Em pessoas que
são dependentes do álcool, o córtex pré-frontal parece particularmente vulnerável
aos efeitos do etanol. Em conseqüência do papel dessas estruturas corticais nas
funções cognitivas e no controle do comportamento motivado, alterações funcionais nessas áreas do cérebro podem ter participação importante no surgimento e
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lacionados ao aprendizado e à memória, sabe-se agora, estão envolvidos no desenvolvimento e manutenção da tolerância (Kalant, 1998). A tolerância metabólica
também ocorre como uma função da regulação para cima (upregulation) de enzimas
metabólicas no fígado, resultando em que sejam necessários doses maiores ou
uso de álcool com mais freqüência para a obtenção dos efeitos psicofarmacológicos desejados.
De importância clínica particular é o desenvolvimento de mudanças adaptativas
na função sináptica em resposta à ação do etanol nos canais iônicos (ver Cap. 2),
que também contribuem para a tolerância. A tolerância e a dependência de etanol
podem ser explicadas, em parte, por mudanças na função dos receptores GABA
(A). A tolerância cruzada e a sensibilização também vêm sendo intensamente estudadas durante os últimos anos. A sensibilização aos esteróides neuroativos –
moduladores endógenos dos receptores GABA-A – influencia a dependência e a
abstinência de etanol e pode explicar diferenças entre os gêneros nos efeitos
moleculares do etanol (Grobin et al., 1998). Modelos animais da dependência de
etanol identificaram genes do receptor GABA-A como prováveis mediadores das
adaptações comportamentais associadas com a dependência e a abstinência de
etanol (Grobin et al., 1998).
Uma síndrome de abstinência, que pode ser grave o suficiente para ser fatal,
caracteriza a abstinência de etanol. A gravidade dessa síndrome é uma função da
quantidade de álcool consumida, da freqüência de uso e da duração da história de
ingesta alcoólica. Sinais iniciais da abstinência são tremores intensos, sudorese, fraqueza, agitação, dor de cabeça, náusea e vômitos e taquicardia. Dentro de 24h após
a interrupção da ingesta, convulsões podem começar a acontecer (Jacobs e Fehr,
1987). A abstinência alcoólica pode ser complicada por um estado conhecido como
delirium tremens, caracterizado por agitação intensa, hiperatividade autonômica,
alucinações e delírios. Sem tratamento, a síndrome de abstinência dura de cinco a
sete dias. Benzodiazepínicos são geralmente utilizados para diminuir a gravidade da
abstinência alcoólica, em decorrência de sua ação nos receptores GABA-A.
Psicofarmacologia da Dependência para Diferentes Classes de Drogas – 75
desenvolvimento da dependência do álcool (Fadda e Rossetti, 1998). Ocorre diminuição do volume cerebral e comprometimento funcional que piora com o
consumo continuado de álcool, mas que podem ser parcialmente revertidos após
período de abstinência completa. Depois do uso prolongado de álcool, o comprometimento das funções do córtex pré-frontal, por causa da lesão neuronal, pode
comprometer a tomada de decisões e a emoção, induzindo à perda da capacidade
de julgamento e do controle para reduzir o uso de álcool (Pfefferbaum et al., 1998).
Esses comprometimentos cognitivos precisam ser abordados durante o tratamento
da dependência de álcool.
Tratamento Farmacológico da Dependência de Álcool
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O acamprosato (cálcio acetil-homotaurina) é uma droga sintética com similaridade estrutural com um aminoácido que ocorre naturalmente. Atua centralmente e
parece restaurar a atividade normal dos neurônios glutamatérgicos, que se tornam
hiperexcitáveis como resultado da exposição crônica ao álcool. O acamprosato
está disponível para prescrição na França desde 1989 e agora em vários países ao
redor do mundo. De maneira geral, os pacientes tratados com acamprosato exibem aumento significativo da taxa de finalização do tratamento, tempo até a primeira
ingesta alcoólica, taxa de abstinência e/ou duração acumulada da abstinência do
que pacientes tratados com placebo (Mason, 2001).
O antagonista opióide naltrexona também é eficaz em diminuir a recaída e
ajudar as pessoas a manter a abstinência e a reduzir o consumo de álcool (Streeton
e Whelan, 2001).
O dissulfiram é conhecido como uma medicação restringente porque torna
a ingestão de álcool desagradável por alterar o metabolismo corporal normal
do álcool. Inibe a aldeído desidrogenase, a enzima que converte acetaldeído
para acetato, diminuindo, assim, a eliminação de acetaldeído do organismo. Níveis
altos de acetaldeído produzem reações desagradáveis (ver Cap. 5) que pretendem
tornar o consumo de álcool aversivo (Kranzler, 2000). A eficácia do dissulfiram
não é clara, sendo confundida pelas necessidades de titular a dose e de certo
grau de aderência (Kranzler, 2000). Algumas pessoas são vistas como naturalmente protegidas contra a dependência de álcool porque, em razão da alteração
genética, não têm uma enzima funcional que metabolize acetaldeído (ver Cap. 5)
e, dessa forma, têm uma reação aversiva (conhecida como reação de vermelhidão)
quando bebem.
Sedativos e Hipnóticos
Introdução
Embora o álcool pertença à categoria dos sedativos e hipnóticos, foi considerado
separadamente nesta publicação, pois existe um grande conjunto de pesquisas
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76 – Psicofarmacologia da Dependência para Diferentes Classes de Drogas
sobre ele e por que seu uso é muito prevalente. Nesta seção, outros sedativos/
hipnóticos e tranqüilizantes menores serão discutidos.
Os tranqüilizantes menores mais comuns são as pílulas para dormir (benzodiazepínicos e barbitúricos) (Jacobs e Fehr, 1987). Muitos solventes produzem
efeitos similares aos sedativos/hipnóticos quando inalados, mas serão considerados separadamente na seção de solventes voláteis. Os sedativos/hipnóticos causam
lentidão das funções do cérebro e de outras partes do sistema nervoso.
Efeitos Comportamentais
Mecanismo de Ação
Os benzodiazepínicos agem se ligando a locais de ligação específicos no complexo do receptor GABA-A, o que facilita os efeitos do GABA na abertura do
canal de cloreto (Haefly, 1978). Os barbitúricos também se ligam a um local separado e específico do receptor GABA-A e abrem diretamente o canal de cloreto
(Nutt e Malizia, 2001). Os benzodiazepínicos não abrem diretamente o canal,
mas modulam a capacidade do GABA de fazê-lo, assim menos GABA do que o
usual é necessário para abrir o canal (Barnard et al., 1998). Os efeitos dos
benzodiazepínicos na função do GABA endógeno torna-os mais seguros em
doses altas do que os barbitúricos e o álcool. O último abre diretamente o canal
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Os efeitos dos sedativos/hipnóticos variam da sedação leve à anestesia geral e, no
caso de overdose, à morte. Essas drogas são geralmente utilizadas pela sua intoxicação e pelas propriedades inibidoras-liberadoras. As pílulas para dormir também
se tornam produtoras de hábito e a tolerância se desenvolve prontamente para
essas drogas (Jacobs e Fehr, 1987). Os principais sintomas do uso de sedativos/
hipnóticos são: sonolência, incoordenação motora leve a moderada e algum
obscurecimento de funções mentais (Jacobs e Fehr, 1987). Esses efeitos estão
relacionados ao papel do receptor GABA-A, discutido adiante. Com doses mais
altas, esses efeitos se tornam mais pronunciados e acaretam comprometimento
geral da função motora, aumento dos tempos de reação e comprometimento das
funções cognitivas e da memória. Finalmente, o sono é induzido em casos graves
e a morte pode ocorrer por depressão respiratória. Efeitos residuais de fadiga,
cefaléia e náusea podem ocorrer.
Os benzodiazepínicos e os barbitúricos mostram grandes propriedades
reforçadoras em modelos animais e são auto-administrados por macacos (Meisch,
2001; Munzar et al., 2001; Gomez, Roache e Meisch, 2002) e roedores (Davis,
Smith e Smith, 1987; Szostak, Finlay e Fibiger, 1987; Naruse e Asami, 1990).
Os benzodiazepínicos têm efeitos consistentes com recompensa na auto-estimulação cerebral (Carden e Coons, 1990), induzem preferências por lugares
condicionados (Spyraki, Kazandjian e Varonos, 1985) e mostram efeitos de discriminação de estímulos (Wettstein e Gauthier, 1992).
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Psicofarmacologia da Dependência para Diferentes Classes de Drogas – 77
de cloreto e, por conseguinte, pode ter efeitos que excedam os efeitos do GABA
que ocorreriam naturalmente.
O aumento na condutância de cloreto após a abertura do canal de cloreto
hiperpolariza a célula, tornando-a menos provável de desencadear um potencial
de ação (ver Cap. 2). Como o GABA controla a excitabilidade neuronal em
todas as regiões cerebrais, o aumento da sua função é o mecanismo pelo qual
sedativos e hipnóticos têm seus efeitos característicos de sedação, amnésia e
incoordenação motora (Nutt e Malizia, 2001).
Como outras drogas produtoras de dependência, também existem evidências
de que os sedativos e os hipnóticos afetem o sistema dopaminérgico mesolímbico
(Feigenbaum e Yanai, 1983), o que resulta nos seus efeitos reforçadores e aumenta a motivação para repetir o uso.
De maneira semelhante ao álcool, o benzodiazepínico lorazepam diminui a
atividade metabólica no córtex occipital, aumenta a atividade no córtex temporal e também reduz o metabolismo talâmico, como medido por tomografia por
emissão de pósitron (Wang et al., 2000).
Tolerância e Abstinência
A tolerância aos efeitos dos sedativos/hipnóticos se desenvolve rapidamente e doses
maiores são necessárias para manter o mesmo nível de efeito. A tolerância se
desenvolve para os efeitos agradáveis e sedativos, assim como para os efeitos dos
benzodiazepínicos e dos barbitúricos na coordenação motora. A tolerância aos efeitos anticonvulsivantes não parece ocorrer (Jacobs e Fehr, 1987). Também existe
alto grau de tolerância cruzada entre sedativos/hipnóticos, incluindo o álcool.
Na abstinência de sedativos e hipnóticos, alguns efeitos são observados, os
quais são opostos àqueles da droga. Assim, aumento do alerta, ansiedade, inquietação, insônia, excitabilidade são sintomas característicos da abstinência (Nutt e
Malizia, 2001). Em casos graves, podem ocorrer convulsões.
Existe evidência de que o tratamento crônico com benzodiazepínicos altera
a composição das subunidades do receptor GABA-A (Holt, Bateson e Martin,
1996), o que também pode ocorrer em conseqüência das mudanças no acoplamento e na função do receptor. Isso resulta em tolerância na presença dos
benzodiazepínicos e sintomas de abstinência quando estes são removidos.
Adaptações Neurobiológicas ao Uso Prolongado
A dependência de sedativos e hipnóticos pode se desenvolver com o uso crônico, independentemente da freqüência com que são usados ou de suas doses. Por
exemplo, as pessoas podem sentir urgência opressiva ou fissura para usar a droga
apenas sob circunstâncias específicas, como em reuniões sociais ou épocas de
mais estresse (Jacobs e Fehr, 1987).
É importante notar que vários indivíduos necessitam de terapia a longo prazo
com benzodiazepínicos ou com barbitúricos para epilepsia, lesões cerebrais, ou
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78 – Psicofarmacologia da Dependência para Diferentes Classes de Drogas
outros transtornos. Esse uso pode causar tolerância para alguns dos efeitos das
drogas e efeitos de abstinência na sua interrupção. O uso de benzodiazepínicos
ou barbitúricos com propósitos médicos pode ou não provocar dependência,
mesmo se a tolerância e a abstinência estiverem presentes (ver Tabela 4.1). Os
problemas estão mais freqüentemente relacionados com o uso não médico de
benzodiazepínicos por usuários de múltiplas drogas e pelo uso crônico por alguns pacientes. Estes incluem comprometimento da memória, risco de acidentes,
de quedas e de fraturas de arcos costais em idosos, síndrome de abstinência,
dano cerebral, sedação excessiva quando combinados com álcool ou outras drogas (o que pode ocasionar coma, overdose e morte) (Griffiths e Weerts, 1997). O
tratamento da dependência de sedativos envolve descontinuação lenta, em
conjunto com terapia comportamental (ver Cap. 3 para tipos de terapias comportamentais).
Tabaco
Introdução
Embora o tabaco contenha milhares de substâncias, a nicotina é a mais freqüentemente associada com dependência porque é o componente que é psicoativo
e causa efeitos comportamentais observáveis, como mudanças de humor, redução do estresse e melhora no desempenho. Os efeitos comportamentais
associados com a nicotina liberada durante o ato de fumar incluem alerta, aumento na atenção e na concentração, melhora na memória, redução da ansiedade
e supressão do apetite.
A meia-vida média da nicotina é de aproximadamente 2h, mas é cerca de
35% maior em pessoas com uma variante particular de um gene (isto é, um
alelo) para a enzima (CYP2A6) que inibia a via metabólica primária da nicotina
(Benowitz et al., 2002). Estudos preliminares sugerem que a freqüência do alelo
da CYP2A6 seja maior em asiáticos do que em africanos ou caucasianos e que
essa diferença explica parcialmente o menor consumo diário de cigarros e o
risco de câncer de pulmão menor em asiáticos em comparação com africanos e
caucasianos (Ahijevych, 1999; Tyndale e Sellers, 2001; Benowitz et al., 2002).
Isso será discutido posteriormente no Capítulo 5.
Efeitos Comportamentais
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A nicotina é uma agonista potente e poderosa de várias subpopulações de receptores nicotínicos do sistema nervoso colinérgico (Henningfield, Keenan e Clarke,
1996; Vidal, 1996; Paterson e Nordberg, 2000). Doses agudas podem produzir
alterações do humor, embora usuários diários sejam substancialmente menos
sensíveis a esses efeitos do que não usuários, sugerindo que a tolerância se desenvolve para alguns desses efeitos (Soria et al., 1996; Taylor, 1996; Foulds et al.,
1997; USDHHS, 1998). Brevemente, a nicotina produz efeitos psicoativos,
Psicofarmacologia da Dependência para Diferentes Classes de Drogas – 79
relacionados à dose em humano, que são similares àqueles dos estimulantes e
tem escores elevados em testes padronizados de preferência e euforia, considerados confiáveis pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para a avaliação
do potencial de dependência (Henningfield, Miyasato e Jasinsk, 1985; USDHHS,
1988; Jones, Garrett e Griffiths, 1999; Royal College of Physicians, 2000).
O potencial de dependência associado com o fumo parece ser equivalente ou
ultrapassar os de outras substâncias psicoativas. Em modelos animais, a nicotina
pode atuar como reforçador potente e poderoso, ela induz auto-administração
intravenosa, facilita a auto-estimulação intracraniana e condiciona preferência por
lugar e tem propriedades de discriminação de estímulo (Goldberg et al., 1983;
Goldberg e Henningfield, 1988; Corrigall, 1999; Di Chiara, 2000). Padrões de
auto-estimulação são mais parecidos com os padrões de estimulantes do que
de outras classes de drogas (Griffiths, Bigelow e Henningfield, 1980).
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Mecanismo de Ação
Na célula, a nicotina liga-se aos receptores de acetilcolina nicotínicos (nAChR).
Existe uma variedade de subtipos de nAChR neuronais. Técnicas de clonagem
revelaram várias subunidades do nAChR diferentes em mamíferos (Lukas et al.,
1999). Os receptores são compostos por cinco subunidades em torno de um
canal iônico. A ligação de agonistas (por exemplo, nicotina) faz com que a conformação de repouso das subunidades se modifique para a conformação aberta e
permite o influxo de sódio, o que causa despolarização celular (Miyazawa et al.,
1999; Corringer, Le Novere e Changeux, 2000).
No cérebro, os receptores nicotínicos estão localizados principalmente nos
terminais pré-sinápticos e modulam a liberação de neurotransmissor; dessa forma,
os efeitos da nicotina podem estar relacionados a vários sistemas de neurotransmissor (revisado em Dani e De Biasi, 2001; Kenny e Markou, 2001; Malin,
2001). A nicotina conhecidamente promove a síntese de dopamina aumentando
a expressão da tirosina hidroxilase e sua liberação tanto na via nigroestriatal
como na mesolímbica (Clarke e Pert, 1985; Panagis et al., 2000).
A nicotina aumenta a liberação de dopamina no nucleus accumbens e o bloqueio dessa liberação reduz a auto-administração de nicotina em ratos (Schilstrom
et al., 1998; Dani e De Biasi, 2001). A nicotina estimula a transmissão dopaminérgica em áreas cerebrais específicas e, em particular, na cápsula do nucleus
accumbens e em áreas da amígdala estendida, que se relacionaram com a dependência para a maioria das drogas (ver Cap. 3). Assim, a nicotina depende da
dopamina para seus efeitos comportamentais, que são mais relevantes para suas
propriedades reforçadoras; isto é, provavelmente, a base da capacidade de produzir dependência do tabaco. Entretanto, outros sistemas neuronais relacionados
à dependência de substância, como os sistemas opióide, glutamatérgico,
serotoninérgico e de glicocorticóides, podem ter importância para aspectos específicos da dependência de substância.
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80 – Psicofarmacologia da Dependência para Diferentes Classes de Drogas
Tolerância e Abstinência
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A exposição à nicotina resulta em alto grau de tolerância que parece ser mediado por diversos mecanismos e que incluem componentes agudos e a longo prazo
(Swedberg, Henningfield e Goldberg, 1990; Perkins et al., 1993). A tolerância a
alguns efeitos pode estar relacionada à regulação para cima (upregulation) de
receptores nicotínicos no sistema nervoso central (SNC), mas fatores genéticos
também modulam os efeitos da nicotina, incluindo o desenvolvimento de tolerância (Collins e Marks, 1989). Isso pode estar por trás de algumas diferenças
individuais na dependência de nicotina (ver Cap. 5).
A tolerância rapidamente se desenvolve para os efeitos subjetivos da nicotina
ao longo de um dia. Os fumantes geralmente consideram o primeiro cigarro do
dia o mais recompensador, o que pode ser em decorrência de tolerância ou alívio
de sintomas de abstinência que se desenvolvem durante a noite. A dessensibilização de receptores (perda de sensibilidade) pode explicar alguns dos efeitos
comportamentais da nicotina, a tolerância aguda e/ou crônica e a recaída (Rosecrans
e Karan, 1993).
A abstinência do cigarro pode ser acompanhada por sintomas como irritabilidade, hostilidade, ansiedade, humor disfórico ou depressivo, diminuição
da freqüência cardíaca e aumento do apetite. A urgência para fumar se correlaciona com baixos níveis sanguíneos de nicotina (Russell, 1987), sugerindo
que o ato de fumar ocorre para manter certa concentração de nicotina no sangue
com o objetivo de evitar sintomas de abstinência. Assim, a continuidade do
uso do tabaco pode ser explicada tanto pelo reforço positivo como pelo reforço
negativo da nicotina. O término de administração prolongada de nicotina
para animais induz comportamentos que sugerem depressão e aumento da ansiedade, mudanças em comportamentos treinados, assim como ganho de peso.
A redução da locomoção e a diminuição da quantidade e da liberação de
dopamina em estruturas límbicas, no nucleus accumbens e no striatum, durante a
abstinência de nicotina, foram descritas em modelos animais e podem estar
correlacionadas com mudanças comportamentais por causa dessa abstinência
(Malin, 2001). Portanto, os modelos animais de abstinência de nicotina têm
alguma validade externa e são utilizados em estudos pré-clínicos, principalmente, para descrever possíveis futuros tratamentos para a dependência de
nicotina.
Sinais e sintomas da abstinência de tabaco, incluindo efeitos na atividade
elétrica cerebral, desempenho cognitivo, ansiedade e resposta a estímulos
estressantes, podem ser, em grande parte, mitigados pela administração de nicotina pura em uma variedade de formas (por exemplo, goma, adesivo cutâneo,
instilação nasal) (Hughes, Higgins e Hatsukami, 1990; Heishman, Taylor e
Henningfield, 1994; Pickworth, Heishman e Henningfield, 1995; Shiffman,
Mason e Henningfield, 1998). Os humanos relatam efeitos subjetivos semelhantes
Psicofarmacologia da Dependência para Diferentes Classes de Drogas – 81
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com nicotina intravenosa e ao fumar tabaco (Henningfield, Miyasato e Jasinski,
1985; Jones, Garrett e Griffiths, 1999). A fissura pelo tabaco, em geral, é apenas
parcialmente aliviada pela administração de formas puras de nicotina, uma vez
que pode ser eliciada por fatores que não são mediados pela nicotina (por exemplo, o cheiro do tabaco, a visão de outra pessoa fumando e propagandas de tabaco),
pelo processo de condicionamento, e pode ser reduzida por outros constituintes
do tabaco que não a nicotina, como o alcatrão (Butschky et al., 1995). Esses
fatores adicionais podem ter efeitos sinérgicos com a nicotina nos cigarros para
fornecer alívio mais efetivo da fissura do que a nicotina liberada na fumaça do
cigarro (Rose, Behm e Levin, 1993).
Tratamento Farmacológico da Dependência de Nicotina
Aumento no entendimento da dependência, bem como identificação e aceitação da nicotina como uma droga produtora de dependência foram fundamentais
para o desenvolvimento de medicamentos e tratamentos comportamentais para
ela. Existem atualmente muitos tratamentos disponíveis para ajudar as pessoas a
reduzirem o tabagismo. As estimativas são de que mais de 1 milhão de pessoas
foram tratadas, com sucesso, da dependência de nicotina desde a introdução
da goma de nicotina e do adesivo transdérmico. Todas as terapias de reposição de
nicotina são igualmente eficazes em ajudar as pessoas a parar de fumar e, em
combinação com o aumento nos anúncios de serviço público na mídia sobre
os perigos de fumar, vêm produzindo um crescimento marcado nas interrupções com sucesso. Entretanto, tratar a dependência com medicação apenas é
muito menos efetivo do que quando a medicação é associada com tratamento
comportamental. Nesse caso, a nicotina pode prevenir os efeitos físicos da
abstinência, enquanto o indivíduo tenta lidar com a fissura e o comportamento
de busca da droga que se tornaram habituais (ver Cap. 3, seção de terapias
comportamentais). A terapia fundamentada em nicotina não deve ser utilizada
a longo prazo, mas apenas no início do tratamento.
Embora o principal foco dos tratamentos farmacológicos da dependência de
nicotina venha se baseando na nicotina, outros tratamentos estão sendo desenvolvidos para o alívio dos sintomas da sua abstinência. Por exemplo, a primeira
droga de prescrição que não a nicotina, o antidepressivo bupropiona, é atualmente utilizada como tratamento farmacológico para a dependência de nicotina
(Sutherland, 2002). A bupropiona aumenta as taxas de abstinência em fumantes,
especialmente se combinada com a terapia de reposição de nicotina (O’Brien,
2001). Como a depressão está freqüentemente associada à dependência de nicotina – seja predispondo o indivíduo a usar tabaco ou pelo seu desenvolvimento
durante a sua dependência ou como uma conseqüência da sua abstinência –
agentes antidepressivos vêm sendo testados para o seu tratamento. Esse conceito
será mais explorado no Capítulo 6, no qual a co-morbidade entre o uso de substância e doença mental será discutida.
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82 – Psicofarmacologia da Dependência para Diferentes Classes de Drogas
Opióides
Introdução
Efeitos Comportamentais
A injeção intravenosa de opióides produz rubor morno na pele e sensações descritas pelos usuários como um barato (rush); entretanto, a primeira experiência
com opióides pode também ser desagradável e envolver náusea e vômito (Jaffe,
1990). Os opióides têm efeitos euforizantes, analgésicos, sedativos e depressores
respiratórios.
Numerosos experimentos com animais, utilizando compostos opióides seletivos, mostraram que agonistas do subtipo mu do receptor, quando injetados
tanto periférica como diretamente no cérebro, têm propriedades reforçadoras.
Agonistas delta, assim como encefalinas endógenas, parecem produzir recompensa, embora em menor extensão do que agonistas mu. O reforço por agonistas
mu e delta foi mostrado em vários modelos comportamentais, incluindo autoadministração da droga, auto-estimulação intracraniana e paradigmas de preferência
por lugar condicionado, e foi revisado extensamente (Van Ree, Gerrits e
Vanderschuren, 1999). Estudos farmacológicos, dessa forma, têm proposto que
a ativação tanto de receptores mu como delta é reforçadora. Também é significativo que a inativação genética de receptores mu aboliu tanto os efeitos produtores
de dependência como os efeitos analgésicos da morfina, assim como as ações de
outros opióides utilizados clinicamente. Isso demonstra que os receptores mu
são críticos para todos os efeitos benéficos, assim como para os efeitos prejudiciais dos opiáceos clinicamente relevantes (Kieffer, 1999). Estudos moleculares,
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Drogas opiáceas são compostos extraídos da semente da papoula. Essas drogas
abriram caminho para a descoberta do sistema opióide endógeno no cérebro
(Brownstein, 1993). O termo opióide inclui os opiáceos assim como compostos
sintéticos ou semi-sintéticos com propriedades similares. A evidência sobre a
existência de receptores opióides se baseou na observação de que os opiáceos
(por exemplo, heroína e morfina) interagem com locais de ligação específicos no
cérebro. Em 1976, a primeira evidência para a existência de múltiplos receptores opióides foi relatada (Martin et al., 1976) e estudos farmacológicos resultaram
na classificação dos locais de ligação opióides em três classes de receptores
nomeados mu, delta e kappa. Posteriormente, estudos revelaram que existem
vários subtipos de cada classe de receptor (Pasternak, 1993).
A existência de receptores opióides sugeriu que esses locais receptores seriam
alvos para moléculas semelhantes aos opióides que existem naturalmente no
cérebro. Em 1975, dois peptídeos que atuam nos receptores opióides foram descobertos, a Leu-encefalina e a Met-encefalina (Hughes et al., 1975). Logo após,
outro peptídeo endógeno foi identificado e mais de 20 peptídeos opióides são
conhecidos hoje em dia (Akil et al., 1997).
Psicofarmacologia da Dependência para Diferentes Classes de Drogas – 83
dessa maneira, têm destacado os receptores mu como a porta para a analgesia,
tolerância e dependência dos opióides.
Os receptores kappa, entretanto, parecem ter efeito oposto na recompensa.
A hipótese de um controle mu/kappa dos neurônios dopaminérgicos mesolímbicos é mais bem documentada. É importante ressaltar a observação que a
heroína é também auto-administrada em animais na ausência desses neurônios,
sugerindo a existência de mecanismos independentes de dopamina no reforço
opióide (Leshner e Kobb, 1999).
Mecanismo de Ação
Os três receptores opióides (mu, delta e kappa) mediam atividades tanto dos
opióides exógenos (drogas) como dos peptídeos opióides endógenos e, assim,
representam as peças centrais no entendimento dos comportamentos controlados por opióides. Os receptores opióides pertencem à superfamília dos receptores
acoplados à proteína G. A ligação de agonistas a esses receptores acarreta, no
final, inibição da atividade neuronal.
Receptores e peptídeos opióides são fortemente expressos no SNC (Mansour
et al., 1995; Mansour e Watson, 1993). Além de seu envolvimento nas vias
de dor, o sistema opióide está largamente representado em áreas cerebrais envolvidas na resposta às substâncias psicoativas, como a ATV e a cápsula no
nucleus accumbens (Akil et al., 1997). Os peptídeos opióides estão envolvidos
em uma grande variedade de funções, regulando funções de respostas ao estresse,
de alimentação, de humor, de aprendizado, de memória e imunes (para revisão
ver Vaccarino e Kastin, 2001).
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Tolerância e Abstinência
Com a administração repetida de drogas opióides, mecanismos adaptativos modificam o funcionamento dos neurônios sensíveis a opióides e das redes neurais.
A tolerância se desenvolve e doses mais altas das drogas são necessárias para
atingir o efeito desejado. Humanos e animais experimentais desenvolvem profunda tolerância aos opióides em períodos de algumas semanas de administração
crônica escalonada. A tolerância envolve processos celulares e neurais distintos.
Dessensibilização aguda ou tolerância do receptor opióide se desenvolve em
minutos durante o uso de opióides e diminui em minutos a horas após a exposição. Existe também dessensibilização a longo prazo do receptor que se
desenvolve lentamente e persiste de horas a dias após a remoção do agonista
opióide. Também ocorrem contra-adaptações aos efeitos opióides dos mecanismos de sinalização intracelular e no circuito neuronal que contribui para a
tolerância. Esses processos foram recentemente revisados (Williams, Christie e
Manzoni, 2001).
A interrupção do uso crônico de opióides está associada com síndrome de
abstinência intensamente disfórica que pode ser um impulso negativo para reini-
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ciar o uso da substância. A abstinência é caracterizada por lacrimejamento, coriza
nasal, bocejos, sudorese, inquietação, irritabilidade, tremor, náusea, vômitos,
diarréia, aumento da pressão arterial e da freqüência cardíaca, calafrios, cãibras
e dores musculares, que pode durar de sete a dez dias (Jaffe, 1990). Imaginavase que a abstinência seria suficiente para explicar a dependência de opióides
(Collier, 1980). Não existe dúvida que a síndrome de abstinência intensamente
disfórica tem papel importante na manutenção de episódios de uso de opióides,
mas a dependência de opióides e as recaídas que ocorrem longo tempo após a
abstinência não podem ser explicadas apenas nessa base (Koob e Bloom, 1988).
Atualmente, as adaptações a longo prazo nos sistemas neurais também são vistas como tendo papel significante na dependência e na recaída.
Em conclusão, os dados mostram mudanças complexas e abrangentes do
sistema opióide endógeno após estimulação repetida dos receptores mu pelos
opióides. As conseqüências precisas dessas mudanças não estão claras, mas é
provável que a desregulação a longo prazo do sistema opióide influencie a resposta ao estresse e o comportamento de uso da droga.
Adaptações Neurobiológicas ao Uso Prolongado
Tratamento Farmacológico da Dependência de Opióide
O tratamento da dependência de heroína vem tendo bastante sucesso em decorrência da terapia de substituição e do tratamento de manutenção com metadona
em particular (Quadro 4.1). A metadona é um agonista opióide sintético que atua
nos mesmos receptores que as drogas opióides e, dessa forma, bloqueia os efeitos
da heroína, elimina sintomas de abstinência e reduz a fissura. Quando usada adequadamente, a metadona não é sedativa, não provoca intoxicação e não interfere
nas atividades regulares. A medicação é tomada oralmente e suprime a abstinên-
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As adaptações após exposição crônica à droga se estendem bem além dos circuitos de recompensa para outras áreas cerebrais, notadamente, aquelas envolvidas
nas respostas de aprendizado e estresse. São regiões importantes: amígdala,
hipocampo e córtex cerebral, que são todas conectadas com o nucleus accumbens.
Todas essas áreas revelam receptores e peptídeos opióides e a distribuição geral
das células que expressam peptídeos opióides nos circuitos neurais da dependência foi revisada (Nestler, 2001; Koob e Nestler, 1997).
A exposição repetida aos opióides induz modificações drásticas e talvez irreversíveis
no cérebro. A tolerância é marca registrada das adaptações do uso crônico de
opióides, definida como sensibilidade reduzida aos efeitos da droga e geralmente
referindo atenuação do efeito analgésico. A fissura pela droga e as manifestações
fisiológicas da sua abstinência também são indicações de neuroadaptações a longo
prazo. Esses fenômenos são conseqüência da estimulação sustentada de receptores mu por drogas opiáceas, induzindo adaptações neuroquímicas em neurônios
que possuem receptores opióides (Kieffer e Evans, 2002).
Psicofarmacologia da Dependência para Diferentes Classes de Drogas – 85
cia de opióides por 24h. Não há prejuízo cognitivo. Sua característica mais importante é aliviar a fissura associada com a dependência de heroína, reduzindo, assim,
a recaída. O tratamento de manutenção com metadona é seguro e bastante efetivo
em ajudar pessoas a pararem de usar a heroína, especialmente quando combinado
com terapias comportamentais ou aconselhamento e outros serviços de suporte. O
tratamento de manutenção com metadona pode também reduzir o risco de contrair
e transmitir vírus da imunodefiência humana (HIV), tuberculose e hepatite (Krambeer
et al., 2001).
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Quadro 4.1 – Terapia de substituição
A terapia de substituição é definida como a administração sob supervisão médica de
uma substância psicoativa prescrita – farmacologicamente relacionada àquela que
produziu a dependência – para pessoas com dependência de substância, para atingir
os objetivos definidos do tratamento (geralmente melhorar a saúde e o bem-estar). A
terapia de substituição é amplamente utilizada no manejo da dependência de opióide
e é muitas vezes denominada tratamento de substituição de opióide, terapia de
reposição de opióide ou farmacoterapia opióide. Agentes apropriados para a terapia
de substituição da dependência opióide são aqueles com algumas propriedades
opióides, que então têm a capacidade de prevenir a emergência de sintomas de
abstinência e reduzir a fissura. Ao mesmo tempo, eles diminuem os efeitos da heroína
ou de outras drogas opióides porque se ligam aos receptores opióides no cérebro.
Em geral, é desejável que as drogas de substituição opióide tenham uma duração de
ação mais longa do que as drogas que estão substituindo, de maneira a retardar a
emergência da abstinência e reduzir a freqüência de administração. Como resultado,
ocorrem menos distúrbios das atividades da vida normal em razão da necessidade
de obter e administrar drogas, facilitando, assim, os esforços de reabilitação. Enquanto
opióides não prescritos são quase sempre injetados ou inalados pelos usuários de
drogas, as medicações prescritas são comumente administradas via oral na forma de
solução ou comprimido. Os agentes utilizados na terapia de substituição podem
também ser prescritos em doses decrescentes em curtos períodos (freqüentemente
menos do que um mês) com propósitos de desintoxicação. A terapia de substituição
de manutenção está associada à prescrição de doses relativamente estáveis de
agonistas opióides (por exemplo, metadona e buprenorfina) por longo período
(geralmente mais de seis meses). Os mecanismos de ação da terapia de substituição
de opióide de manutenção incluem a prevenção de alterações de eventos moleculares,
celulares e fisiológicos e, na verdade, a normalização dessas funções anteriormente
alteradas pelo uso crônico de opióides de ação curta como a heroína. O contexto de
expedição da terapia de substituição tem importantes implicações para a qualidade
das intervenções, tanto para manter controle adequado como para assegurar a
prescrição responsável.
Desde 1970, a terapia de manutenção de metadona cresceu substancialmente para
se tornar o tipo dominante de terapia de substituição globalmente. Como o tratamento
foi controverso no início, foi avaliado com mais rigor do que qualquer outro tratamento
para dependência de opióide. O peso da evidência em favor dos benefícios é
substancial.
Fonte: WHO, 1998; Kreek, 2000.
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Quadro 4.2 – Uso da buprenorfina no tratamento da dependência de opióide
Enquanto muito do trabalho sobre terapia de substituição tem se focado na metadona,
vários novos opióides sintéticos orais, como a LAAM, a morfina de liberação lenta e a
buprenorfina, vêm sendo investigados como agentes terapêuticos potenciais no
tratamento da dependência de opióide. A buprenorfina, em particular, vem passando
por testes clínicos extensivos no tratamento da dependência de opióide e está
provavelmente para se tornar a medicação utilizada no manejo dessa dependência
não apenas em clínicas especializadas, mas também em serviços primários de saúde.
Suas propriedades farmacológicas e suas características clínicas resultantes – em
especial sua relativa longa duração de ação e perfil de segurança melhor – parecem
certamente assegurar à buprenorfina um lugar importante no tratamento geral da
dependência de opióide.
Farmacologicamente, a buprenorfina é um agonista parcial do receptor mu e um
antagonista fraco do receptor kappa. Como se liga fortemente e se dissocia lentamente
desses receptores, a buprenorfina apresenta um teto do efeito agonista mais perceptível
no efeito depressor respiratório, o que confere à medicação maior grau de segurança
clínica. Sua associação firme, com dissociação lenta dos receptores, fornece bloqueio
para o efeito de agonistas administrados subseqüentemente, precipita abstinência
em pacientes mantidos com dose suficiente de um agonista completo e fornece
prolongada duração da ação com pouca reversibilidade com naloxona. Além do mais,
o efeito antagonista fraco nos receptores kappa da buprenorfina torna-a destituída de
efeitos psicotomiméticos. Pesquisas adicionais demonstraram níveis de eficácia de
reforço limitados da buprenorfina em comparação aos opióides e estabeleceram sua
capacidade de suprimir a auto-administração de opióides em primatas e humanos
dependentes de opióides.
A formulação contendo tanto buprenorfina como o antagonista opióide naloxona foi
recentemente introduzida para terapia de manutenção da dependência de opióide. A
adição de naloxona à buprenorfina visa reduzir o risco de desvio e uso injetável da
buprenorfina. Ao longo da década passada uma série de ensaios clínicos controlados,
que utilizaram medidas de desfecho, como uso de opiáceos ilícitos, adesão ao
tratamento, fissura e escore global de melhora, confirmou a eficácia e a segurança
clínica da buprenorfina. Quando usada no tratamento de substituição opióide para
mulheres grávidas dependentes, parece estar associada com baixa incidência de
síndrome de abstinência neonatal. Em decorrência das características anteriores, a
buprenorfina é uma droga útil na facilitação da abstinência dos opióides.
Fontes: Barnett, Rodgers e Bloch, 2001; Fischer et al., 2000; Ling et al., 1998.
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Uma droga mais nova, a levo-alfa-acetil-metadol (LAAM) assemelha-se à
metadona: é um opióide sintético que pode ser usado para tratar a dependência
de heroína, mas só precisa ser tomado três vezes por semana, tornando mais
fácil o uso dessa terapia.
A buprenorfina é outra droga prescrita para o manejo da dependência de
opióide, que tem o potencial de melhorar o acesso ao tratamento da dependência
ao trazer mais pessoas para o tratamento em serviços de atenção primária à
saúde (Quadro 4.2). Vem sendo amplamente utilizada na França e está atualmente sendo avaliada nos EUA.
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O tratamento assistido com heroína para a sua dependência (Quadro 4.3)
também tem sido proposto.
A naloxona e a naltrexona são medicações que também bloqueiam os efeitos
da morfina, heroína e outros opiáceos atuando como antagonistas nos receptores
opióides. São especialmente úteis na prevenção de recaídas porque bloqueiam
todos os efeitos dos opiáceos. Os efeitos são relativamente de longa duração,
variando de um a três dias. Essa terapia começa após desintoxicação supervisionada por médicos, pois a naloxona e a naltrexona não protegem contra os
efeitos da abstinência e podem, de fato, precipitar sintomas de abstinência em
pessoas dependentes. A naltrexona não tem efeitos subjetivos ou potencial
para desenvolvimento de dependência. A não adesão do paciente é um problema
comum. Dessa forma, um desfecho favorável do tratamento requer que também
exista relacionamento terapêutico positivo, terapia ou aconselhamento efetivo
e monitoramento cuidadoso da adesão ao medicamento.
Quadro 4.3 – Tratamento da dependência de heroína assistido com heroína
A prescrição de heroína para o tratamento da dependência de opióides, praticada
em escala limitada no Reino Unido por muitos anos, ganhou interesse internacional
do início da década de 1990, com estudos de viabilidade na Austrália e um primeiro
estudo nacional do tratamento assistido com heroína, na Suíça, que começou em
1994. Esse estudo acarretou o estabelecimento do tratamento assistido com heroína
como uma das opções de tratamento na Suíça. Os achados desse estudo mostraram
que houve reduções significantes no uso de drogas ilícitas, melhora no estado de
saúde e integração social (Uchtenhagen et al., 1999). Resultados do seguimento
de 18 meses documentaram estabilidade das melhoras também após a saída do
programa (Rehm et al., 2001).
Uma revisão do grupo de experts da OMS deu suporte às principais conclusões
do estudo suíço, mas também recomendou mais pesquisas com o objetivo de
identificar melhor os benefícios da heroína prescrita (Ali et al., 1999). Essas
recomendações foram seguidas em ensaios clínicos controlados: um implementado
em 1998 a 2001 na Holanda (van den Brink et al., 2002), um iniciado em 2002 na
Alemanha (Krausz, 2002). Outros projetos de pesquisa similares estão em
preparação (Fischer et al., 2002). O objetivo comum dos ensaios é testar uma
opção terapêutica adicional àqueles adictos à heroína para quem outros tratamentos
falharam e que não estejam em contato com o sistema de tratamento. Uma rede
internacional de cientistas, engajados nos projetos mencionados anteriormente,
surgiu e organizou três conferências para troca de experiências e problemas
metodológicos, terapêuticos e práticos. O debate internacional sobre o tratamento
da dependência de opióides assistido com heroína, de início principalmente político
e controverso, tende a se tornar mais científico e orientado por evidências (Bammer
et al., 1999).
Fontes: Ali et al., 1999; Bammer et al., 1999; Uchtenhagen et al., 1999; Rehm et al., 2001; van
den Brink et al., 2002; Krausz, 2002; Fischer et al., 2002.
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88 – Psicofarmacologia da Dependência para Diferentes Classes de Drogas
Canabinóides
Introdução
Efeitos Comportamentais
A percepção do tempo torna-se lenta e ocorrem sensações de relaxamento e de
aguçamento da percepção sensorial. A percepção de aumento da autoconfiança
e de maior criatividade não é acompanhada por melhor desempenho e há com-
Quadro 4.4 – Potencial terapêutico da cannabis
Os usos terapêuticos do D-9-tetra-hidrocanabinol (THC) provocaram discussões sobre
o uso terapêutico da cannabis propriamente dita, embora existam poucas pesquisas
nessa área e estudos clínicos satisfatórios não tenham sido conduzidos. Com o objetivo
de explorar possíveis usos terapêuticos da cannabis, várias questões científicas
precisam ser consideradas, incluindo:
• Padronização das preparações de cannabis necessária para alguns tipos de estudos
clínicos e pré-clínicos.
• Dificuldades inerentes ao estudo do fumo como modo de administração de uma
substância.
• Necessidade de um cigarro placebo comparável que não possa ser facilmente
identificado por indivíduos e pacientes experimentais nos ensaios controlados.
• Grande número de pacientes que seria necessário para estudar a eficácia comparativa
de fumar cannabis em relação a outros canabinóides e outros agentes terapêuticos.
• Possibilidade de utilizar sistemas de administração alternativos que evitem o ato de
fumar cannabis, assim como outros componentes contidos na sua forma para fumar.
Além disso, as grandes implicações dessas pesquisas nas políticas de controle de
cannabis precisam ser cuidadosamente consideradas.
Fonte: WHO, 1997a.
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Entre todos os canabinóides contidos na Cannabis sativa, o delta-9-tetra-hidrocanabinol (THC) é a principal substância química com efeitos psicoativos e
é metabolizado para outro composto ativo, o 11-OH-delta-9-THC. Os canabinóides são geralmente inalados pelo fumo, mas também podem ser ingeridos.
O pico da intoxicação pelo fumo é atingido em 15 a 30min e seu efeito dura de
2 a 6h. Os canabinóides permanecem no corpo por períodos longos e se acumulam após o uso repetido. Podem ser encontrados na urina por dois a três dias
após o consumo de um único cigarro e até por seis semanas após o último uso
em usuários pesados.
Vários estudos (por exemplo, Tramer et al., 2001) demonstraram efeitos
terapêuticos dos canabinóides, por exemplo, em controlar náusea e vômitos em
alguns pacientes com câncer ou síndrome da imunodeficiência humana (AIDS).
Isso tem resultado em discussão controversa a respeito dos potenciais efeitos
benéficos da cannabis em certas condições (Quadro 4.4).
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prometimento da memória a curto prazo e da coordenação motora. A analgesia,
as ações antiemética e antiepiléptica e o aumento do apetite são efeitos centrais
algumas vezes descritos como tendo relevância clínica (O’Brien, 2001).
Os derivados de cannabis produzem respostas motivacionais subjetivas claras em humanos, provocando comportamentos de busca por droga e uso repetido.
De fato, os derivados de cannabis são as drogas ilícitas mais amplamente utilizadas no mundo (Adams e Martin, 1996).
Estudos em animais demonstraram que os canabinóides possuem a maioria
das características comuns atribuídas a substâncias com propriedades reforçadoras
(revisado por Maldonado e Rodriguez e Fonseca, 2002). Assim, efeitos subjetivos foram demonstrados em animais utilizando-se uma grande gama de doses
de canabinóides no paradigma de discriminação de droga. As características
recompensadoras desses efeitos subjetivos também foram definidas em animais,
utilizando-se os paradigmas de preferência condicionada por lugar e de autoestimulação intracraniana. Estudos com animais também revelaram que os
canabinóides interagem com os circuitos cerebrais de recompensa e compartilham com outras substâncias psicoativas algumas características bioquímicas
(por exemplo, mudanças nas atividades dopaminérgica e opióide) que foram
relacionadas diretamente às suas propriedades reforçadoras (Koob, 1992). Esses achados bioquímicos dão suporte claro à capacidade dos canabinóides de
produzir dependência que foi relatada em humanos.
Mecanismo de Ação
O conjunto de receptores canabinóides e seus ligantes endógenos constituem o
que é atualmente chamado de sistema endocanabinóide. Canabinóides derivados
da planta ou seus análogos sintéticos são agonistas clássicos dos receptores
canabinóides (revisado por Pertwee, 1999; Reggio e Traore, 2000; Khanolkar,
Palmer e Makriyannis, 2000).
Os compostos canabinóides induzem seus efeitos farmacológicos pela ativação de dois receptores diferentes que foram identificados e clonados: o receptor
canabinóide CB-1, que é altamente expresso no SNC (Devane et al., 1988;
Matsuda et al., 1990), e o receptor CB-2, que é localizado em tecidos periféricos,
principalmente no sistema imune (Munro, Thomas e Abu-Shaar, 1993). O THC
e seus análogos mostram boa correlação entre afinidade por esses receptores e
seus efeitos, denotando que esses receptores são os alvos desses compostos.
Após a identificação do primeiro receptor canabinóide, teve início a procura por
ligantes endógenos para esse receptor. A descoberta do primeiro ligante canabinóide endógeno (endocanabinóide) ocorreu em 1992, quando a anandamida,
aracdonoil etanolamida, foi isolada do cérebro de porco (Devane et al., 1992).
Um segundo tipo de endocanabinóide foi descoberto em 1995, também derivado
do ácido araquidônico (Mechoulam et al., 1995; Sugiura et al., 1995). Recente-
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mente, um terceiro ligante endocanabinóide foi identificado (Hanus et al., 2001).
A identificação desses compostos endocanabinóides e o desenvolvimento de
agonistas canabinóides sintéticos seletivos e potentes, assim como de antagonistas canabinóides tiveram papel principal nos avanços recentes na farmacologia
canabinóide.
Os ligantes endógenos apresentam síntese e liberação dos neurônios induzidas
por despolarização e são removidos do espaço extracelular por um processo de
recaptura mediado por carregador que está presente nas membranas dos neurônios
e astrócitos (Di Marzo et al., 1998; Maccarrone et al., 1998; Di Marzo, 1999;
Piomelli et al., 1999; Hillard e Jarrahian, 2000). Isso é tomado como evidência
de que esses canabinóides endógenos comportam-se como transmissores no
cérebro.
Embora a cannabis seja amplamente utilizada, os mecanismos de seus efeitos euforizantes e produtores de dependência são largamente desconhecidos.
Existe um grande conjunto de evidências de que o delta-9-THC aumenta a atividade dopaminérgica na via mesolímbica que se projeta da ATV para o nucleus
accumbens, uma região-chave no desenvolvimento da dependência (ver Cap. 3).
Estudos in vivo mostraram que o delta-9-THC aumenta a concentração de
dopamina no nucleus accumbens (Chen et al., 1990). Mais recentemente, foi
mostrado, por microdiálise cerebral, que o delta-9-THC aumenta a concentração
de dopamina extracelular preferencialmente na cápsula do nucleus accumbens, de
maneira similar à ação de várias substâncias psicoativas (Tanda, Pontieri e Di
Chiara, 1997). A administração sistêmica de delta-9-THC ou de canabinóides
sintéticos também aumenta o disparo espontâneo de neurônios dopaminérgicos
na ATV (French, 1997; Gessa et al., 1998).
A distribuição cerebral dos locais de ligação CB1 se correlaciona com os
efeitos dos canabinóides na memória, percepção, controle motor e anticonvulsivante (Ameri, 1999). Os agonistas do receptor CB1 prejudicam a memória
e alteram o controle da função motora. Dessa forma, o córtex cerebral, o hipocampo, o putâmen-caudado lateral, a substância negra, a pars reticulata, o globo
pálido, o núcleo entopeduncular e a camada molecular do cerebelo são todos
povoados por concentrações particularmente altas de receptores CB1 (Pertwee,
1997). Níveis intermediários de ligação são encontrados no nucleus accumbens.
Os receptores CB1 são encontrados também nas vias de dor no cérebro e na
medula espinhal e nos terminais periféricos de neurônios sensoriais primários
(Pertwee, 2001), explicando, assim, as propriedades analgésicas dos agonistas
do receptor canabinóide. Receptores CB1 são expressos nos neurônios do coração, canal deferente, bexiga urinária e intestino delgado (Pertwee, 1997).
Os receptores CB1 localizados nos terminais nervosos (Pertwee, 1997; Ong
e Mackie, 1999; Pertwee, 2001) suprimem a liberação neuronal de transmissores que incluem acetilcolina, noradrenalina, dopamina, 5-hidroxitriptamina,
GABA, glutamato e aspartato (Pertwee, 2001). Os receptores CB2 encontrados
Psicofarmacologia da Dependência para Diferentes Classes de Drogas – 91
nas células imunes, com níveis particularmente altos nos linfócitos B e células
exterminadoras naturais (natural killer cells) (Galiegue et al., 1995), são imunomoduladoras (Molina-Holgado, Lledo e Guaza, 1997).
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Tolerância e Abstinência
A tolerância rapidamente se desenvolve para a maioria dos efeitos da cannabis,
canabinóides e drogas relacionadas que atuam no receptor canabinóide CB1.
O desenvolvimento de tolerância aos efeitos antinocicepção, anticonvulsivante
e locomotor segue diferentes intervalos de tempo e ocorre em diferentes extensões.
Existe pouca evidência de abstinência associada ao uso de canabinóides. De
fato, reações de abstinência após uso prolongado de canabinóides são raramente
relatadas, provavelmente por causa da longa meia-vida dos canabinóides que
impede o surgimento de sintomas de abstinência. A secreção aumentada do fator de liberação de corticotropina é um marcador de estresse que está aumentado
durante a abstinência de canabinóide (Rodriguez de Fonseca et al., 1997).
Adaptações Neurobiológicas ao Uso Prolongado
A cannabis é considerada, algumas vezes, uma droga inócua e a prevalência de
uso regular ou ao longo da vida vem aumentando. Entretanto, pessoas com
esquizofrenia, que usam cannabis, estão vulneráveis à recaída e à exacerbação
dos sintomas existentes, enquanto usuários relatam efeitos adversos de curta
duração e o uso regular está relacionado com desenvolvimento de dependência
(Johns, 2001). Evidências ligando a cannabis com lesões cerebrais irreversíveis
e indução de encefalopatia tóxica em crianças são inconclusivas.
Diversos estudos têm mostrado (como revisado em Ameri, 1999) que a exposição de longa duração à cannabis pode produzir prejuízos cognitivos
duradouros, que podem resultar de resíduos da droga no cérebro, reações de
abstinência ou neurotoxicidade direta dos canabinóides, alcatrão, carboxiemoglobina ou benzopireno. Existe alguma evidência de prejuízo na capacidade
de focar a atenção e de filtrar informações irrelevantes que aumenta com o número de anos de uso, mas não se relaciona com a freqüência de uso. A velocidade
de processamento de informação torna-se significativamente lenta com maior
freqüência de uso, mas não é afetada pela duração deste. Os resultados sugerem
que a acumulação crônica de canabinóides produz prejuízos cognitivos tanto a
curto como a longo prazos (Solowij, Michie e Fox, 1995). Em geral, os dados
dão suporte a um efeito residual da droga na atenção, tarefas psicomotoras e
memória de curto prazo durante período de 12 a 24h imediatamente após o uso
de cannabis, mas as evidências são ainda insuficientes para confirmar ou refutar
tanto efeito residual prolongado da droga, como efeito tóxico no SNC, mesmo
após os resíduos da droga terem sido eliminados pelo corpo (Pope, Gruber e
Yurgelun-Todd, 1995).
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Cocaína (Hidrocloreto e Crack)
Introdução
A cocaína é um poderoso estimulante do sistema nervoso que pode ser usado
por via intranasal, intravenosa ou fumada. O uso da cocaína por várias diferentes culturas data de séculos atrás. É encontrada nas folhas de Erythroxylon coca,
árvores que são nativas da Bolívia e do Peru.
Efeitos Comportamentais
A cocaína aumenta o alerta, as sensações de bem-estar e euforia, a energia e a
atividade motora, as sensações de competência e a sexualidade. Ansiedade, paranóia e inquietação também são freqüentes. O desempenho atlético pode ser
melhorado em esportes em que atenção sustentada e resistência sejam necessárias. Com doses excessivas, tremores, convulsões e aumento da temperatura
corporal são relatados. Ocorre ativação do sistema nervoso simpático concomitantemente com os efeitos comportamentais. Taquicardia, hipertensão, infarto
do miocárdio podem suceder durante a overdose de cocaína. Conforme os efeitos da droga diminuem, o usuário sente-se disfórico, cansado, irritável e levemente
deprimido, o que pode acarretar uso subseqüente da droga para recuperar a experiência anterior (O’Brien, 2001).
Existem numerosos trabalhos publicados relatando que a cocaína pode ser
auto-administrada em animais por via intravenosa ou oral (Caine e Koob, 1994;
Barros e Miczek, 1996; Rocha et al., 1998; Platt, Rowlett e Spealman, 2001). O
efeito da cocaína em aumentar a auto-estimulação intracraniana requer ativação
tanto de receptores D1 como D2 (Kita et al., 1999). A preferência por lugar
condicionado pode ser induzida em roedores pela administração de cocaína
(Itzhak e Martin, 2002).
Mecanismo de Ação
No cérebro, a cocaína age como um bloqueador do transporte de monoaminas
com afinidade similar pelos transportadores de dopamina, serotonina e noradrenalina (Ritz, Cone e Kuhar, 1990). A cocaína e o transportador de dopamina
ao qual ela se liga podem ser visualizados no cérebro humano com o uso de
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Revisão da literatura pré-clínica sugere que tanto a idade na exposição como
a duração desta podem ser determinantes críticos da neurotoxicidade. A administração de canabinóides por, pelo menos, três meses (8 a 10% do tempo de
vida nos ratos) foi necessária para produzir efeitos neurotóxicos em roedores
peripuberais, o que seria comparável a três anos de exposição em macacos rhesus
e de sete a dez anos em humanos. Estudos em macacos expostos diariamente
por até 12 meses não relataram consistentemente neurotoxicidade e os resultados
de exposições mais longas ainda não foram publicados (Scallet, 1991).
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Psicofarmacologia da Dependência para Diferentes Classes de Drogas – 93
tomografia por emissão de pósitron (PET) (Fig. 4.2). O antagonismo das proteínas transportadoras deixa mais neurotransmissores monoaminérgicos disponíveis
na fenda sináptica para atuar nos receptores pré e pós-sinápticos. É amplamente
aceito que a capacidade da cocaína de atuar como reforçador se deve, em grande
parte, à sua capacidade de bloquear a recaptura de dopamina (Wise e Bozarth,
1987; Woolverton e Johnson, 1992; Sora et al., 2001). Os efeitos reforçadores
dos psicoestimulantes estão associados com aumentos da dopamina cerebral e
da ocupação de receptores D2 em humanos, como percebido em estudos com
PET (Volkow et al., 1999). Contudo, tanto receptores D1 como D2 vêm sendo
implicados nos efeitos reforçadores da cocaína. Foi demonstrado em estudos
animais que antagonistas de receptores tipo D1 e os D2 atenuam a auto-administração de cocaína (Caine e Koob, 1994) enquanto agonistas de receptores
tipo D1 e os D2 mantêm a auto-administração de cocaína (como revisto em
Platt, Rowlett e Spealman, 2001). Utilizando-se PET para investigar o papel da
5
6,7
Z = +32mm
Z = +16mm
8,9
Z = +0mm
10,11
9
Z = -8mm
Z = -20mm
5min
10min
20min
30min
Figura 4.2 – Imagens da distribuição de [(11)C] cocaína no cérebro humano em diferentes
tempos após a injeção (ver prancha colorida). Fonte: Fowler et al., 2001. Reproduzido com
permissão dos editores.
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Tolerância e Abstinência
Em geral, parece haver pouca tolerância aos efeitos da cocaína, embora possa existir
tolerância aguda na mesma sessão de uso repetido da substância (Brown, 1989).
A abstinência de cocaína não resulta em sintomas graves como os que caracterizam a abstinência de opióides, mas induz uma baixa depois da alta (Brown,
1989), que pode contribuir para uso adicional de cocaína ou de outra droga.
Durante a abstinência protraída, o córtex orbitofrontal de pessoas com dependência de cocaína está hipoativo em relação aos níveis de receptores de dopamina
D2 no striatum. É atualmente proposto que o estado de dependência envolve
alterações nos circuitos orbitofrontais relacionados a comportamentos repetitivos
compulsivos (Volkow e Fowler, 2000).
Adaptações Neurobiológicas ao Uso Prolongado
Déficits cognitivos associados ao uso crônico de cocaína vêm sendo notados e
refletem mudanças nos mecanismos corticais, subcorticais e neuromoduladores
subjacentes que embasam a cognição – e também interferem diretamente com
programas de reabilitação (Rogers e Robbins, 2001). Indivíduos que são dependentes de cocaína possuem déficits específicos de funções executivas, por
exemplo, tomada de decisão e julgamento, e esse comportamento está associado
com disfunções de regiões cerebrais pré-frontais específicas. Estudos com PET
sugerem que a estimulação do sistema dopaminérgico, secundária ao uso crônico
de cocaína, ative um circuito que envolve o córtex orbitofrontal, o giro do cíngulo,
o tálamo e o striatum. Esse circuito está anormal em pessoas com dependência
de cocaína e se formula a hipótese de que essa anormalidade contribui para o
desejo intenso de usar cocaína, resultando na perda de controle sobre o direcionamento para usar mais cocaína (Volkow et al., 1996).
Parece haver fortes evidências dando suporte à existência de uma síndrome
neurológica após uso a longo prazo de cocaína. Pessoas com dependência de cocaína
exibem desempenho prejudicado em testes do funcionamento do sistema motor e
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dopamina nos efeitos reforçadores da cocaína em humanos foi mostrado que a
taxa na qual a cocaína entra no cérebro e bloqueia o transportador de dopamina
está associada ao barato e não apenas à presença da droga no cérebro (Volkow
et al., 1999).
Apesar das evidências apontando para um mecanismo dopaminérgico para
a recompensa da cocaína, a dopamina pode não ser o único mediador das suas
propriedades reforçadoras, pois os camundongos knock-out para o transportador de dopamina – camundongos que tiveram o gene para esse transportador
silenciado de forma que ele não é expresso (ver Cap. 5) – continuam a autoadministrar cocaína (Rocha et al., 1998). O sistema serotonérgico pode influenciar
as propriedades reforçadoras da cocaína, pois ela também facilita a transmissão
serotonérgica no nucleus accumbens (Andrews e Lucki, 2001).
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têm tempos de reação mais lentos do que indivíduos não dependentes. Evidências
de anormalidades no eletroencefalograma (EEG) entre pessoas em recuperação da
dependência de cocaína também foram encontradas (Bauer, 1996).
Estudos clínicos e pré-clínicos fornecem evidências convincentes de prejuízos neurológicos e psiquiátricos persistentes e possível degeneração neuronal
associados ao uso crônico de cocaína ou outros estimulantes. Esses prejuízos
incluem isquemia cerebral multifocal e global, hemorragias cerebrais, infartos,
neuropatia óptica, atrofia cerebral, prejuízos cognitivos e transtornos do humor
e dos movimentos. Podem abranger largo espectro de déficits na cognição, motivação e compreensão, desinibição comportamental, déficits de atenção, instabilidade
emocional, impulsividade, agressividade, depressão, anedonia e transtornos persistentes do movimento. Os prejuízos neuropsiquiátricos, que acompanham o
uso de estimulantes, podem contribuir para as taxas muito elevadas de recaída
nos indivíduos, que podem ocorrer depois de anos de abstinência.
Tratamento Farmacológico da Dependência de Cocaína
Várias abordagens estão sendo examinadas no tratamento da dependência de
cocaína. Como a cocaína tem efeitos potentes no transportador de dopamina,
medicações que se ligam ao transportador vêm sendo testadas. O GBR 12909 é
um inibidor da recaptura de dopamina potente e seletivo que antagoniza os efeitos da cocaína nos neurônios dopaminérgicos mesolímbicos em ratos (Baumann
et al., 1994) e bloqueia a auto-administração de cocaína em macacos rhesus
(Rothman e Glowa, 1995). Ensaios clínicos com essa droga estão em estágio de
planejamento.
Estratégia inovadora para o tratamento da dependência de cocaína é o desenvolvimento de anticorpos anticocaína ou imunoterapias para impedir que a
cocaína entre no cérebro. Essa abordagem difere significativamente dos tipos de
farmacoterapia tradicionais à medida que, após o consumo, a cocaína é seqüestrada na corrente sanguínea por anticorpos específicos para cocaína que impedem
sua entrada no cérebro. Benefício do uso de agente periférico bloqueador da
cocaína é que os efeitos colaterais tipicamente associados com a penetração de
drogas terapêuticas no SNC são evitados.
A vacina para cocaína IPC-1010 foi testada em estudos pré-clínicos iniciados pela ImmuLogic Pharmaceutical Corporation em colaboração com a
Universidade de Boston e então continuados com o nome TA-CD em estudos
clínicos conduzidos pela Cantab Pharmaceuticals plc e pelo Xenova Group plc
em colaboração com a Universidade de Yale e suporte do The National Institute
on Drug Abuse.
Uma série de estudos avaliou a eficácia pré-clínica dos anticorpos anticocaína
e da vacina IPC-1010 no comportamento de auto-administração de cocaína em
ratos. A imunização ativa com a IPC-1010 reduziu significantemente tanto o
comportamento de busca pela droga como o número de infusões dela ocorridos
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em comparação com os níveis pré-imunização. Apenas ratos com níveis séricos
do anticorpo maiores que 0,05mg/mL mostraram comportamento de busca pela
droga e número de infusões diminuídos na gama de doses examinadas. A imunização ativa com IPC-1010, com acesso à cocaína durante o período de imunização,
sugeriu que a exposição diária à cocaína durante o período de imunização não
interfere com a capacidade da imunoterapia de induzir a formação de anticorpos
e de reduzir o comportamento de auto-administração de cocaína. Estudos também mostraram que a imunização com a IPC-1010 reduziu especificamente a
busca por cocaína, não afetando a resposta a outras recompensas como porções
de alimento.
Em um estudo de fase I, a segurança e a imunogenicidade da TA-CD foram
avaliadas em três grupos de abusadores de cocaína abstinentes (Kosten et al.,
2002). A imunização com TA-CD produziu anticorpos específicos para cocaína
nos três grupos de humanos. Os primeiros anticorpos anticocaína claramente
detectáveis surgiram no dia 28 (14 dias após a segunda imunização), o que correspondeu ao surgimento inicial de diminuição no comportamento de auto-administração
de cocaína em ratos (Kantak et al., 2001). A resposta de anticorpos foi máxima
após a terceira imunização e permaneceu nesse nível por quatro meses. Como
com os ratos, houve variabilidade substancial entre indivíduos na magnitude da
resposta de anticorpos. Em torno de um ano, os níveis de anticorpos nos três
grupos retornaram aos valores basais. Os efeitos colaterais foram menores e
incluíram pequenas elevações na temperatura, dor leve e sensibilidade no local
da injeção e contrações musculares na dose mais alta.
Estudos clínicos de fase II com a TA-CD estão atualmente em andamento;
entretanto, relatórios parciais descrevendo resultados preliminares estão disponíveis na Internet. No estudo inicial de fase II, um regime de aumento da dose
foi iniciado para elevar os níveis de anticorpos anticocaína. A imunoterapia produz níveis de anticorpos contra cocaína que se aproximam dos produzidos nos
modelos de auto-administração em roedores.
Em termos de tratamento clínico com a imunoterapia para cocaína, é provável que funcione melhor com indivíduos que estejam altamente motivados a
parar de usar todas as drogas, uma vez que os anticorpos anticocaína estão sujeitos a ter especificidade farmacológica, além da especificidade comportamental.
A imunoterapia para cocaína produz anticorpos que são altamente específicos
para reconhecer cocaína e seu metabólito ativo norcocaína e derivado ativo
cocaetileno (Fox et al., 1996) e, dessa forma, não reconheceriam estimulantes
estruturalmente diferentes.
Está claro, pela presente série de estudos, que as ações anticocaína da imunoterapia emergem gradualmente ao longo do tempo após o início das imunizações.
Assim, não se espera que a imunoterapia melhore de imediato a fissura pela
cocaína. A fissura é significativamente mais comum em pacientes internados do
que em ambulatoriais, mas indivíduos abstinentes de cocaína relatam menos
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Psicofarmacologia da Dependência para Diferentes Classes de Drogas – 97
fissura ao longo do tratamento ambulatorial e do seguimento em comparação a
usuários moderados a pesados de cocaína (Bordnick e Schmitz, 1998). Com base
nessas considerações, faz-se a hipótese de que o tratamento com imunoterapia
para cocaína pode, no fim, ajudar a diminuir a fissura e prevenir a recaída se
extinguir o uso de cocaína. O tratamento adjuvante com droga antifissura pode
ajudar nesse aspecto, particularmente durante o processo de imunização. A maneira como os anticorpos anticocaína interagem com as medicações antifissura
merece atenção importante (por exemplo, Kuhar et al., 2001), pois o desenvolvimento dessas medicações continua e a capacidade da imunoterapia de bloquear
os efeitos reforçadores da cocaína em humanos se abre.
As implicações éticas desse novo tipo de terapia são consideradas no Capítulo 7.
Anfetaminas
Introdução
As anfetaminas incluem a delta-anfetamina, L-anfetamina, efedrina, metanfetamina, metilfenidato e pemolina. Outro membro desse grupo é a (-)catinona,
o ingrediente ativo das folhas frescas do arbusto Khat (Catha edulis), cuja ação
é muito similar àquela das anfetaminas (Jaffe, 1990) (Quadro 4.5). As anfetaminas
são utilizadas não apenas pelo barato subjetivo que produzem, mas também
para aumentar períodos de vigília, como feito por motoristas de caminhão e
estudantes em preparação para exames. Além disso, são utilizadas como supressoras do apetite, embora esse efeito tenha curta duração. Clinicamente, as
anfetaminas são utilizadas, na atualidade, apenas nos tratamentos da narcolepsia
e de sintomas do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) em
crianças. Esse transtorno é visto como parcialmente decorrente da baixa noradrenalina cortical, o que permite que sistemas emocionais subcorticais governem
o comportamento impulsivamente. Quando o alerta cortical é facilitado com
psicoestimulantes, crianças com TDAH são capazes de prestar atenção às tarefas
Quadro 4.5 – Khat
Folhas e brotos da planta da áfrica oriental, Catha edulis, que são mascados ou
fermentados dando origem a uma bebida. Utilizado também em partes do Mediterrâneo
oriental e do norte da África, o Khat é um estimulante com efeitos similares àqueles
das anfetaminas – a razão disso é que o principal ingrediente ativo do Khat é a catinona,
uma substância semelhante às anfetaminas. O consumo de Khat produz euforia e
aumento do alerta, embora a concentração e o julgamento fiquem prejudicados. O
uso pesado pode resultar em dependência e problemas físicos e mentais semelhantes
àqueles produzidos por outros estimulantes.
Fonte: WHO, 1994.
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em que estão engajadas (Panksepp, 1998) (Quadro 4.6). O uso não médico de
anfetaminas e estimulantes relacionados é um problema crescente ao redor do
mundo (Quadro 4.7).
Efeitos Comportamentais
Quadro 4.6 – Uso de drogas estimulantes para o tratamento do transtorno de
déficit de atenção e hiperatividade
O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) é caracterizado por
hiperatividade, impulsividade e déficits de atenção que não são apropriados para uma
criança na idade de desenvolvimento. Os psicoestimulantes, como o metilfenidato,
são usados no tratamento do TDAH. Esse uso pode parecer paradoxal, entretanto,
acredita-se que indivíduos com TDAH tenham baixa atividade de noradrenalina e
dopamina e, dessa forma, tenham pouca atenção e dificuldade em controlar
comportamentos com base em estímulos externos. Os neurotransmissores
noradrenalina e dopamina promovem alerta sensorial e motor. Com tão pouca
ativação cortical, acredita-se que sistemas emocionais subcorticais governem o
comportamento impulsivamente. Quando o alerta cortical é facilitado com
psicoestimulantes, a atenção das crianças com TDAH melhora e elas passam a se
concentrar na tarefa. Assim, com atenção melhor, indivíduos com TDAH podem
controlar melhor seu próprio comportamento.
Fonte: Panksepp, 1998.
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As anfetaminas são estimulantes do SNC que produzem aumento do alerta, da
vigília, da energia, das atividades motoras, de falar, da autoconfiança e da capacidade de concentração, sensação geral de bem-estar e diminuição do apetite
(Jacobs e Fehr, 1987; Hoffman e Lefkowitz, 1990). Os efeitos a curto prazo de
doses baixas de anfetaminas incluem inquietação, tontura, insônia, euforia, confusão leve, tremores e podem induzir pânico ou episódios psicóticos. Ocorre
aumento geral no alerta, energia e atividade e redução na fadiga e na sonolência.
Pode haver palpitações, batimentos cardíacos irregulares, aumento da respiração, boca seca e diminuição do apetite. Com doses maiores, esses efeitos são
intensificados, causando hilaridade e euforia, fluxo rápido de idéias, sensações
de aumento das capacidades mentais e físicas, excitação, agitação, febre e sudorese. Idéias paranóides, confusão e alucinações também são observadas. A
overdose grave pode ocasionar febre alta, convulsões, coma, hemorragia cerebral e morte (Jacobs e Fehr, 1987).
As anfetaminas são potentes psicotomiméticos e podem intensificar sintomas
ou precipitar episódio psicótico em indivíduos vulneráveis (Ujike, 2002). Pessoas
que utilizam anfetaminas de forma crônica quase sempre desenvolvem psicose muito
parecida com a esquizofrenia (Robinson e Becker, 1986; Yui et al., 1999).
As anfetaminas são prontamente auto-administradas em animais (Hoebel et al.,
1983), mostram condicionamento robusto por preferência de lugar (Bardo,
Valone e Bevins, 1999), efeito discriminador de estímulo (Bevins, Klebaur e
Psicofarmacologia da Dependência para Diferentes Classes de Drogas – 99
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Quadro 4.7 – Epidemia crescente de uso de estimulantes tipo anfetamina (ETA)
ETA referem-se a um grupo de drogas cujos principais membros incluem a anfetamina
e a metanfetamina. Entretanto, uma variedade de outras substâncias também é incluída
nesse grupo, como a metacatinona, fenetilina, efedrina, pseudoefedrina, metilfenidato
e 3,4-metilenodioximetanfetamina (MDMA) ou ecstasy – um derivado tipo anfetamina
com propriedades alucinógenas. O uso de ETA é global e um fenômeno crescente e,
em anos recentes, houve aumento pronunciado na produção e no uso de ETA ao
redor do mundo.
Ao longo da década passada, o emprego de ETA se infiltrou na corrente cultural principal
em certos países. Pessoas jovens, em particular, parecem possuir percepção enviesada
da segurança em relação a essas substâncias, acreditando erroneamente que elas
são seguras e benignas. Enquanto isso, os ETA estão colocando sérias ameaças para
a saúde, sociais e econômicas para as famílias, comunidades e países. Para muitos
países, o problema dos ETA é relativamente novo, cresce rapidamente e com pouca
probabilidade de desaparecer. Geograficamente, sua ocorrência está se espalhando,
mas o alerta quanto aos ETA é limitado e a resposta não é integrada nem consistente.
Dados recentes mostraram estabilização no uso de ETA no norte da América e Europa
ocidental, enquanto os níveis mais altos de abuso ao redor do mundo surgiram no leste
da Ásia e na Oceania. De acordo com revisão conduzida pela UNDCP em 1996, existem
20 países nessas regiões nos quais o abuso de ETA está mais disseminado do que o
abuso de cocaína e de heroína combinados. No Japão, na República da Coréia e nas
Filipinas, o uso de ETA é cinco a sete vezes o uso de heroína e de cocaína.
Fumar, cheirar e inalar são os métodos mais populares de uso de ETA, mas as vias
de uso da droga variam muito ao longo da região. Em países como a Austrália, em
que mais de 90% daqueles que relatam usar ETA (principalmente metanfetamina) os
injetam, a droga representa um fator de risco significativo na transmissão de vírus
presentes no sangue. As Filipinas e o Vietnã também relatam sinais de que o uso de
metanfetamina injetável está crescendo, enquanto na Tailândia, o número de usuários
de metanfetamina atualmente representa a maioria de todos os casos novos para
tratamento de drogas. Existem, na atualidade, dados muito limitados para indicar a
proporção de usuários atuais que são dependentes. Pesquisadores têm apontado
que é provável que a dependência e o uso crônico estejam associados com psicose
por metanfetamina e conseqüências adversas relacionadas e que, em decorrência
das altas taxas de uso, a freqüência de apresentação de psicose por metanfetamina
em serviços de saúde mental esteja aumentando dramaticamente.
Em resumo, a situação atual requer atenção imediata, com um uso epidêmico
importante de metanfetamina na Tailândia, que parece estar se disseminando ao
longo de toda a Região do Pacífico Asiático. Pesquisadores têm frisado a necessidade
urgente de mapear essa epidemia para avaliar a disseminação e a escala dos
problemas, conseqüências e respostas.
Fontes: WHO, 1997b; Farrell et al., 2002; UNODCCP, 2002.
Bardo, 1997) e efeitos de recompensa de estimulação cerebral (Phillips, Brooke
e Fibiger, 1975; Glick, Weaver e Meibach, 1980).
Mecanismo de Ação
O mecanismo de ação primário das anfetaminas é a estimulação da liberação de dopamina dos terminais nervosos pelo transportador de dopamina. Assim, a dopamina
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100 – Psicofarmacologia da Dependência para Diferentes Classes de Drogas
Tolerância e Abstinência
A tolerância se desenvolve rapidamente para muitos dos efeitos comportamentais
e fisiológicos das anfetaminas, como supressão do apetite, insônia, euforia e
efeitos cardiovasculares (Jacobs e Fehr, 1987). De maneira interessante, os efeitos das anfetaminas no comportamento de crianças com TDAH e em pessoas
com narcolepsia não mostram sinais de tolerância. É importante destacar que
apesar da metanfetamina ser usada para tratar crianças com TDAH, as doses
terapêuticas para TDAH e outros transtornos, como a narcolepsia, são muito
inferiores às utilizadas com propósitos não médicos.
Embora a tolerância se desenvolva para alguns aspectos do uso de psicoestimulantes, sensibilização ou aumento na hiperatividade ou estereotipia, induzidos
por anfetaminas também ocorre, mesmo se as doses forem distribuídas ao longo
de dias ou semanas. Há sensibilização cruzada com a cocaína que, acredita-se,
ser resultado do aumento de dopamina no striatum (Kalivas e Weber, 1988).
Acredita-se que a sensibilização tenha um papel crítico na dependência (ver
Cap. 3).
Adaptações Neurobiológicas ao Uso Prolongado
O uso a longo prazo de anfetaminas pode resultar em problemas para dormir,
ansiedade, supressão do apetite e aumento da pressão arterial. Pessoas que usam
anfetaminas, muitas vezes, tomam drogas sedativas/hipnóticas para contrabalançar esses efeitos e, portanto, a incidência de uso de múltiplas drogas é alto
(Jacobs e Fehr, 1987).
Usuários de anfetamina, algumas vezes, ingerem quantidades crescentes de
anfetamina em corridas que duram de 3 a 6 dias. Esse uso contínuo foi modelado em animais e observaram-se mudanças no comportamento consistentes com
efeitos semelhantes a alucinatórios. Esse padrão de uso é neurotóxico e produz
danos cerebrais. Infusões contínuas de baixas doses de anfetaminas em ratos
produzem depleção da dopamina nigroestriatal, de seus precursores e metabólitos
e receptores (Robinson e Becker, 1986).
Com o uso a longo prazo de metanfetamina há diminuição na disponibilidade
do receptor D2 de dopamina no caudado e no putâmen e redução na taxa metabólica no córtex orbitofrontal (Volkow et al., 2001a) (Fig. 4.3) e perda dos
transportadores de dopamina que estão associados com prejuízo motor e cognitivo
(Volkow et al., 2001b).
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pode ser liberada independentemente de excitação neuronal. Esse mecanismo
contrasta com os efeitos da cocaína, que bloqueia a recaptura de monoaminas
no terminal nervoso e, portanto, afeta apenas neurônios ativos. Como a cocaína,
as anfetaminas também inibem, em certa extensão, a recaptura das catecolaminas, aumentando, dessa forma, suas capacidades de ativar receptores. As anfetaminas também ativam diretamente os receptores de catecolamina, contribuindo
ainda mais para a atividade monoaminérgica.
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4
Indivíduo-controle
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0
Taxa
Abusador de metanfetamina
Figura 4.3 – Comparação da ligação a receptores D2 de dopamina nos cérebros de um
indivíduo-controle e de uma pessoa com dependência de metanfetamina (ver prancha colorida).
Fonte: Volkow et al., 2001a. Reproduzido com permissão dos editores.
Existem dados limitados disponíveis sobre a proporção de usuários de anfetamina que são dependentes (ver Quadro 4.7). Uma revisão da literatura médica
indica que algumas drogas antidepressivas podem reduzir a fissura por
anfetaminas (Srisurapanont, Jarusuraisin e Kittirattanapaiboon, 2001). Entretanto, isso também pode estar relacionado à co-morbidade de dependência de
psicoestimulantes e depressão (ver Cap. 6).
Ecstasy
O ecstasy ou 3,4-metilenodioximetanfetamina (MDMA) é uma anfetamina sintética, também conhecida como XTC, E, Adam, MDM ou droga do amor (Shaper,
1996). Pode ser classificado como psicoestimulante e pertence ao mesmo grupo
da cocaína e das anfetaminas, uma vez que seus efeitos agudos são similares aos
dessas substâncias. O ecstasy é classificado como alucinógeno em razão do seu
potencial de causar alucinações se utilizado em doses extremamente altas (American
Psychiatric Association, 1994; WHO, 2001). Como os efeitos subjetivos da MDMA
em humanos não são os mesmos produzidos pela dietilamida do ácido lisérgico
(LSD) e como a droga não apresenta estrutura ou atividade farmacológica similar
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102 – Psicofarmacologia da Dependência para Diferentes Classes de Drogas
Efeitos Comportamentais
A MDMA pode produzir efeitos em humanos que são similares, mas distinguíveis
dos efeitos dos psicoestimulantes delta-anfetamina e cocaína. Autoconfiança, compreensão e empatia aumentadas, junto com sensação de maior proximidade e
intimidade com outras pessoas e melhora na comunicação e nas habilidades de
relacionamento são descritas em estudos não controlados. Euforia e energia emocional e física aumentada presume-se que ocorram com esse psicoestimulante
(Downing, 1986; Nichols, 1986; WHO, 2001). Efeitos psicológicos negativos,
como ansiedade, paranóia e depressão, também podem ocorrer (WHO, 2001).
O comportamento de auto-administração injetável em primatas (Beardsley,
Balster e Harris, 1986) e em ratos (Acquas et al., 2001) é mantido em uma gama
de doses de ecstasy.
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aos alucinógenos, o termo entactogênios, que significa entrando em contato com
você mesmo (Nichols, 1986; Morgan, 2000), foi proposto para definir uma nova
classe farmacológica. Conforme o entendimento sobre a ação da droga aumentar,
sua classificação se tornará mais acurada. O uso de ecstasy foi recentemente
associado com a moda global de festas para dançar (ou raves) e música techno
(WHO, 2001).
Os efeitos psicoestimulantes da MDMA são observados 20 a 60min após a
ingestão oral de doses moderadas (50 a 125mg) de ecstasy e dura de 2 a 4h
(Grispoon e Bakalar, 1986). O pico dos níveis plasmáticos de ecstasy ocorre
2h após a administração oral e apenas níveis residuais são encontrados após 24h
da última dose (Verebey, Alrazi e Jafre, 1988; Cami et al., 1997). A MDMA tem
um perfil farmacocinético não linear: o consumo de doses elevadas da substância pode produzir elevação desproporcional nos níveis plasmáticos de ecstasy
(Cami et al., 1997; De la Torre et al., 2000).
A MDMA se distribui amplamente, cruzando membranas com facilidade,
assim como a barreira hematoencefálica. Sua eliminação depende parcialmente
de metabolismo pelo fígado, entre 3 e 7% são convertidos para a substância
ativa metilenodioxianfetamina (MDA), 28% são biotransformados para outros
metabólitos e cerca de 65% eliminados sem modificação pelos rins (Verebey,
Alrazi e Jafre, 1988; Cami et al., 1997).
A meia-vida do ecstasy no plasma é de 7,6h. Essa informação é relevante
para o tratamento de intoxicações: seis a oito meias-vidas são necessárias para
eliminação completa do ecstasy, dando tempo total de cerca de 48h para a droga
ser completamente eliminada. Também pode ser visto que a um nível plasmático
de 8mg/L – considerado o nível de intoxicação grave – mais do que 24h serão
necessárias para a diminuição do nível plasmático para menos que 1mg/L, o
qual produz menos efeitos clínicos. Dessa forma, 24h é o tempo estimado de
tratamento intensivo necessário para pacientes intoxicados que tenham tomado
poucas cápsulas de ecstasy.
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Mecanismo de Ação
De maneira similar a outras anfetaminas (McKenna e Peroutka, 1990), os efeitos do ecstasy podem estar relacionados a vários neurotransmissores, incluindo
serotonina, dopamina e noradrenalina (Downing, 1986; Nichols, 1986; Kalant,
2001; Montoya et al., 2002). Entretanto, a serotonina tem papel principal na
mediação dos efeitos do ecstasy (Shulgin, 1986; Mascaró et al., 1991; MaronaLewicka et al., 1996; Kalant, 2001; Montoya et al., 2002). Ocorre liberação
aumentada de serotonina, pois a MDMA se liga e bloqueia o transportador de
serotonina, bloqueando, assim, a sua recaptura (Kalant, 2001). Ao final, isso
causa depleção de longa duração de serotonina e concentração de metabólitos
no cérebro (WHO, 2001). A MDMA também aumenta a liberação de dopamina
(WHO, 2001).
Tolerância e Abstinência
A tolerância se desenvolve rapidamente com o uso de ecstasy e alguns indivíduos
usam quantidades progressivamente maiores para reforçar seus efeitos psicoativos
(McCann e Ricaurte, 1991; WHO, 2001). Em alguns indivíduos, ocorre tolerância para os efeitos psicoativos prazerosos, mas não aos efeitos físicos colaterais,
dessa forma, qualquer aumento de dose para elevar os efeitos psicoativos pode
produzir disforia (Grispoon e Bakalar, 1986). Nesse grupo de indivíduos, a
MDMA não causará dependência e, assim, o uso de grandes quantidades de
ecstasy por longos períodos é raro (Peroutka, 1989). Ainda é necessário definir
quais são os fatores sociais, genéticos, culturais, ambientais e hormonais envolvidos nessas diferenças individuais a longo prazo nos efeitos do ecstasy.
Por dois a três dias após o uso de MDMA, pode haver efeitos residuais
associados com a abstinência aguda da droga, incluindo rigidez e dor muscular,
cefaléia, náusea, perda de apetite, visão turva, boca seca e insônia (Kalant, 2001).
Efeitos psicológicos também podem ser observados, mais comumente, depressão, ansiedade, fadiga e dificuldade de concentração (Kalant, 2001). Isso é típico
da ressaca que também se vê após o uso de anfetaminas e cocaína.
Adaptações Neurobiológicas ao Uso Prolongado
A neurotoxicidade induzida pela MDMA é acumulativa e está relacionada à
dose e à freqüência de uso da droga (McKenna e Peroutka, 1990; Kalant, 2001).
Em animais, os efeitos neuroquímicos agudos são observados após doses de
ecstasy de cerca de 5 a 10mg/kg e efeitos a longo prazo ocorrem após doses
quatro vezes maiores ou administração freqüente de doses menores. Um esquema neurotóxico de ecstasy reduz as concentrações de serotonina no cérebro de
ratos em 45%. Danos ou neuroadaptações cerebrais vêm sendo claramente demonstrados em humanos e em modelos animais, que apresentam concentrações
de serotonina, neurônios, transportadores e terminais serotonérgicos reduzidos
(Kalant, 2001).
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104 – Psicofarmacologia da Dependência para Diferentes Classes de Drogas
Solventes Voláteis
Introdução
Várias substâncias químicas voláteis (incluindo gases como o óxido nítrico,
solventes voláteis como o tolueno e nitritos alifáticos) produzem efeitos no SNC
e são usadas principalmente por crianças e adolescentes em razão de sua pronta
disponibilidade (Quadro 4.8). O termo inalantes aplica-se a um grupo diverso de
substâncias que podem ser encontradas em produtos como gasolina, removedores de esmalte para unhas, removedores de tinta e cola adesiva (Weir, 2001).
Esses compostos são aspirados intencionalmente, seja diretamente ou com um
pano encharcado com o solvente colocado na boca da pessoa, ou em um saco
plástico. Os compostos solventes voláteis têm poucas características em comum
além de sua toxicidade e dos efeitos comportamentais que produzem.
Quadro 4.8 – Uso dos solventes voláteis
O termo uso de solvente volátil descreve a inalação intencional de uma variedade de
substâncias voláteis (principalmente solventes orgânicos) para efeitos psicoativos. O
termo inalantes surgiu para englobar um grupo de substâncias químicas psicoativas
que são definidas pela via de administração em vez de por seus efeitos no sistema
nervoso central. Assim, substâncias tão diversas quanto tolueno, éter e nitritos foram
classificadas como inalantes porque todas são utilizadas através do nariz e da boca
por inalação.
O uso de solventes voláteis (incluindo cheirar cola, o uso de solventes e inalantes)
foi agora relatado em várias partes do mundo, especialmente entre adolescentes,
entre indivíduos que vivem em comunidades remotas e entre aqueles cuja ocupação
fornece fácil acesso a essas substâncias. Em certos países, o uso de solventes
voláteis está associado com grupos particulares de pessoas jovens, como crianças
de rua e crianças de populações indígenas. Muitos produtos, que podem ser usados
para se obter intoxicação, estão prontamente disponíveis nos lares e em uma
variedade de lojas.
Fontes: WHO, 1999; Brouette e Anton, 2001.
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Existem também problemas físicos e psiquiátricos associados ao uso de
MDMA. Prejuízos de memória, da tomada de decisões e do autocontrole são
observados, assim como paranóia, depressão e ataques de pânico (Kalant, 2001;
Montoya et al., 2002). Pode haver, ainda, efeitos tóxicos hepáticos, cardiovasculares e cerebrais importantes (Kalant, 2001; Montoya et al., 2002). A
depleção de longa duração da serotonina cerebral pelo ecstasy também é acompanhada por alterações no controle da temperatura corporal e das respostas
comportamentais (Shankaran e Gudelsky, 1999). As implicações desses achados para a saúde pública são evidentes.
Psicofarmacologia da Dependência para Diferentes Classes de Drogas – 105
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Efeitos Comportamentais
A intoxicação induzida pela inalação de vapor solvente produz alguns efeitos
comportamentais similares àqueles do álcool. Minutos após a inalação, tontura,
desorientação e curto período de excitação e euforia são observados, seguidos
por sensação de tontura e período mais longo de depressão da consciência. Além
disso, mudanças marcadas são induzidas em pessoas que abusam de tolueno ou
outros solventes. A maioria dos usuários relata elevação do humor e alucinações. Delírios potencialmente perigosos, como acreditar que pode voar ou nadar,
também podem ocorrer, os pensamentos parecem mais lentos, o tempo parece
passar mais rapidamente e alucinações táteis são comuns (Evans e Raistrick,
1987). Esses efeitos comportamentais são acompanhados por distúrbios visuais,
nistagmo, incoordenação e marcha instável, fala empastada, dor abdominal e
vermelhidão na pele.
Estudos em animais mostraram que, em comum com drogas depressoras clássicas, os solventes voláteis têm efeitos bifásicos na atividade motora, alteram o
desempenho psicomotor, têm efeitos anticonvulsivantes, produzem efeitos semelhantes a drogas bifásicas nas taxas de comportamento operante controlado por
programação, aumentam as taxas de respostas punidas, servem como reforçadores
em estudos de auto-administração e compartilham efeitos de discriminação de
estímulos com barbitúricos e o etanol (Evans e Balster, 1991). O tolueno é autoadministrado em primatas (Weiss, Wood e Macys, 1979) e tem efeitos bifásicos na
auto-estimulação intracraniana, aumentando a freqüência de estimulação em concentrações baixas e diminuindo em concentrações altas. Vários solventes contidos
no vapor de cola, incluindo tolueno, induzem preferência por lugar condicionado
e ativam o sistema cerebral de recompensa na auto-estimulação intracraniana em
ratos, predizendo o potencial de produzir dependência dos solventes voláteis
(Yavich, Patkina, e Zvartau 1994; Yavich e Zvartau, 1994).
Mecanismo de Ação
Pouco se sabe sobre o mecanismo de ação dos solventes e eles têm recebido
bem menos atenção em pesquisa do que outras substâncias psicoativas. A maioria
dos revisores analisa a natureza dos efeitos agudos dos solventes orgânicos comparando suas ações àquelas das drogas depressoras clássicas como os barbitúricos,
os benzodiazepínicos e o etanol. Com base em seus efeitos físicos, é assumido
que os solventes induzem mudanças bioquímicas similares ao etanol e aos anestésicos e, dessa forma, tem-se procurado por um mecanismo de ação GABAérgico.
Em camundongos, o efeito discriminativo de estímulo do etanol pode ser substituído por vários anestésicos voláteis, por tolueno e outros solventes voláteis
(Bowen e Balster, 1997). A aquisição de discriminação por tolueno por ratos e
camundongos se generaliza para agentes GABAérgicos como barbitúricos e
benzodiazepínicos, sugerindo que o tolueno pode ter potencial de dependência
de droga do tipo depressor do SNC (Knisely, Rees e Balster, 1990).
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106 – Psicofarmacologia da Dependência para Diferentes Classes de Drogas
Tolerância e Abstinência
Os efeitos neurocomportamentais agudos dos solventes voláteis, incluindo
ansiólise e sedação, são aqueles tipicamente associados a depressores do SNC e
esses efeitos podem resultar em uso contínuo, tolerância e abstinência (Beckstead
et al., 2000).
Pode haver tolerância, mas é considerada de difícil estimação em humanos.
Parece se estabelecer após um a dois meses de exposição repetitiva aos solventes
voláteis (American Psychiatric Association, 1994). Ratos expostos a altas concentrações ambientais de vapores de tolueno por longos períodos apresentam
tolerância às anormalidades motoras (Himnan, 1984).
A abstinência de solventes voláteis em camundongos é caracterizada por
maior suscetibilidade a convulsões e pode ser revertida ou diminuída por outros
vapores de solvente, assim como por etanol, midazolam e pentobarbital. Esses
dados dão suporte à hipótese de que a base para o uso de solventes voláteis pode
ser sua capacidade de produzir efeitos semelhantes aos do etanol e de drogas
depressoras (Evans e Balster, 1991).
Adaptações Neurobiológicas ao Uso Prolongado
Mudanças persistentes na ligação e na função do receptor de dopamina foram
encontradas em ratos expostos a baixas concentrações de tolueno. Ademais, a
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Os solventes comumente utilizados, incluindo o tolueno, também afetam a
atividade do canal iônico aberto por ligante. O tolueno, de maneira similar ao
etanol, aumenta reversivelmente as correntes sinápticas mediadas pelo receptor
GABA-A. Dessa forma, os locais de ação molecular desses compostos podem
se sobrepor aos do etanol e dos anestésicos voláteis (Beckstead et al., 2000). O
tolueno tem efeitos bifásicos excitatório e inibitório na neurotransmissão, relacionados com a neurotransmissão GABAérgica.
A dopamina no nucleus accumbens está proximamente relacionada à dependência de substância para todas as substâncias psicoativas (ver Cap. 3). A
inalação aguda de tolueno por ratos resulta em aumento dos níveis de dopamina
extracelular no striatum (Stengard, Hoglund e Ungerstedt, 1994) e mudanças no
disparo neuronal de neurônios da ATV (Riegel e French, 1999). Assim, esse
estudo eletrofisiológico sugere que a neurotransmissão dopaminérgica mesolímbica possa ser modificada pela exposição ao tolueno, apontando para as
mesmas conclusões dos estudos neuroquímicos.
Outras evidências do envolvimento da dopamina após a inalação de tolueno
vêm de estudos em toxicologia ocupacional. A exposição à inalação subcrônica
a concentrações de tolueno prováveis de serem encontradas em ambientes
ocupacionais induz mudanças persistentes na atividade locomotora e no número
de receptores D2 no caudado de ratos (von Euler et al., 1993; Hillefors-Berglund,
Liu e von Euler, 1995). A hiperatividade locomotora induzida por tolueno pode
ser bloqueada por antagonistas do receptor D2 (Riegel e French, 1999).
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Psicofarmacologia da Dependência para Diferentes Classes de Drogas – 107
exposição inalatória aguda ao tolueno é acompanhada por aumento nos níveis de
dopamina extracelular no nucleus accumbens de ratos (Beyer et al., 2001).
A exposição repetida ao tolueno aumenta a resposta de estimulação motora
aguda à cocaína e potencializa e prolonga aumentos induzidos por cocaína no
efluxo de dopamina no nucleus accumbens, mostrando que a exposição repetitiva
ao tolueno aumenta respostas comportamentais e neuroquímicas à administração subseqüente de cocaína em ratos. Isso é evidência de sensibilização e
sensibilização cruzada, que são características-chave no desenvolvimento da
dependência (ver Cap. 3). Esses achados sugerem que a exposição ao tolueno
altera a função neuronal em uma área sabidamente envolvida criticamente na
dependência de substância, elevando a sensibilidade a outras substâncias psicoativas e pode, por conseguinte, aumentar a probabilidade de dependência de
substância (Beyer et al., 2001).
A inalação de solventes orgânicos é causa de várias mudanças neuropatológicas associadas com diminuição das funções cognitivas. Trabalhadores
cronicamente expostos a misturas de solventes orgânicos no ambiente em concentrações dentro ou ligeiramente acima dos valores aceitáveis apresentam
déficits cognitivos sutis, detectados por meio de potenciais evocados visualmente (Indulski et al., 1996). A inalação crônica de solventes com base primária
de tolueno pode produzir psicose paranóide persistente, epilepsia de lobo temporal e diminuição do quociente de inteligência (QI). Essas seqüelas psiquiátricas
e neurológicas do uso crônico de solventes são sérias e potencialmente irreversíveis (Byrne et al., 1991). O grau em que esses efeitos neuropsiquiátricos
crônicos modulam o uso persistente de solventes ou outras substâncias necessita
de esclarecimento.
Alucinógenos
Introdução
Os alucinógenos são uma classe diversa quimicamente, mas caracterizada pela
capacidade de produzir distorções nas sensações e por alterar marcadamente o
humor e os processos cognitivos. Incluem substâncias de uma grande variedade
de fontes naturais e sintéticas e são estruturalmente diferentes (Jacobs e Fehr,
1987). O nome alucinógenos faz referência às propriedades dessas drogas de
produzir alucinações. Entretanto, as alucinações não são o único efeito causado
por elas e quase sempre ocorrem apenas em doses muito altas. As alucinações
são mais freqüentemente visuais, porém podem afetar qualquer um dos sentidos, assim como a percepção individual de tempo, do mundo e de si mesmo. Os
efeitos subjetivos variam grandemente entre indivíduos e de um uso para o próximo na mesma pessoa.
Os alucinógenos são divididos em classes com bases em similaridades
estruturais das drogas. Uma classe é relacionada à LSD. São as indolealqui-
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108 – Psicofarmacologia da Dependência para Diferentes Classes de Drogas
Efeitos Comportamentais
Essas drogas produzem elevação na freqüência cardíaca e na pressão arterial,
temperatura corporal elevada, diminuição do apetite, náusea, vômitos, desconforto abdominal, reflexos rápidos, incoordenação motora e dilatação pupilar
(Jacobs e Fehr, 1987).
Os efeitos alucinatórios estão relacionados à dose e distorções de qualquer
modalidade sensorial podem ocorrer. A mistura de duas modalidades sensoriais
também é possível (por exemplo, “ver” a música) e é chamada sinestesia (Jacobs
e Fehr, 1987). Essas drogas também afetam os processos de pensamento e de
memória.
A intensidade dos efeitos e a reação emocional a eles diferem de uma pessoa
para outra. As reações podem variar de júbilo e euforia a medo e pânico. Pode
haver sensação de compreensão profunda, assim como episódios psicóticos.
Os efeitos dos alucinógenos são bastante similares entre as classes de drogas nessa categoria e variam de excitação a efeitos depressores, analgésicos e
anestésicos, dependendo da dose utilizada e da situação. A PCP e a cetamina
podem produzir alucinações em doses muito baixas.
Mecanismo de Ação
A LSD atua no sistema serotonérgico e é um agonista de auto-receptores no
núcleo da rafe. Um auto-receptor é um receptor em um neurônio para o trans-
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laminas que são estruturalmente similares ao neurotransmissor serotonina. Esse
grupo inclui o LSA (ácido d-lisérgico amina, encontrado nas sementes de
diversas variedades de morning glory), psilocibina e dimetiltriptamina (DMT).
Esses três últimos compostos ocorrem todos naturalmente.
O próximo grupo de alucinógenos consiste nas drogas feniletilaminas, das
quais a mescalina, a metilenodioxianfetamina (MDA) e a MDMA são os membros mais populares. A MDMA, ou ecstasy, foi considerada separadamente neste
capítulo por causa de seu uso disseminado e popularidade atual. A parametoxianfetamina (PMA), 2,5-dimetoxi-4-metilanfetamina (DOM) e a trimetoxianfetamina (TMA) são outros membros desse grupo. Essas drogas se relacionam
estruturalmente de maneira próxima às anfetaminas.
A fenciclidina (PCP) e a cetamina são anestésicos dissociativos que pertencem à família das drogas arilcicloalquilaminas e atuam nos receptores de
glutamato.
Finalmente, existe a família atropínica que inclui atropina, escopolamina e
hiosciamina. São encontradas naturalmente em várias espécies de batatas. Também
são encontradas na Atropa belladonna (deadly nightshade), Datura stramonium
(jimsonweed) e várias espécies relacionadas ao redor do mundo.
A cannabis também é classificada como um alucinógeno, mas é considerada
separadamente neste capítulo.
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missor que o neurônio libera. A ativação de um auto-receptor atua por um mecanismo de retroalimentação negativa para diminuir os disparos do neurônio. Isso
ajuda a regular o disparo neuronal e a impedir ativação excessiva dos neurônios.
A LSD também atua como um agonista de serotonina-2, ou como agonista parcial (Jaffe, 1990). É utilizado oralmente e doses tão baixas como 20 a 25mg
podem produzir efeitos.
A PCP é uma antagonista não competitiva no receptor NMDA (Lodge e
Johnson, 1990). A psicose induzida por PCP pode durar por semanas apesar da
abstinência da substância (Allen e Young, 1978; Luisada, 1978). De maneira
similar à PCP, a cetamina, um análogo da PCP que também é um antagonista
não competitivo do receptor NMDA e que exibe seletividade maior que a PCP
para o receptor NMDA (Lodge e Johnson, 1990), também induz efeitos
psicotomiméticos em voluntários saudáveis (Newcomer et al., 1999) e exacerba
sintomas em pacientes com esquizofrenia (Lahti et al., 1995).
A classe de alucinógenos atropínicos é antagonista dos receptores muscarínicos colinérgicos.
Tolerância e Abstinência
A tolerância se desenvolve rapidamente tanto para os efeitos físicos como psicológicos dos alucinógenos. Os efeitos psicoativos não ocorrem mais após três a
quatro dias de uso repetitivo e não irão recorrer a menos que aconteça um período
de vários dias de abstinência. Não existem evidências de ocorrência de abstinência com qualquer dos alucinógenos (Jacobs e Fehr, 1987).
Adaptações Neurobiológicas ao Uso Prolongado
Poucos dados estão disponíveis sobre os efeitos neurológicos a longo prazo com
os alucinógenos. Flashbacks podem ocorrer em período curto após o uso dessas
drogas ou até cinco anos depois (Jacobs e Fehr, 1987). Flashbacks são recorrências espontâneas de experiências que sucederam durante um episódio
anterior de uso de LSD. Outros efeitos a longo prazo incluem aumento da apatia,
diminuição dos interesses, passividade, falhas em planejar o futuro e pode haver
também desprezo por normas sociais. Entretanto, é difícil atribuir esses efeitos
inteiramente aos alucinógenos, por serem usados quase sempre com outras drogas.
Por fim, o uso crônico de alucinógenos pode resultar em episódios psicóticos
agudos ou a longo prazo.
Resumo
É evidente que quase todas as substâncias psicoativas compartilham a propriedade comum de aumentar a função dopaminérgica mesolímbica. Não apenas
psicoestimulantes como a cocaína (Kuczenski e Segal, 1992) e anfetaminas
(Carboni et al., 1989), mas também analgésicos narcóticos (Di Chiara e Imperato,
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Chiara, 1986) e fenciclidina (Carboni et al., 1989) estimulam a transmissão de
dopamina no nucleus accumbens (Di Chiara e Imperato, 1988a), a principal
área do striatum ventral. As implicações disso com respeito à dependência
foram discutidas no Capítulo 3.
O entendimento dos efeitos agudos e crônicos das substâncias psicoativas no
cérebro tem se expandido grandemente nos últimos anos para começar a fornecer
substancial impressão digital molecular e celular das extensas modificações nos
sistemas neuronais. A principal concepção resultante foi que o uso de substâncias
psicoativas usurpa os mecanismos fisiológicos normais que intermedeiam a recompensa, seu aprendizado e memória e finalmente resulta em remodelação dos
contatos e vias neuronais, produzindo mudanças de longa duração, quase permanentes. O aumento do nosso entendimento dos mecanismos envolvidos ainda requer
intenso esforço de pesquisa e a disponibilidade de ferramentas moleculares e bioquímicas sofisticadas deve facilitar bastante esse processo.
Embora as substâncias psicoativas tenham esses efeitos comuns, ainda há
variabilidade considerável entre classes de drogas em termos dos efeitos físicos
e psicológicos primários, mecanismos de ação, desenvolvimento de tolerância e
abstinência e efeitos a longo prazo (ver Tabelas 4.1 e 4.2). Diferenças na disponibilidade, custo, legalidade, comercialização e atitudes culturais em relação às
substâncias psicoativas e seus usos também afetam quais substâncias são utilizadas e o desenvolvimento de dependência delas. Portanto, o estudo da dependência de substância deve levar esses fatores em consideração, enquanto, ao
mesmo tempo, percebem-se as semelhanças entre as classes de drogas. O próximo
capítulo examinará os efeitos genéticos no uso de substância, tanto nos grupos
de substância como entre eles. O Capítulo 6 discutirá como o uso de substâncias
interage, precipita ou pode resultar de doenças psiquiátricas. É importante
manter em mente que a dependência de substância é o resultado não apenas
das propriedades farmacológicas primárias da substância psicoativa, mas também das complexas inter-relações entre os fatores biológicos e ambientais que
rodeiam seu uso.
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CAPÍTULO 5
BASES GENÉTICAS DAS DEPENDÊNCIAS
DE SUBSTÂNCIA
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Introdução
O objetivo deste capítulo é avaliar criticamente as evidências de uma contribuição genética para o risco do desenvolvimento do uso e da dependência de
substâncias psicoativas em humanos. Enquanto diferenças genéticas individuais
contribuem para o desenvolvimento de dependência de substância, os fatores genéticos são apenas um contribuinte para as complexas inter-relações de fatores
fisiológicos, sociais, culturais e pessoais que estão envolvidos. Uma lista dos
termos genéticos é fornecida no Quadro 5.1.
A visão clássica (e popular) da genética humana é aquela em que a mutação
genética é a causa direta, e geralmente única, de uma doença particular, por exemplo, as doenças de gene único – ou mendelianas – como a doença de Huntington.
Doenças de gene único são causadas pela mutação de um gene específico e a
mutação é tanto necessária como suficiente para provocar a doença. Diferentemente de doenças de gene único, que são raras e devem afetar uma pessoa em
10.000, doenças complexas, como a dependência de substâncias, são comuns na
população, quase sempre afetando uma ou mais pessoas em cada 100. As doenças
complexas claramente não são causadas apenas por genes, mas pela interação
entre genes e o ambiente. Portanto, a exposição a substâncias psicoativas pode ter
efeito muito maior em alguém que carregue uma vulnerabilidade genética para
dependência de substância do que em alguém que não a carregue.
A vulnerabilidade genética, ou predisposição, para a dependência de substância está provavelmente ligada a vários genes distintos (ou múltiplos alelos),
cada um produzindo um efeito pequeno, o que pode aumentar o risco de desenvolvimento de dependência de substância em duas a três vezes. Qualquer
um dos genes sozinho seria insuficiente para causar a dependência, mas vários
genes diferentes podem juntos contribuir para a vulnerabilidade. Faz-se a hipótese de que nem todos que carregam um gene de risco para uso ou dependência
de substância irão se tornar dependentes e, da mesma forma, alguns daqueles
que se tornam dependentes não carregarão aquele risco genético particular. É
a combinação de vários genes distintos, ou alelos, que deve ser importante, em
vez de um gene sozinho. Essas contribuições genéticas para a vulnerabilidade
parecem provavelmente estar distribuídas em várias regiões (loci) distintas
dos cromossomos.
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122 – Bases Genéticas das Dependências de Substância
Quadro 5.1 – Termos genéticos comumente utilizados
Este capítulo irá abordar a genética dos transtornos de uso de substâncias
em geral, mas também examinará, especificamente, os dados para a dependência de opióide, de álcool e de tabaco, pois essas substâncias receberam quantidade
substancial de atenção das pesquisas genéticas. Entretanto, um achado importante dos estudos genéticos das substâncias psicoativas é que a herdabilidade
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Alelo
Um membro de um par de genes homólogos em uma célula diplóide. Um indivíduo
com alelos idênticos em um lócus genético é um homozigoto; um com alelos não
idênticos é um heterozigoto. No caso em que um alelo leva a um produto genético
observável e o outro não tem fenótipo, o alelo funcional é chamado de dominante e o
alelo não funcional de alelo recessivo.
Estudos de ligação
Estes estudos utilizam múltiplas famílias acometidas para examinar traços que sejam
herdados conjuntamente. O conceito baseia-se no fato de que genes localizados
próximos um do outro têm mais chances de serem herdados juntos de um dos pais
do que dois genes com localizações distantes.
Fenótipo
A manifestação física perceptível da célula ou indivíduo em razão da expressão vigente
dos alelos que estão presentes.
Gene
Em genética, uma unidade inferida do padrão de herança; na biologia molecular,
definido mais estritamente como uma secção do DNA que é expressa como RNA ou,
mais amplamente, como uma seqüência codificadora de DNA e as seqüências
reguladoras associadas.
Genes candidatos
Genes com relevância presumida para o traço em questão, que podem ser usados
para comparar as freqüências de alelos entre grupos de afetados e não afetados.
Genótipo
O arcabouço genético de qualquer organismo.
Herdabilidade
A proporção da variância fenotípica que pode ser atribuída à variância genética aditiva.
Ligação (Linkage)
A ocorrência maior do que a esperada randomicamente de dois traços juntos devido
à proximidade dos seus genes correspondentes no mesmo cromossomo. A probabilidade de um evento recombinante separando os dois genes diminui conforme
aumenta a proximidade no cromossomo.
Lócus gênico
O lugar específico em um cromossomo no qual um gene se localiza.
Poligênico
Um traço que surge de mais do que um gene.
Polimorfismo
A ocorrência de algo em várias formas, por exemplo, a ocorrência na população de
dois ou mais alelos de um gene no mesmo lócus genético.
Bases Genéticas das Dependências de Substância – 123
(isto é, a contribuição genética) da dependência de uma substância correlacionase fortemente com a dependência de outras substâncias. Portanto, deve haver
alguns componentes genéticos comuns para a dependência de substância em
geral, assim como para a dependência de substâncias psicoativas específicas.
Também existe alto grau de associação entre dependência de substância com
doenças mentais (ver Cap. 6). Os tipos mais comuns de estudos genéticos em
humanos e o tipo de informação fornecida por eles são resumidos a seguir. Estudos em animais também são brevemente apresentados.
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Estudos de Família, Gêmeos e Adoção: Estimativas da Herdabilidade
Estudos de família, de gêmeos e de adoção podem ser utilizados para determinar se existe ou não contribuição genética para o uso e a dependência de
substâncias psicoativas, mas eles não fornecem evidências para determinar que
gene particular esteja envolvido. Estudos de gêmeos e de adoção também podem ajudar a separar fatores ambientais de fatores genéticos.
Estudos de famílias examinam a herança de traços em uma família, com o objetivo de encontrar os padrões de herança e o risco relativo de herdar um transtorno.
Estudos de gêmeos são fundamentados no fato de que gêmeos monozigóticos
(idênticos) compartilham materiais genéticos idênticos, enquanto gêmeos dizigóticos (fraternos) compartilham o mesmo grau de similaridade genética que
irmãos não gêmeos. Presumivelmente, gêmeos criados juntos compartilham
ambientes muito parecidos. Se efeitos genéticos estão presentes, então gêmeos
monozigóticos devem ser mais parecidos, com respeito a esses efeitos, do que
gêmeos dizigóticos. Isso permite uma estimativa da contribuição genética para a
dependência de substância psicoativa. Esses tipos de estudos fornecem evidências de que a variação na vulnerabilidade para a dependência de substância nas
populações é influenciada tanto por genótipos individuais como por diferenças
ambientais (Heath et al., 1999a; Vanyukov e Tarter, 2000).
Os estudos de adoção são capazes de separar quase completamente influências genéticas de ambientais na variação na vulnerabilidade para um transtorno
(exceto contribuições pré-natais e fatores ambientais pós-natais imediatos) (Heath
et al., 1999a; Vanyukov e Tarter, 2000); nesse sentido, eles complementam os
estudos mais tradicionais de gêmeos. Utilizando-se estudos de adoção, fatores
ambientais podem ser separados de fatores genéticos, uma vez que crianças adotadas ao nascimento são criadas em ambiente diferente daquele de suas famílias
genéticas. Nesse sentido, fatores ambientais como status socioeconômico, aprendizado sobre o uso de substâncias, exposição a drogas psicoativas, etc., são
randomizados. Por exemplo, se uma família particular mostra alto nível de dependência de substância de geração para geração, é difícil saber quanto disso é
atribuível a genes compartilhados e quanto é atribuível ao ambiente compartilhado. Com os estudos de adoção, o efeito do ambiente pode ser excluído e,
dessa forma, é mais fácil determinar, mais claramente, a contribuição da genética.
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124 – Bases Genéticas das Dependências de Substância
Identificação de Regiões Cromossômicas de Interesse:
Estudos de Ligação
Estudos de gêmeos e de adoção dão uma estimativa da proporção da variação em
um traço que se deve à genética; entretanto, eles não fornecem qualquer informação sobre quais genes ou cromossomos estão envolvidos. Estudos de ligação e de
associação são usados para identificar regiões do ácido desoxirribonucléico (DNA)
que podem estar envolvidas na expressão de um traço, como a dependência de
substância. Estudos de ligação examinam a herança em indivíduos relacionados,
enquanto estudos de associação examinam a herança em indivíduos não relacionados. O conceito de ligação baseia-se no fato de que genes localizados próximos
um do outro em um cromossomo são mais prováveis de serem herdados juntos de um
dos pais do que são dois genes com localizações distantes, em razão do processo de
reorganização de genes que ocorre durante o processo de recombinação. Diz-se
que os genes estão ligados, uma vez que existe probabilidade maior de serem
herdados juntos. Estudos de ligação vêm sendo ferramenta importante para a localização de regiões cromossômicas que contribuem para a dependência de substância;
eles dão suporte aos estudos de genes candidatos e fornecem identidades potenciais
de genes desconhecidos relacionados ao fenótipo (Arinami, Ishiguro e Onaivi,
2000). Os estudos examinam localizações cromossômicas que são herdadas geneticamente em pessoas que têm o fenótipo em questão (por exemplo, que tenham
dependência de nicotina) com o objetivo de encontrar áreas dos cromossomos
importantes para a condição.
Abordagem por meio de Genes Candidatos
A abordagem por meio de genes candidatos requer a seleção de genes que podem ter relevância para o fenótipo em questão. Por exemplo, seria apropriado
investigar os genes do receptor nicotínico ao se examinar a genética da dependência de nicotina. Esses estudos examinam genes candidatos em pessoas com
ou sem dependência, para procurar diferenças entre esses grupos.
Estudos em Animais
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Muitos estudos genéticos sobre a dependência de substâncias empregam modelos
animais. Estes têm uma grande vantagem visto que a história de exposição a substâncias psicoativas e a maior parte de outros fatores ambientais podem ser controladas e manipuladas, permitindo o uso de análise estatística poderosa. Além
disso, estudos genéticos em animais permitem estudos com linhagens específicas
que não podem ser feitos com humanos e os seus resultados podem ser obtidos em
um período relativamente curto. Além do mais, enquanto estudos iniciais podiam
apenas controlar o arcabouço genético dos animais experimentais pela linhagem,
a moderna metodologia transgênica e knock-out permite que o genótipo desses
animais seja manipulado de maneira especificada para que o papel de genes específicos nos comportamentos de interesse possa ser investigado.
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Bases Genéticas das Dependências de Substância – 125
Os animais transgênicos (geralmente camundongos) são criados pela injeção de um gene alheio (transgene) em ovos fertilizados de camundongo. O
transgene se integra ao cromossomo do camundongo em uma ou várias cópias
em um local aleatório. Os ovos são então implantados em mães adotivas. Quando
os embriões se desenvolvem até o termo, uma proporção deles terá o transgene
integrado ao genoma do camundongo. Os animais com a integração transgênica
resultantes são criados para dar origem a linhagens transgênicas de camundongos
(Picciotto e Wickman, 1998; Bowers, 2000). A aplicação da abordagem transgênica depende do entendimento de mecanismos reguladores da expressão gênica
no camundongo, que é atualmente relativamente limitado (Quinn, 1996; Spergel
et al., 2001).
A metodologia de knock-out gênico permite a deleção de um gene – ou de
um fragmento de um gene – do cromossomo do animal. Nessa metodologia, uma
cópia mutada do gene de interesse é introduzida em células-tronco embrionárias
de camundongo em cultura. Por recombinação homóloga, o gene mutante integra-se ao genoma da célula-tronco e destrói (ou modifica, na tecnologia chamada
knock-in) sua função. Células-tronco, em que o gene está disfuncional, são injetadas
em blastocistos que são então implantados em mães adotivas. Os camundongos
resultantes têm o gene disfuncional em algumas, mas não em todas as células e
são, em seguida, criados para gerar linhagens knock-out de camundongos
(Capecchi, 1994; Picciotto e Wickman, 1998).
Camundongos transgênicos e knock-out podem servir como poderosas ferramentas de pesquisa para se observar os efeitos de modificações genéticas.
Entretanto, resultados de estudos transgênicos e knock-out precisam ser interpretados com cuidado por várias razões. O local de integração do transgene no
cromossomo do camundongo é aleatório e é ainda impossível de ser controlado.
Assim, alguns dos fenótipos observados nos camundongos transgênicos podem
ocorrer em conseqüência das funções do transgene, mas alguns podem também se
dever à disfunção do gene ao qual o transgênico foi integrado. A criação de várias
linhagens transgênicas é então necessária para se verificar que o fenótipo observado
se deve realmente ao transgene (Bowers, 2000). A tecnologia knock-out não tem o
problema da integração aleatória do transgene, pois a mutação nesses camundongos é direcionada para um gene específico. Entretanto, há outros problemas, por
exemplo, o problema com o genótipo de base (Crawley et al., 1997).
Tanto a abordagem transgênica como a knock-out também enfrentam o problema da compensação no desenvolvimento. Isto é, enquanto o gene que é
modificado ou expresso em excesso no animal mutante pode ser importante para o
fenótipo investigado, mecanismos compensatórios podem também ocorrer durante
o desenvolvimento (por exemplo, quando uma subunidade de um receptor é eliminada, outra pode ser expressa em excesso para compensar a ausência da subunidade
eliminada). Se essa compensação estiver ocorrendo, a mudança predita do fenótipo
do camundongo mutante não irá acontecer. Novas metodologias, incluindo abor-
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126 – Bases Genéticas das Dependências de Substância
dagens transgênicas e knock-out que possam ser induzidas ou restritas a regiões
cerebrais específicas, estão sendo desenvolvidas e devem, no futuro, diminuir bastante esses problemas (Sauer, 1998; Le e Sauer, 2000).
Outra abordagem utilizada em estudos animais é a análise de loci de traço quantitativo (LTQ). A dependência de substância é considerada um traço quantitativo, no
qual a ação combinada de múltiplos alelos acarreta predisposição para a dependência. Essa abordagem não assume nenhum conhecimento a priori dos genes envolvidos
nos transtornos relacionados à substância e procura encontrá-los com base em
fenótipos relacionados. A análise LTQ é análoga aos estudos de ligação em humanos. Por exemplo, linhagens produzidas de camundongos geneticamente idênticos
podem ser cruzadas com outras linhagens produzidas e a presença ou ausência de
uma seqüência mapeada de DNA (marcador) em cada linhagem pode ser correlacionada com uma medida quantitativa do fenótipo (por exemplo, a quantidade de
substância psicoativa auto-administrada). A correlação forte entre um fenótipo e a
presença de um marcador genético sugere que a seqüência genética na proximidade
desse marcador está envolvida na regulação dessa medida. Uma vez que a localização da seqüência marcadora é mapeada nos cromossomos do camundongo, essa
análise permite aos pesquisadores criarem mapas genéticos de loci importantes para
os traços (Gora-Maslak et al., 1991; Grisel, 2000).
Genética da Dependência de Tabaco
Herdabilidade da Dependência de Tabaco
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Existem evidências de herdabilidade significante do uso de tabaco em diferentes populações, gêneros e idades, como relatado em alguns estudos em larga
escala com gêmeos. Estudos de família e com gêmeos demonstraram um efeito
genético em ter fumado alguma vez (ou fumar ao longo da vida, isto é, ter fumado um cigarro pelo menos uma vez) (Cheng, Swan e Carmelli, 2000; McGue,
Elkins e Iacono, 2000). Influência genética maior na probabilidade de que o
indivíduo se torne um fumante (iniciação) de cerca de 60% foi observada e de
manter o hábito de fumar visto que o tabagismo tenha começado (persistência)
de cerca de 70% (Kaprio et al., 1982, Carmelli et al., 1992; Heath et al., 1995;
Heath et al., 1999a; Koopmans et al., 1999; Sullivan e Kendler, 1999; Kendler,
Thornton e Pedersen, 2000).
A iniciação ao tabagismo é separada do desenvolvimento da dependência de
nicotina. Um grupo de fatores genéticos mostrou ter papel etiológico significante
tanto na iniciação como na dependência, enquanto outro grupo de fatores familiares, provavelmente em parte genéticos, influencia apenas a dependência (Kendler
et al., 1999). Em outras palavras, fatores genéticos, que contribuem para a variabilidade da iniciação ao tabagismo e da dependência, se sobrepõem apenas em
parte (Heath e Martin, 1993; Kendler et al., 1999; Madden et al., 1999; Sullivan
e Kendler, 1999; Heath et al., 2002).
Bases Genéticas das Dependências de Substância – 127
Outros aspectos do tabagismo, como a idade de início, também são influenciados por efeitos genéticos em ambos os sexos (Heath et al., 1999a; Koopmans
et al., 1999). Uma vez que o tabagismo é iniciado, fatores genéticos determinam em
grande parte (86%) a quantidade que é fumada (Kaprio et al., 1982; Koopmans
et al., 1999). Ademais, alguns aspectos do tabagismo como nunca fumar ou a
intensidade do tabagismo mostraram contribuição genética em homens que não
é clara em mulheres (Edwards et al., 1995). Um estudo em adolescentes demonstrou herdabilidade estimada em mais de 80% para suscetibilidade para fumar
ao longo da vida e uso atual (Maes et al., 1999). Outros aspectos do tabagismo
são também influenciados geneticamente como ganho de peso após a interrupção
(Swan e Carmelli, 1995).
É evidente que existem diferentes contribuições genéticas para diferentes aspectos do comportamento de fumar, como iniciação, quantidade utilizada,
desenvolvimento de uso compulsivo, sintomas de abstinência e desenvolvimento
de tolerância. Esses fatores contribuem individualmente para os critérios da Classificação Internacional de Doenças – 10ª revisão (CID-10) para dependência (ver
Quadro 1.2, no Cap. 1). Portanto, pode-se observar que existem fatores genéticos
múltiplos (assim como fatores ambientais como disponibilidade e comercialização)
que contribuem em diferentes estágios do desenvolvimento da dependência.
Dependência de Tabaco e Estudos de Ligação
Existe alguma evidência de que o comportamento de fumar esteja associado com
pelo menos 14 localizações cromossômicas diferentes (Bergen et al., 1999;
Duggirala, Almasy e Blangero, 1999; Straub et al., 1999). Esses estudos sugerem
que o efeito de qualquer gene sobre o comportamento de fumar é, provavelmente,
pequeno (Bergen et al., 1999; Arinami, Ishiguro e Onaivi, 2000; Duggirala, Almasy
e Blangero, 1999). Um dos loci de interesse está localizado no cromossomo 5q
próximo ao lócus do receptor de dopamina D1 e esse receptor foi associado ao
tabagismo (Comings et al., 1997; Duggirala, Almasy e Blangero, 1999).
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Genes Candidatos à Dependência de Tabaco
A nicotina é o composto primário do tabaco que estabelece e mantém a sua
dependência (Henningfield, Miyasato e Jasinski, 1985). Tabagistas que são dependentes do tabaco ajustam seu hábito de fumar para manter seus níveis de
nicotina (Russell, 1987). Estudos vêm sendo conduzidos para examinar se a
variação genética nos receptores específicos para nicotina (Mihailescu e DruckerColin, 2000), assim como nas vias de eliminação desta (Tyndale e Sellers, 2002),
alteram aspectos do comportamento de fumar.
Receptores Nicotínicos
Vários tipos de evidência sugerem que um receptor de nicotina contendo uma
subunidade beta-2 é necessário para, pelo menos, algumas das propriedades
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128 – Bases Genéticas das Dependências de Substância
reforçadoras da nicotina (Mihailescu e Drucker-Colin, 2000). Entretanto, não
foram encontradas associações com modificações nesses receptores (Silverman
et al., 2000).
Estudos recentes sobre o uso de etanol e tabaco por humanos sugeriram que
genes comuns poderiam influenciar a dependência de tabaco e etanol. O resultado
de um estudo com linhagens de camundongos desenvolvidas e selecionadas,
com base em sua preferência pelo etanol, sugeriu que o gene do receptor nicotínico
alfa-4 deveria ser avaliado por seu papel potencial na regulação do uso de etanol
e de tabaco em humanos (Tritto et al., 2001).
Metabolismo da Nicotina
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A variação no metabolismo da nicotina é importante por causa do papel da nicotina na produção da dependência de tabaco e na regulação de padrões de tabagismo
(Henningfield, Miyasato e Jasinski, 1985; Russel, 1987). O hábito de fumar
aumenta se o conteúdo de nicotina nos cigarros diminui ou se a excreção de
nicotina aumenta e o hábito de fumar diminui se a nicotina for administrada
concomitantemente, seja por via intravenosa ou por adesivo transdérmico. Os
genes envolvidos no metabolismo da nicotina podem ser significantes fatores de
risco para o tabagismo; a extensão da variação é provavelmente uma determinante
maior para os níveis e o acúmulo de nicotina no cérebro.
A enzima metabólica CYP2A6 é polimórfica geneticamente (isto é, existe
em mais de uma forma). É responsável por cerca de 90% da inativação metabólica da nicotina para cotinina (Nakajima et al., 1996; Messina, Tyndale e Sellers,
1997). Um impacto significativo da variabilidade genética da CYP2A6 foi encontrado no risco de dependência de tabaco, idade ao começar a fumar, quantidade
e padrões de consumo de cigarros, duração do tabagismo, probabilidade de parar e alguns aspectos do risco de desenvolver câncer de pulmão (Miyamoto et
al., 1999; Gu et al., 2000; Rao et al., 2000; Tyndale et al., 2002; Tyndale e
Sellers, 2002). Entretanto, nem todos os estudos concordam com esses achados
(Loriot et al., 2001; Tiihonen et al., 2000; Zhang et al., 2001).
Entre fumantes caucasianos, aqueles com metabolismo geneticamente lento
de nicotina necessitam de menos cigarros por dia, o que se reflete em níveis
mais baixos de monóxido de carbono para manter níveis estáveis de nicotina
plasmática, enquanto aqueles com a duplicação do gene CYP2A6 (metabolizadores rápidos) fumam mais e com mais intensidade (Rao et al., 2000). Em
caucasianos, as freqüências de genótipos com pelo menos um alelo diminuído
ou inativado foram maiores em não fumantes do que em fumantes (Tyndale et
al., 2002), indicando que inativação lenta da nicotina protege modestamente as
pessoas de se tornarem fumantes. Também vem sendo mostrado que a inibição
da CYP2A6 (mimetizando o efeito genético) em fumantes resulta em diminuição do tabagismo e reorientação dos pró-carcinogênicos para outras vias de
desintoxicação (Sellers, Kaplan e Tyndale, 2000; Sellers et al., 2002). Existe
Bases Genéticas das Dependências de Substância – 129
uma variação substancial nas freqüências de alelos e genótipos da CYP2A6 entre
grupos étnicos (Oscarson et al., 1999; Tyndale et al., 2002). Esses dados sugerem que o genótipo da CYP2A6 provavelmente altera o risco para tabagismo e
pode alterar o risco para doenças relacionadas ao tabagismo (Bartsch et al.,
2000) entre grupos étnicos.
Genética da Dependência de Álcool
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Herdabilidade da Dependência de Álcool
As estimativas da herdabilidade da dependência de álcool dependendo do critério diagnóstico utilizado (por exemplo, DSV-IV, CID-10; ver Quadros 1.2 e 1.3)
variam de 52 a 63% (van den Bree et al., 1998a).
Estudos com gêmeos fornecem estimativas da herdabilidade da predisposição
para dependência de álcool entre 51 e 65% em mulheres e entre 48 e 73% em
homens (Carmelli et al., 1992; Kendler et al., 1994; Heath et al., 1997; Johnson et
al., 1998; Han et al., 1999a; Prescott, Aggen e Kendler, 1999; Prescott e Kendler,
1999; Enoch e Goldman, 2001). A herdabilidade estimada foi de 66% em mulheres e entre 42 e 75% em homens para a freqüência de consumo de álcool (Heath et
al., 1991; Heath e Martin, 1994) e 57% em mulheres e de 24 a 61% em homens
para a quantidade média ingerida ao beber (Heath et al., 1991).
Não está claro se o risco genético é um fator maior na iniciação ao beber,
ou beber durante a adolescência (Han et al., 1999a; Maes et al., 1999; Stallings
et al., 1999). Pode ser que efeitos comportamentais expliquem a maior parte
da variação da iniciação ao beber, mas fatores genéticos são mais importantes
para explicar a freqüência de intoxicação (Viken et al., 1999). Fatores genéticos contribuem para a estabilidade no tempo (68 a 80%) da freqüência e da
quantidade de álcool consumida por ocasião de ingesta (Kaprio et al., 1992;
Carmelli et al., 1993).
Estudos com gêmeos também podem ser usados para examinar outros aspectos da dependência de álcool. A herdabilidade estimada do uso de álcool
precoce foi significantemente maior em meninos (55%) do que em meninas
(11%) (Rose et al., 2001). Homens (mas não mulheres) que estejam sob risco
genético aumentado da dependência de álcool exibem sensibilidade reduzida a ele
(Heath et al., 1999b). O risco genético para a dependência do álcool esteve
elevado naqueles que relataram história de transtorno de conduta ou depressão
maior e naqueles com altos escores de neurotização, inconformidade social, mentalidade inflexível, busca por novidade, ou (em mulheres apenas) extroversão
(Heath et al., 1997). Genes específicos provavelmente também influenciam a
herdabilidade da síndrome de abstinência alcoólica (revisado por Schuckit, 2000).
Além disso, influências genéticas também alteram a busca pelo tratamento (41%)
para a dependência de álcool, com o ambiente compartilhado explicando uma
variabilidade adicional de 40% (True et al., 1996).
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130 – Bases Genéticas das Dependências de Substância
Dependência de Álcool e Estudos de Ligação
No cromossomo 4q, uma região identificada está muito próxima à região dos
genes da álcool-desidrogenase (ADH) (Long et al., 1998; Reich et al., 1998;
Saccone et al., 2000); esses genes foram associados a efeitos protetores em asiáticos, como será discutido posteriormente neste capítulo (Reich et al., 1998). O
achado de ligação com 4q em uma tribo de índios do sudoeste americano e em
americanos descentes de europeus embasa fortemente um papel de genes nessa
localização na dependência de álcool. Ligação ao cromossomo 4p também foi
observada próximo ao gene do receptor GABA beta-1 (Long et al., 1998).
Em um estudo com irmãos pareados (pares de irmãos) na Finlândia, a dependência de álcool mostrou evidência fraca de ligação com uma localização do
cromossomo 6 e evidência significante de ligação com o receptor de serotonina
1B G861C (ver a seguir); em uma tribo de índios do sudoeste americano, também foi observada ligação significante em pares de irmãos no cromossomo 6
(Lappalainen et al., 1998). As mais fortes sugestões de ligação com loci de
suscetibilidade para dependência de álcool estão nos cromossomos 1 e 7 e evidências mais modestas para um lócus no cromossomo 2 (Reich et al., 1998). A
melhor evidência de ligação foi observada no cromossomo 11p (D11S1984),
em grande proximidade com os genes do receptor de dopamina D4 (DRD4) e da
tirosina-hidroxilase (TH) (Long et al., 1998).
Genes Candidatos à Dependência de Álcool
Aldeído-desidrogenase
O álcool é metabolizado para acetaldeído que, por sua vez, é metabolizado para
acetato antes da eliminação pelo corpo. A forma mitocondrial da aldeídodesidrogenase (ALDH2) é a enzima primariamente responsável pela metabolização do acetaldeído para acetato [para revisões do metabolismo do etanol e sua
dependência ver Agarwal (2001); Li (2000); Ramchandani et al., (2001)]. A
deficiência da ALDH2 resulta em resposta aversiva ao álcool em decorrência dos
níveis elevados de acetaldeído, aumentando os sintomas da ressaca (Wall et al.,
2000) e da resposta de ruborização ao álcool ou sensibilidade ao álcool (Quadro 5.2)
(Tanaka et al., 1997; Li, 2000). O gene da ALDH2 é encontrado no cromossomo 4p,
que foi ligado à dependência de álcool em asiáticos e europeus.
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Esses achados indicam também que existem influencias genéticas em vários
estágios do desenvolvimento da dependência de substância e, de fato, fatores
que influenciam o comportamento de busca pelo tratamento. O critério definidor
do fenótipo em questão pode ter efeitos maiores nos resultados do estudo. Embora seja claro que existe um componente genético para vários aspectos da
ingestão de álcool (por exemplo, iniciação, freqüência, quantidade e resposta ao
álcool), a relação entre genes e o comportamento de beber álcool não é simples.
Bases Genéticas das Dependências de Substância – 131
Quadro 5.2 – Resposta de rubor ao álcool ou sensibilidade ao álcool
Alguns indivíduos apresentam um conjunto de sintomas após o consumo de álcool
que foram relacionados a níveis elevados de acetaldeídos. Essas elevações no
acetaldeído se devem a alterações no metabolismo do etanol e podem provocar os
seguintes sintomas:
• Vasodilatação, aumento da temperatura da pele, sensação de calor, rubor facial.
• Aumento das freqüências cardíacas e respiratórias.
• Diminuição da pressão arterial.
• Broncoconstrição.
• Náusea e cefaléia.
• Euforia ou reações aversivas.
Os neurotransmissores envolvidos nessa resposta são as catecolaminas, opióides,
prostaglandinas, histamina e bradicinina.
Fonte: Eriksson, 2001.
A ALDH2*1 é uma forma muito ativa, encontrada com alta freqüência na
maioria das etnias, enquanto a ALDH2*2 é inativa (ou tem atividade muito baixa) e é encontrada com alta freqüência em asiáticos (por exemplo, chineses,
japoneses e coreanos). Demonstrou-se que a ALDH2*2 está associada à proteção substancial do álcool em japoneses (Maezawa et al., 1995; Nakamura et al.,
1996; Okamoto et al., 2001), chineses da etnia Han (Chen et al., 1999), e coreanos
(Lee et al., 2001). A variação genética da ALDH2 em grupos étnicos múltiplos
altera a quantidade de álcool consumida (Tanaka et al., 1997; Sun et al., 1999;
Okamoto et al., 2001) e o risco para consumo compulsivo (Luczak et al., 2001).
Uma associação com doença hepática foi observada em alguns (Chao et al.,
1997), mas não em todos os estudos (Maruyama et al., 1999; Lee et al., 2001) e
pode se dever ao efeito nos níveis de consumo. Outras variantes da ALDH2
estão sob investigação.
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Álcool-desidrogenase
A álcool-desidrogenase (ADH) metaboliza o álcool para acetaldeído; ocorre como
uma família de poligenes no cromossomo 4p, que foi ligada à dependência de
álcool.
A freqüência do alelo ADH2*2 é menor em populações com dependência de
álcool, indicando um papel protetor para o ADH2*2 (Thomasson et al., 1994;
Maezawa et al., 1995; Nakamura et al., 1996; Chen et al., 1999). Por exemplo,
em aborígines de Taiwan (Thomasson et al., 1994), que têm baixas freqüências
do alelo protetor ALDH2*2 (e, portanto, poderiam ser mais vulneráveis), mas
que também têm altas freqüências de ADH2*2 (que também é protetor), o efeito
protetor da ADH2*2 é evidente. Isso também foi observado em uma população
judia (Neumark et al., 1998; Shea et al., 2001). Um estudo descobriu que o
genótipo ADH2 teve efeitos significantes tanto no consumo como na dependên-
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132 – Bases Genéticas das Dependências de Substância
cia em homens, mas não em mulheres (Whitfield et al., 1998). O polimorfismo
da ADH2 foi associado com risco de pancreatite crônica induzida por álcool
(Maruyama et al., 1999).
CYP2E1
Genética da Dependência de Opióides
Herdabilidade da Dependência de Opióide
A herdabilidade da dependência de opióides é alta, estimada em 70% (Tsuang et
al., 2001). Estudos com gêmeos descobriram, consistentemente, maior concordância para dependência de opióides em gêmeos monozigóticos do que em
dizigóticos, indicando contribuição genética significante (Lin et al., 1996; Tsuang
et al., 1996; 1999; 2001). O risco genético para a dependência pode ser dividido
em vulnerabilidade comum, ou compartilhada, entre diferentes classes de drogas
e vulnerabilidade genética para a droga específica em questão. A dependência
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O citocromo P450 2E1 (CYP2E1) é uma enzima hepática que também metaboliza
etanol para acetaldeído. Em humanos, foi observado que os níveis de atividade
da CYP2E1 hepática variam cerca de 15 vezes. O gene 2E1 parece ser geneticamente polimórfico e alelos variantes de 2E1 raros estão associados à alteração
do metabolismo do etanol. (Watanabe, Hayashi e Kawajiri, 1994; Fairbrother et
al., 1998; McCarver, 1998; Hu et al., 1999; Sun et al., 1999; Yoshihara et al.,
2000a). A nicotina aumenta a CYP2E1 hepática em modelos animais e fumantes têm maior atividade CYP2E1 do que não fumantes (Benowitz, Jacob e
Saunders, 1999; Howard et al., 2001). Em concordância com esses achados,
dados de estudos com gêmeos sugeriram que o tabagismo pode contribuir para
o desenvolvimento de tolerância aos efeitos do álcool e diminuição da sensação
de intoxicação (Madden et al., 1995; Madden, Heath e Martin, 1997), sugerindo
que o tabagismo induz a aumento no metabolismo do álcool. Enquanto os estudos não focarem se a variação genética de CYP2E1 altera o risco de fumar por
si mesma, uma associação intrigante entre um polimorfismo de CYP2E1 e os
níveis do metabólito de nicotina cotinina sugere que CYP2E1, direta ou indiretamente, pode alterar o tabagismo e/ou o metabolismo nicotina/cotinina (Yang
et al., 2001). A determinação de um papel para a variação genética na CYP2E1
no risco de tabagismo está atualmente sendo investigada (Howard et al., 2002).
O consumo crônico de etanol resulta na indução da CYP2E1, o que, acredita-se, tem papel importante na patogênese da doença hepática induzida pelo
álcool e é responsável pelas taxas aumentadas de metabolismo de etanol observadas naqueles que consomem quantidades relativamente altas de álcool (Oneta
et al., 2002). Variantes genéticas da CYP2E1 podem alterar sua capacidade relativa de indução, o que pode mudar o impacto no risco de dependência de álcool
ou o dano hepático resultante (Lucas et al., 1995; Ueno et al., 1996).
Bases Genéticas das Dependências de Substância – 133
de opiáceos tem a menor extensão de vulnerabilidade comum à dependência de
substância, cerca de 50%, indicando que deve haver componentes neuroquímicos
específicos relacionados a opiáceos para a dependência de heroína. Está claro,
pelo que foi dito, que o uso e dependência de opiáceos são, pelo menos em
parte, influenciados por fatores genéticos.
Dependência de Opióides e Estudos de Ligação
Não foram realizados estudos de ligação genética em famílias para a dependência de opióides em humanos.
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Genes Candidatos à Dependência de Opióides
A abordagem por genes candidatos requer a seleção de genes com relevância
presumida para o traço em questão. No caso dos opióides isso é fácil, pois a
farmacologia dos receptores é bem compreendida e existem, portanto, bons genes
candidatos do sistema opióide endógeno. Dados de epidemiologia genética nos
informam que a maior contribuição genética para a dependência de opióides é
de efeitos genéticos particulares – isto é, aqueles não conectados com a dependência de outras drogas – apontando para componentes do sistema opióide
endógeno como bons genes candidatos. Todos os três receptores conhecidos
(mu, delta e kappa) e genes que codificam ligantes opióides vêm sendo avaliados para variação genética (Mayer e Hollt, 2001).
Receptor Opióide mu
O subtipo mu do receptor opióide é o alvo primário da morfina e o mediador dos
efeitos de reforço e recompensa dos opióides, o que torna o gene do receptor
opióide mu o principal candidato para vulnerabilidade genética. Os dados, entretanto, não associaram, de maneira consistente, esse gene com a dependência
de opióide. O seqüenciamento do gene do receptor opióide mu identificou cinco
polimorfismos de um único nucleotídeo (uma única mudança em par de bases
na seqüência de nucleotídeos) no gene (Bond et al., 1998). No entanto, esse
polimorfismo não esteve associado com dependência de heroína em uma amostra de indivíduos da China dependentes de heroína (Li et al., 1997) ou da
Alemanha (Franke et al., 2001). Um estudo entre chineses de Hong Kong encontrou, porém, uma associação significante (Szeto et al., 2001). Pessoas que
expressam uma variante do receptor opióide mu têm alterações na função do
eixo hipotálamo-hipófise-adrenal e respostas alteradas em outros processos fisiológicos regulados pela estimulação do receptor opióide mu (Wand et al., 2002).
Variações naturais da seqüência do gene do receptor opióide mu têm pouca influência na ligação de ligantes ou na regulação para baixo (down-regulation) do
receptor, mas poderiam modificar a densidade e a sinalização dos receptores
(Befort et al., 2001).
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134 – Bases Genéticas das Dependências de Substância
Receptor Opióide kappa
O receptor opióide kappa também foi examinado e uma associação positiva foi
observada em um estudo (Mayer et al., 1997), mas não foi replicada em um
segundo (Franke et al., 1999). Sete variantes alélicas no receptor opióide kappa-1
foram descobertas (LaForge et al., 2000; Mayer e Hollt, 2001), mas não há
evidências de que qualquer delas seja funcional.
Receptor de Dopamina D4
O receptor de dopamina D4 (DRD4) também mostrou evidência de associação
com a dependência de opióide (Kotler et al., 1997; Li et al., 1997; Vandenbergh
et al. 2000) embora isto não seja embasado por outro estudo (Franke et al.,
2000).
Prodinorfina
A prodinorfina também foi examinada (Zimprich et al., 2000). Entretanto, as
distribuições de alelos de prodinorfina não foram diferentes entre pessoas com
dependência de heroína e controles.
CYP2D6
Genética do Risco combinado de Dependência de Tabaco, Álcool,
Ópióides e outras Substâncias Psicoativas
Herdabilidade da Dependência de Substância
O risco genético influencia a predisposição para o uso e desenvolvimento de
dependência de álcool, tabaco e opióides individualmente. Entretanto, também
existe uma contribuição genética para o uso e dependência de uma combinação
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As enzimas que metabolizam os opióides também são fortes genes candidatos
para envolvimento na suscetibilidade. O achado mais significante na dependência de opióide é a associação encontrada entre dependência de codeína oral e a
enzima de metabolização CYP2D6 (Tyndale, Droll e Sellers, 1997). Muitos
opióides (por exemplo, codeína, oxicodona e hidrocodona) são metabolizados
pela CYP2D6 para metabólitos de maior atividade, principalmente morfina. É
estimado que 4 a 10% dos caucasianos não tenham atividade CYP2D6 devido à
herança de dois alelos não funcionais. Tyndale, Droll e Sellers (1997) observaram que em um grupo de pessoas com dependência a opióides orais não havia
metabolizadores pobres de CYP2D6 (teste exato de Fisher, p menor ou igual
0,05). Isso está em contraste com os 4% das pessoas no grupo de não dependentes que eram metabolizadores pobres da CYP2D6, sugerindo que o genótipo
variante da CYP2D6 oferece proteção contra a dependência de opióides orais.
Entretanto, esse achado permanece controverso (Mikus et al., 1998).
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Bases Genéticas das Dependências de Substância – 135
de álcool, tabaco e outras substâncias (Carmelli et al., 1992; Reed et al., 1994;
Swan, Carmelli e Cardon, 1996, 1997; Daeppen et al., 2000; Hopfer, Stallings e
Hewitt, 2001; Tsuang et al., 2001).
Os estudos clássicos de adoção de Cadoret foram fundamentais na definição
da importância de fatores genéticos no abuso de substância (Cadoret et al., 1986,
1995). Esses estudos demonstraram que o abuso de substância foi significativamente maior em adotados cujos pais biológicos eram dependentes de álcool ou
de outras substâncias psicoativas, ou que tivessem transtorno de personalidade.
Isso levou a um modelo em que dois fatores genéticos e um fator independente,
ambiental, da família adotiva, aumentam o risco de abuso de substância.
A co-ocorrência de dependência de tabaco e de álcool tem uma correlação
genética substancial, sugerindo uma vulnerabilidade genética comum (True et
al., 1999). Características ambientais têm uma grande influência no início do
uso de tabaco e de álcool por adolescentes, enquanto o uso de álcool e tabaco em
adultos jovens ligeiramente mais velhos foi mais influenciado por fatores de
risco genéticos (Koopmans, van Doornen e Boomsma, 1997). Pessoas que fumam estão também sob maior risco de dependência grave de álcool (Daeppen et
al., 2000). Existem correlações genéticas significantes entre problemas com a
bebida e já ter fumado ou fumar pelo menos meio maço (dez cigarros) por dia
(Hopfer, Stallings e Hewitt, 2001). A influência genética compartilhada do uso
de álcool e tabagismo em mulheres é mais clara para os sujeitos com maior
gravidade do uso de álcool (Hopfer, Stallings e Hewitt, 2001).
O tabagismo mostrou ser um fator de risco significativo para promover a
progressão para a dependência de álcool (Bucholz, Heath e Madden, 2000).
Esse efeito pode ocorrer pela diminuição dos efeitos do álcool, pois a nicotina
pode aumentar a atividade da enzima metabolizadora de álcool CYP2E1 (Madden
et al., 1995). Entretanto, a dependência de álcool está associada com abstinência mais séria de nicotina (Madden et al., 1997). Isso indica que as dependências
de tabaco e de álcool compartilham uma proporção considerável de genes
(Carmelli et al., 1990; Hettema, Corey e Kendler, 1999; Vanyukov e Tarter, 2000).
Essas influências genéticas comuns podem explicar parcialmente as observações clínicas e epidemiológicas de que pessoas que são dependentes de álcool
são também mais freqüentemente dependentes de tabaco.
Estudos de famílias mostraram forte agregação familiar da dependência de
substância (Meller et al., 1988; Mirin et al., 1991; Kendler, Davis e Kessler,
1997; Bierut et al., 1998; Merikangas et al., 1998). Estima-se que exista um
risco de oito vezes para a dependência de substância entre familiares de pessoas
dependentes em relação a controles, o que se aplicou a uma grande variedade de
substâncias incluindo opióides, cannabis, sedativos e cocaína (Bierut et al., 1998;
Merikangas et al., 1998).
Um estudo maior em gêmeos, com base na população, foi utilizado para
examinar o papel dos genes na transmissão familiar da dependência de substância
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(Kendler e Prescott, 1998). Esse estudo de larga escala mostrou que fatores genéticos influenciam substancialmente a vulnerabilidade para a dependência de
substância. O ambiente familiar também é importante, mas ele influencia predominantemente a iniciação, enquanto fatores genéticos têm uma influência
mais forte sobre o uso pesado e a dependência (van den Bree et al., 1998b;
Kendler, 2001). Esses estudos colocaram a herdabilidade estimada para a dependência de substância entre 50 e 80%.
Poucos estudos visaram especificamente à inter-relação ou sobreposição da
herdabilidade entre dependência de opióides e dependência de álcool. Existem
evidências tanto de fatores específicos como de fatores aditivos específicos transmitidos em famílias (Bierut et al., 1998). De maneira geral, as evidências sugerem
que fatores causais independentes atuam principalmente na dependência de álcool e de opióides, embora haja alguns fatores genéticos comuns relacionados à
dependência em geral.
Estudos de Ligação em Dependência de Substância
Genes Candidatos Envolvidos na Dependência de Substância
Os estudos de genes candidatos examinam alelos que poderiam razoavelmente imaginar-se estar envolvidos com um transtorno. Atualmente, a melhor variante alélica
candidata preenche pelo menos dois critérios: mostrou alterar a função e tem boa
probabilidade de ser biologicamente relevante (Stoltenberg e Burmeister, 2000).
Existem dois tipos principais de genes que foram associados com dependência de droga; aqueles que são provavelmente específicos para a dependência
particular (por exemplo, receptores de nicotina para o tabagismo, metabolismo
do etanol e dependência de álcool [Grant et al., 1999]) e aqueles que podem ter
um papel comum em todas ou em um subgrupo de dependências. Alterações
genéticas em várias combinações de genes para neurotransmissores e receptores
(isto é, serotonina, noradrenalina, GABA, glutamato e opióides) que modificam
a função do neurônio dopaminérgico podem colocar indivíduos em risco para a
dependência (Comings e Blum, 2000; Quattrocki, Baird e Yurgelun-Todd, 2000).
Como outros transtornos comportamentais, a dependência de substância tem
uma herança poligênica (isto é, com muitos genes) e cada gene provavelmente
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A ligação bem estabelecida entre dependência de álcool e tabagismo foi revisada recentemente (Narahashi et al., 2001). Aproximadamente um terço dos loci
que mostraram evidência de ligação com o comportamento de fumar também
mostrou evidência de ligação com a dependência de álcool (Bergen et al., 1999).
Forte evidência de ligação com o cromossomo 15 foi observada em um estudo
em famílias envolvendo pessoas com dependência de álcool e fumantes pesados
(Merette et al., 1999). Notadamente, a ligação com álcool foi encontrada no
cromossomo 19q12-13, o que pode se dever à ligação com tabagismo e a enzima
polimórfica CYP2A6 (19q13.2) que pode inativar a nicotina (Messina, Tyndale
e Sellers, 1997).
Bases Genéticas das Dependências de Substância – 137
contribui com apenas um pequeno percentual da variância. Em cada seção subseqüente, genes candidatos que podem afetar a dependência de maneira mais
geral irão seguir-se a genes candidatos específicos para dependência de tabaco,
álcool e opióides.
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Sistemas GABAérgicos
A inibição dos sistemas GABAérgicos na substância negra faz o ajuste fino da
dopamina liberada no nucleus accumbens, um local importante para o efeito de
todas as substâncias psicoativas (ver Caps. 3 e 4). Os bloqueadores do receptor
GABAA reduzem alguns comportamentos induzidos pelo etanol, como o prejuízo
motor e a sedação. O papel desse receptor na dependência de álcool é, além
disso, embasado pela melhora efetiva de sintomas de abstinência alcoólica por
agonistas GABAA (Parsian e Cloninger, 1997). Ademais, um dos agrupamentos
dos receptores GABAA está localizado no cromossomo 4, em um lócus que se
acredita esteja envolvido proeminentemente na dependência de álcool. Portanto, o sistema GABAérgico pode alterar o risco para tabagismo e dependência de
álcool (Loh e Ball, 2000).
A nicotina pode estimular a freqüência de disparos dos neurônios dopaminérgicos
na área tegmentar ventral (ATV), mas neurônios GABAérgicos podem também ser
um alvo importante para os efeitos da nicotina no sistema nervoso central.
Receptor GABAA alfa-1. Não se encontrou associação com qualquer tipo de
dependência de substância (Parsian e Cloninger, 1997).
Receptor GABAA alfa-3. Uma associação foi encontrada para dependência
de álcool, mas não com seus subtipos (Parsian e Cloninger, 1997).
Receptor GABAA alfa-6. Existe alguma evidência do envolvimento desta
subunidade do receptor na dependência de álcool, tanto em estudos animais
como em humanos. Um lócus para os efeitos agudos do álcool está localizado
no cromossomo 11 do camundongo e codifica as subunidades gama-2, alfa-1,
alfa-6, beta-2 do receptor GABAA sugerindo um papel para estas subunidades
em resposta ao álcool (Hood e Buck, 2000). Uma variante do receptor GABAA,
subunidade alfa-6, se segrega em uma linhagem de ratos que voluntariamente
evita consumo de álcool, fornecendo embasamento para um possível papel para
variantes deste subtipo de receptor na alteração da predisposição genética para preferência por álcool (Saba et al., 2001). Variantes diferentes da subunidade a6
estão associadas a resposta ao álcool (Iwata, Virkkunen e Goldman, 2000), dependência de álcool (Loh et al., 2000) e psicose de Korsakoff (Loh et al., 1999)
mais baixas.
Receptor GABAA beta-1. Variantes do gene do receptor GABAA beta-1 foram associadas com dependência de álcool (Parsian e Zhang, 1999).
Receptor GABAA beta-2. Variantes do gene do receptor GABAA beta-2 foram testadas e não mostraram associação com dependência ou abstinência de
álcool (Sander et al., 1999a). A BanI RFLP no gene da subunidade beta-2 do
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receptor GABAA se associou tanto com dependência de álcool como com psicose
de Korsakoff (Loh et al., 1999).
Receptor GABAA beta-3. Uma associação de variantes do receptor GABAA
beta-3 foi encontrada com dependência de álcool grave (Noble et al., 1998a).
Receptor GABAA gama-2. A variação funcionalmente relevante da GABAA
gama-2, ou um gene proximamente ligado, está correlacionada geneticamente
com algumas respostas comportamentais ao álcool em certas linhagens de camundongos (Hood e Buck, 2000). Não se encontrou associação em humanos
(Hsu et al., 1998; Sander et al., 1999a), exceto na presença de transtorno de
personalidade anti-social (ver Quadro 6.1) (Loh et al., 2000).
Receptor GABAB R1. Dados sugerem que variantes do receptor GABAB R1
não contribuem com efeito substancial para a variação genética na dependência
de álcool (Sander et al., 1999b). No entanto, possíveis evidências de associações alélicas potenciais enfatizam a necessidade de estudos adicionais para testar
relações fenótipo – genótipo mais definidas.
Sistema Dopaminérgico
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Devido à sua importância nos circuitos de recompensa cerebral, o sistema
dopaminérgico mesolímbico vem sendo implicado nos efeitos reforçadores de
muitas substâncias, incluindo a nicotina e o etanol (Uhl et al., 1998; Merlo Pich,
Chiamulera e Carboni, 1999; Comings e Blum, 2000) (ver também o Cap. 3).
Em concordância, polimorfismos dos genes do sistema dopaminérgico são genes
candidatos funcionais plausíveis para a dependência de tabaco e de álcool. Estudos ao longo da década passada mostraram que alelos do sistema de receptores
de dopamina estão associados a dependência de álcool e tabaco, dependência de
outras drogas psicoativas, busca de novidades, obesidade, jogo compulsivo e
vários traços de personalidade. Esse é um exemplo de variação genética em um
sistema (por exemplo, dopamina) que pode alterar certo número de comportamentos, incluindo a dependência de álcool e de tabaco.
Receptor de dopamina D1. Como mencionado previamente, o comportamento de fumar (definido pelo número de cigarros por dia em um ano) foi ligado
à localização genética no cromossomo 5q (D5S1354) (Duggirala, Almasy e
Blangero, 1999) que está próximo ao lócus do receptor de dopamina D1 (DRD1).
Foi feita uma associação entre um polimorfismo e o tabagismo, uso de álcool e
de drogas ilícitas, compras compulsivas, comer e jogo compulsivo (Comings et
al., 1997), embora nem todos os estudos confirmem um papel para o DRD1 no
uso de álcool (Hietala et al., 1997; Sander et al., 1995). Esses resultados sugerem
um papel para variantes genéticas do gene do DRD1 em alguns comportamentos
relacionados à dependência e, além disso, sugerem uma interação de variantes
genéticas do gene do DRD1 e do DRD2 (Comings et al., 1997).
Receptor de dopamina D2. Variantes do gene do receptor de dopamina D2
(DRD2) foram associadas com dependência de álcool, nicotina, cocaína e
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Bases Genéticas das Dependências de Substância – 139
opióides e com busca de novidades, obesidade e jogo, mas estes resultados não
foram consistentes (Noble, 2000; Noble et al., 1998b). Foi feita a hipótese que o
gene do DRD2 esteja envolvido no reforçamento (ver Cap. 3).
Entre caucasianos não hispânicos que fumaram pelo menos um maço de cigarros por dia, tentaram parar de fumar sem sucesso e não eram dependentes de álcool
ou outras drogas, o alelo DRD2 A1 foi mais prevalente do que em controles (Comings
et al., 1996), embora isso não seja observado em todos os estudos (Singleton et al.,
1998). Existe uma relação inversa, significante entre a prevalência de alelos DRD2
A1 e a idade de início do tabagismo e a duração máxima de tempo desde que os
fumantes deixaram de fumar por conta própria (Comings et al., 1996). Esses resultados embasam o conceito que o gene DRD2 é um dentro de um grupo multifatorial
de fatores de risco associados com o tabagismo (Comings et al., 1996).
Em resumo, o DRD2 pode alterar o risco para a dependência de álcool, mas
pacientes dependentes de álcool com o alelo DRD2 A1 podem apresentar maior
gravidade do seu transtorno ao longo de uma gama de índices de problemas com
a bebida (Connor et al., 2002).
Existem poucos exemplos nos quais a variação genética do DRD2 tenha
sido examinada em conjunto com outros genes. Variantes tanto do gene do DRD2
como do receptor GABAA subunidade beta-3 foram associadas com risco de
dependência de álcool; entretanto, este risco é mais robusto quando estas variantes
estão combinadas do que quando são consideradas separadamente (Noble et al.,
1998a). De maneira similar, as variantes de DRD2 e de ADH2 mostraram ter
uma associação mais forte com o risco de dependência de álcool quando combinadas do que quando sozinhas (Amad et al., 2000).
Receptor de dopamina D3. O receptor DRD3 é encontrado em altos níveis
no nucleus accumbens, uma região envolvida na recompensa e na dependência
de droga (ver Cap. 3). Uma variante do gene DRD3 mostrou, em alguns estudos,
alterar a função. O papel dessa variante no tabagismo não foi estudado, mas
mostrou alterar o uso de algumas outras substâncias e transtornos psiquiátricos.
Estudos do DRD3 e da dependência de álcool não demonstraram associação
significante (Parsian et al., 1997; Henderson et al., 2000).
Receptor de dopamina D4. Uma variante do gene do DRD4 foi identificada
e acredita-se que tenha um papel na dependência de nicotina. Quando expostos
a sinais de tabagismo antes de fumar cigarros com alto nível de nicotina ou
cigarros controles, indivíduos com o alelo variante de DRD4 tiveram mais fissura,
mais alerta, menos afetos positivos e mais atenção para os sinais de tabagismo
do que aqueles sem o alelo variante (Hutchison et al., 2002a). Esses resultados
preliminares sugerem que os efeitos recompensadores do tabagismo e os efeitos
benéficos da terapia de reposição de nicotina podem depender, em parte, de
fatores genéticos envolvidos na transmissão dopaminérgica.
Um estudo de associação com o gene de DRD4 mostrou que americanos de
origem africana que tinham pelo menos um alelo variante apresentaram um risco
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maior de tabagismo, um período de tempo mais curto para o primeiro cigarro de
manhã e uma idade menor no início do tabagismo (Shields et al., 1998). Após
aconselhamento para interrupção do tabagismo, nenhum dos fumantes com o
alelo variante estava abstinente após dois meses, em comparação com 35% dos
fumantes que eram homozigotos para o genótipo não variante. A análise dos
caucasianos não sugeriu um risco similar.
Alguns estudos mostraram uma associação entre dependência de álcool e variação do receptor DRD4 (George et al., 1993; Hutchison et al., 2002b), enquanto
outros não (Parsian et al., 1997; Ishiguro et al., 2000; Albanese et al., 2001).
É interessante que a variação do DRD4 aumente o risco para dependência
de álcool em indivíduos com variantes protetoras ALDH2*2, indicando que os
efeitos protetores da ALDH2*2 foram neutralizados pela variante DRD4
(Muramatsu et al., 1996).
Receptor de dopamina D5. Vários polimorfismos funcionais do DRD5 foram identificados (Cravchik e Gejman, 1999); entretanto, para a iniciação ao
tabagismo, não houve associação significante com quatro marcadores DRD5
estudados. Enquanto esses dados não são consistentes com um papel forte do
DRD5 na etiologia de comportamentos do tabagismo, um estudo sugeriu o
envolvimento do lócus na variação do risco de uso de substância e comportamento anti-social (Vanyukov et al., 2000), indicando que mais estudos são
necessários.
Transportador de dopamina. Um polimorfismo do transportador de dopamina
foi identificado, o qual altera a taxa de transcrição (produção de RNA mensageiros [mRNA]) (Michelhaugh et al., 2001) e está associado a níveis alterados da
proteína transportadora de dopamina no cérebro (Heinz et al., 2000), sugerindo
que o polimorfismo resulta em diferenças funcionais. Entretanto, não se encontrou associação com dependência de substância.
Dopamina beta-hidroxilase. Fumantes com um genótipo particular da dopamina beta-hidroxilase (DBH) fumaram menos cigarros quando comparados com
aqueles sem o genótipo (McKinney et al., 2000). Fumantes pesados (mais de 20
cigarros por dia) tiveram uma freqüência maior do alelo variante DBH quando
comparados com fumantes leves (McKinney et al., 2000).
Monoamina-oxidase A. As vias de recompensa dopaminérgicas centrais dão
origem à dependência e são ativadas por nicotina e álcool, indicando que variantes
alélicas de genes envolvidos no metabolismo de dopamina podem ser importantes na dependência. A monoamina-oxidase (MAO) está envolvida no metabolismo
de neurotransmissores, incluindo dopamina, serotonina e noradrenalina. Existem duas formas distintas de MAO: MAO-A e MAO-B; ambas são codificadas
por genes do cromossomo X.
A atividade da MAO é reduzida pelo tabagismo (Checkoway, 1998). Um
estudo encontrou que fumantes com certo genótipo MAO-A fumaram mais cigarros que aqueles sem este genótipo (McKinney et al., 2000).
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Bases Genéticas das Dependências de Substância – 141
Baixa atividade da MAO plaquetária associou-se à dependência de álcool,
tornando a variação genética destes genes de interesse. Variações nos genes da
MAO-A e da MAO-B diferem entre pessoas com dependência de álcool e controles (Parsian et al., 1995). Uma variante do gene da MAO-A está associada
tanto ao risco de dependência de álcool como à menor idade de início da dependência de substância em homens (Vanyukov et al., 1995).
Associações significantes da dependência de álcool com alelos MAO-A
foram encontradas entre chineses Han, mas não entre grupos aborígines taiwaneses (Hsu et al., 1996). Um polimorfismo funcional do alelo da MAO-A foi
identificado e a freqüência esteve aumentada em homens com transtorno de personalidade anti-social e dependência de álcool, mas não naqueles com dependência de álcool isolada ou em controles (Samochowiec et al., 1999; Schmidt
et al., 2000).
Catecol-O-metiltransferase. A catecol-O-metiltransferase (COMT) inativa
catecolaminas e drogas catecol. Um polimorfismo genético comum em humanos está associado com três a quatro vezes a variação na atividade da enzima
COMT (Lachman et al., 1996). Como o uso de etanol e nicotina está associado
com liberação rápida de dopamina em áreas límbicas, é concebível que sujeitos
que herdem alelos de baixa atividade inativem a dopamina mais lentamente,
alterando sua vulnerabilidade para o desenvolvimento de dependência. Um
polimorfismo funcional, que resulte em aumento da atividade enzimática, foi
associado a dependência de álcool e uso de polissubstâncias (Vandenbergh et al.,
1997; Horowitz et al., 2000). Não se encontrou associação entre esse polimorfismo da COMT e iniciação ao tabagismo e persistência e interrupção deste
(David et al., 2002).
Homens com um genótipo específico da COMT (30% de todos os sujeitos)
relataram consumo de álcool semanal 27% maior em comparação com os dois
outros grupos de genótipos (Kauhanen et al., 2000). Os resultados indicam que
o polimorfismo da COMT pode contribuir para a quantidade de álcool ingerida,
não apenas em pessoas com dependência de álcool, mas também na população
masculina em geral. Distúrbios visuais e auditivos entre pessoas com dependência de álcool com sintomas de abstinência foram significativamente diferentes
entre os genótipos da COMT (Nakamura et al., 2001), sugerindo que a atividade
da COMT pode afetar parcialmente o surgimento de delirium tremens nesses
indivíduos.
Tirosina-hidroxilase. A tirosina-hidroxilase (TH) é a enzima limitante na
biossíntese de catecolaminas. A nicotina mostrou regular a TH e camundongos
com mais TH são menos sensíveis à nicotina. Não se encontrou associações
entre o polimorfismo genético da TH e o tabagismo (Lerman et al., 1997).
Os resultados até esta data não sugerem influência maior na dependência de
álcool dos genes associados com variantes TH (Geijer et al., 1997; Ishiguro et al.,
1998; Albanese et al., 2001).
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142 – Bases Genéticas das Dependências de Substância
Sistemas Serotonérgicos
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Os genes do sistema serotonérgico são candidatos plausíveis para associação
com dependência de tabaco ou de álcool devido ao papel da serotonina na
regulação do humor, controle de impulsos, apetite e agressividade (Veenstravan der Weele et al., 2000). A nicotina pode aumentar a liberação de serotonina
sugerindo que alguns aspectos do tabagismo poderiam ser alterados por variação no sistema serotonérgico (por exemplo, distúrbios variáveis do humor durante
a abstinência resultando em taxas de interrupção diferentes). Adicionalmente,
alguns inibidores de recaptura de serotonina estão sendo examinados quanto à
sua utilidade na interrupção do tabagismo e na prevenção do ganho de peso associado à essa interrupção. Alterações na neurotransmissão serotonérgica foram
descritas em pacientes com dependência de álcool, transtornos de ansiedade e
narcolepsia, portanto, o sistema serotonérgico fornece genes candidatos adicionais para a variação genética da dependência de álcool e do tabagismo.
Receptores de serotonina. Enquanto polimorfismos funcionais foram identificados nos receptores de serotonina e associados a dimensões relevantes da
personalidade (por exemplo, evitação de danos, dependência de recompensa),
não existem relatos de associações entre receptores de serotonina e o comportamento de fumar. Nos estudos com variantes de receptores de serotonina e
dependência de álcool existem alguns achados positivos e negativos (Yoshihara
et al., 2000b). Um fenótipo mais claro, incluindo variáveis de personalidade,
pode ser necessário antes que um quadro melhor do papel dos receptores de
serotonina no risco genético para comportamentos relacionados ao álcool possa ser
elucidado.
Receptor de serotonina 1B. A variante gênica do receptor 5HT1B (G861C)
não foi associada com dependência de álcool (Gorwood et al., 2002; Kranzler et
al., 2002), tanto isolada quanto com co-morbidade com transtorno anti-social
(Kranzler et al., 2002). Entretanto, em pessoas com dependência de álcool e ALDH2
inativa, mas não naquelas com ALDH2 ativa, houve uma associação com a variante
do receptor 5HT1B (G861C), sugerindo seu envolvimento no desenvolvimento
em algum tipo de dependência de álcool (Hasegawa et al., 2002).
Receptor de serotonina 2A. Os dados sugerem que possa haver uma variabilidade genética relativamente pequena do gene do receptor 5HT2A envolvida
no desenvolvimento da dependência de álcool (Nakamura et al., 1999; Hwu e
Chen, 2000; Preuss et al., 2001; Hasegawa et al., 2002).
Receptor de serotonina 2C. Não há evidências de associação de alelos do
HTR2C com dependência de álcool (Lappalainen et al., 1999; Schuckit et al.,
1999; Fehr et al., 2000; Parsian e Cloninger, 2001).
Receptor de serotonina 5. Não houve evidência de diferenças nos alelos do
HTR5 em um estudo finlandês com pessoas com dependência de álcool e controles (Iwata et al., 1998).
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Bases Genéticas das Dependências de Substância – 143
Receptor de serotonina 7. A variante L279 do HTR7 não esteve associada
significantemente com dependência de álcool ou impulsividade, entretanto, pode
ser um alelo predisponente em um subgrupo de pessoas com dependência de
álcool e múltiplos problemas comportamentais (Pesonen et al., 1998).
Triptofano-hidroxilase. A variação genética da triptofano-hidroxilase (TPH)
poderia alterar significativamente a neurotransmissão serotonérgica e, dessa forma, alterar o risco de dependência.
Nenhuma associação entre os alelos da TPH e o status do tabagismo foi
encontrada (Lerman et al., 2001), entretanto, indivíduos com um genótipo específico começaram a fumar em uma idade mais precoce (Lerman et al., 2001).
Além disso, um outro estudo encontrou uma associação com iniciação ao tabagismo, mas não com progressão para dependência de nicotina (Sullivan et al.,
2001). Esses dados sugerem que a variação na produção de serotonina pode
estar envolvida na etiologia da iniciação ao tabagismo.
Uma freqüência maior do alelo TPH A foi encontrada em japoneses com
dependência de álcool e histórias de comportamentos anti-sociais relacionados
à bebida (Ishiguro et al., 1999) e em finlandeses com dependência de álcool que
também praticaram crimes (Nielsen et al., 1998). Entretanto, não se encontrou
associação entre o alelo TPH A e dependência de álcool sem transtornos de
personalidade (Han et al., 1999b; Ishiguro et al., 1999; Fehr et al., 2001).
Transportador de serotonina. O gene do transportador de serotonina (5-HTT)
(SLC6A4) é um gene candidato plausível para o tabagismo e predisposição para
dependência de álcool devido à sua associação com traços psicológicos relevantes para o comportamento de fumar e beber. Um polimorfismo específico desse
gene foi associado a numerosos transtornos psiquiátricos (por exemplo, depressão, transtornos de ansiedade, transtornos bipolares e esquizofrenia).
Outros Sistemas de Interesse
Colecistocinina. O neuropeptídeo colecistocinina (CCK) tem um papel importante no funcionamento do sistema nervoso central pela interação com a dopamina
e com outros neurotransmissores. A interação da CCK com o sistema dopaminérgico
foi implicada em comportamentos associados a drogas psicoativas (Vaccarino,
1994; Crawley e Corwin, 1994).
A exposição aguda e crônica à nicotina resulta em perda de peso associada a
um aumento da CCK no hipotálamo; antagonistas da CCK aliviam sintomas da
abstinência de nicotina, concordante com um papel do gene da CCK como um
fator de risco para o tabagismo (Comings et al., 2001).
Receptores opióides. Tanto o etanol quanto os opióides ativam o sistema de
recompensa dopaminérgico mesolímbico e diferenças genéticas na sensibilidade
do sistema opióide endógeno ao álcool podem ser fatores importantes na determinação do risco para o desenvolvimento de dependência de álcool ou de seu
consumo excessivo (Gianoulakis, 2001). Nenhuma associação foi identificada.
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144 – Bases Genéticas das Dependências de Substância
Transportador de glutamato. Vias excitatórias mediadas por glutamato têm
um papel importante na patogênese da dependência de álcool. O transportador
de glutamato astroglial EAAT2 confere vulnerabilidade para a dependência de
álcool; entretanto, nenhuma associação de um polimorfismo com dependência
de álcool ou com dependência de álcool com sintomas de abstinência fisiológica
grave ou dependência de álcool com comportamento anti-social foi observada
(Sander et al., 2000).
Fatores de Confusão em Estudos de Ligação e de Genes Candidatos
Ambiente
Os estudos com gêmeos e de famílias indicam um papel significativo do risco
genético para a dependência de álcool e de tabaco e um papel substancial para
fatores ambientais (Stoltenberg e Burmeister, 2000; Crabbe, 2002). É importante
lembrar essa última fonte de variação do risco e procurar maneiras de integrar
estudos sobre as influências genéticas e ambientais (ver a seguir). Essa difícil
tarefa foi revisada para uma série de transtornos complexos (Kiberstis e Roberts,
2002). Entretanto, desenvolvimentos recentes em genética abriram a possibilidade de esclarecer as interações complexas entre genótipo e ambiente para
determinar o desenvolvimento do fenótipo comportamental individual. É uma
direção que claramente necessita de muita atenção.
Heterogeneidade Genética
Fenótipo
Pelo menos algumas alterações genéticas parecem predispor populações para formas de dependência que não se enquadram nas categorias bem definidas do
DSM-IV ou da CID-10 (ver Quadros 1.2 e 1.3, no Cap. 1). É esse certamente o
caso da dependência de tabaco, na qual outras formas de definir a dependência
têm sido propostas e utilizadas (por exemplo, Fagerstrom e Schneider, 1989;
Heatherton et al., 1991). Do mesmo modo, foi descoberto que diferentes sintomas
da dependência de álcool têm herdabilidade estimada variando entre 3 e 53%
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Além da heterogeneidade genética e diagnóstica, se antecipa que o risco para
muitos transtornos complexos como a dependência de substâncias necessite de
variantes genéticas múltiplas em combinação (Stoltenberg e Burmeister, 2000;
Crabbe, 2002). Muitos transtornos psiquiátricos são provavelmente causados
por múltiplos genes que interagem uns com os outros (Cooper, 2001). Isso sugere
que ter um alelo predisponente não implica em alto risco; de fato, não se espera que
a maioria dos portadores desenvolva o transtorno (Stoltenberg e Burmeister,
2000). Fatores de heterogeneidade genética criam complexidades para os estudos de ligação assim como para estudos que examinam apenas um gene ou alelo
por vez (Wahlsten, 1999).
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Bases Genéticas das Dependências de Substância – 145
(Slutske et al., 1999) e o mesmo foi observado com diferentes instrumentos diagnósticos para a dependência de álcool (van den Bree et al., 1998a). Esses achados
indicam a necessidade de se definir o fenótipo de interesse. Em outras palavras,
definir claramente o objetivo (por exemplo, risco relativo de beber mais de oito
doses por dia, abstinência de álcool, risco relativo para a iniciação ao tabagismo,
tolerância inicial) pode melhorar a capacidade de identificar os genes específicos
envolvidos.
Co-morbidade
Muitos transtornos psiquiátricos ocorrem em co-morbidade com a dependência
de substância (ver Cap. 6). A co-morbidade entre os transtornos será entendida
apenas com o aumento do conhecimento da neurobiologia subjacente aos transtornos. Abordagens genéticas comportamentais permitirão aos investigadores
testar causas para cada transtorno assim como para a co-morbidade e estimar
o tamanho do efeito de cada fator contribuinte.
Questões Metodológicas
Estudos de genes candidatos muitas vezes encontram resultados conflitantes.
As razões para as diferenças nos achados incluem:
• Inconsistências na definição de fumantes (isto é, alguma vez versus nunca,
ex-fumante, mais de 100 cigarros na vida, dependência) e de comportamentos relacionados ao tabagismo (isto é, iniciação, manutenção, parar,
cessar, recaída).
• Questões sobre polimorfismos sem função, metodologia (por exemplo,
técnicas de genotipagem erradas) e poder estatístico.
• Ascendência étnica.
Diferenças nas definições de fumantes, consumidores de álcool e ascendência
étnica provavelmente contribuem substancialmente para os diferentes resultados
dos estudos. Outra questão é que genes candidatos atraentes serão estudados por
vários laboratórios e há, freqüentemente, um viés para a publicação de resultados positivos.
Uma questão adicional é a pratica de se examinar um gene e, algumas vezes,
um alelo por vez. Embora isso seja mais simples e necessite de tamanhos menores de amostra, existem exemplos que indicam que apenas quando dois ou mais
genes com variações genéticas (por exemplo, ALDH2 e ALD) são examinados
em conjunto serão encontrados resultados com significado. Outra limitação da
abordagem de gene candidato é a quantidade de conhecimento sobre a biologia
do transtorno em estudo. Essa questão também embasa abordagens integrativas de
pesquisa utilizando localizações cromossômicas identificadas por estudos
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146 – Bases Genéticas das Dependências de Substância
de ligação ou estudos QTL, assim como genes candidatos identificados em
sistemas modelo como a drosófila, para identificar outros genes candidatos potenciais. Para entender as contribuições genéticas para os comportamentos de
fumar e beber, muitos dos seus aspectos precisam ser avaliados, pois diferentes
genes podem afetar os vários comportamentos de maneira diferente. Grandes
estudos de variantes de múltiplos genes e fenótipos definidos claramente levarão a um entendimento mais claro dos genes específicos e dos mecanismos
envolvidos.
Direções Futuras
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As abordagens genéticas e os achados expostos neste capítulo fornecem uma
indicação das promessas que a pesquisa genética oferece. Esses dados genéticos
podem ser, e vêm sendo, utilizados para melhorar o entendimento da etiologia
da dependência de substância e da variação do risco entre indivíduos. Uma vez
que genes que alterem a predisposição para dependência sejam identificados,
um desafio principal será entender como as funções destes genes interagem com
influências ambientais na dependência (Swan, 1999). A análise de genes específicos irá permitir uma exploração racional da base bioquímica das ações da
nicotina, do álcool e de outras substâncias e torna possível a ligação entre a
mudança comportamental, a predisposição genética e a ação bioquímica. Esses
genes e as proteínas que eles codificam se tornarão alvos primários para a criação de novas ferramentas diagnósticas assim como a base de novos tratamentos
comportamentais e farmacológicos.
A informação genética pode ser útil na identificação de indivíduos com risco
aumentado para dependência de substância (e assim refinar abordagens preventivas) e para predizer as conseqüências para a saúde da dependência de substância
(por exemplo, toxicidade hepática). Obtendo-se um melhor entendimento dos
genes que estão envolvidos na iniciação, manutenção e interrupção da dependência de substâncias, novas abordagens de tratamento comportamental e
farmacológico podem ser criadas (Swan, 1999; Sellers e Tyndale, 2000; Marteau
e Lerman, 2001; Johnstone, York e Walton, 2002). Esse campo de pesquisa também oferece grande potencial para se utilizar informação genética pessoal para
personalizar as abordagens de tratamento (isto é, escolher o tratamento, a droga
e a dose apropriados) e para minimizar as reações adversas. Novamente, é importante enfatizar que certo arcabouço genético não necessariamente significa
que a pessoa irá desenvolver a dependência, mas pode fornecer informações
úteis para abordagens de tratamento e prevenção.
Em resumo, o melhor entendimento das influências genéticas na dependência de substância promete aumentar nosso entendimento dos processos que
produzem a dependência e deve fornecer novas abordagens de prevenção e de
tratamento.
Bases Genéticas das Dependências de Substância – 147
Aspectos Sociais e Culturais
Deve ser enfatizado que fatores de risco genéticos complexos e fatores protetores para a dependência atuam em um milieu biológico, social e cultural que
afeta o desfecho para cada pessoa individualmente. A seção seguinte realça brevemente alguns fatores relevantes sociais e culturais.
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Fatores de Risco e Fatores Protetores
para a Dependência: Visão Geral
A pesquisa em fatores de risco para a dependência envolve comparações de
pessoas com e sem dependência e estudos longitudinais com sujeitos que se
tornarão dependentes ou evitarão a dependência. Existem fatores ambientais
(por exemplo, classe social, mobilidade, mudanças sociais, grupo cultural, estilo
educacional e grupos de risco ocupacionais) e fatores de risco individuais (por
exemplo, predisposição genética, abuso na infância, transtorno de personalidade) (Uchtenhagen, 2000a, b). Normas culturais, atitudes e pontos de vista sobre
o uso de substâncias (por exemplo, aceitabilidade social, tolerância, estigma) e
políticas locais, nacionais e regionais para as drogas ilícitas, tabaco e álcool
também podem ser considerados como fatores de risco ambientais.
Fatores de risco para problemas com o uso de drogas incluem desintegração
familiar e problemas de dependência na família, baixo desempenho na escola,
privação social, uso de substância em idade mais precoce e depressão e comportamentos suicidas durante a adolescência (Lloyd, 1998).
Enquanto os fatores de risco enfatizam influências negativas e a importância da
prevenção, os fatores de proteção realçam alternativas positivas e a necessidade
de promoção de saúde. Os fatores de proteção podem ter um efeito principal
independente ou atuar como variáveis que intervêm com os fatores de risco e o
desfecho comportamental.
Os indivíduos extraem recursos pessoais e ambientais que podem capacitá-los
melhor para enfrentar o estresse e os desafios relacionados à saúde (Antonovsky,
1987). Esse conceito da psicologia social é espelhado na sociologia, na teoria do
capital social. Capital social é a soma dos recursos a que um indivíduo ou um
grupo têm acesso por meio de suas relações sociais, familiares, ou institucionais
(Klingemann et al., 2001).
Os recursos ambientais incluem a situação econômica, o suporte social, a
integração social, os modelos de aprendizado e fatores temporais (Schmid, 2000).
Com relação aos fatores temporais, a idade de início do uso da substância é
importante, assim como eventos vitais que possam ser caracterizados por uma
maior vulnerabilidade para o uso de substância, como experimentar drogas no
início da adolescência, como compensação para fatores de estresse ao entrar no
mundo adulto profissional, ou para enfrentar a aposentadoria entre 55 e 65 anos
de idade (ver Vogt, 2000a, b).
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148 – Bases Genéticas das Dependências de Substância
Existe alguma evidência empírica de que diferenças sociais e de classe estejam relacionadas ao uso de risco de substâncias psicoativas tanto lícitas como
ilícitas. Por exemplo, o declínio no tabagismo em alguns países vem sendo mais
rápido em homens do que em mulheres das classes socioeconômicas mais altas
e a ingesta de álcool mostra uma relação inversa com o status ocupacional
(Marmot, 1997). Em relação às drogas ilícitas, estudos ecológicos mostraram
que o estado de pobreza de comunidades é um preditivo poderoso de overdoses
fatais de cocaína e opióides em países desenvolvidos. Por exemplo, em um estudo em uma comunidade urbana de New York, 69% da variação nas overdoses
fatais de drogas foram explicadas pelo estado de pobreza (Marzuk et al., 1997).
A pobreza também está associada a problemas de nutrição e uma grande
quantidade de condições contextuais negativas; indivíduos malnutridos são especialmente vulneráveis aos efeitos adversos do consumo de substâncias lícitas
e ilícitas (Charness, 1999). O estado geral de saúde e o estado nutricional têm
um papel importante; por exemplo, diabetes, hipertensão e o vírus da hepatite C
aumentam a vulnerabilidade para o álcool (Regev e Jeffers, 1999; Weathermon
e Crabb, 1999). Mais especificamente, o conhecimento relacionado à saúde
sobre o uso de álcool e sobre atitudes contrárias à bebida diminui o risco de
beber (Epstein et al., 1995).
Os recursos pessoais incluem habilidades de enfrentamento, auto-eficácia,
percepção de risco, otimismo, comportamentos relacionados à saúde, capacidade
de resistir a pressões sociais e o comportamento em relação à saúde em geral.
Esses recursos interagem e possivelmente são potencializados por programas comunitários que podem preencher as necessidades das pessoas, levando-as a procurar
com menos freqüência o uso de substâncias e isso fornece um ambiente saudável
no qual o indivíduo se sente menos pressionado a usar substâncias lícitas e ilícitas.
Resumo
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A Tabela 5.1 apresenta resumo da herdabilidade da dependência de substâncias
selecionadas.
Estudos de família, de gêmeos e de adoção fornecem fortes evidências para uma
contribuição genética significante, mas não exclusiva para o desenvolvimento
do uso e da dependência de substância. Fatores ambientais e experiências individuais específicas também são de grande importância. Estudos de família e de
adoção, que focaram o risco geral para uso de substância, mostraram que a dependência é um traço familiar que tanto pode ser atribuído ao ambiente quanto
aos genes compartilhados. Os estudos com gêmeos, consistentemente, mostraram
maior concordância entre monozigóticos do que entre dizigóticos para a dependência de substância, indicando um efeito genético.
As contribuições genéticas significantes e complexas para a dependência de
substância continuam a motivar esforços para identificar variantes alélicas que
contribuam para a vulnerabilidade para a dependência, mesmo que cada variante
alélica contribua com apenas uma modesta fração de todo o problema. Os
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Bases Genéticas das Dependências de Substância – 149
genótipos nos loci contendo alelos vulneráveis poderiam fornecer abordagens
melhores para tratar indivíduos vulneráveis e, assim, maximizar o uso de recursos
para prevenção e tratamento. O sofrimento individual e da sociedade poderia ser
aliviado por melhor entendimento dos processos humanos complexos da dependência pela aplicação cuidadosa de abordagens genéticas complexas.
As duas abordagens principais para estimar os componentes genético e
ambiental da variação fenotípica são os estudos de gêmeos e de adoção. Os estudos
de gêmeos indicam fortemente a presença de fatores de risco genéticos para múltiplos aspectos do tabagismo e da dependência de álcool, incluindo a iniciação,
continuação, quantidade consumida e interrupção. Além disso, um conjunto de
estudos indica considerável co-morbidade entre dependência de tabaco e de álcool,
tornando a sua identificação freqüente e as influências genéticas particulares dessas substâncias cruciais e desafiadoras. Além de estimar a responsabilidade genética,
esses estudos fornecem informações adicionais sobre contribuições ambientais,
identificando aquelas que são compartilhadas (isto é, aquelas que ambos os gêmeos
têm em comum e aquelas que contribuem para sua similaridade) e as que não são
Tabela 5.1 – Resumo da herdabilidade da dependência de substâncias
selecionadas
Substância
Herdabilidade
estimada (%)
Ligação
Genes candidatos
CYP2A6
Receptor de
dopamina D4
Dopamina betahidroxilase
Nicotina
60 – 80
Cromossomo 5q
próximo aos loci
do receptor D1
Álcool
52 – 63
Loci nos
ALDH2
cromossomos 4q, ADH
6, 1, 7, 2, 11p, 10q CYP2E1
GABAA α6, β1, β3, γ2
Receptor de
dopamina D4
COMT (catecol-Ometiltransferase)
Receptor de
serotonina 2A
Opióides
Risco combinado
para dependência
de substância em
geral
70
50 – 80
Nenhum identificado
Loci nos
cromossomos 15,
19q12-13
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CYP2D6
Receptor de
dopamina D1
Receptor de
dopamina D2
Receptor de
dopamina D4
Monoaminaoxidase A
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150 – Bases Genéticas das Dependências de Substância
compartilhadas (contribuindo para as diferenças relativas) (Heath, Madden e Martin,
1998; Vanyukov e Tarter, 2000; Jacob et al., 2001).
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CAPÍTULO 6
TRANSTORNOS CO-MÓRBIDOS
Introdução
Ao longo da última década, vem havendo uma consciência crescente de que
existe um alto grau de co-morbidade (co-ocorrência no mesmo indivíduo) entre
vários transtornos psiquiátricos. Isto é, indivíduos com história de um transtorno psiquiátrico têm muito mais chance do que o esperado pelo acaso de ter
história de outro transtorno psiquiátrico (Robins e Regier, 1991; Kessler et al.,
1994). Mais relevantes para esta publicação são os dados indicando que existe
alta co-morbidade entre qualquer transtorno mental e dependência de substância. Especificamente, esses dados indicam que:
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• A prevalência ao longo da vida de transtorno relacionado ao álcool é de
22,3% para indivíduos com qualquer transtorno mental, em comparação
com 14% para a população geral, e a chance de ter um transtorno relacionado ao álcool se a pessoa tem qualquer transtorno mental é 2,3 vezes
maior do que se não o tivesse (Regier et al., 1990).
• Entre pessoas com transtornos de uso de substâncias (exceto álcool), 53%
também sofrem de pelo menos um outro transtorno mental, com uma razão de chances de 4,5 em comparação com pessoas sem transtornos
relacionados a substâncias (exceto álcool) (Regier et al., 1990).
• Percentuais maiores de pessoas com doenças mentais, particularmente
aquelas com esquizofrenia, fumam tabaco em relação à população geral e
pessoas sem transtorno mental. Dependendo da doença mental em particular, tem sido relatado que 26 a 88% dos pacientes psiquiátricos fumam
em comparação com 20 a 30% da população geral (Glassman et al., 1990;
Breslau, 1995; Hughes et al., 1986).
Apesar do fato de que a maioria dos estudos foi realizada em poucos países
desenvolvidos e de que o grau de co-morbidade em muitas culturas seja amplamente desconhecido, este alto grau de co-morbidade entre transtornos mentais e
transtornos de uso de substância sugere fortemente que estejam ligados por anormalidades neurobiológicas e comportamentais. Embora muitos cientistas e
clínicos possam concordar com essa sugestão, permanecem obscuros quais seriam
esses fatores causais. Isto é, as doenças mentais levam à dependência de substância, ou a dependência de substância leva à doença mental, ou tanto a doença
mental quanto a dependência de substância são manifestações sintomáticas das
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162 – Transtornos Co-mórbidos
mesmas neuropatologias subjacentes? Esses são tópicos de considerável interesse recente e de pesquisa tanto clínica como pré-clínica.
A proposta deste capítulo é apresentar várias hipóteses que podem explicar
o alto grau de co-morbidade entre doenças mentais e dependência de substância. As co-morbidades da esquizofrenia e da depressão com dependência de
drogas ilícitas, tabagismo e uso de álcool serão enfatizadas, com referências
particulares para a dependência de psicoestimulantes e de tabaco. A esquizofrenia
e a depressão foram selecionadas com base nos altos custos econômicos e sociais
desses dois transtornos (Rupp e Keith, 1993; Mauskopf et al., 1999; Meltzer,
1999; Wong e Licinio, 2001) e pelo fato de parecerem estar altamente associadas com transtornos do uso de substâncias. De maneira geral, os achados das
pesquisas ao longo da última década serão ressaltados, embora achados anteriores
também sejam relatados quando relevantes. Finalmente, os rumos para pesquisas
clínicas e pré-clínicas futuras serão discutidos, assim como considerações sobre
o tratamento e a prevenção dos transtornos de uso de substância.
Também é importante reconhecer que os efeitos de muitas substâncias
psicoativas podem produzir síndromes semelhantes às psiquiátricas. Por exemplo, como discutido no Capítulo 4, as anfetaminas e a cocaína podem induzir
sintomas psicóticos e algumas drogas podem produzir alucinações que são um
aspecto de algumas psicoses. Além do mais, as substâncias psicoativas alteram
o estado de humor, produzindo tanto euforia e sensações de bem-estar quanto
induzindo depressão, especialmente durante a abstinência da substância. Substâncias psicoativas também podem alterar o funcionamento cognitivo, o que também
é uma característica central de várias doenças mentais. Todos esses fatores sugerem mecanismos neurobiológicos comuns tanto para as doenças mentais como
para a dependência de substâncias.
A pesquisa em co-morbidade de doenças mentais com dependência de substância irá fornecer novas compreensões sobre estes transtornos e poderá fornecer
melhores estratégias de tratamento e prevenção para os dois problemas independentemente ou quando ocorram concomitantemente. A pesquisa em países
desenvolvidos, na população geral e entre pessoas procurando ou recebendo
tratamento, é também de extrema importância para um melhor entendimento da
relação entre fatores biológicos e ambientais em relação à co-morbidade.
Hipóteses que Podem Explicar a Co-morbidade Observada
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Como discutido acima, a alta co-morbidade entre qualquer doença mental e a dependência de substâncias em humanos em certas populações (Rounsaville et al.,
1982; Robins et al., 1984; Rounsaville et al., 1987; Robins e Regier, 1991; Rounsaville
et al., 1991; Kessler et al., 1994; Kosten, Markou e Koob, 1998) provavelmente
reflete similaridades na neurobiologia desses transtornos psiquiátricos.
Quatro hipóteses neurobiológicas podem ser postuladas para explicar essa
co-morbidade.
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• Transtornos do uso de substâncias psicoativas e outras doenças mentais
são expressões sintomáticas diferentes da mesma anormalidade neurobiológica preexistente.
• A administração repetitiva de substância leva – por meio de neuroadaptações
possivelmente aberrantes ou excessivas aos efeitos agudos da substância –
a mudanças biológicas que têm alguns elementos em comum com as anormalidades que mediam outras doenças mentais como a depressão.
• O uso de substâncias psicoativas pode refletir a intenção de se automedicar
para reverter algumas das anormalidades associadas com doença mental;
essas anormalidades podem ter existido anteriormente ao uso de substância ou podem ter sido causadas pelo uso da substância. Essa hipótese está
proximamente relacionada, e não é independente da segunda hipótese.
• A dependência de substância e outras doenças mentais têm mecanismos
neurobiológicos independentes e diferentes e a co-morbidade observada
deve-se ao acaso. Entretanto, essa hipótese é improvável, considerando os
extensos dados epidemiológicos e neurobiológicos indicando o contrário.
Também existem outras possíveis razões não neurobiológicas para esta comorbidade, como fatores ambientais comuns; entretanto, uma discussão detalhada
desses fatores está além do escopo desta publicação, cujo foco são os mecanismos
neurobiológicos. Também existem fortes evidências genéticas e neurobiológicas
de que pelo menos algumas associações têm uma base neurobiológica, como discutido adiante.
Deve ser enfatizado que as três primeiras hipóteses não são, necessariamente,
mutuamente exclusivas: a primeira hipótese pode ser verdadeira para um transtorno mental e uma substância, enquanto a segunda e a terceira hipótese podem
ser verdadeiras para outros transtornos e outras substâncias. De fato, dados
neurobiológicos e clínicos atuais são consistentes com a noção de que hipóteses
diferentes podem ser verdadeiras para diferentes transtornos mentais, como discutido a seguir. Além disso, as três primeiras hipóteses podem ser verdadeiras
na mesma população de pacientes. Isto é, uma doença mental e uma dependência de substância particular podem, originalmente, ser expressões sintomáticas
das mesmas anormalidades neurobiológicas subjacentes; enquanto ao mesmo
tempo o uso da substância pode aliviar temporariamente alguns sintomas (isto
é, pela automedicação), embora a longo prazo o mesmo uso de substância possa
piorar a gravidade geral do transtorno mental. Essas hipóteses serão exploradas
no contexto da esquizofrenia e da depressão.
Esquizofrenia
Tabagismo e Esquizofrenia
Existe um alto grau de co-morbidade entre esquizofrenia e tabagismo. Onde foi
estudada, a prevalência de tabagismo entre indivíduos com esquizofrenia é duas
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164 – Transtornos Co-mórbidos
Hipóteses para Explicar a Alta Incidência de Tabagismo
entre Pacientes com Esquizofrenia
A primeira hipótese postula que a alta prevalência de tabagismo entre pacientes
com esquizofrenia reflete uma tentativa de reduzir os efeitos colaterais induzidos por neurolépticos, como parkinsonismo (dificuldade em iniciar o movimento)
e discinesias tardias (explicadas a seguir) (Jarvik, 1991). A esquizofrenia está
associada a atividade excessiva nas vias dopaminérgicas mesolímbicas e mesocorticais (ver Cap. 2). As drogas neurolépticas utilizadas no tratamento da
esquizofrenia bloqueiam os receptores de dopamina; entretanto, elas bloqueiam tanto
as vias afetadas (mesolímbica, mesocortical) quanto as vias não afetadas, tais
como a nigroestriatal que está envolvida com a função motora. Dessa forma, as
medicações neurolépticas podem também levar a efeitos colaterais associados a
mudanças no cérebro que ocorrem em resposta ao bloqueio a longo prazo
dos receptores de dopamina, como um aumento no número ou na sensibilidade
desses receptores. Essas mudanças resultam em movimentos involuntários excessivos, mais freqüentemente na boca, na região da face e nas extremidades,
chamados de discinesia tardia. Evidências anedóticas indicam que uma pequena
proporção de pacientes com esquizofrenia relata que o tabagismo ajuda a reduzir
os efeitos colaterais de suas medicações antipsicóticas (Glynn e Sussman, 1990).
Pacientes com esquizofrenia que são fumantes recebem geralmente prescrições
de doses mais altas de medicação neuroléptica do que não fumantes (Goff,
Henderson e Amico, 1992; Ziedonis et al., 1994), pois o tabagismo aumenta o
metabolismo dessas medicações. Essa mudança no metabolismo é causada não
pela nicotina, mas pelo alcatrão (hidrocarbonetos aromáticos polinucleares) do
cigarro, que induz enzimas microssomais hepáticas (Glassman, 1993; Ziedonis
et al., 1994). Os resultados de estudos sobre tabagismo e efeitos colaterais das
medicações antipsicóticas têm sido mistos, com relatos de aumento, diminuição
e ausência de alteração nos efeitos colaterais (Binder et al., 1987; Yassa et al.,
1987; Decina et al., 1990; Menza et al., 1991; Goff, Henderson e Amico, 1992;
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a três vezes maior do que na população geral e consideravelmente maior do que a
prevalência entre qualquer outra população psiquiátrica (Masterson e O’Shea,
1984; Goff, Henderson e Amico, 1992; de Leon et al., 1995; Hughes, 1996).
As estimativas indicam que, em alguns países, mais de 80 a 90% dos pacientes
com esquizofrenia fumam, comparados com 20 a 30% na população geral
(Masterson e O’Shea, 1984; Goff, Henderson e Amico, 1992; de Leon et al.,
1995; Hughes, 1996; Diwan et al., 1998). Além do mais, indivíduos com
esquizofrenia são comumente fumantes pesados (definido como um indivíduo
que fume mais do que um maço de cigarros por dia), fumam cigarros com altas
taxas de alcatrão (que também têm alto conteúdo de nicotina) e extraem mais
nicotina dos cigarros do que fumantes sem esquizofrenia (Masterson e O’Shea,
1984; Hughes et al., 1986; Olincy, Young e Freedman, 1997).
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Sandyk, 1993; Ziedonis et al., 1994). A nicotina pode ajudar a diminuir esses
efeitos colaterais pelos seus efeitos estimulantes sobre a dopamina e também
poderia diminuí-los através de seus efeitos na acetilcolina, que atua nos gânglios
da base (ver Cap. 2) e em outras áreas cerebrais que ajudam a coordenar os
movimentos. Entretanto, o mecanismo exato não é conhecido atualmente. Isso
será discutido em mais detalhes no final desta seção.
A segunda hipótese a respeito da dependência de tabaco e esquizofrenia
postula que a administração de nicotina pelo cigarro de tabaco melhora déficits
do bloqueio sensorial e talvez até déficits cognitivos mais generalizados (Dalack,
Healy e Meador-Woodruff, 1998) que são característicos de pacientes com
esquizofrenia (Freedman et al., 1997). Novamente, o mecanismo exato responsável por isso não é atualmente conhecido, mas os efeitos estimulantes da nicotina
nos sistemas dopaminérgico e colinérgico são fortes candidatos.
A terceira hipótese postula que a administração de nicotina por meio de
cigarros de tabaco melhora os sintomas negativos da esquizofrenia que são os
mais resistentes à maioria dos tratamentos antipsicóticos atualmente disponíveis (Marder, Wirshing e Van Putten, 1991; Dalack, Healy e Meador-Woodruff,
1998; Jibson e Tandon, 1998; Moller, 1998). A esquizofrenia é caracterizada
pelos chamados sintomas positivos e negativos (American Psychiatric Association, 1994). Os sintomas positivos refletem um excesso ou distorções de
funções normais, como as alucinações, delírios e pensamento e discurso desorganizados. Os sintomas negativos refletem uma diminuição ou perda de funções
normais, como a perda do prazer em atividades normalmente prazerosas, perda
de motivação, relutância em falar ou discurso empobrecido e embotamento das
emoções. Esses sintomas parecem resultar de alterações nos processos de recompensa e motivação associados com a dopamina mesolímbica e mesocortical.
Evidências clínicas acumuladas ao longo da década passada fornecem algum
embasamento para a hipótese de que pacientes com esquizofrenia automedicam
sintomas negativos com o tabagismo (Marder, Wirshing e Van Putten, 1991;
Dalack, Healy e Meador-Woodruff, 1998; Jibson e Tandon, 1998; Moller, 1998).
Em um estudo com 182 pacientes com esquizofrenia, fumantes pesados tiveram
significativamente menos sintomas negativos do que não fumantes com esquizofrenia (Ziedonis et al., 1994). Além disso, pacientes com sintomas negativos
menos provavelmente pararam de fumar do que outros pacientes com esquizofrenia que exibiam poucos sintomas negativos, enquanto não se mostrou
associação entre sintomas positivos e interrupção do tabagismo (Hall et al., 1995).
De maneira interessante, pacientes tratados com drogas antipsicóticas atípicas como
clozapina, risperidona e olanzapina, que são consideradas mais efetivas contra
os sintomas negativos do que as medicações antipsicóticas neurolépticas tradicionais como o haloperidol (Claghorn et al., 1987), reduziram o tabagismo
em 25 a 30% em comparação com pacientes que receberam medicações típicas tradicionais (George et al., 1995; McEvoy et al., 1995; McEvoy et al., 1999;
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Dependência de Psicoestimulantes (Cocaína e Anfetamina)
e Esquizofrenia
Existe um alto grau de co-morbidade entre esquizofrenia e o uso de psicoestimulantes em países com taxas elevadas de uso de cocaína e anfetaminas. O uso
de psicoestimulantes é duas a cinco vezes maior entre pacientes com esquizofrenia
em comparação com a população geral e é mais prevalente do que em outras
populações psiquiátricas (Le Duc e Mittleman, 1995). Foi estimado que 19 a
50% dos pacientes com esquizofrenia usam drogas psicoestimulantes (Cuffel,
1992; Ziedonis et al., 1992; Le Duc e Mittleman, 1995; Patkar et al., 1999). De
maneira interessante, entretanto, pacientes com esquizofrenia parecem preferir
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George et al., 2000). Se realmente as drogas antipsicóticas atípicas são mais
efetivas contra os sintomas negativos do que as medicações neurolépticas
(Claghorn et al., 1987), isto pode refletir uma necessidade menor de automedicar
os sintomas negativos com o tabagismo após o tratamento mais eficaz destes
sintomas com antipsicóticos atípicos. Isso também pode estar relacionado
com o fato de que antipsicóticos atípicos não permanecem nos receptores D2
tanto quanto os neurolépticos tradicionais, permitindo, assim, transmissão dopaminérgica mais fisiológica (Kapur e Seeman, 2001). Portanto, antipsicóticos
atípicos não têm tantos efeitos colaterais e a necessidade de nicotina para reduzir esses efeitos é menor. Em conjunto, os resultados anteriores sugerem que a
nicotina tenha um efeito benéfico nos sintomas negativos de pacientes com
esquizofrenia e esse efeito pode ser uma das razões pelas quais esses pacientes
fumam excessivamente. O mecanismo neurobiológico mais provável para esse
efeito é o aumento das funções dopaminérgica e colinérgica no cérebro. Pesquisas adicionais nessa matéria são necessárias para determinar o mecanismo exato
que irá fornecer entendimento da etiologia e do tratamento tanto da esquizofrenia
como da dependência de nicotina.
Embora os dados clínicos disponíveis não embasem qualquer uma das duas
interpretações para a redução do tabagismo com medicações antipsicóticas atípicas,
esses achados levaram a especulações promissoras de que esses medicamentos
“podem ter um papel diferencial no tratamento de pacientes com esquizofrenia
que usem substâncias” por razões que são pouco entendidas (Wilkins, 1997; Krystal
et al., 1999; McEvoy, Freudenreich e Wilson, 1999). Além disso, como indicado
abaixo, pacientes com esquizofrenia podem fumar para melhorar todos os três
domínios, isto é, sintomas negativos, déficits cognitivos e efeitos colaterais extrapiramidais induzidos pelas medicações neurolépticas. Finalmente, deve ser
enfatizado que o grau de co-morbidade entre tabagismo e esquizofrenia também
dependerá dos níveis de tabagismo na população geral de um dado país. Estudos
comparativos internacionais são necessários para esclarecer o papel relativo da
neurobiologia e do ambiente na co-morbidade entre tabagismo e esquizofrenia.
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psicoestimulantes a substâncias psicoativas com propriedades sedativas como
opiáceos, barbitúricos e álcool (Schneier e Siris, 1987; Dixon et al., 1990; Mueser
et al., 1990). Certos sintomas da abstinência de psicoestimulantes também se
assemelham aos sintomas negativos da esquizofrenia (American Psychiatric
Association, 1994; Markou, Kosten e Koob, 1998; Green et al., 1999; Ellenbroek
e Cools, 2000). Em conjunto, essas observações levaram a várias hipóteses que
tentam explicar a alta incidência de uso de psicoestimulantes entre pacientes
com esquizofrenia. Essas hipóteses não são mutuamente exclusivas e são análogas
àquelas postuladas para explicar a alta incidência de tabagismo entre pacientes com
esquizofrenia. As semelhanças entre essas hipóteses não são surpreendentes
considerando que a cocaína e a anfetamina são drogas estimulantes da psicomotricidade e a nicotina também é considerada um psicoestimulante relativamente leve.
Hipóteses para Explicar a Taxa Elevada de Uso de
Psicoestimulantes entre Pacientes com Esquizofrenia
A primeira hipótese postula que a taxa elevada de uso de psicoestimulantes entre
pacientes com esquizofrenia reflete uma tentativa de reduzir os efeitos colaterais
desagradáveis do tratamento crônico com neurolépticos, incluindo os efeitos
colaterais motores (Schneier e Siris, 1987; Robinson et al., 1991). A razão para
isso é provavelmente a mesma que para a nicotina. Brevemente, uma vez que as
drogas neurolépticas bloqueiam a dopamina e o bloqueio excessivo de dopamina
resulta em efeitos colaterais motores entre outros, o uso de substâncias que elevam a função dopaminérgica pode fornecer alívio desses efeitos.
A segunda hipótese postula que a administração de psicoestimulantes melhora os déficits cognitivos associados com a esquizofrenia (Cesarec e Nyman,
1985; Krystal et al., 1999). Novamente, o mecanismo desse efeito é, provavelmente, o aumento da transmissão dopaminérgica mesolímbica e mesocortical;
entretanto, existe muito pouca evidência a favor ou contra essas duas hipóteses.
A terceira hipótese postula que a administração de psicoestimulantes melhora os sintomas negativos da esquizofrenia que são mais resistentes à maioria
dos tratamentos antipsicóticos atualmente disponíveis (Khantzian, 1985, 1997;
Schneier e Siris, 1987; Dixon et al., 1990; Sevy et al., 1990; Rosenthal, Hellerstein
e Miner, 1994; Krystal et al., 1999). Estudos experimentais em humanos, ao
longo de várias décadas, indicaram claramente que embora a administração aguda
de anfetaminas exacerbe os sintomas positivos da esquizofrenia, a administração
crônica diminui os negativos (Angrist, Rotrosen e Gershon, 1980; Angrist et al.,
1982; Desai et al., 1984; Khantzian, 1985; van Kammen e Boronow, 1988; Le Duc
e Mittleman, 1995; Sanfilipo et al., 1996; Krystal et al., 1999). Além do mais,
pacientes com esquizofrenia que usam psicoestimulantes exibem sintomas negativos menos graves do que pacientes que não usam (Dixon et al., 1991; Soni e
Brownlee, 1991; Buckley et al., 1994; Lysaker et al., 1994). De maneira interessante, a clozapina, uma droga neuroléptica que ajuda a diminuir os sintomas
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negativos da esquizofrenia, reduziu o uso de psicoestimulantes em mais de 85%
dos pacientes e preveniu o reinício do uso de substância (Zimmet et al., 2000).
Ligações similares também são observadas entre dependência de álcool e
esquizofrenia como aquelas entre esquizofrenia e uso de nicotina ou psicoestimulantes. Como relatado em um grande estudo, um indivíduo com dependência
de álcool é 3,3 vezes mais provável de também ter esquizofrenia, enquanto um
paciente com esquizofrenia é 3,8 vezes mais provável de apresentar dependência de álcool do que a população geral (Regier et al., 1990). No entanto, não é
claro quais fatores levariam a essa co-morbidade e poucas hipóteses avançaram
para explicar essa associação.
Hipóteses para Explicar a Taxa Elevada de Uso de Álcool
entre Pacientes com Esquizofrenia
Assim como para outras substâncias psicoativas, vem sendo sugerido que o uso
de álcool pode ser uma automedicação para os sintomas da esquizofrenia; entretanto, os dados disponíveis não embasam esta hipótese de automedicação. A
maior parte dos estudos clínicos, relatos de pacientes e observações clínicas
anedóticas indicam que o uso excessivo de álcool leva a uma clara exacerbação
da sintomatologia da esquizofrenia (Soyka, 1994; Tsuang e Lohr, 1994; Pristach
e Smith, 1996; Gerding et al., 1999). Além disso, aparentemente cerca de 30%
dos pacientes com a co-morbidade apresentam uso nocivo de álcool antes do
surgimento dos primeiros sinais da esquizofrenia (Hambrecht e Hafner, 1996).
Em termos da esquizofrenia e da dependência de álcool, a hipótese que melhor
explica os dados disponíveis é que a ambas são expressões sintomáticas diferentes
das mesmas anormalidades neurobiológicas subjacentes, com o uso do álcool exacerbando os sintomas da esquizofrenia. A natureza precisa da base neurobiológica
da associação não é conhecida, porém mais pesquisas ajudarão a esclarecer a
epidemiologia, a etiologia e o tratamento da esquizofrenia e da dependência de
álcool. As hipóteses a respeito da base neurobiológica dessa associação serão
discutidas a seguir.
Interações Neurobiológicas entre Esquizofrenia e
Efeitos das Substâncias Psicoativas
Existem vários sistemas cerebrais nos quais anormalidades relacionadas à
esquizofrenia e os efeitos de substâncias psicoativas podem interagir, levando
ao elevado grau de co-morbidade da esquizofrenia com dependência de substâncias.
Um desses sistemas é o sistema dopaminérgico mesolímbico em conjunto com
suas conexões eferentes e aferentes com outros locais e sistemas cerebrais. Esse
sistema é composto por projeções dopaminérgicas de uma área do mesencéfalo,
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Uso de Álcool e Esquizofrenia
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chamada área tegumentar ventral (ATV), para a região do prosencéfalo, do nucleus
accumbens (também chamado striatum ventral) (Mogenson et al., 1980) (ver
Cap. 2). Existe evidência considerável de que aumento na atividade do sistema
dopaminérgico mesolímbico esteja criticamente envolvido na mediação dos efeitos recompensadores da maior parte das substâncias psicoativas (Koob, 1992;
Koob et al., 1993; Wise, 1998) e possivelmente da fissura por drogas (Markou et
al., 1993; Self, 1998; Kilts et al., 2001), embora sistemas de memória também
possam estar criticamente envolvidos na fissura e na dependência (Holden, 2001;
Vorel et al., 2001) (ver Cap. 3). Mostrou-se que a administração da maioria das
substâncias psicoativas como a cocaína, as anfetaminas, a nicotina e os opióides,
aumenta os níveis de dopamina no nucleus accumbens (por exemplo, Di Chiara
et al., 1999) (ver Caps. 3 e 4). Além disso, aumentos similares no nível de
dopamina são vistos na amígdala, uma região do sistema límbico cerebral que
se acredita que esteja envolvida nos efeitos recompensadores das substâncias
psicoativas e interconectada com o nucleus accumbens. Um funcionamento aumentado do sistema dopaminérgico mesolímbico vem sendo implicado na
fisiopatologia da esquizofrenia há longo tempo (Snyder, 1976; Carlsson, 1977).
As medicações antipsicóticas são antagonistas dos receptores de dopamina e,
dessa forma, seus efeitos terapêuticos, acredita-se, envolvem diminuição da
hiperatividade do sistema dopaminérgico (Carlsson, 1978). Consistentemente
com essa noção está a observação de que a administração de altas doses de
drogas psicoestimulantes que aumentam os níveis de dopamina no nucleus
accumbens pode induzir a um estado psicótico transitório em indivíduos saudáveis (Bell, 1965; Angrist e Gershon, 1970; Griffith et al., 1972). Assim, tem-se
argumentado que a hiperatividade dos sistemas dopaminérgicos, ou hiperdopaminergia, dos pacientes com esquizofrenia confere a eles maior probabilidade
de buscar e utilizar substâncias psicoativas e serem mais suscetíveis aos seus
efeitos recompensadores (Chambers, Krystal e Self, 2001).
Adicionalmente, anormalidades do desenvolvimento do hipocampo e do
córtex pré-frontal associadas com a esquizofrenia podem contribuir para o mau
funcionamento do sistema do nucleus accumbens (Chambers, Krystal e Self,
2001). Existem evidências de que pacientes com esquizofrenia apresentam alteração na distribuição das células do hipocampo (Scheibel e Conrad, 1993; Fatemi,
Earle e McMenomy, 2000; Webster et al., 2001) e redução no volume hipocampal
(Bogerts et al., 1993; Razi et al., 1999; Heckers, 2001; Rajarethinam et al.,
2001). No cérebro saudável, projeções glutamatérgicas do hipocampo e do córtex
pré-frontal mostraram modular tanto a atividade dos neurônios dopaminérgicos
no nucleus accumbens (em conjunto com a entrada [inputs] de informações de
outras regiões cerebrais como a amígdala, o tálamo e o córtex entorinal) como o
desfecho (output) comportamental do nucleus accumbens (Wilkinson et al., 1993;
Grace, 1995; Finch, 1996; Blaha et al., 2007; Mittleman, Bratt e Chase, 1998;
Legault, Rompre e Wise, 2000). Faz-se a hipótese de que, na esquizofrenia,
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ocorra uma disfunção do controle glutamatérgico inibitório normal exercido por
projeções do hipocampo e do córtex pré-frontal sobre o nucleus accumbens,
resultando em comportamentos aumentados de busca e de uso de drogas. Isto
é, a neuropatologia da esquizofrenia pode contribuir para a vulnerabilidade do
uso e, ao final, da dependência de substância, ao aumentar a sensibilidade dos pacientes com esquizofrenia aos efeitos recompensadores positivos das substâncias
psicoativas. Embasando essa hipótese, dados preliminares indicam que pacientes
com esquizofrenia apresentam fissura por cocaína mais intensa nos primeiros
três dias de abstinência em comparação com usuários de cocaína que não têm
esquizofrenia (Carol et al., 2001). A conceituação teórica anterior é consistente
com a primeira hipótese discutida no início deste capítulo; que a esquizofrenia e
a dependência de substância são expressões sintomáticas diferentes da mesma
neuropatologia.
Somando-se ao excesso de função dopaminérgica nas regiões cerebrais
mesolímbicas e mesocorticais, outra anormalidade neurobiológica que caracteriza a esquizofrenia é uma diminuição no funcionamento de sistemas dopaminérgicos corticais. Vem sendo sugerido que esta hipofrontalidade contribui
para os déficits cognitivos associados à esquizofrenia (Knable e Weinberger,
1997; Dalack, Healy e Meador-Woodruff, 1998; Hazlett et al., 2000). Medicações antipsicóticas atípicas que são relativamente efetivas em melhorar os déficits
cognitivos em pacientes com esquizofrenia também aumentam a atividade
dopaminérgica no córtex frontal (Nomikos et al., 1994; Meltzer, Park e Kessler,
1999; Pallanti, Quercioli e Pazzagli, 1999; Rowley et al., 2000; Cuesta, Peralta e
Zarzuela, 2001; Harvey e Keefe, 2001). Aumentos no funcionamento do sistema dopaminérgico também podem ser induzidos pela administração de uma variedade
de substâncias psicoativas que são utilizadas por pacientes com esquizofrenia.
Especificamente, os psicoestimulantes como as anfetaminas, a cocaína e a nicotina aumentam os níveis de dopamina no córtex frontal (Sorg e Kalivas, 1993;
Marshall et al., 1997; Tanda et al., 1997; Beyer e Steketee, 2000; Balla et al.,
2001). Realmente, vem-se mostrando que a administração de nicotina por meio
do fumo melhora alguns déficits cognitivos de pacientes com esquizofrenia
(George et al., 2002), o que mostrou envolver uma ativação do córtex pré-frontal (Funahashi e Kubota, 1994; Goldman-Rakic, 1995; Kikuchi-Yorioka e
Sawaguchi, 2000; Manoach et al., 2000). Em conclusão, a especulação anterior,
de que as substâncias psicoativas aumentam o funcionamento do córtex préfrontal e, portanto, levam a uma melhora na função cognitiva em pacientes com
esquizofrenia, é consistente com a hipótese de automedicação para a comorbidade entre esquizofrenia e dependência de substância.
Outro sistema de neurotransmissão que recentemente foi fortemente implicado tanto na esquizofrenia como na dependência de substância é o sistema
glutamatérgico. Elaborou-se a hipótese de que alterações na neurotransmissão glutamatérgica estejam criticamente envolvidas na mediação de sintomas esqui-
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zofrênicos com base na observação bem estabelecida de que a administração de
fenciclidina (PCP) induz tanto sintomas positivos quanto negativos da
esquizofrenia em usuários de PCP e em voluntários humanos e exacerba tanto
sintomas positivos como negativos em pacientes com esquizofrenia, mimetizando
um episódio psicótico agudo (Allen e Young, 1978; Snyder, 1980; Javitt e Zukin,
1991; Duncan, Sheitman e Lieberman, 1999; Jentsch e Roth, 1999). A PCP é
um antagonista não competitivo do receptor N-metil-D-aspartato (NMDA)
(Lodge e Johnson, 1990) (ver Cap. 4). A psicose induzida por PCP pode durar
semanas, apesar da abstinência (Allen e Young, 1978; Luisada, 1978). Similarmente, a cetamina, um análogo da PCP que apresenta maior seletividade que ela
pelo receptor NMDA (Lodge e Johnson, 1990), também induz efeitos psicóticos em
voluntários saudáveis (Newcomer et al., 1999) e exacerba sintomas em pacientes com esquizofrenia (Lahti et al., 1995; Malhotra et al., 1997). Com base no
descrito anteriormente, especula-se que ações glutamatérgicas diminuídas nos
receptores NMDA poderiam mediar sintomas psicóticos. Dando suporte ao argumento de que as psicoses induzidas por PCP e por cetamina são similares
neurobiologicamente à esquizofrenia, existem dados mostrando que os efeitos
da PCP e da cetamina são revertidos pelos medicamentos antipsicóticos atípicos
tanto em humanos como em animais (Malhotra et al., 1997), mas não pelo
neuroléptico típico haloperidol (Lahti et al., 1995).
Se uma diminuição da neurotransmissão glutamatérgica está envolvida na
esquizofrenia, então a administração de substâncias psicoativas como a cocaína,
as anfetaminas e a nicotina poderiam reverter esses déficits aumentando agudamente a neurotransmissão glutamatérgica nas áreas límbicas. Foi mostrado que
a administração aguda de antagonistas do receptor NMDA junto com substâncias
psicoativas bloqueia o desenvolvimento de sensibilização comportamental (ver
Cap. 3) aos efeitos de ativação locomotora de substâncias psicoativas como a
cocaína (Kalivas e Alesdatter, 1993; Wolf e Jeziorski, 1993) e a nicotina (Shoaib e
Stolerman, 1992); e o desenvolvimento e/ou expressão da dependência de opióides
(Gonzalez et al., 1997), etanol (Liljequist, 1991) e benzodiazepínicos (Steppuhn
e Turski, 1993). Esses achados sugerem que as ações glutamatérgicas nos receptores NMDA estão envolvidas no desenvolvimento da dependência de substâncias. Essa hipótese é embasada por dados que demonstram que a administração
aguda de substâncias psicoativas, como a cocaína ou as anfetaminas, aumenta
os níveis de glutamato na ATV e no nucleus accumbens o que, por sua vez,
aumenta a neurotransmissão dopaminérgica nas áreas límbicas, como o nucleus
accumbens (Smith et al., 1995; Kalivas e Duffy, 1998), que mediam parcialmente os efeitos recompensadores de substâncias psicoativas (Koob, 1992; Koob
et al., 1993; Wise, 1998). Por sua vez, esse aumento na neurotransmissão
glutamatérgica levaria a alterações na neurotransmissão dopaminérgica (aumentos
ou diminuições dependendo da região cerebral) que produziriam efeitos recom-
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pensadores, mas pode potencialmente piorar alguns sintomas da esquizofrenia
se realmente a hiperdopaminergia for uma das anormalidades centrais da
esquizofrenia.
Uma região cerebral na qual as múltiplas interações discutidas acima poderiam ocorrer é a ATV (Mogenson, Jones e Yim, 1980). Aferências glutamatérgicas
para a ATV, originárias do córtex pré-frontal, aumentam o disparo de neurônios
dopaminérgicos na ATV, o que resulta em níveis aumentados de dopamina no
nucleus accumbens (Kalivas, Duffy e Barrow, 1989; Suaud-Chagny et al., 1992;
Taber e Fibiger, 1995). Existem receptores pré-sinápticos de acetilcolina nicotínicos alfa-7 localizados nessas aferências glutamatérigicas (Mansvelder e
McGehee, 2000) que, quando estimulados, aumentam a liberação de glutamato.
Esse aumento atua então em locais receptores NMDA e não NMDA em neurônios
dopaminérgicos pós-sinápticos e aumenta sua freqüência de disparos (Fu et al.,
2000; Grillner e Svensson, 2000; Mansvelder e McGehee, 2000). Essas interações
entre os sistemas glutamatérgico e dopaminérgico e receptores de acetilcolina
nicotínicos são particularmente relevantes devido à freqüência extremamente
elevada de tabagismo entre pacientes com esquizofrenia. Além do aumento da liberação de glutamato na ATV, a nicotina também aumenta a liberação de
glutamato em outras regiões límbicas, como o nucleus accumbens (Reid et al.,
2000), o córtex pré-frontal (Gioanni et al., 1999) e o hipocampo (Gray et al.,
1996). Finalmente, existem evidências clínicas e pré-clínicas que sugerem que
algumas formas de déficits cognitivos que os pacientes com esquizofrenia apresentam podem depender criticamente dos receptores de acetilcolina nicotínicos
alfa-7 no hipocampo (Adler et al., 1998). Embora a nicotina tenha baixa afinidade pelos receptores de acetilcolina nicotínicos alfa-7 (Clarke et al., 1985),
pode ativá-los no hipocampo, o que acarreta aumento na liberação de glutamato
para compensar este déficit (Dalack, Healy e Meador-Woodruff, 1998) e, portanto, pode levar à automedicação por meio do tabagismo. Todos os dados
anteriores sugerem maneiras pelas quais o uso de substâncias psicoativas poderia
automedicar sintomas da esquizofrenia pelo aumento da neurotransmissão glutamatérgica de forma a compensar uma possível hipoglutamatergia que pode
caracterizar essa doença.
A descrição anterior representa um pequeno subgrupo de regiões e mecanismos
nos quais os efeitos das substâncias psicoativas e a neurobiologia da esquizofrenia
podem se sobrepor e/ou interagir para levar ao elevado grau de co-morbidade
entre os dois transtornos. Embora muitos dos mecanismos neurobiológicos anteriores sejam especulativos e a maioria dos estudos tenha sido conduzida nos
EUA, a atenção recente à questão da co-morbidade levou ao início de múltiplos
estudos clínicos e pré-clínicos. Esses estudos vão investigar diretamente a
neurobiologia de como e porque tantos pacientes com esquizofrenia usam substâncias psicoativas em comparação com pessoas sem esquizofrenia ou pacientes
com outros transtornos psiquiátricos em diferentes países e contextos.
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Depressão
A co-morbidade entre depressão e uso de substâncias é de grande importância
devido à alta prevalência ao longo da vida dos transtornos afetivos e do humor
em geral. Aproximadamente 8 a 13% da população geral apresentam depressão
clínica em algum momento da vida (Regier et al., 1990; Kessler et al., 1994). A
co-morbidade com uso de substância é de 32% com uma razão de chances de
2,6. Isto é, indivíduos com um transtorno afetivo têm probabilidade 2,6 vezes
maior de usar substâncias psicoativas do que aquelas sem transtornos afetivos
(Regier et al., 1990). Considerando os vários transtornos afetivos separadamente, o transtorno bipolar tem a mais alta proporção de co-morbidade, com mais de
60% daqueles que sofrem desta doença usando substâncias psicoativas, em comparação com mais de 27% daqueles que sofrem de depressão maior unipolar. A
discussão a seguir irá focar na depressão maior unipolar, pois é o transtorno
afetivo mais comum (Regier et al., 1990; Kessler et al., 1994).
Tabagismo e Depressão
Existem várias ligações próximas entre o transtorno depressivo maior e o tabagismo. Estudos mostraram que mais de 60% dos fumantes pesados têm história
de transtorno mental (Hughes et al., 1986; Glassman et al., 1988) e a prevalência de
transtorno depressivo maior entre fumantes é duas vezes a de não fumantes
(Glassman et al., 1990). Além disso, fumantes que têm história de depressão
clínica apresentam metade da chance de parar de fumar em relação a fumantes
sem esse antecedente (14 versus 28%) (Glassman et al., 1990).
Parar de fumar resulta em uma síndrome de abstinência aversiva em humanos (Shiffman e Jarvik, 1976; Hughes et al., 1991) cujos componentes podem se
manifestar por uma a dez semanas (Hughes, 1992). Humor deprimido é um dos
sintomas centrais da síndrome de abstinência de tabaco que é sentido por uma
grande proporção de pessoas que tentam parar de fumar (Hughes et al., 1984;
West et al., 1984; Glassman et al., 1990; Hughes, 1992; Hughes e Hatsumaki,
1992; Glassman, 1993; Parrott, 1993; American Psychiatric Association, 1994;
Hughes, Higgins e Bickel, 1994). A maioria dos pesquisadores nesse campo
postula que ocorra automedicação dos sintomas depressivos com o tabagismo;
essa sintomatologia depressiva pode tanto ser preexistente ao tabagismo ou ser
induzida pelo uso crônico de cigarros (Pomerleau, Adkins e Pertschuk, 1978;
Waal-Manning e de Hamel, 1978; Hughes et al., 1986; Glassman, 1993; Markou,
Kosten e Koob, 1998; Watkins, Koob e Markou, 2000).
A ligação entre o tabagismo, a síndrome de abstinência de tabaco e a depressão também tem embasamento no fato de que a bupropiona, um composto
antidepressivo (Feighner et al., 1984; Caldecott-Hazard e Schneider, 1992),
inibidor de recaptura de dopamina e fraco de noradrenalina (Ascher et al., 1995)
e antagonista de receptor nicotínico de acetilcolina (Fryer e Lukas, 1999;
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Slemmer, Martin e Damaj, 2000), mostrou ser duas vezes mais eficaz que o
placebo em ensaios clínicos para a interrupção do tabagismo (Hurt et al., 1997;
Jorenby et al., 1999) e foi aprovado para essa indicação pela Food and Drug
Administration (FDA) dos Estados Unidos. A bupropiona é o único tratamento
que não se baseia em nicotina aprovado pela FDA como um agente antitabagismo.
Ensaios clínicos também foram conduzidos utilizando fluoxetina, doxepina e
moclobemida, um inibidor da monoamina-oxidase (IMAO) (Robbins, 1993; Ferry
e Burchette, 1994; Dalack et al., 1995; Aubin, Tilikete e Barrucand, 1996). Esses estudos mostraram um efeito modesto desses antidepressivos nos sintomas
de abstinência de tabaco. Isto é, pacientes tratados com antidepressivos mostraram taxas de abstinência melhores do que aqueles tratados com placebo após
quatro semanas, embora as taxas de recaída após três a seis meses permanecessem altas. De maneira mais interessante, entretanto, pacientes com mais depressão
na linha de base permaneceram abstinentes por períodos mais longos do que
aqueles sem depressão quando tratados com o antidepressivo fluoxetina, embora
sua depressão fosse leve e não pudesse ser considerada clinicamente significante
(Hitsman et al., 1999).
Em conclusão, vários agentes antidepressivos têm alguma utilidade na redução da recaída do tabagismo após o fumante com depressão parar de fumar, com
a bupropiona tendo a maior eficácia em geral e a fluoxetina (um inibidor seletivo
de recaptura de serotonina) sendo o mais eficaz em pessoas com depressão. A
eficácia de drogas antidepressivas, particularmente a bupropiona e a fluoxetina,
como agentes antitabagismo embasa a hipótese que a sintomatologia depressiva
preexistente ou a depressão associada com abstinência de nicotina protraída
contribuem para a perpetuação da dependência de substância (West et al., 1984;
Glassman et al., 1990; Hughes et al., 1991; Hughes e Hatsukami, 1992; Parrott,
1993; West e Gossop, 1994; Markou, Kosten e Koob, 1998).
De muitos dos estudos revisados anteriormente, não é claro se indivíduos que
sofrem de sintomatologia depressiva têm uma probabilidade maior de iniciar o tabagismo ou se os sintomas depressivos são induzidos ou exacerbados pelo tabagismo
a longo prazo ou pela abstinência do tabagismo (Markou, Kosten e Koob, 1998).
Dados epidemiológicos dão suporte aos dois processos (Breslau, Kilbey e Andreski,
1993; Breslau et al., 1998), sugerindo que o tabagismo e a depressão compartilham os mesmos substratos neurobiológicos (Breslau et al., 1998). Embora o
mecanismo não seja atualmente conhecido, os sistemas de neurotransmissão candidatos são o serotonérgico e o dopaminérgico, ambos podendo estar desregulados
na depressão e são aumentados pela nicotina. A via dopaminérgica mesolímbica
está fortemente associada com recompensa e dependência (ver Cap. 3), mas também é uma via candidata a estar desregulada na depressão (Nestler et al., 2002).
Outra evidência clínica que embasa a ligação entre o tabagismo e a depressão vem de uma agregação familiar potencial. Foi mostrado que pares de gêmeos
dizigóticos, os quais compartilham apenas cerca de metade de seus genes, têm
Transtornos Co-mórbidos – 175
um nível intermediário de associação entre tabagismo e depressão, que se enquadra entre aquele de pares de gêmeos monozigóticos (com um nível mais
alto) e aquele da população geral (com um nível mais baixo) (Kendler et al.,
1993). Esses dados são consistentes com a hipótese de que genes comuns ou
compartilhados são uma fonte de associação entre depressão e tabagismo.
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Dependência de Psicoestimulantes e Depressão
Dados epidemiológicos dos EUA indicam que a prevalência de depressão maior
ao longo da vida é de 32% em usuários de cocaína e apenas 8 a 13% entre não
usuários de cocaína (Robins et al., 1984; Regier et al., 1990; Robins e Regier,
1991; Rounsaville et al., 1991; Kessler et al., 1994). De maneira similar ao tabagismo, o tratamento com antidepressivo em pessoas com dependência de substância
resulta em maior melhora tanto do humor como da redução no uso de psicoestimulantes naqueles que também sofrem de depressão do que naqueles não sofrem.
O tratamento com antidepressivos parece diminuir o uso de cocaína assim
como a depressão. O tratamento com o antidepressivo tricíclico desmetilimipramina resultou em redução de 90% no uso de cocaína em usuários com
depressão, enquanto usuários que não estavam deprimidos mostraram redução
de 50% no uso de cocaína (Ziedonis e Kosten, 1991). Similarmente, 26% dos
usuários de cocaína com depressão que foram tratados com imipramina (outro
antidepressivo tricíclico) tiveram pelo menos três semanas consecutivas livres
de cocaína em comparação com apenas 5% daqueles tratados com placebo (Nunes
et al., 1995). Esses resultados sugerem que usuários de psicoestimulantes podem consumi-los em uma tentativa de automedicar um estado afetivo negativo
subjacente (Khantzian, 1997; Markou, Kosten e Koob, 1998).
A abstinência de psicoestimulantes em humanos é caracterizada por graves
distúrbios do humor, incluindo sintomas depressivos combinados com irritabilidade e ansiedade (Gawin e Kleber, 1986; Weddington et al., 1990; Satel et
al., 1991; American Psychiatric Association, 1994). Esses sintomas duram de
várias horas até dias, sendo a anedonia um dos sintomas mais salientes (isto é,
interesse ou prazer diminuído), que também é um sintoma central da depressão.
Essa anedonia pode ser um dos fatores motivadores na etiologia e na manutenção do ciclo da dependência de psicoestimulantes. Dessa forma, a similaridade
entre um episódio depressivo maior e a abstinência de psicoestimulantes fornece
suporte adicional à hipótese de que existam substratos neurobiológicos que se
sobrepõem e mediam esses sintomas depressivos comuns aos dois transtornos.
Novamente, o sistema dopaminérgico mesolímbico parece ser um candidato
provável para mediar a recompensa do uso de substância e a falta de prazer
associada com a abstinência de substância e a depressão. No caso da dependência de psicoestimulantes, é claro que, pelo menos em alguns casos, os sintomas
depressivos são induzidos pela droga. O uso de substância também pode refletir
uma tentativa de automedicar uma depressão preexistente.
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176 – Transtornos Co-mórbidos
Uso de Álcool e Depressão
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Estudos nos EUA durante os últimos 20 anos indicaram que a prevalência ao
longo da vida do transtorno depressivo maior foi de 38 a 44% em pessoas com
dependência de álcool em comparação com apenas 7% em indivíduos não dependentes (Rounsaville et al., 1982; Myers et al., 1984; Robins et al., 1984;
Rounsaville et al., 1987; Robins e Regier, 1991; Rounsaville et al., 1991; Kessler
et al., 1994; Miller et al., 1996b; Schuckit et al., 1997a, b). Além disso, aproximadamente 80% das pessoas com dependência de álcool têm sintomas de
depressão (Schuckit, 1985; Regier et al., 1990; Roy et al., 1991; Kessler et al.,
1996). Portanto, existem dados substanciais indicando que a freqüência de depressão entre pessoas com dependência de álcool e a freqüência de uso de álcool
entre pessoas com depressão são substancialmente maiores do que as freqüências
individuais esperadas desses transtornos.
Embora não de maneira consistente, outras evidências embasando a hipótese de que a depressão e a dependência de álcool sejam transtornos ligados vêm
de estudos clínicos que indicam que, em alguns casos, o tratamento com antidepressivos resultou tanto em melhora do humor como em redução do uso de
álcool. Pessoas com depressão que são dependentes de álcool mostram taxas
de recaída menores do uso de álcool quando tratadas com antidepressivos (por
exemplo, imipramina ou fluoxetina) em comparação com sujeitos que receberam placebo, com ou sem depressão (Nunes et al., 1993; Cornelius et al., 1995;
McGrath et al., 1996; Mason et al., 1996). Essas observações em pessoas com
depressão e dependência de álcool são significativas, considerando que 80%
das pessoas com dependência de álcool têm sintomas de depressão, um terço das
quais preenche os critérios para um episódio depressivo maior (Schuckit, 1985;
Regier et al., 1990; Roy et al., 1991; Kessler et al., 1996).
Em resumo, evidências epidemiológicas e clínicas sugerem que a depressão
e a dependência de álcool estejam associadas. Contudo, a maioria desses estudos clínicos e epidemiológicos não foi capaz de determinar se a depressão era
primária (isto é, com início antes do surgimento da dependência de álcool)
ou secundária (ou seja, surgindo após o início do uso de álcool) e, portanto,
potencialmente induzida pelo álcool. Essa distinção é crítica para estabelecer se
a dependência de álcool e a depressão são expressões sintomáticas diferentes
das mesmas anormalidades neurobiológicas ou se a depressão é induzida pelo
álcool e como a automedicação poderia levar à co-morbidade observada. Um
estudo recente desenhado para examinar essa questão sugeriu que a dependência de álcool e a depressão são divididas quase de maneira igual entre transtornos
primários e secundários (Compton et al., 2000a). Outros dados sugerem que a
dependência de álcool leva à depressão (isto é, a depressão é secundária) e uma
vez que o uso de álcool pare, os sintomas depressivos remitem (Schuckit, 1994).
Considerando os dados resumidos anteriormente e as várias hipóteses expostas que tentam explicar a co-morbidade de transtornos psiquiátricos com o
Transtornos Co-mórbidos – 177
uso de substâncias, no caso do álcool e da depressão parece existir alguma agregação familiar que embasaria a primeira hipótese de substratos neurobiológicos
comuns com diferentes expressões sintomáticas, embora existam muitos dados
que não embasam essa ligação genética. A hipótese da automedicação não tem
embasamento, pois o álcool não melhora sintomas da depressão (Hendrie, Sairally
e Starkey, 1998). De fato, existem amplos dados que sugerem que o uso excessivo de álcool leva à depressão (Schuckit, 1994), embasando a hipótese de
depressão induzida por droga para explicar o alto grau de co-morbidade observado entre a dependência de álcool e a depressão.
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Interações Neurobiológicas entre Depressão
e Efeitos de Substâncias Psicoativas
A abstinência de substâncias, uma das síndromes que podem estar associadas com a
dependência de substância (Himmelsbach, 1943; Wikler, 1973; Koob e Le Moal,
2001) (ver Cap. 1), mostra semelhanças com a depressão. A interrupção do uso
crônico de droga leva à expressão física e comportamental das neuroadaptações que
se desenvolvem em resposta à exposição à droga. Estas se expressam como as
síndromes de abstinência que são diferentes para cada classe de substâncias psicoativas
(Koob et al., 1993; Markou, Kosten e Koob, 1998) (ver Cap. 4). De maneira interessante, entretanto, a depressão é um sintoma comum da abstinência de substâncias de
uma variedade de classes farmacológicas incluindo psicoestimulantes (Gawin e
Kleber, 1986; Weddington et al., 1990; Satel et al., 1991), opióides (Haertzen e
Hooks, 1969; Henningfield, Johnson e Jasinski, 1987; Jaffe, 1990), etanol (Jaffe,
1990; Edwards, 1990; Bokstrom e Balldin, 1992; Goodwin, 1992; West e Gossop,
1994; Schuckit et al., 1997) e nicotina (West et al., 1984; West e Gossop, 1994).
Essa sintomatologia depressiva é concebida como reflexo de alterações nos processos de recompensa e motivacionais (Markou, Kosten e Koob, 1998). Essa similaridade
e evidências neurobiológicas (revisadas a seguir) sugerem diversas semelhanças
entre a neurobiologia da sintomatologia depressiva e a dependência de substância,
que embasam as duas hipóteses descritas no início deste capítulo.
Alterações na neurotransmissão de serotonina, noradrenalina, acetilcolina,
dopamina, GABA, fator de liberação de corticotropina (CRF), neuropeptídeo Y
(NPY) e somatostatina têm sido observadas em indivíduos com depressão
(Caldecott-Hazard et al., 1991; Markou, Kosten e Koob, 1998). Em animais,
muitos desses sistemas neurotransmissores também são modulados pelo tratamento com antidepressivos, sugerindo o envolvimento deles no modo de ação das
drogas antidepressivas. Muitos desses sistemas também foram implicados na
abstinência de substâncias psicoativas, embora nem todos tenham sido implicados na abstinência de cada substância psicoativa. Além disso, alguns deles estão
implicados diretamente nos aspectos afetivos/depressivos da abstinência de substância que constituem a sintomatologia comum da dependência de substância e
da depressão (Markou, Kosten e Koob, 1998).
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178 – Transtornos Co-mórbidos
Serotonina
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Uma diminuição da neurotransmissão serotonérgica é uma das mudanças mais
consistentes que ocorrem durante a abstinência de uma variedade de substâncias
como estimulantes (Parsons, Smith e Justice, 1991; Imperato et al., 1992; Rossetti,
Hmaidan e Gessa, 1992; Weiss et al., 1992; Parsons, Koob e Weiss, 1995), etanol
(Rossetti, Hmaidan e Gessa, 1992; Weiss et al., 1996) e benzodiazepínicos (Lima,
Salazar e Trejo, 1993). De maneira interessante, no caso da abstinência de estimulantes, a diminuição nos níveis de serotonina no nucleus accumbens foi maior
e surgiu antes da diminuição da dopamina (Parsons, Smith e Justice, 1991); e,
durante a abstinência de etanol, a diminuição nos níveis de serotonina foi mais
resistente à reversão por auto-administração adicional de etanol do que a diminuição de dopamina (Weiss et al., 1996).
A serotonina parece estar criticamente envolvida na depressão e elabora-se
a hipótese de que uma diminuição na neurotransmissão serotonérgica media a
depressão (Schildkraut, 1965; Coppen, 1967). Medidas no fluido cefalorraquidiano refletem uma atividade serotonérgica reduzida em humanos com
depressão fornecendo evidência para uma menor atividade serotonérgica
(Caldecott-Hazard et al., 1991). Da mesma forma, alguns dos mais eficazes
antidepressivos são inibidores seletivos de recaptura de serotonina (ISRS), com
quase todos os ISRS já testados mostrando eficácia no tratamento da depressão
(Caldecott-Hazard e Schneider, 1992). A alteração dos níveis de serotonina produz humor disfórico tanto em indivíduos saudáveis (Young et al., 1985; Benkelfat
et al., 1994; Ellenbogen et al., 1996) como naqueles com depressão (Shopsin et al.,
1975; Shopsin, Friedman e Gershon, 1976; Delgado et al., 1990, 1991, 1993; Lam
et al., 1996; Miller et al., 1996a), sugerindo um papel da serotonina na depressão (embora nem todos os estudos tenham relatado esses efeitos [Delgado et al.,
1994; Heninger et al., 1996]). Finalmente, o tratamento crônico com uma variedade
de tratamento antidepressivo, como tricíclicos, IMAO, eletroconvulsoterapia,
antidepressivos atípicos e ISRS, produz mudanças robustas na função serotonérgica por meio dos mecanismos tanto pré-sinápticos como pós-sinápticos
(Willner, 1985; Green, 1987; Blier, de Montigny e Chaput, 1990; CaldecottHazard et al., 1991; Blier e de Montigny, 1994). As mudanças neuroquímicas
observadas no sistema serotonérgico consistem primariamente em mudanças
nos receptores de serotonina 1A e 2A (Blier e de Montigny, 1994; Stahl, 1994).
Experimentos recentes com ratos fornecem fortes evidências de uma ligação entre a abstinência de psicoestimulante e de nicotina com a depressão. Os
déficits de recompensa observados durante a abstinência de anfetamina e de
nicotina foram revertidos pelo tratamento com droga que aumenta a função
serotonérgica (Allen et al., 1997), sem efeito nos aspectos somáticos da abstinência (Harrison, Liem e Markou, 2001). A reversão dos aspectos depressivos
da abstinência de duas diferentes substâncias (isto é, anfetamina e nicotina) com
diferentes mecanismos primários de ação, por um tratamento antidepressivo clini-
Transtornos Co-mórbidos – 179
camente provado com droga serotonérgica, embasa a hipótese de anormalidades
neurobiológicas que se sobrepõem mediando a sintomatologia depressiva observada em categorias diagnósticas psiquiátricas diferentes (Geyer e Markou,
1995; Markou, Kosten e Koob, 1998; Geyer e Markou, 2002).
No caso da dependência de substância, a maior parte das evidências disponíveis
enfatiza o papel crítico da neurotransmissão dopaminérgica, em vez da serotonérgica, na mediação dos efeitos recompensadores agudos de diversas substâncias
psicoativas como os estimulantes, opióides, nicotina e o etanol (Koob e Le Moal,
2001). Em contraste, um papel crítico da dopamina na depressão não foi mostrado
de maneira persuasiva (Markou, Kosten e Koob, 1998), pois agonistas dopaminérgicos diretos e indiretos não parecem ser tratamentos antidepressivos eficazes
(Caldecott-Hazard et al., 1991; Caldecott-Hazard e Schneider, 1992; Kapur e Mann,
1992). Pode-se fazer a hipótese de que uma diminuição na neurotransmissão
dopaminérgica possa levar a alguns sintomas da depressão, mas a maioria dos
sintomas deve ser mediada por outros sistemas neurotransmissores.
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Sistemas de Peptídeos
Outro aspecto comum intrigante entre a neurobiologia da depressão e da dependência de substância é a observação consistente de aumento da neurotransmissão
de CRF tanto na depressão (Post et al., 1982; Nemeroff et al., 1984) como na
abstinência de todas as substâncias psicoativas já investigadas (Richter e Weiss,
1999; Koob e Le Moal, 2001). Adicionalmente, existem evidências indicando
uma atenuação na neurotransmissão de NPY e de somatostatina na depressão
(Heilig e Widerlov, 1990; Rubinow, 1986) e neurotransmissão atenuada de NPY
na abstinência de psicoestimulantes (Wahlestedt et al., 1991). Com base na hipótese de que os sistemas de NPY e de somatostatina atuam em oposição ao
sistema CRF (Heilig et al., 1994), existe um valor heurístico na investigação
adicional dos papéis do NPY e da somatostatina na substância de dependência.
Uma hipótese é que o NPY e a somatostatina possam ser tampões endógenos
contra a liberação de CRF induzida por estressantes. Dado o papel do CRF e do
NPY nas respostas comportamentais ao estresse (Heilig et al., 1994), é concebível
que a neurotransmissão do CRF, do NPY e da somatostatina esteja principalmente
relacionada à ansiedade e à sintomatologia associada ao estresse observada tanto
em um subgrupo de pessoas com depressão como naquelas com abstinência de
substância. O mesmo argumento pode também ser construído para o sistema
GABAérgico que também foi implicado na depressão (Lloyd et al., 1989; Petty,
1995) e na dependência de álcool e de benzodiazepínicos (Andrews e File, 1993;
Roberts, Cole e Koob, 1996), considerando que benzodiazepínicos, que aumentam a neurotransmissão GABAérgica, são ansiolíticos. A administração de
substâncias psicoativas, como a cocaína e o álcool, modula a neurotransmissão
de CRF (Goeders, Bienvenu e de Souza, 1990; Merlo Pich et al., 1995; Richter
et al., 1995; Richter e Weiss, 1999) e de NPY (Wahlestedt et al., 1991) e, portanto,
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180 – Transtornos Co-mórbidos
poderia potencialmente restaurar temporariamente o desequilíbrio hipotético entre
os dois sistemas.
Papel das Estruturas Límbicas na Depressão e na Dependência
de Substância
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Outro elemento comum entre a depressão e a dependência de substância é que
a maioria das mudanças observadas após tratamento antidepressivo ou após a
administração de substâncias psicoativas é observada em estruturas relacionadas ao sistema límbico como o córtex pré-frontal, o nucleus accumbens, tubérculo olfativo, hipocampo, amígdala e o hipotálamo. Por exemplo, no córtex
frontal, os antidepressivos alteram o número de receptores de serotonina 1A
(Peroutka e Snyder, 1980) e aumentam os níveis de serotonina (Bel e Artigas,
1993). Os antidepressivos também produzem receptores de serotonina 1A
supersensíveis na amígdala (Wang e Aghajanian, 1980) e no hipocampo (de
Montigny e Aghajanian, 1978; Chaput, de Montigny e Blier, 1991). O tratamento crônico com antidepressivos também aumenta a atividade dopaminérgica
no nucleus accumbens (Nomikos et al., 1991) e regula para cima (upregulate)
os receptores GABAA no córtex frontal (Lloyd, Thuret e Pilc, 1985). Adicionalmente, os receptores de CRF estão diminuídos no córtex frontal em indivíduos com depressão (Nemeroff et al., 1988); choques eletroconvulsivos
aumentam os níveis cerebrais de NPY no córtex frontal, no hipotálamo e no
hipocampo (Wahlestedt et al., 1990); e a desmetil-imipramina aumenta o número de receptores de somatostatina no nucleus accumbens (Gheorvassaki et
al., 1992).
Similarmente, evidências consideráveis sugerem um papel importante para
estruturas relacionadas ao sistema límbico na dependência e na abstinência de
substância. Por exemplo, durante a abstinência de psicoestimulantes (Parsons,
Smith e Justice, 1991; Richter e Weiss, 1999) ou de etanol (Rossetti, Hmaidan e
Gessa, 1992; Merlo Pich et al., 1995; Weiss et al., 1996) os níveis de dopamina
estão diminuídos no nucleus accumbens, enquanto os níveis de CRF estão elevados na amígdala. Além disso, o bloqueio de receptores opióides no nucleus
accumbens ou na amígdala prontamente induz alguns sinais afetivos da abstinência de opióides (Koob, Wall e Bloom, 1989; Stinus, Le Moal e Koob, 1990),
enquanto o bloqueio de receptores no nucleus accumbens produz pelo menos os
sinais somáticos da abstinência de opióides (Harris e Aston-Jones, 1994). As
estruturas límbicas, como a ATV, o nucleus accumbens, o hipocampo e o córtex
frontal estão também criticamente envolvidos na dependência de nicotina (Dani
e Heinemann, 1996; Kenny e Markou, 2001). Tomados em conjunto, esses dados sugerem que alterações em vários sistemas de neurotransmissores implicados
na depressão podem também mediar a dependência de substâncias psicoativas e
que esses aspectos comuns podem embasar a co-morbidade entre esses transtornos psiquiátricos.
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Discussão e Conclusões
Em resumo, as evidências clínicas, epidemiológicas e neurobiológicas, junto
com considerações teóricas, sugerem vários aspectos em comum na neurobiologia
da dependência de substância, da esquizofrenia e da depressão que embasam as
três primeiras hipóteses discutidas no começo deste capítulo. O mais provável
substrato neurobiológico subjacente às doenças mentais e à dependência de substância em geral é uma disfunção no sistema dopaminérgico mesolímbico.
Entretanto, os vários efeitos neuroquímicos das substâncias psicoativas e as várias expressões comportamentais das doenças mentais sugerem que devam existir
alguns fatores causais. A pesquisa sobre a co-morbidade entre dependência de
substância e doença mental irá iluminar fatores comuns causais, preventivos e
do tratamento. Poucos estudos epidemiológicos focaram diretamente essa questão e faltam pesquisas internacionais. Breslau et al. determinaram que, em termos
da depressão e do tabagismo, parece que ambos os processos são operantes, isto
é, a depressão predispõe ao tabagismo e o tabagismo predispõe à depressão
(Breslau, Kilbey e Andreski, 1993; Breslau, 1995; Breslau et al., 1998). Em
termos de outros transtornos psiquiátricos e dependência de substância em geral, um estudo retrospectivo concluiu que o transtorno de personalidade anti-social
(Quadro 6.1) e as fobias geralmente aparecem antes do início da dependência de
substância, enquanto para todos os outros transtornos psiquiátricos, aparece antes do início da dependência de substância para quase metade dos casos e, para
a outra metade, o inverso é verdadeiro. Finalmente, um estudo em esquizofrenia
e dependência de substância concluiu que a causalidade unidirecional para os
dois transtornos não é embasada pelos dados (Hambrecht e Hafner, 1996). Esses investigadores descobriram que 30% dos pacientes tanto com esquizofrenia
como dependência utilizaram álcool ou drogas ilícitas antes dos primeiros sinais de esquizofrenia, enquanto o restante iniciou o uso de substância por volta
ou após os primeiros sinais da esquizofrenia. Concluindo, embora haja indicações de uma associação clara entre esquizofrenia, depressão e dependência de
substâncias, não existem dados suficientes para favorecer qualquer hipótese específica de neurobiologia compartilhada; é possível que todas as três hipóteses
sejam verdadeiras. Estudos epidemiológicos longitudinais futuros serão necessários para abordar essas questões diretamente.
Uma extensão das três hipóteses de neurobiologia compartilhada é que a
dependência de substância pode envolver, pelo menos em alguns casos, a automedicação para reverter algumas das anormalidades em neurotransmissores
associadas com a depressão ou com a esquizofrenia que existiam antes ou que
foram induzidas pelo uso de substância. Nenhuma das substâncias psicoativas
é considerada uma medicação antidepressiva ou antipsicótica clinicamente
eficaz por clínicos. Contudo, persiste a possibilidade de que o uso simultâneo
ou seqüencial de várias substâncias – auto-administradas de acordo com as
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182 – Transtornos Co-mórbidos
Quadro 6.1 – Uso de substância e o desenvolvimento de transtorno de
personalidade anti-social (TPAS)
Fonte: Chabrol e Armitage, 2002.
necessidades emocionais ou cognitivas do indivíduo – leve a um efeito terapêutico adequado para sintomas específicos, enquanto o uso de substância
pode simultaneamente piorar outros sintomas ou os sintomas automedicados
a longo prazo. Existem, de fato, relatos de que a dependência de substância
esteja associada com desfecho mais grave e pior prognóstico para pacientes
com esquizofrenia em comparação com pacientes não usuários (Khantzian,
1985; Dixon, 1999). Portanto, é possível que as substâncias psicoativas forneçam
um alívio a curto prazo para alguns sintomas, mas que o desfecho de longo
prazo seja agravado em relação a pacientes que não usam nenhuma droga
(Kosten e Ziedonis, 1997).
O melhor embasamento clínico para a hipótese de automedicação é fornecido
por evidências de que:
• O tratamento antidepressivo é mais eficaz em reduzir o uso de substância em usuários que sofrem de depressão do que em usuários que
não sofrem, sugerindo que as medicações antidepressivas podem suprir a necessidade pelo consumo de substâncias psicoativas.
• Medicações antipsicóticas atípicas, que são mais eficazes contra os
sintomas negativos e os déficits cognitivos associados com a esquizofrenia, reduzem o uso de substância pela redução na necessidade
de automedicação.
• Esses estudos enfatizam a importância de tratar doenças psiquiátricas
co-mórbidas e mostram que este tratamento pode ser eficaz no manejo
da dependência de substância.
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Adolescentes com depressão freqüentemente desenvolvem transtornos do uso
de substâncias (TUS), provavelmente por esforços de automedicação. Os efeitos do
uso de substância, como impulsividade e comportamentos irresponsáveis e
agressivos, e as conseqüências do uso de substâncias, como problemas escolares
e comprometimento do funcionamento social e a exposição subseqüente a modelos
anti-sociais de comportamento e cognição social, podem contribuir para o
desenvolvimento de TPAS. O uso de substância pode ser o principal mediador entre
depressão e TPAS em adolescentes e adultos jovens.
Pesquisas recentes mostraram alguma evidência de que os TUS são um correlato de
transtornos depressivos maiores em adolescentes e TPAS em adultos jovens. Outros
correlatos podem incluir funcionamento social precário ou fracasso escolar. Correlatos
comparáveis embasam relações causais entre transtornos heterotípicos e, no caso
do TPAS, podem fornecer diretrizes para o entendimento dos mecanismos envolvidos
no desenvolvimento dos transtornos de personalidade.
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Transtornos Co-mórbidos – 183
As investigações clínicas e pré-clínicas dos fatores que podem levar ao alto
grau de co-morbidade provavelmente fornecerão informações valiosas sobre a
neurobiologia da esquizofrenia e da depressão, o que, por sua vez, levaria ao
desenvolvimento de tratamentos melhores para esses transtornos debilitantes.
Se de fato pacientes com esquizofrenia e com depressão automedicam vários
sintomas com substâncias psicoativas, então se pode obter conhecimento a partir dos padrões de uso de substância pelos pacientes de forma que novas
medicações que tenham efeitos benéficos nesses transtornos possam ser desenvolvidas. Em concordância, devido à conscientização recente da co-morbidade
da dependência de substâncias com transtornos psiquiátricos, estudos pré-clínicos em animais foram iniciados para investigar os substratos neurobiológicos
que expliquem essa co-morbidade.
Estudos futuros devem continuar a visar diretamente as hipóteses de substratos neurobiológicos compartilhados, utilizando modelos animais de depressão,
esquizofrenia e dependência de substância fundamentados no entendimento atual
da neurobiologia desses três transtornos psiquiátricos. De maneira geral, pode
ser frutífero desenhar programas de pesquisa que possam explicitamente testar,
com abordagens experimentais similares, hipóteses geradas no campo da depressão e da esquizofrenia em modelos animais da dependência de substância e
vice-versa. Considerando que todos os transtornos psiquiátricos, incluindo a depressão, a esquizofrenia e a dependência de substância, envolvem primariamente
sintomas comportamentais que refletem anormalidades neurobiológicas subjacentes, o progresso no entendimento desses transtornos em qualquer nível de
análise envolverá certamente uma abordagem multidisciplinar de pesquisa. Devem-se enfatizar tanto estudos clínicos como pré-clínicos no estudo de dimensões
comportamentais específicas ou processos psicológicos (por exemplo, sintomas
específicos) que se acredita sejam afetados pelo transtorno de interesse (Geyer e
Markou, 1995, 2002). Estudos prospectivos a longo prazo que sigam indivíduos
desde uma idade precoce seriam também muito informativos, embora difíceis na
prática.
Outra área que requer mais atenção de pesquisa é o papel do gênero na
presença de co-morbidade em pessoas com transtornos do uso de substância.
Embora essa seja uma área com implicações práticas para o tratamento, poucos
estudos sistemáticos sobre a prevalência de gênero específica de dependência
de substância e transtornos psiquiátricos foram conduzidos. Os achados dos estudos disponíveis mostram que diferenças relacionadas ao gênero na prevalência
dos transtornos psiquiátricos em pessoas com dependência de substância tendem a ser consistentes com achados em levantamentos na população geral
(Compton et al., 2000b; Frye et al., 2003). Em um desses estudos (Frye et al.,
2003), o risco de dependência de álcool em pacientes com transtorno bipolar
mostrou-se maior em mulheres do que em homens, quando comparado com a
população geral. Escamilla et al. (2002) também mostraram que entre pacientes
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com transtorno bipolar na Costa Rica o gênero esteve fortemente associado com
transtorno do uso de substâncias, primariamente com dependência de álcool.
Entre adolescentes com problemas relacionados ao uso de substância, não houve
diferenças na freqüência de transtorno bipolar, mas as mulheres usuárias mostraram uma freqüência mais elevada de depressão maior do que homens usuários
(Latimer et al., 2002).
Estudos transculturais são urgentemente necessários para uma melhor avaliação
e entendimento entre o uso de substâncias psicoativas e vários outros transtornos mentais. A disponibilidade e o uso crescente de diferentes substâncias em
várias culturas e políticas específicas relacionadas a essas substâncias provavelmente influenciam as taxas de co-morbidade. O entendimento de diferenças
culturais que podem estar presentes ajudará a clarear o papel da neurobiologia na
etiologia de transtornos concomitantes.
Finalmente, a co-morbidade dos transtornos psiquiátricos com dependência
de substância e a aparente ligação neurobiológica entre esses transtornos têm
importantes implicações tanto para o tratamento destas doenças como para políticas de saúde pública. É importante para a comunidade, profissionais da área de
saúde e para os elaboradores da política reconhecer que essa ligação neurobiológica claramente indica que os transtornos psiquiátricos e a dependência de
substância são doenças que se originam de neuropatologias subjacentes. Além
disso, a co-morbidade indica que muitos usuários pesados de substâncias psicoativas têm transtornos mentais ativos que poderiam se beneficiar muito de
serviços e tratamentos psiquiátricos e psicológicos. Existem diversos tratamentos
eficazes para a depressão e para a esquizofrenia. Fornecer tratamento farmacológico
e terapias comportamentais para pacientes com transtornos mentais poderia facilitar a abstinência ou a redução do uso de substância, o que poderia, enfim,
melhorar o prognóstico do paciente. Também deve ser reconhecido que muitos
dos pacientes com dependência de substância podem ser refratários às intervenções atuais, pois a abstinência piora seus sintomas psiquiátricos. Portanto,
intervenções mais intensivas podem ser necessárias para pessoas com comorbidades para facilitar a abstinência, incluindo tratamento farmacológico para
ajudar com os sintomas desta. Concluindo, o entendimento de que existe um
alto grau de co-morbidade da dependência de substância com transtornos psiquiátricos irá facilitar em muito a implementação de tratamentos médicos e políticas
de saúde pública que objetivariam diretamente essa questão médica e social.
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CAPÍTULO 7
QUESTÕES ÉTICAS NA PESQUISA NEUROCIENTÍFICA
SOBRE TRATAMENTO E PREVENÇÃO DA
DEPENDÊNCIA DE SUBSTÂNCIA
Introdução
Os capítulos anteriores apresentaram os achados mais recentes da pesquisa
neurocientífica e apontaram estratégias de tratamento e estratégias preventivas
potenciais. Entretanto, existem muitas implicações éticas da pesquisa em si, assim
como das estratégias de tratamento e prevenção que precisam ser consideradas.
O ritmo rápido das mudanças no campo da neurociência traz consigo uma gama
de novas questões éticas que precisam ser abordadas. Este capítulo considera
importantes questões éticas e de direitos humanos que foram levantadas pela
pesquisa neurocientífica na dependência de substâncias psicoativas.
Tipos de Pesquisa Neurocientífica da Dependência de Substância
A pesquisa neurocientífica em dependência de substância é classificada aqui em
cinco amplas categorias: experimentos animais; estudos epidemiológicos na
dependência de substância; estudos experimentais em humanos; ensaios clínicos de farmacoterapia para dependência de substância; e ensaios clínicos de
farmacoterapia para prevenir a dependência de substância.
85-7241-666-8
Experimentos em Animais
Os experimentos em animais investigam os processos biológicos subjacentes à
dependência de substância utilizando modelos animais da dependência humana de
substância. As principais razões para conduzir esses estudos são as possibilidades
de um controle experimental muito maior com animais e de experimentos mais
invasivos em animais do que seria permitido em humanos.
Estudos Epidemiológicos na Dependência de Substância
Embora não sejam estudos estritamente neurocientíficos, as pesquisas epidemiológicas informam e complementam a pesquisa neurocientífica. Pesquisas
epidemiológicas sobre o padrão de uso de substância e dependência incluem:
levantamentos na população geral e em populações especiais de usuários de drogas
e de indivíduos dependentes (Anthony e Helzer, 1991; Kessler et al., 1994; Andrews,
OMS Neuro-07.p65
197
07.02.07, 09:40
198 – Questões Éticas na Pesquisa Neurocientífica sobre Tratamento e Prevenção da ...
Estudos Experimentais em Humanos
Experimentos neurocientíficos em humanos envolvem, tipicamente, estudos laboratoriais, sob condições controladas, sobre os efeitos da exposição crônica à
droga no funcionamento cerebral naquele momento ou sobre os efeitos agudos
da exposição a elas, análogos de drogas ou sugestões relacionadas à droga (por
exemplo, a presença do equipamento para injeção) no comportamento e na função cerebral (Adler, 1995). Um tipo de estudo que vem se tornando mais comum
envolve o uso de tecnologias de imagem cerebral tais como tomografia por emissão de pósitron (PET), tomografia computadorizada por emissão de fóton único
(SPECT) e ressonância magnética nuclear funcional (RMNf) (Gilman, 1998;
Fu e McGuire, 1999) para estudar os efeitos agudos das drogas e as conseqüências neurobiológicas do uso crônico de substância e da dependência (Sell et al.,
1999; Kling et al., 2000; Martin-Soelch et al., 2001) (ver Caps. 2 e 4).
Ensaios Clínicos de Farmacoterapia para Dependência de Substância
Os ensaios clínicos de farmacoterapia para dependência de substância comparam
os efeitos de diferentes tratamentos medicamentosos, e algumas vezes placebos,
nos padrões de uso de drogas, no ajustamento social e no bem-estar de pessoas
dependentes de drogas (Brody, 1998). As drogas que são avaliadas vêm, de maneira
crescente, sendo identificadas como tratamentos potenciais para a dependência
de substância como resultado da pesquisa neurocientífica sobre os mecanismos
biológicos subjacentes a esta dependência. Podem incluir ensaios clínicos de
drogas que auxiliem a atingir a abstinência de uma substância psicoativa,
de drogas que pretendam reduzir a recaída da dependência de substância após a
abstinência e de drogas que pretendam fornecer manutenção a longo prazo
da abstinência ou da estabilidade psicossocial.
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Henderson e Hall, 2001), estudos de famílias (Swendsen et al., 2002), estudos
de adoção (Hjern, Lindblad e Vinnerljung, 2002), estudos de gêmeos sobre a
genética da dependência de substância (Heath, 1995) e estudos longitudinais
sobre o uso de substâncias e suas conseqüências (Fergusson e Horwood, 2000;
Kandel e Chen, 2000) e entre pessoas que foram tratadas para a dependência de
substância (Hser et al., 2001). Os achados desses estudos fornecem informações
para a pesquisa neurocientífica descrevendo o fenômeno da dependência de substância que precisa ser explicado pelas teorias neurocientíficas, por exemplo, as
características individuais que predizem o uso e o desenvolvimento da dependência de substância e outros problemas relacionados a drogas e a epidemiologia
genética da dependência de substância em estudos com gêmeos e de adoção. A
distinção entre pesquisa epidemiológica e neurocientífica na dependência de
substância provavelmente se tornará pouco clara quando estudos epidemiológicos
incluírem medidas biológicas como o ácido desoxirribonucléico (DNA), a partir do qual genes específicos de suscetibilidade podem ser testados, assim como
outros marcadores biológicos de risco.
Questões Éticas na Pesquisa Neurocientífica sobre Tratamento e Prevenção da ... – 199
Os ensaios clínicos têm alguma chance de beneficiar os participantes do
estudo (Brody, 1998). Isso pode ocorrer pela obtenção de tratamento de boa
qualidade para a dependência de substância (no caso de receber tratamento padrão ou placebo) ou acesso a um tratamento experimental promissor para a
dependência de substância (se forem designados para um novo tratamento). Como
participantes de estudos experimentais eles podem também ser expostos aos
riscos do tratamento medicamentoso, tais como efeitos colaterais e toxicidade
(Brody, 1998; Gorelick et al., 1999).
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Ensaios Clínicos de Farmacoterapias para Prevenir
a Dependência de Substância
Ensaios clínicos preventivos incluem avaliações controladas de tratamentos
farmacológicos que visam prevenir o desenvolvimento da dependência de substância. Isso pode ser feito utilizando-se um medicamento para tratar uma condição que
aumente o risco individual de desenvolver a dependência de substância (por exemplo, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade [TDAH], ver Cap. 4). Poderia
possivelmente incluir a administração de imunoterapia contra a droga (por exemplo,
nicotina ou cocaína) para pessoas jovens que estejam sob risco da dependência de
substância com o objetivo de reduzir suas chances de desenvolvê-la.
Ensaios de farmacoterapias preventivas são mais um panorama no horizonte
do que uma realização importante no momento; no entanto, dois desenvolvimentos de pesquisas sugerem que esses ensaios brevemente serão defendidos.
Um é o desenvolvimento de imunoterapias contra cocaína e nicotina (ver Cap. 4).
A motivação inicial para o desenvolvimento dessas imunoterapias foi a redução
da recaída no uso da substância em pessoas que tenham sido tratadas para dependência de substância (Fox, 1997). Entretanto, essas imunoterapias poderiam
ser administradas para crianças e adolescentes com a intenção de reduzir a probabilidade de se tornarem dependentes. O segundo desenvolvimento é o que foi
chamado de intervenções precoces, as quais já incluíram pessoas com alto risco
de desenvolver esquizofrenia, mas é provável que o mesmo seja proposto para
a dependência de substância. Envolvem uma combinação de intervenções
psicossociais e farmacológicas. Como esse trabalho tem sido controverso no
campo da psiquiatria, pesquisadores da neurociência da dependência de substância poderiam se beneficiar da discussão de questões que podem surgir
em ensaios de tratamentos farmacológicos preventivos para a dependência de
substância.
Abordagem da Análise Ética
Ao longo dos últimos 30 anos ou mais, um influente conjunto de princípios
morais surgiu nas análises anglo-americanas da ética nas pesquisas biomédicas
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(Brody, 1998; Jonsen, 1998). São os princípios da autonomia, da não maleficência,
da beneficência e da justiça (Beauchamp e Childress, 2001). Também foram
incluídos em influentes declarações internacionais de princípios éticos para pesquisa médica, tais como a declaração de Helsinki (Quadro 7.1) e as declarações
de organizações das Nações Unidas (Brody, 1998). Esses princípios podem ser
considerados como uma linha de base moral para a análise ética da pesquisa
neurocientífica em dependência de substância; com a ressalva de que podem
necessitar de suplementação para enfrentar novas questões.
Quadro 7.1 – Declaração de Helsinki*
Princípios éticos para pesquisa médica envolvendo seres humanos
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A. Introdução
1. A World Medical Association desenvolveu a Declaração de Helsinki como uma
declaração de princípios éticos para fornecer diretrizes para médicos e outros
participantes em pesquisas médicas envolvendo seres humanos. Pesquisa médica
envolvendo seres humanos inclui pesquisas com material humano ou dados
identificáveis.
2. É dever do médico promover e salvaguardar a saúde das pessoas. O conhecimento
e a consciência do médico são dedicados ao cumprimento desse dever.
3. A declaração de Genebra da World Medical Association liga o médico com as
palavras: “a saúde do meu paciente será minha primeira consideração”, e o Código
Internacional de Ética Médica declara que “o médico deve agir apenas no interesse
do paciente quando fornecer cuidado médico que possa ter o efeito de debilitar a
condição física ou mental do paciente”.
4. O progresso médico baseia-se em pesquisas que, em última análise, precisam
se embasar, em parte, em experimentos envolvendo seres humanos.
5. Na pesquisa médica com seres humanos, as considerações relacionadas ao bemestar do ser humano devem preceder os interesses da ciência e da sociedade.
6. A proposta primária da pesquisa médica envolvendo seres humanos é melhorar
os procedimentos profiláticos, diagnósticos e terapêuticos e o entendimento da
etiologia e a patogênese da doença. Mesmo os métodos profiláticos, diagnósticos
e terapêuticos mais bem provados devem ser continuamente submetidos à
avaliação por meio de pesquisas sobre sua eficácia, eficiência, acessibilidade e
qualidade.
7. Na prática médica atual e na pesquisa médica, a maioria dos procedimentos
profiláticos, diagnósticos e terapêuticos envolve riscos e prejuízos.
8. A pesquisa médica está sujeita a normas éticas que promovem respeito por todos
os seres humanos e protegem sua saúde e seus direitos. Algumas populações
de pesquisa são vulneráveis e precisam de proteção especial. As necessidades
particulares dos desfavorecidos médica e economicamente precisam ser
reconhecidas. Atenção especial também é necessária para aqueles que não
podem dar ou recusar o consentimento para eles mesmos, para aqueles que
estejam sujeitos a fornecer o consentimento sob coação, para aqueles que não
irão se beneficiar pessoalmente da pesquisa e para aqueles cuja pesquisa esteja
combinada com a assistência.
Questões Éticas na Pesquisa Neurocientífica sobre Tratamento e Prevenção da ... – 201
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9. Os investigadores da pesquisa devem estar conscientes das exigências éticas,
legais e regulatórias para a pesquisa em seres humanos em seus próprios países,
assim como das exigências internacionais aplicáveis. Não se deve permitir que
nenhuma exigência nacional ética, legal ou regulatória reduza ou elimine qualquer
das proteções aos seres humanos delineadas nesta Declaração.
B. Princípios básicos para toda pesquisa médica
10. É dever do médico na pesquisa médica proteger a vida, a saúde, a privacidade e
a dignidade do ser humano.
11. A pesquisa médica envolvendo seres humanos deve estar em conformidade com
os princípios científicos aceitos em geral, ser fundamentada em conhecimento
completo da literatura científica e de outras fontes relevantes de informação e em
laboratório e, quando apropriado, em experimentação em animais.
12. Cuidado apropriado deve ser tomado na condução de pesquisa que possa afetar
o ambiente, e o bem-estar dos animais utilizados para pesquisa deve ser
respeitado.
13. O desenho e a execução de cada procedimento experimental envolvendo seres
humanos devem ser claramente formulados em um protocolo experimental. Esse
protocolo deve ser submetido para consideração, comentários, orientações e,
quando apropriado, aprovação de uma comissão revisora de ética especialmente
designada, que deve ser independente do investigador, do patrocinador ou de
qualquer outro tipo de influência indevida. Essa comissão independente deve estar
em conformidade com as leis e os regulamentos do país no qual o experimento de
pesquisa é executado. A comissão tem o direito de monitorar ensaios em andamento.
O pesquisador tem a obrigação de fornecer informações de monitoramento à
comissão, especialmente qualquer evento adverso grave. O pesquisador deve também
submeter à comissão, para revisão, informações a respeito de financiamentos,
patrocinadores, filiações institucionais, outros possíveis conflitos de interesse e
incentivos para os indivíduos.
14. O protocolo de pesquisa deve sempre conter uma declaração das considerações
éticas envolvidas e deve indicar que está em concordância com os princípios
enunciados nesta Declaração.
15. A pesquisa médica envolvendo seres humanos deve ser conduzida apenas por
pessoas qualificadas cientificamente e sob a supervisão de pessoal médico
qualificado. A responsabilidade pelo ser humano deve sempre estar com o pessoal
médico qualificado e nunca com o indivíduo da pesquisa, mesmo que ele tenha
fornecido consentimento.
16. Todo projeto de pesquisa médica envolvendo seres humanos deve ser precedido
de avaliação cuidadosa dos riscos e prejuízos previsíveis em comparação com
possíveis benefícios para os sujeitos ou para outros. Isso não impede a
participação de voluntários saudáveis em pesquisas médicas. O desenho de todo
estudo deve estar disponível publicamente.
17. Os médicos devem se abster de participar de projetos de pesquisa envolvendo
seres humanos a menos que estejam confiantes de que os riscos envolvidos
foram avaliados adequadamente e que possam ser manejados de forma satisfatória.
Os médicos devem interromper qualquer investigação se os riscos encontrados
suplantarem os benefícios potenciais ou se houver prova conclusiva de resultados
positivos ou benéficos.
(Continua)
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Quadro 7.1 – (Cont.) Declaração de Helsinki*
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18. A pesquisa médica envolvendo seres humanos só deve ser conduzida se a importância do objetivo superar os riscos e prejuízos inerentes para o indivíduo. Isto é
especialmente importante quando os seres humanos forem voluntários saudáveis.
19. A pesquisa médica só é justificável se houver probabilidade razoável de que as
populações nas quais a pesquisa é conduzida possam se beneficiar dos seus
resultados.
20. Os indivíduos devem ser voluntários e estarem informados para a participação
no projeto de pesquisa.
21. O direito dos indivíduos da pesquisa de salvaguardar sua integridade deve sempre
ser respeitado. Deve-se tomar toda precaução para respeitar a privacidade do
indivíduo, a confidencialidade das informações do paciente e para minimizar o
impacto do estudo na integridade física e mental e na personalidade dele.
22. Em qualquer pesquisa com seres humanos, cada indivíduo em potencial deve ser
adequadamente informado dos objetivos, dos métodos, das fontes de financiamento,
de quaisquer possíveis conflitos de interesse, filiações institucionais do pesquisador,
dos benefícios previstos e dos riscos potenciais e do desconforto que possa estar
associado. O indivíduo deve ser informado do direito de se abster da participação
no estudo ou de retirar o consentimento em participar em qualquer momento, sem
represálias. Após assegurar-se que ele entendeu as informações, o médico deve
então obter o termo de consentimento livre e informado, preferencialmente por
escrito. Caso o consentimento não possa ser obtido por escrito, o consentimento
não escrito deve ser formalmente documentado e testemunhado.
23. Ao obter o consentimento informado para o projeto de pesquisa, o médico
deve ser particularmente cuidadoso se o indivíduo estiver em uma relação de
dependência com o médico ou se puder consentir sob coação. Nesse caso, o
consentimento informado deve ser obtido por médico adequadamente informado
que não esteja engajado na investigação e que seja completamente independente
desse relacionamento.
24. Para o indivíduo de pesquisa que seja legalmente incapacitado, física ou mentalmente,
de fornecer o consentimento ou um menor legalmente incapacitado, o investigador
deve obter o consentimento informado do representante autorizado legalmente em
concordância com a legislação pertinente. Esses grupos não devem ser incluídos
em pesquisa, a menos que ela seja necessária para promover a saúde da população
representada e que não possa ser realizada em pessoas capazes legalmente.
25. Quando o sujeito considerado legalmente incapacitado, como uma criança menor
de idade, for capaz de assentir sobre decisões de participação na pesquisa, o
investigador deve obter a concordância adicionalmente ao consentimento do
representante autorizado legalmente.
26. A pesquisa em indivíduos dos quais não seja possível obter consentimento,
incluindo consentimento antecipado ou por procuração, deve ser feita apenas se
a condição física/mental que impede a obtenção do consentimento informado
seja uma característica necessária da população da pesquisa. As razões
específicas para se envolver indivíduos de pesquisa com uma condição que os
torne incapazes de fornecer o consentimento informado devem ser declaradas
no protocolo para consideração e aprovação pela comissão revisora. O protocolo
deve declarar que o consentimento para permanecer na pesquisa deve ser obtido
assim que possível do indivíduo ou de seu substituto legalmente autorizado.
27. Tanto os autores como os editores têm obrigações éticas. Na publicação dos
resultados da pesquisa, os investigadores são obrigados a preservar a acurácia
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dos resultados. Tanto resultados negativos como positivos devem ser publicados
ou disponibilizados publicamente de outra maneira. As fontes de financiamento,
as filiações institucionais e quaisquer conflitos de interesse devem ser declarados
na publicação. Relatos de experimentos que não estejam em concordância com
os princípios contidos nesta Declaração não devem ser aceitos para publicação.
C. Princípios adicionais para pesquisa médica combinada com assistência médica
28. Os médicos devem combinar pesquisa e assistência médica apenas na medida
em que a pesquisa seja justificada pelo seu potencial valor profilático, diagnóstico
ou terapêutico. Quando a pesquisa médica for combinada com a assistência
médica, critérios adicionais se aplicam para proteger os pacientes que forem
sujeitos da pesquisa.
29. Os benefícios, riscos, prejuízos e a eficácia de um método novo devem ser testados
contra os melhores métodos profiláticos, diagnósticos e terapêuticos disponíveis.
Isso não exclui o uso de placebo, ou ausência de tratamento, em estudos em que
não existam métodos profiláticos, diagnósticos ou terapêuticos comprovados.
30. Na conclusão do estudo, cada paciente incluído no estudo deve ter assegurado o
acesso aos melhores métodos profiláticos, diagnósticos e terapêuticos identificados
pelo estudo.
31. O médico deve informar completamente ao paciente quais aspectos da sua
assistência estão relacionados ao estudo. A recusa do paciente em participar do
estudo nunca deve interferir com o relacionamento médico-paciente.
32. No tratamento de um paciente, no qual métodos profiláticos, diagnósticos e
terapêuticos não existam ou tenham se mostrado ineficazes, o médico, com o
consentimento informado do paciente, deve ser livre para utilizar medidas
profiláticas, diagnósticas e terapêuticas novas ou não comprovadas se, no
julgamento do médico, ela ofereça a possibilidade de salvar a vida, restabelecer
a saúde ou aliviar o sofrimento. Quando possível, essas medidas devem ser objeto
de pesquisa desenhada para avaliar sua segurança e eficácia. Em todos os casos,
as novas informações devem ser registradas e, quando apropriado, publicadas.
As outras diretrizes relevantes desta Declaração devem ser seguidas.
Nota de esclarecimento ao parágrafo 29
A World Medical Association (WMA) por meio desta reafirma sua posição de que extremo
cuidado deve ser tomado ao se utilizar um ensaio controlado por placebo e que, em geral,
essa metodologia deve ser empregada apenas na inexistência de terapia comprovada.
Entretanto, um ensaio controlado por placebo pode ser eticamente aceitável, mesmo
se terapia comprovada estiver disponível, sob as seguintes circunstâncias:
• Quando, por razões metodológicas prementes e cientificamente evidentes, seu uso
for necessário para determinar a eficácia ou a segurança de um método profilático,
diagnóstico, ou terapêutico; ou
• Quando um método profilático, diagnóstico ou terapêutico estiver sendo investigado
para uma condição menor e os pacientes ao receberem placebo não estarão sujeitos
a qualquer risco adicional de dano sério ou irreversível.
Todas as outras recomendações da Declaração de Helsinki devem ser seguidas,
especialmente a necessidade de revisão científica e ética apropriada.
Fonte: World Medical Association, 2002 (disponível no website http://www.wma.net/e/policy17-e_e.html).
* A declaração de Helsinki é um documento da política oficial da World Medical Association, o corpo de
representação global para os médicos. Foi adotada pela primeira vez em 1964 (Helsinki, Finlândia) e
revisada em 1975 (Tóquio, Japão), 1983 (Veneza, Itália), 1989 (Hong Kong), 1996 (Sommerset-West,
África do Sul) e 2000 (Edimburgo, Escócia). Uma nota de esclarecimento foi adicionada no Parágrafo
29 pela Assembléia Geral da WMA em Washington, 2002.
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Princípios de Ética Biomédica
Respeito pela Autonomia
Não maleficência
O princípio da não maleficência significa simplesmente não lesar (Beauchamp
e Childress, 2001). Seguir o princípio da não maleficência requer que as pessoas
evitem causar danos ou lesões, ou de colocar outros em risco de danos ou lesões.
No contexto da pesquisa biomédica, o princípio da não maleficência exige que
os pesquisadores minimizem os riscos associados com a participação na pesquisa (Brody, 1998; Beauchamp e Childress, 2001).
Beneficência
Beauchamp e Childress identificaram a beneficência positiva e a utilidade como
dois elementos do princípio da beneficência (Beauchamp e Childress, 2001).
A beneficência positiva requer que as pessoas tenham ações que resultem em
benefícios. A utilidade requer que os benefícios das ações das pessoas sobreponham-se aos prejuízos impostos a outros. O princípio da beneficência, dessa
forma, requer que uma ação produza benefícios e que estes se sobreponham
aos prejuízos. No contexto da pesquisa biomédica, isso significa que os benefícios da pesquisa para a sociedade devem se sobrepor aos riscos para os
participantes.
Justiça Distributiva
Justiça é provavelmente o mais controverso dos quatro princípios morais. Para a
proposta desta discussão, justiça se refere à justiça distributiva e não à justiça
retributiva (criminal) ou retificatória (compensatória) (Beauchamp e Childress,
2001). Em bioética, o princípio da justiça distributiva tem sido central nos debates
sobre como assegurar acesso eqüitativo à assistência à saúde e reduzir a desigualdade
dos desfechos no âmbito da saúde. No caso de pesquisa, o princípio da justiça
distributiva se refere à distribuição eqüitativa dos riscos, assim como dos benefícios
da participação na pesquisa (Brody, 1998). Uma política de pesquisa equilibrada e
justa deve objetivar uma distribuição dos benefícios e dos prejuízos da participação na pesquisa que seja tão justa e eqüitativa quanto possível.
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Respeitar a autonomia significa respeitar e não interferir com as ações de uma
pessoa racional que tenha capacidade para ação autônoma, isto é, adultos que
sejam capazes de decidir livremente sobre o curso de uma ação sem influência,
coerção, ou imposição (Beauchamp e Childress, 2001). No contexto da pesquisa
biomédica, o princípio do respeito pela autonomia é utilizado ao se requerer o
seguinte: consentimento informado para participação no tratamento ou pesquisa,
participação voluntária na pesquisa e manutenção da confidencialidade e da privacidade das informações fornecidas ao pesquisador (Beauchamp e Childress, 2001).
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Direitos Humanos
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Em 1948, a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) estabeleceu
um conjunto internacional de direitos humanos que devem ser honrados por
todas as nações que assinaram a declaração (Assembléia Geral das Nações Unidas, 10 de dezembro de 1948). A DUDH reconheceu que todas as pessoas têm
direitos em virtude de serem seres humanos e que são universais no sentido de
que se aplicam igualmente para todas as pessoas ao redor do mundo, independentemente de quem sejam ou de onde vivam (International Federation of Red
Cross and Red Crescent Societies e François-Xavier Bagnoud Center for Health
and Human Rights, 1999; Mann et al., 1999). A DUDH encorajou as nações a
tratar todas as pessoas igualitariamente e a promover e proteger o direito à vida,
à liberdade e à segurança das pessoas. Inclui direitos negativos, como os direitos
de não sofrer escravidão ou servidão, de não ser torturado ou sujeito a tratamento
cruel, desumano, degradante, ou punitivo. Também obriga os estados signatários a fornecerem tratamento igualitário perante a lei e igual proteção pela lei,
sem discriminação, ao requerer que todo aquele acusado de uma ofensa criminal deva ser presumido inocente até que a culpa seja provada (DUDH, 1948,
artigo 11).
Tanto os princípios éticos na medicina como os direitos humanos personificam proibições quanto a agir de maneiras específicas, mas diferem para quem
são aplicados (Mann, 1999). Os princípios éticos tipicamente se aplicam a indivíduos, geralmente trabalhadores da área da saúde e pesquisadores, enquanto os
direitos humanos impõem obrigações, para estados e governos, de promover e
proteger os direitos dos cidadãos de violações pelo estado ou por outros (Mann,
1999). Os direitos humanos são mais relevantes para a maneira como os tratamentos e intervenções derivados da pesquisa neurocientífica são usados para
tratar e prevenir a dependência de substância. Isso porque o tratamento e a prevenção podem envolver o uso de poderes coercitivos de estado para ameaçar os
direitos humanos de pessoas que sejam dependentes de substâncias psicoativas
(Gostin e Mann, 1999).
Ética da Experimentação em Animais na Pesquisa Neurocientífica
O uso de animais na pesquisa biomédica é tradicionalmente justificado pelo
argumento que o dano infringido aos animais no curso da pesquisa é sobreposto
pelos ganhos no conhecimento científico para os humanos (e para os animais)
(Resnik, 1998). A comunidade científica tem geralmente aceito esta defesa, mas
ela não tem recebido o mesmo apoio do público, como resultado do relato de
exemplos controversos de experimentação em animais pela mídia (Brody, 1998).
As pesquisas com animais forneceram alguns benefícios significativos para
os humanos, por exemplo, a identificação de mecanismos que causam doenças e
a melhoria nos tratamentos (Naquet, 1993).
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Embora existam alternativas aos modelos animais em algumas situações,
como culturas de tecidos ou simulações por computador (Resnik, 1998), estes
modelos não podem substituir o uso de animais nas pesquisas, pois não podem modelar o rico ambiente comportamental e fisiológico dos animais vivos (American
Psychological Association Science Directorate, 2001).
Uma crítica à experimentação com animais é que os animais utilizados não
forneceriam bons modelos da biologia, fisiologia e psicologia (Resnik, 1998).
Por exemplo, pesquisas mostraram que a organização cortical do cérebro varia
entre espécies e que alguns primatas não possuem características encontradas
em humanos (Preuss, 2000). Também se tem argumentado que a psicologia e a
neurobiologia da dependência de substância não são bem modeladas pelos animais comumente utilizados, tais como camundongos e ratos (Resnik, 1998), e
que modelos de primatas não humanos são mais desejáveis, pois a anatomia
cortical e o repertório comportamental dos primatas se assemelham mais àqueles dos humanos (National Academy of Science, 1996). Entretanto, muito do
conhecimento atual a respeito da neurociência da dependência de substância
provém de experimentos em animais, utilizando certo número de espécies diferentes. Camundongos geneticamente modificados, por exemplo, vêm sendo
usados para identificar alvos iniciais para as drogas, como o receptor canabinóide
CB1, e vias envolvidas no metabolismo da cocaína foram investigadas (Nestler,
2000). Ratos e outras espécies não primatas vêm fornecendo bons modelos para
certos aspectos da psicologia e da neurobiologia da dependência de substância,
reduzindo, assim, o número de primatas necessários para pesquisa.
Parece existir um compromisso social entre aqueles que se opõem à experimentação animal e aqueles que a consideram necessária (Varner, 1994).
As objeções morais à experimentação em animais têm aumentado a quantidade
de provas que os defensores da pesquisa precisam reunir (Varner, 1994). Esse
é um resultado razoável, na medida em que a quantidade de provas não é insuperável.
Na maioria dos países, a legislação adota uma de duas perspectivas que reconhecem a necessidade de experimentação animal enquanto coloca restrições
à prática (Brody, 1998). A legislação na Europa e na América toma uma posição
de prioridade humana na qual o sofrimento e a perda dos animais são minimizados, mas os interesses humanos precedem os interesses dos animais quando
em conflito (Brody, 1998). Em contraste, a legislação na Austrália e no Reino
Unido baseia-se em uma posição balanceada na qual os interesses dos humanos
são geralmente considerados mais importantes, mas algumas vezes podem ser
suplantados com o objetivo de proteger os animais (Brody, 1998). Diferentemente das legislações na América e na Europa, a legislação na Austrália e no
Reino Unido requer que durante o processo de revisão ética, os benefícios dos
experimentos propostos sejam comparados com os danos que serão infligidos aos
animais (Brody, 1998).
Questões Éticas na Pesquisa Neurocientífica sobre Tratamento e Prevenção da ... – 207
Princípios Éticos na Pesquisa Biomédica em Humanos
Desde os julgamentos de Nuremberg, de médicos pesquisadores alemães após a
II Guerra Mundial, um consenso se desenvolveu sobre as exigências éticas básicas para pesquisa biomédica em humanos (Brody, 1998; Jonsen, 1998). Na
maioria dos países desenvolvidos, códigos de ética nacionais estabelecem obrigações que os investigadores devem cumprir para que a pesquisa seja legitimada
ética e cientificamente. Embora condições específicas para a aprovação ética
possam diferir de país para país, o mesmo conjunto de princípios éticos básicos
é encontrado na maioria das diretrizes nacionais (Brody, 1998). Isso inclui revisão ética independente das propostas de pesquisa, respeito pela privacidade do
paciente, consentimento informado para participar da pesquisa e proteção da
privacidade e confidencialidade da informação (Brody, 1998).
Revisão Ética independente dos Riscos e dos Benefícios
Com o objetivo de ganhar a aprovação para qualquer pesquisa em humanos, os
investigadores devem obter a aprovação de uma comissão de ética revisora independente. Uma revisão externa de um protocolo de estudo fornece uma avaliação
independente de se os benefícios do ensaio proposto superam qualquer risco
que possua para os participantes (Brody, 1998).
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Consentimento Informado
O consentimento informado para participar de uma pesquisa é geralmente uma
maneira de pedir ao participante da pesquisa para consentir com a sua participação no estudo após uma discussão detalhada do que será exigido e uma descrição
de qualquer evento adverso que possa ocorrer (Brody, 1998). A participação de
pessoas com idade menor que 18 anos normalmente exige o consentimento dos
pais ou do responsável legal, além da concordância do participante. Qualquer
incerteza sobre os riscos da participação deve ser comunicada cuidadosamente e
deve haver monitoração próxima de qualquer evento adverso, com o fornecimento de assistência médica prontamente para qualquer resultado desfavorável.
A inclusão de pessoas com comprometimento cognitivo em um estudo exige
considerações especiais (ver a seguir). O consentimento pode precisar ser obtido
de uma pessoa próxima que tome a decisão de acordo com o interesse do participante da pesquisa com o comprometimento (Brody, 1998). Isso tem implicações
para a pesquisa envolvendo pessoas com dependência de substância se a pessoa
tiver disfunções cognitivas, psiquiátricas, ou neurológicas crônicas como resultado do uso de substância (ver Cap. 4), ou se a pessoa tiver uma doença
psiquiátrica concomitante (ver Cap. 6).
Todas as formas de consentimento devem ser dadas após os participantes
terem sido informados do que o envolvimento na pesquisa exigirá deles. Os
participantes da pesquisa devem ter tempo para refletir e para considerar suas
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208 – Questões Éticas na Pesquisa Neurocientífica sobre Tratamento e Prevenção da ...
obrigações a cada estágio do procedimento de consentimento. Idealmente, o
processo de consentimento deve incluir uma terceira parte, geralmente um clínico
não envolvido com o estudo, para assegurar a integridade do processo. Deve-se
permitir que os participantes desistam do estudo a qualquer momento. Se decidirem desistir, a decisão deve ser respeitada e eles devem ser informados de que
não sofrerão qualquer conseqüência, tais como a recusa de consultas de rotina
ou da assistência médica (Brody, 1998). Se qualquer paciente desistir do estudo,
os dados coletados devem ser omitidos dos resultados finais.
Recrutamento de Indivíduos
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As condições nas quais as pessoas são recrutadas para o estudo não devem envolver qualquer forma de coerção ou o uso de persuasão excessiva para participar
(Brody, 1998). Em anos recentes, tornou-se comum reembolsar os participantes
pelo envolvimento em alguns estudos de pesquisa. A justificativa mais comum é
que os reembolsos maximizam o recrutamento inicial e a retenção de participantes no estudo. Pequenos reembolsos são oferecidos para compensar os
participantes pelo tempo despendido para participar do ensaio ou pelas despesas
de transporte. Os reembolsos podem ser interpretados por alguns sujeitos potenciais como recompensa pela participação e, por alguns pesquisadores, como
uma forma de aumentar o número de participantes do ensaio. Ashcroft argumenta que os reembolsos são eticamente aceitáveis se servirem para recompensar
um participante pelos inconvenientes, de forma que não é visto como pagamento
para qualquer lesão causada (Ashcroft, 2001). Na Austrália, por exemplo, tem
sido uma prática comum desde o início da década de 1980 que pesquisadores
em drogas paguem A$20 aos usuários de drogas se eles participarem de entrevistas de pesquisa. O dinheiro pretende compensar os participantes pelo tempo,
pelas despesas de transporte e pela inconveniência. O pagamento dos participantes em pesquisas também é uma prática padrão na pesquisa de drogas no
Canadá e nos EUA.
Na Austrália, essa estratégia provou ter sucesso como forma de recrutar usuários de drogas ilícitas para estudos de pesquisa sobre fatores de risco para a
transmissão de vírus da imunodeficiência humana (HIV), hepatite C e outras
doenças transmissíveis pelo sangue; sobre o padrão de uso de anfetaminas (incluindo o uso injetável, as razões para fazer a transição para esse uso e a prevalência
de problemas psicológicos e de saúde causados por ele); sobre a prevalência e
correlatos da overdose de droga em usuários de heroína; e no monitoramento
nacional das tendências do uso de drogas ilícitas desde 1996. As informações
coletadas nesses estudos não poderiam facilmente ser obtidas de outra maneira.
Entrevistar usuários de droga em tratamento, por exemplo, seria de utilidade limitada, pois muitos não procuram tratamento e aqueles que o procuram, geralmente
o fazem após anos de problemas com o uso de droga. Obter informação dessa
maneira fornece um alerta antecipado das tendências do uso de drogas ilícitas.
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Questões Éticas na Pesquisa Neurocientífica sobre Tratamento e Prevenção da ... – 209
Também cria a oportunidade de fornecer aos usuários informações sobre os riscos do uso de drogas e estas informações também podem ajudar na elaboração
de campanhas educacionais focadas em usuários de drogas ilícitas. Os achados
desses estudos também são apresentados regularmente para as equipes de centros de tratamento para alertá-los de problemas emergentes entre as pessoas que
procuram sua ajuda.
Uma preocupação expressa por críticos dessa prática de pagar os participantes é que o dinheiro servirá como um estímulo devido ao seu potencial para
comprar drogas. A primeira questão é se os usuários de drogas têm o mesmo
direito de qualquer outra pessoa de serem compensados pelo tempo e pela inconveniência de serem entrevistados. O dinheiro pode bem ser utilizado para comprar
tabaco, álcool, ou drogas ilícitas, assim como o dinheiro conseguido pelos usuários de drogas através de emprego, previdência social, ou crime. Em termos
de padrão de uso diário da maior parte dos usuários de drogas injetáveis, $20
compra apenas uma pequena quantidade das drogas de rua normalmente utilizadas por dia. Essa questão é controversa e permanece não resolvida.
Privacidade e Confidencialidade
Os pesquisadores são obrigados a proteger a privacidade dos participantes do
estudo. As informações pessoais dos participantes não devem ser divulgadas a
qualquer indivíduo ou grupo de indivíduos sem seu consentimento direto e eles
não devem ser identificáveis a partir dos resultados publicados do estudo (Brody,
1998). Essas regras são especialmente importantes quando os participantes do
estudo têm uma condição estigmatizante, tal como uma doença mental ou a
dependência de drogas.
A proteção da privacidade dos participantes e da confidencialidade das informações que eles fornecerem é crítica em pesquisas nas quais se coletam dados
sobre o uso de substâncias. O uso de algumas substâncias psicoativas (por exemplo, cannabis, cocaína e heroína) é ilegal, assim como o uso de álcool por pessoas
com idade menor que a mínima legal para beber. Levantamentos sobre o uso de
drogas podem também perguntar sobre o uso de drogas ilícitas e o cometimento
de outros atos ilegais, como dirigir intoxicado, vender drogas ilícitas ou se envolver em roubo, fraudes, ou violência para financiar o uso de droga. Se esses
dados estiverem ligados a um indivíduo identificado e forem entregues à polícia, então os participantes poderiam enfrentar acusações criminais. Nos EUA,
os pesquisadores podem obter certificados de confidencialidade que dão aos
sujeitos a segurança de que isso não ocorrerá. No entanto, o status legal desses
certificados não é claro, uma vez que eles são federais; há dúvidas se teriam
validade em cortes estaduais. Além do mais, a ameaça de acesso a esses documentos a partir de processos legais civis também não é clara. A situação legal
em muitos outros países, de maneira similar, também não é clara.
A confidencialidade é um problema muito menor quando os dados são
coletados em uma única entrevista transversal. A informação fornecida geral-
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Questões Éticas Emergentes na Pesquisa Neurocientífica
Pesquisa em Pessoas Vulneráveis
A pesquisa envolvendo pessoas que possuam comprometimento cognitivo ou
físico requer considerações éticas especiais (Brody, 1998). Uma questão ética
maior é se as pessoas vulneráveis são capazes de fornecer o consentimento informado, especificamente se são capazes de entender o raciocínio por trás de um
ensaio clínico (Mora, 2000), de entender exatamente o que será exigido delas e
porque (Stahl, 1996) e de fornecer seu consentimento livre e informado para
participarem do estudo (Anthony e Helzer, 1991).
Uma pessoa pode ser vulnerável por uma ou mais das três seguintes razões:
limitações pessoais à sua liberdade (intrínseca); fatores ambientais que limitem
sua liberdade (extrínseca) e limitações de sua liberdade em virtude do relacionamento com outra pessoa ou grupo (relacional) (Roberts e Roberts, 1999).
Pessoas com Dependência de Substância São Vulneráveis?
Poucos estudos foram conduzidos sobre se as pessoas que são dependentes de
substância têm uma capacidade comprometida para consentir com a participação
em pesquisa (Adler, 1995; Gorelick et al., 1999). A maior parte da controvérsia
recente sobre a pesquisa neurocientífica em populações vulneráveis tem sido
sobre a pesquisa em pessoas com esquizofrenia (Shamoo, 1998) e acidente
vascular cerebral (Alves e Macciocchi, 1996). Nesses casos, existem sérias dú-
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mente não contém o nome, ou outros identificadores, dos participantes, pois
essa informação não precisa ser coletada. A confidencialidade se torna uma questão
mais importante se as entrevistas forem gravadas (por exemplo, em fitas cassete), pois isto poderia ser utilizado em uma corte legal. A confidencialidade se
torna uma questão potencialmente séria em estudos longitudinais nos quais os
dados que permitem a identificação dos sujeitos (por exemplo, o nome e o endereço dos participantes e os nomes e endereços de sua família e amigos) são
coletados de forma que os indivíduos possam ser recontatados para entrevistas
adicionais em uma data posterior. Precaução padrão é armazenar nomes e identificadores de forma que estejam seguros e mantê-los separados dos dados do
levantamento. A confidencialidade se tornará uma questão ainda mais importante
quando amostras de DNA (ou de tecidos biológicos dos quais o DNA possa ser
obtido) forem coletadas, pois o DNA fornece uma forma inequívoca de identificar
todos os indivíduos (exceto gêmeos idênticos). Quando ligados com questionários
ou dados de entrevistas, o DNA permite que informações de atos ilegais autorelatados sejam ligadas de maneira confiável ao indivíduo. Precauções especiais
serão, dessa forma, necessárias para proteger a privacidade em estudos epidemiológicos de uso de drogas ilícitas que também coletem amostras biológicas.
Uma legislação similar à que é aplicada nos EUA pode ser necessária.
Questões Éticas na Pesquisa Neurocientífica sobre Tratamento e Prevenção da ... – 211
vidas sobre a capacidade de alguns pacientes de dar o consentimento livre e
esclarecido, pois estão comprometidos cognitivamente, seja de maneira intermitente, seja cronicamente. Existem algumas analogias entre esses casos e
questões envolvendo pesquisa experimental em pessoas dependentes de substância. Existem conseqüências neurológicas, cognitivas e psiquiátricas crônicas
de alguns tipos de uso de substância (ver Cap. 4) que podem afetar a capacidade de
alguns indivíduos de dar o consentimento informado.
As pessoas dependentes de drogas podem ser vulneráveis a coerção e indução
para participar de pesquisa quando estão intoxicadas ou quando estão apresentando sintomas agudos de abstinência (Adler, 1995; Gorelick et al., 1999). Pessoas
gravemente intoxicadas por álcool ou cocaína, por exemplo, sofrem comprometimentos similares a pessoas que estejam agudamente psicóticas. De maneira
similar, uma pessoa que esteja apresentando sintomas agudos de abstinência
pode ser induzida a consentir com a participação em estudos de pesquisa pela
oferta da substância da qual são dependentes ou de medicações para aliviar seus
sintomas de abstinência (Adler, 1995; Gorelick et al., 1999). Pessoas intoxicadas deveriam normalmente ser excluídas de estudos experimentais no terreno dos
bons desenhos de pesquisa, sem contar com os problemas éticos associados com
sua inclusão. Questões sobre o consentimento informado surgem na condução
de ensaios clínicos controlados de drogas para tratar sintomas da toxicidade ou
overdose da droga. Nesses casos em que a pessoa esteja incapaz de dar consentimento, o consentimento por procuração pode ser necessário.
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Estudos de Provocação
Estudos de provocação na pesquisa neurocientífica da dependência freqüentemente usam neuroimagem para estudar os efeitos de uma substância psicoativa
na função cerebral em usuários de substância e pessoas dependentes de substância. Por exemplo, pessoas dependentes de heroína podem receber uma substância
injetável marcada radioativamente, em um PET ou SPECT scan (Fu e McGuire,
1999), e então uma droga opióide, ou serem expostos a estímulos relacionados à
droga, com o objetivo de identificar locais no cérebro nos quais as drogas atuam
(Sell et al., 1999; Kling et al., 2000; Martin-Soelch et al., 2001). Esses estudos
de provocação envolvem pouca ou nenhuma perspectiva de ganho terapêutico
para os participantes. Seu mais provável benefício é um entendimento não comprovado da dependência de substância que pode beneficiar futuros pacientes
melhorando o resultado do tratamento.
Os procedimentos de consentimento esclarecido para os estudos de provocação na dependência de substância precisam tornar claros, para os participantes
em potencial, a ausência de qualquer ganho terapêutico e os riscos da participação. Os participantes que estiverem procurando tratamento devem ser ativamente
encaminhados a um serviço de tratamento (Gorelick et al., 1999). Cuidados
também devem ser tomados para assegurar que a capacidade de dar o consenti-
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mento voluntário não esteja comprometida devido aos participantes estarem intoxicados ou experimentando sintomas de abstinência. Isso pode requerer uma
triagem para sintomas de intoxicação e abstinência na época do recrutamento
(Adler, 1995).
A administração de droga nestes estudos é consideravelmente menos arriscada do que o uso de drogas que ocorre fora das condições laboratoriais. Doses
significativamente menores de drogas farmaceuticamente puras são usadas em
estudos laboratoriais na ausência de uso concomitante de outras drogas, como
ocorre na comunidade. Adicionalmente, a droga é administrada sob supervisão
médica com protocolos no local para lidar com qualquer evento adverso (Adler,
1995). Os riscos da administração da droga podem ser adicionalmente reduzidos
pela exclusão de pessoas que houverem apresentado efeitos adversos de drogas,
como psicoestimulantes. O uso de estímulos associados com a substância é muito
menos invasivo e possui menos riscos do que a exposição a drogas. As substâncias marcadas radioativamente utilizadas em algumas formas de neuroimagem
representam muito pouco risco para os participantes e os novos métodos de
imagem, com a RMNf, não envolvem exposição a radiação ou substâncias radioativas (Gilman, 1998).
As principais questões éticas na pesquisa epidemiológica são: assegurar que
todo participante forneça o consentimento livre e esclarecido e proteger sua
privacidade e a confidencialidade de qualquer informação que seja coletada.
Também existem questões próprias dos estudos epidemiológicos. Uma vez que
não estão envolvidos procedimentos experimentais, os principais riscos que os
participantes enfrentam surgem da possibilidade de mau uso de qualquer informação por eles fornecida. Esses riscos podem, potencialmente, incluir o ostracismo
social e a estigmatização, se o uso de droga se tornar conhecido da família, amigos, ou vizinhos; e processo criminal se qualquer informação fornecida sobre
uso de droga ilegal ou outro comportamento criminoso se tornar conhecida da
polícia de maneira que possa ser relacionada com o indivíduo.
A eqüidade e os critérios para uma boa pesquisa epidemiológica requerem
que uma amostra representativa da população em risco seja recrutada em estudos
sobre o padrão de uso e de dependência de substância na população. Pode haver
questões levantadas pela pouca adesão a estudos longitudinais de indigentes e
sem-tetos que podem apresentar um risco aumentado de desenvolver dependência de
substância. A eqüidade pode também ser uma questão se houver uma preponderância de estudos de pessoas em tratamento financiado publicamente e ausência
de representatividade daqueles tratados em serviços de saúde privados ou por
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Questões Éticas na Pesquisa Epidemiológica
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médicos e psiquiatras especialistas particulares. Também é possível que os resultados de um estudo possam, potencialmente, levar à estigmatização de um grupo
se, por exemplo, um estudo identificar uma alta taxa de dependência de substância
em um grupo social, cultural, ou étnico particular.
Questões Éticas em Ensaios Clínicos de Tratamentos
Farmacológicos para Dependência de Substância
Os ensaios clínicos de novas drogas terapêuticas são necessários para o registro
de drogas na maioria dos países desenvolvidos e são atualmente uma parte amplamente aceita da prática médica. Existe uma concordância internacional sobre
os critérios para a conduta ética nesses estudos. Além das questões previamente
discutidas de revisão ética independente – isto é, consentimento livre e esclarecido pelos participantes do estudo; uma relação risco-benefício aceitável para os
participantes; e proteção da privacidade do paciente e a confidencialidade (Brody,
1998) – também existem questões do desenho do ensaio, conflitos de interesse e
justiça distributiva.
Desenho do Ensaio Clínico
Um ensaio clínico randomizado e controlado é amplamente aceito como o padrão-ouro para a avaliação de tratamento na medicina, pois minimiza o viés na
determinação de quais pacientes recebem quais tratamentos (Cochrane, 1972).
A distribuição aleatória para o tratamento é eticamente aceitável se existir incerteza genuína sobre o valor comparativo dos dois tratamentos; se os participantes
do ensaio estiverem cientes de que serão randomizados; e se estiverem informados
sobre o tipo de tratamento para o qual podem ser designados (por exemplo,
placebo ou ativo) e dos riscos destes tratamentos quando da obtenção do consentimento esclarecido para participar do ensaio.
A escolha de um ensaio clínico controlado e randomizado como condição
de comparação levanta a questão de quando é eticamente aceitável comparar a
eficácia de um novo tratamento com droga para a dependência de substância
com um placebo. Alguns autores têm argumentado que é antiético fornecer apenas o tratamento placebo, caso exista um tratamento que seja eficaz para a
condição (Brody, 1998). Esse argumento é relevante no caso da dependência de
substância, pois algumas formas podem colocar a vida em risco na ausência de
tratamento. Seria eticamente aceitável, entretanto, usar uma condição de comparação com placebo se não houver farmacoterapia eficaz para a condição e se
os dois grupos de tratamento receberem o melhor tratamento psicossocial disponível (Gorelick et al., 1999). Nesse caso, o ensaio clínico poderia perguntar: a
adição de farmacoterapia ao acompanhamento psicossocial de boa qualidade
melhora o resultado em comparação com a adição de placebo? Uma vez que é
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provável que qualquer farmacoterapia seja de fato utilizada em combinação com
tratamento psicossocial de boa qualidade (Fox, 1997), esta é, geralmente, a questão
mais relevante para um estudo randomizado controlado de uma nova farmacoterapia para a dependência de droga.
Justiça Distributiva
Conflitos de Interesse
Uma questão ética de significância crescente, dada a extensão do financiamento
dos ensaios clínicos por companhias farmacêuticas, é assegurar a confiabilidade
pública dos resultados (Davidoff et al., 2001; de Angelis, Fontanarosa e Flanagin,
2001). A confiança pública tem sido minada nos últimos anos, pois os investigadores têm falhado na apresentação de seus interesses financeiros pessoais nos
desfechos dos ensaios clínicos (por exemplo, como resultado do pagamento de
grandes honorários de consultoria pela promoção de produtos farmacêuticos ou
pela participação em uma companhia farmacêutica). Este tem se tornado um
problema cada vez maior na medida em que o financiamento público para pesquisa
médica e para as universidades tem diminuído e as companhias farmacêuticas
vêm se tornando a principal fonte de financiamento para pesquisa. Além do
mais, as pesquisas financiadas por estas companhias vêm sendo conduzidas por
organizações de pesquisa contratadas, com condições em que os dados podem
ser publicados sob controle dos patrocinadores farmacêuticos (de Angelis,
Fontanarosa e Flanagin, 2001; Anon, 2001).
Não importa quão cientifica e eticamente rigorosa a condução de um estudo
possa ser, seus achados são de uso limitado se o público não tiver confiança na
sua validade (Davidoff et al., 2001; de Angelis, Fontanarosa e Flanagin, 2001).
Certo número de políticas vem sendo implementado pelos editores das principais revistas médicas em um esforço de restaurar a confiança na pesquisa clínica.
Uma é a decisão por esses editores de exigir que os autores apresentem as fontes
de financiamento e conflitos de interesse potenciais e que assintam que tiveram
controle completo sobre os dados do estudo e sua análise (Davidoff et al., 2001;
de Angelis, Fontanarosa e Flanagin, 2001). Outra política é a criação de um
registro de protocolos de pesquisa clínica antes do início do estudo para minimizar
a supressão de resultados desfavoráveis ou a seleção de resultados ex post facto
e métodos de análise de forma a fazer a droga parecer melhor (Horton, 1997).
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Tanto a eqüidade como os critérios de ensaio clínicos de repercussão exigem que
uma amostra representativa da população de risco seja recrutada nestes estudos (Brody,
1998). Esforços especiais podem ser necessários para se assegurar que mulheres,
crianças e grupos minoritários sejam incluídos em ensaios clínicos para assegurar
que tenham acesso aos benefícios da participação em pesquisa e que os resultados
dos estudos de pesquisa possam ser aplicados a estes grupos se as drogas testadas
forem eventualmente aprovadas e registradas para uso clínico (Brody, 1998).
Questões Éticas na Pesquisa Neurocientífica sobre Tratamento e Prevenção da ... – 215
Recomendações políticas adicionais têm sido feitas, mas ainda não implementadas. Estas incluem: monitoramento independente da adesão ao protocolo
de estudo, em especial com o relato de qualquer efeito adverso apresentado
pelos participantes e a exigência de que os investigadores e os patrocinadores de
um ensaio clínico comprometam-se a publicar os resultados em até dois anos
após completar a coleta de dados, como condição para que o protocolo do estudo seja aprovado por uma comissão de ética (Reidenberg, 2001). Esta última
estando bem embasada, uma vez que a principal justificativa ética para a realização de estudos de pesquisa é contribuir para o conhecimento científico (Brody,
1998) e isto não pode ocorrer se os resultados da pesquisa não forem publicados
(Reidenberg, 2001).
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Ensaios Clínicos de Intervenções Farmacológicas Preventivas
para a Dependência de Substância
Intervenções psicossociais educacionais vêm sendo amplamente empregadas com
o objetivo de prevenir que jovens utilizem drogas (Spooner e Hall, 2002). Intervenções universais visam todos os jovens, enquanto as intervenções indicadas,
focadas, ou seletivas visam àqueles jovens que são identificados como em risco
mais elevado de iniciar o uso de droga. O impacto tanto de intervenções universais como de seletivas nas taxas de uso de drogas freqüentemente é modesto
(National Research Council, 2001).
Intervenções psicossociais preventivas levantam questões éticas. Intervenções universais (aquelas direcionadas a todos os jovens) levantam preocupações
sobre conseqüências adversas não pretendidas, tais como o encorajamento da
experimentação de drogas pelos jovens. Intervenções focadas ou indicadas levantam questões éticas adicionais, pois exigem a identificação de jovens que
tenham risco aumentado de usar drogas. Os seus consentimentos, assim como
os dos seus pais, são necessários para a participação em intervenções preventivas.
No processo de obtenção desse consentimento, os pais e seus filhos podem ser
informados do seu status de risco. A participação em ensaios de intervenções
preventivas pode também expor as crianças à estigmatização social e discriminação, se isto se tornar conhecido de seus professores, colegas e dos pais de seus
colegas. Por exemplo, os pais de crianças julgadas como de baixo risco podem
desencorajar ativamente seus filhos de se aproximarem de crianças de alto risco,
ou podem insistir para que as crianças de alto risco sejam excluídas ou removidas da escola.
As mesmas questões éticas de estigmatização e discriminação também são
levantadas por intervenções farmacológicas ou imunológicas que visem prevenir a dependência de substância. Duas dessas intervenções são discutidas a seguir:
intervenções farmacológicas precoces em pessoas em risco para dependência de
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substância, que podem ser inspiradas pelos esforços similares para prevenir psicoses (McGorry, Yung e Phillips, 2001); e o uso preventivo de imunoterapias
contra os efeitos das drogas para reduzir o risco de dependência de substância
(Cohen, 1997).
Estudos de Intervenção Precoce
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As intervenções precoces para a dependência de substância vêm sendo discutidas e seriam análogas aos estudos com esquizofrenia que identificam pessoas
que têm um risco aumentado de desenvolver o transtorno devido a uma história
familiar de esquizofrenia, ou por apresentarem sintomas que possam ser iniciais
ou prodrômicos do transtorno. O objetivo dessa abordagem é prevenir o desenvolvimento da esquizofrenia pela combinação de cuidados psicossociais de boa
qualidade e doses baixas de drogas neurolépticas que são utilizadas no tratamento da esquizofrenia (McGorry, Yung e Phillips, 2001). Estudos na Austrália
e nos EUA mostraram que é possível, usando critérios padronizados, identificar
um grupo de jovens que tem um alto risco (30 a 40%) de desenvolver esquizofrenia nos 6 a 12 meses seguintes (McGlashan, 2001; McGorry, Yung e Phillips,
2001). Certo número de quase-experimentos e de ensaios clínicos randomizados
e controlados sugerem que a intervenção combinada reduz a taxa de ocorrência
da esquizofrenia e sua gravidade (McGorry, Yung e Phillips, 2001). Estudos
similares podem ser vislumbrados para a dependência de substância, uma vez
que a pesquisa torne mais claros os fatores de risco e de proteção, as predisposições genéticas e as opções de tratamento.
Críticos desses estudos levantaram uma série de questões éticas (Cornblatt,
Lencz e Kane, 2001; de Grazia, 2001). Estas incluem o fato de que existe uma
taxa de falsos positivos: 60% daqueles identificados como tendo alto risco de
desenvolver a esquizofrenia não desenvolvem o transtorno. Isso também pode
se aplicar ao desenvolvimento da dependência de substância. Também existe o
potencial de estigmatização e de discriminação contra aqueles que forem identificados como estando em risco. Mesmo se não houver discriminação, existe a
possibilidade da ocorrência de efeitos adversos nos indivíduos por serem rotulados como em risco. Também existe a preocupação sobre a capacidade de crianças
e adolescentes de consentir para participar desses estudos e dúvidas sobre a
aceitabilidade de se utilizar o consentimento por procuração pelos pais. Tratamentos preventivos a longo prazo podem ter conseqüências para a saúde.
McGorry, Yung e Phillips (2001) descobriram que, a respeito da esquizofrenia,
os benefícios potenciais (a prevenção da esquizofrenia e o tratamento precoce
dos casos que realmente ocorrem) superam os riscos potenciais da medicação
neuroléptica e da estigmatização, ambos, pelo que eles sugerem (com base em
estudos controlados), têm sido exagerados.
Abordagens análogas de intervenções precoces podem ser utilizadas para a
dependência de substância, embora até hoje nenhum ensaio clínico tenha, expli-
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citamente, sido conduzido com o objetivo de utilizar terapias farmacológicas
como intervenções preventivas para a dependência de substância. É provável
que muitas dessas questões éticas venham a surgir. Drogas psicoestimulantes,
tais como o metilfenidato e a dexanfetamina, vêm sendo utilizadas para tratar
crianças e adolescentes com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade
(TDAH), uma intervenção que é controversa (Levy, 1997). Uma vez que o TDAH,
em combinação com transtornos de conduta, aumente o risco de desenvolvimento de transtornos de uso de substância (Lynskey e Hall, 2001) e drogas
psicoestimulantes reduzam os sintomas do TDAH (Swanson et al., 1998), um
subproduto não pretendido da medicação psicoestimulante pode ser a prevenção dos transtornos de uso de substância. Entretanto, ninguém argumenta em
favor do uso de medicação psicoestimulante para prevenir a dependência de
substância e é improvável que alguém o faça. A preocupação pública sobre o
uso crônico de drogas estimulantes para tratar o TDAH sugere que qualquer
proposta desse tipo receberá oposição e o suporte para o uso crônico de drogas
no final da infância ou na adolescência para prevenir o desenvolvimento da dependência de substância será ainda menos provável.
Uso Preventivo de Imunoterapia para Drogas
Estudos em animais mostraram que é possível induzir a formação de anticorpos
contra substâncias tais como a cocaína (Fox et al., 1996; Carrera et al., 2000).
Esses anticorpos se combinam no sangue com a substância de modo a evitar que
penetre no cérebro e exerça seus efeitos (Fox et al., 1996) (ver Cap. 4). Estudos
em animais mostram que os anticorpos contra cocaína atenuam marcadamente
seus efeitos estimulantes e bloqueiam a auto-administração em ratos (Carrera et al.,
1995; Johnson e Ettinger, 2000). Se as imunoterapias para cocaína se mostrarem seguras e eficazes no tratamento de pessoas com dependência de cocaína,
elas poderiam ser utilizadas para prevenir a dependência de cocaína em adolescentes e adultos jovens, assim como em adultos em tratamento legalmente compulsório.
Essas possibilidades foram levantadas e discutidas brevemente (Cohen, 1997,
2000). Argumentos similares irão sem dúvida surgir com o uso preventivo proposto das imunoterapias para nicotina.
Se os ensaios clínicos controlados demonstrarem que as imunoterapias para
nicotina e cocaína são tratamentos seguros e eficazes para esses tipos de dependência de substância, então uma série de questões éticas a respeito do seu uso no
tratamento voluntário de adultos dependentes de substância precisa ser abordada (Cohen, 1997; Hall e Carter, 2002). O uso preventivo das imunoterapias para
cocaína e nicotina seria ético no caso de adultos que voluntariamente decidam
utilizá-las após serem informados sobre qualquer risco. As imunoterapias teriam
que se mostrar seguras e eficazes para esse propósito, com padrões de comprovação mais altos sendo geralmente exigidos para as medidas de segurança e
eficácia (Hall e Carter, 2002). Os riscos previstos do uso da imunoterapia teriam
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que ser comunicados à pessoa que forneceria o consentimento esclarecido para
o uso e seriam necessários cuidados para proteger a privacidade da pessoa. Sob
essas circunstâncias, a administração voluntária de uma imunoterapia para cocaína para adultos que consentirem e que se considerem como suscetíveis à
dependência de cocaína seria eticamente aceitável (Hall e Carter, 2002). Entretanto, esse uso, provavelmente, será pouco habitual.
Uma característica em potencial única da imunização ativa contra cocaína é
que ela pode, em princípio, ter conseqüências de longa duração, pela criação de
anticorpos que podem ser detectados no sangue de pacientes tratados por meses
a anos. Esses níveis de anticorpos podem não ser suficientemente altos para
serem terapêuticos, mas o fato de poderem ser detectados levanta as questões
éticas da privacidade e da discriminação (Cohen, 1997).
Gera preocupação especial, a possibilidade de perda de privacidade pelos
indivíduos dependentes de cocaína recuperados se empregadores e companhias
de seguro tiverem acesso a essas informações. Os empregadores e as companhias de
seguro freqüentemente obtêm informações médicas pessoais detalhadas e, ocasionalmente, amostras de sangue de empregados ou clientes em potencial. Como
a comunidade muitas vezes desaprova fortemente a dependência de cocaína, a
perda da privacidade por um indivíduo dependente de cocaína em recuperação
pode levar a constrangimentos, na melhor das hipóteses, e a estigmatização e
ostracismo social pelas pessoas de seu ambiente social e na comunidade em
geral. No futuro, a estigmatização social crescente dos fumantes e a possibilidade
de discriminação pelos empregadores e pela indústria de seguros de saúde, podem
levantar questões similares para fumantes que usarem a imunização para nicotina
para parar de fumar.
A discriminação pode surgir se testes para drogas no local de trabalho procurarem por anticorpos anticocaína antes e durante o emprego. Uma pessoa
dependente de cocaína em recuperação estaria em risco de perder uma oportunidade de emprego ou seu trabalho se anticorpos contra cocaína forem detectados
em uma amostra sanguínea. Se essa informação for mais amplamente divulgada
para outros empregadores, isto teria um efeito devastador nas perspectivas de
emprego e de recuperação do indivíduo (Cohen, 1997).
Uma forma de evitar este resultado seria aceitar a proposta de Cohen de que
a sociedade que desejar ter os benefícios da imunoterapia para cocaína “deve
instituir mudanças legais e comportamentais que preservem a privacidade e a
confidencialidade” (Cohen, 1997). Isso requer uma cultura que encoraje e dê
suporte para a recuperação de pessoas com dependência de substância. Uma
legislação que pune comportamentos discriminatórios contra pessoas em recuperação tem sido adotada no caso de pacientes infectados pelo HIV. A adoção de
uma abordagem similar para pessoas que foram tratadas para a dependência
de cocaína seria um passo importante para a redução da discriminação e para a
proteção da privacidade.
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Os riscos de se perder a privacidade e de discriminação também podem ser
minimizados utilizando-se imunização passiva em vez de ativa para prevenir a
recaída (por exemplo, pela administração de anticorpos contra cocaína em vez
da imunização). Essa abordagem não produziria mudança duradoura no sistema
imunológico da pessoa e os anticorpos desapareceriam em um período de semanas. Essas vantagens seriam obtidas à custa de um período mais curto de proteção
(sem uma injeção ativadora), o que pode reduzir a eficácia do tratamento. É uma
troca que o paciente preocupado com a privacidade deve estar preparado para
fazer, mas é uma escolha que deve lhe ser oferecida (Hall e Carter, 2002).
A imunização preventiva de crianças e adolescentes contra a dependência de
cocaína é uma questão ética muito mais complexa. As crianças poderiam
presumivelmente ser imunizadas contra a dependência de cocaína por solicitação
dos pais. Os pais consentiriam em nome de seus filhos que, por serem menores de
idade, não estariam legalmente capacitados para fornecer o consentimento esclarecido. Os pais já tomam decisões em nome de seus filhos que afetarão seu futuro
(por exemplo, a respeito da dieta, ou da educação). Alguns têm argumentado,
dessa forma, que a imunização contra a dependência de cocaína seria simplesmente mais uma decisão que alguns pais tomariam pelos seus filhos (Cohen, 1997).
Com base nesse argumento, um pai teria o direito de imunizar seus filhos contra a
dependência de cocaína da mesma forma que tem o direito de imunizá-los contra
o sarampo ou qualquer outra doença infecciosa (Kaebnick, 2000).
O uso de cocaína pode se iniciar na adolescência. Adolescentes abaixo da
idade de maioridade têm capacidade suficiente para se envolver em decisões
sobre seu futuro, tais como se querem ser imunizados contra a dependência de
cocaína. Mesmo se for aceitável eticamente que os pais consintam em nome de
seus filhos, a aceitação por um adolescente ou uma criança mais velha deve ser
obtida e, se eles não a fornecerem, raramente a sua decisão não deveria ser levada
em consideração e, apenas, se houver uma razão forte para isso (Brody, 1998).
Deve ser lembrado que nem todos que usam cocaína pela primeira vez se tornam dependentes.
Implicações da Pesquisa Neurocientífica para os
Modelos de Dependência de Substância
Existe um conflito de longa duração entre os modelos moral e médico da dependência de substância (Gerstein e Harwood, 1990; Leshner, 1997). Um modelo
moral da dependência de substância a vê como um comportamento largamente
voluntário no qual a pessoa se engaja livremente. Usuários de drogas que agem
contra o código penal, devem, portanto, ser processados e aprisionados se
considerados culpados (Szasz, 1985). Um modelo médico da dependência de
substância, em contraste, reconhece que, enquanto muitas pessoas utilizam subs-
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tâncias psicoativas sem desenvolverem dependência, uma pequena proporção
de usuários desenvolve a dependência que necessita de tratamento específico
(Leshner, 1997).
Os modelos médicos da dependência de substância podem não ser um avanço
totalmente positivo se levarem a políticas sociais excessivamente simplificadas.
Por exemplo, a idéia de que a dependência de substância é uma doença categorial
leva, por ela mesma, a uma simplificação no caso do álcool, isto é, que se as
pessoas que são geneticamente vulneráveis à dependência de álcool forem
identificadas, então se assumiria que o resto da população pode usar álcool sem
desenvolver dependência (Hall e Sannibale, 1996). Essa visão não leva em consideração os efeitos adversos para a saúde pública da intoxicação pelo álcool.
Também está em desacordo com a natureza multidimensional do uso de álcool e
de drogas ilícitas e dos sintomas da dependência de substância e com a evidência genética de que múltiplos genes estão envolvidos na vulnerabilidade da
dependência de substância (ver Cap. 5). Isso também pode levar os usuários a
abdicarem da responsabilidade pelo seu comportamento (Nelkin e Lindee, 1996)
e a uma preocupação com a explicação individual do comportamento com uma
correspondente falta de atenção para causas sociais remediáveis e opções de
política social para reduzir a prevalência da dependência de substância, incluindo políticas de controle de drogas.
As implicações de uma visão neurocientífica da dependência de substância
para a política de controle de drogas (ver a seguir) também não são tão simples
quanto poderiam parecer. A exposição ao uso de droga continua sendo uma
condição necessária para o desenvolvimento da dependência de substância. Portanto, o esforço da sociedade ainda precisa ser feito (seja por meio de leis criminais,
ou de medidas de saúde pública) para limitar o acesso às drogas pelos jovens
(Leshner, 1997). A desaprovação social permanece um importante meio de
desencorajar o uso de droga. Espera-se que as explicações neurocientíficas da
dependência de substância possam mitigar a estigmatização e o ostracismo social de pessoas com dependência de substância. Demonstrações de uma melhor
relação custo-benefício do tratamento em comparação com o aprisionamento
podem também fornecer uma justificativa econômica para uma resposta mais
humana, assim como mais efetiva e eficiente, da sociedade para dependência de
substância.
O desafio para a comunidade neurocientífica no campo da dependência da
substância é explicá-la em termos biológicos sem encarar as pessoas com dependência química como autômatos controlados pelos receptores do seu cérebro
(Valenstein, 1998). Isso significa ver a dependência de substância como o resultado, em parte, de escolhas que são feitas pelo indivíduo, nem sempre de maneira
independente. No caso de jovens, muitos deles atuam com uma visão a curto
prazo, uma sensação de invulnerabilidade pessoal e com ceticismo a respeito
dos avisos dos mais velhos sobre os riscos do uso de substância. Adolescentes
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são particularmente mais vulneráveis a pressões de propaganda, especialmente
a respeito do uso de tabaco e de álcool. Também significa ver a dependência de
substância como uma questão de grau, com os usuários dependentes de droga
mantendo a capacidade de escolher tornarem-se abstinentes e de procurar ajuda
para isso. Isso também significa reconhecer que o tratamento farmacológico é
apenas o início do processo de recuperação e reintegração da pessoa dependente
de droga à comunidade. Além disso, será necessária atenção para uma gama
mais abrangente de políticas sociais na procura da prevenção do uso de drogas
por jovens (Spooner e Hall, 2002).
Implicações da Pesquisa Neurocientífica para o Tratamento da
Dependência de Substância
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Acesso ao Tratamento
Se os tratamentos farmacológicos derivados da pesquisa neurocientífica provarem ser efetivos, a questão de se assegurar acesso eqüitativo ao tratamento por
todos aqueles que podem necessitar dele é uma questão ética que precisa ser
abordada. Se uma proporção substancial de pessoas dependentes de substância
for incapaz de ter acesso ao tratamento por não poderem arcar com ele, o financiamento público pode ser necessário (Gerstein e Harwood, 1990). Provisões
públicas para esse tratamento irão exigir justificativa econômica, especialmente
no caso de pessoas que sejam dependentes de drogas ilícitas, muitas das quais
serão indigentes e incapazes de pagar pelo seu tratamento. Os defensores para o
subsídio público para o tratamento para droga deverão tornar claros os custos
econômicos e sociais comparativos de tratar pessoas dependentes de droga contra a política corrente em muitos países de enfrentar a dependência de substância
apenas pelo sistema de justiça criminal (Gerstein e Harwood, 1990; National
Research Council, 2001).
Tratamento legalmente Compulsório
O uso potencial de um tratamento farmacológico para a dependência de substância ou de uma imunoterapia para a droga sob coação legal precisa ser
considerado (Cohen, 1997). Esse é freqüentemente o primeiro uso possível levantado quando o conceito de imunoterapia para a droga é mencionado; a preocupação
da comunidade sobre esta maneira de utilizar as imunoterapias para droga deve
também afetar negativamente atitudes para outros usos terapêuticos. Assim, essa
questão precisa ser discutida, mesmo que exista um longo percurso até a sua
realização. Existem boas razões para se ter cuidado sobre qualquer uso coercitivo
de tratamento farmacológico ou imunoterapia para droga. A comunidade tem
pouca simpatia por criminosos dependentes de droga que se engajam em crimes
relacionados à propriedade ou em outros crimes, então deve-se ter uma atenção
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particular para a proteção dos direitos legais e humanos daqueles que cometem
crimes relacionados à droga.
O Racional para o Tratamento sob Coação Legal
Formas de Coação Legal
Os praticantes de crimes podem ser coagidos a iniciar um tratamento para a
droga de diversas maneiras (Gostin, 1991; Spooner et al., 2001). Após um crime
ter sido constatado, a polícia pode decidir não acusar seu praticante se ele concordar em iniciar um tratamento para droga. Essa forma de coação não é,
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O tratamento legalmente compulsório é dirigido para pessoas acusadas ou condenadas por um crime para o qual a sua dependência de substância tenha
contribuído. É mais freqüentemente oferecido como uma alternativa à prisão e,
geralmente, sob essa ameaça se a pessoa falhar no cumprimento do tratamento
(Hall, 1997; Spooner et al., 2001).
Uma das principais justificativas para o tratamento sob coerção é que esta é
uma maneira efetiva de tratar dependentes de substância que cometem crimes e
que irá reduzir a probabilidade de reincidência (Gerstein e Harwood, 1990;
Inciardi e McBride, 1991). Essa abordagem foi, historicamente, utilizada, com
mais freqüência, no tratamento de praticantes de crimes que são dependentes de
heroína (Leukefeld e Tims, 1988), embora tenha sido mais recentemente usada
com praticantes de crimes dependentes de cocaína em tribunais de drogas nos
EUA (National Research Council, 2001). Uma questão é se deveria haver um
maior grau de eficácia comprovada para o tratamento compulsório em vez do
tratamento voluntário. Outra questão é que se o tratamento é imposto por um
tribunal, pode haver uma tendência para que o período de tratamento dure tanto
quanto duraria a prisão. Portanto, a forma e a duração do tratamento seriam
definidas por critérios que se relacionam com o sistema judicial e não necessariamente com as melhores práticas terapêuticas.
O advento do HIV/AIDS forneceu um argumento adicional para o tratamento
em vez do aprisionamento de praticantes de crimes dependentes de droga. Prisioneiros que injetam drogas têm mais risco de ter contraído o HIV e da hepatite C
pelo compartilhamento de agulhas antes do aprisionamento (Dolan, 1996). Eles
estão sob o risco de transmitir essas doenças infecciosas para outros prisioneiros
pelo compartilhamento de agulhas e atos sexuais com penetração enquanto estão na prisão (Vlahov e Polk, 1988) e também para seus parceiros sexuais antes
ou depois da prisão. Fornecer o tratamento para droga sob coerção na comunidade é uma maneira de reduzir a transmissão do HIV. Os argumentos correcionais
e de saúde pública para o tratamento para a droga sob coerção são reforçados
pelo argumento econômico de que é menos custoso tratar os praticantes de crimes que são dependentes de drogas na comunidade do que aprisioná-los (Gerstein
e Harwood, 1990).
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geralmente, vantajosa, pois não está sob supervisão judicial e, portanto, está
suscetível a abusos. A coação para o tratamento também pode ocorrer após a
acusação do praticante do delito e antes do processo pelo tribunal. Esse é o caso
nos tribunais de droga dos EUA, onde o julgamento pode ser adiado até que o
tratamento seja completado (General Accounting Office, 1995).
Um praticante de delito pode ser coagido para o tratamento após a condenação. Se isto for feito antes da sentença, a corte pode tornar o término do tratamento
uma condição para suspendê-la. Alternativamente, um praticante de delito pode
ser encorajado a iniciar o tratamento para a droga para ajudá-lo a permanecer
abstinente enquanto a sentença é suspensa. O tratamento para a droga também
pode ser exigido após parte da sentença ter sido cumprida: o envolvimento no tratamento para a droga pode ser uma condição para a liberdade condicional. Como
alternativa, o envolvimento no tratamento para a droga pode ser encorajado
como uma maneira de permanecer livre de drogas ilícitas enquanto em liberdade condicional.
Questões Éticas no Tratamento sob Coação
O tratamento compulsório envolve o uso do poder do estado para obrigar as
pessoas a receber tratamento e, portanto, inevitavelmente levanta questões éticas e de direitos humanos (Mann, 1999). Evidências dos EUA sugerem que o
tratamento para a dependência de heroína, como a manutenção com metadona,
comunidades terapêuticas e aconselhamento para permanecer livre de drogas, é
benéfico para aqueles que o recebem (Gerstein e Harwood, 1990). Entretanto,
os benefícios para qualquer indivíduo são ainda incertos uma vez que o tratamento tem comparecimento de apenas 50% daqueles que recebem a indicação
(Gerstein e Harwood, 1990) e a recaída no uso de heroína após o tratamento é
alta. O tratamento para a dependência de cocaína é muito menos eficaz do que o
tratamento para dependência de opióide (Platt, 1997). Isso enfraquece a justificativa ética do compromisso civil com a dependência de cocaína, mas não descarta
formas menos coercitivas de tratamento.
Uma visão consensual do tratamento para droga sob coação preparada pela
Organização Mundial da Saúde (OMS) (Porter, Arif e Curran, 1986) concluiu
que esse tratamento só é legal e eticamente justificado se os direitos dos indivíduos forem protegidos por processo adequado (de acordo com os princípios dos
direitos humanos) (Mora, 2000) e se tratamento eficaz e humano for fornecido
(Stahl, 1996).
Os benefícios incertos do tratamento sob coação levaram alguns proponentes
a argumentar que os praticantes de crimes devem ter duas escolhas compulsórias
(Fox, 1992). A primeira escolha compulsória seria se eles querem ou não participar do tratamento para a droga. Se eles declinarem o tratamento, eles serão
tratados pelo sistema judiciário criminal da mesma maneira que qualquer outro
acusado pelo mesmo crime. A segunda escolha compulsória seria dada àqueles
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Resumo e Conclusões
A dependência de substância é uma questão de saúde pública e pessoal séria ao
redor do mundo. Muitas formas de dependência de substância são difíceis de
tratar devido à ausência de tratamentos psicossociais ou farmacológicos eficazes.
Estudos experimentais sobre as bases neurobiológicas da dependência de
substância em humanos levantam uma série de questões éticas, uma das quais é
a capacidade das pessoas dependentes de fornecer consentimento para participar desses estudos. Uma vez que os participantes não estejam intoxicados ou
sofrendo de sintomas agudos de abstinência no momento de fornecer o consentimento, não existe uma razão clara para acreditar que as pessoas que são
dependentes de substância não possam dá-lo livre e esclarecido. Os riscos da
administração de drogas e o uso de métodos de neuroimagem nesses experimentos, de maneira geral, não impõem riscos sérios aos participantes.
As questões éticas levantadas por ensaios clínicos de novas terapias farmacológicas vêm sendo extensamente debatidas e existe um consenso sobre as
condições que devem ser cumpridas. Estas incluem consentimento livre e informado, uma razão risco-benefício aceitável e proteção da privacidade do participante e da confidencialidade. Os ensaios clínicos com pessoas dependentes de
substância requerem atenção especial ao consentimento informado, no sentido
de assegurar que as pessoas não estejam intoxicadas ou experimentando sintomas de abstinência ao decidir participar do ensaio clínico. Comparações com
placebo podem ser eticamente aceitáveis nestes ensaios se não houver farmacoterapia eficaz e caso também seja oferecido tratamento psicossocial de boa
qualidade aos participantes.
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que concordassem em participar do tratamento para a droga: a eles seria dada a
chance de escolher o tipo de tratamento que irão receber. Existe algum
embasamento empírico para essas recomendações, uma vez que existe evidência para uma melhor eficácia do tratamento sob coação que exija algum interesse
voluntário pelo praticante do crime (Gerstein e Harwood, 1990).
A forma mais defensável eticamente de tratamento compulsório legal para
praticantes de crimes dependentes de droga é o uso do aprisionamento como um
incentivo para o início do tratamento e o medo de retornar à prisão como uma
razão para aderir ao tratamento para a droga. Os praticantes de crimes devem ter
uma escolha compulsória se farão o tratamento ou não e, se escolherem por
fazê-lo, eles devem poder escolher entre uma gama de opções de tratamento.
Além disso, o processo deve estar sujeito à supervisão e à revisão judicial.
No caso de serem utilizados imunoterapias e tratamentos farmacológicos sob
coação legal, sua segurança, eficácia e custo-benefício devem ser rigorosamente
avaliados (National Research Council, 2001). Qualquer desses usos deve ser cuidadosamente testado em ensaios clínicos e avaliado e utilizado apenas após considerável
experiência ter sido adquirida com o uso terapêutico em pacientes voluntários.
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As intervenções farmacológicas preventivas para a dependência de substância não existem ainda e provavelmente serão bastante controversas se forem
desenvolvidas. É uma possibilidade que surjam em larga medida no futuro com
o desenvolvimento de intervenções que têm o potencial de uso preventivo, principalmente por estarem entre elas as imunoterapias para drogas. As questões
éticas levantadas por estas abordagens precisam ser debatidas agora. Os riscos
de estigmatização e de discriminação que surjam com qualquer intervenção preventiva que identifique sujeitos em alto risco precisarão ser enfrentados. Da
mesma forma, questões sobre o consentimento de menores e os riscos potenciais
para os participantes de intervenções imunológicas também precisarão.
O uso de farmacoterapias e imunoterapias para drogas sob coação legal,
provavelmente, será controverso. É uma política eticamente defensável se o processo estiver sob supervisão judicial e se aos praticantes de crimes forem
oferecidas escolhas compulsórias sobre se aceitam ou não o tratamento e o tipo
de tratamento que aceitam. Qualquer uso compulsório da imunoterapia para
cocaína deve ser feito com cuidado e apenas após experiência clínica considerável do seu uso em pacientes voluntários. Ela deve ser testada em ensaios clínicos
e sua segurança, eficácia e custo-benefício devem ser rigorosamente avaliados.
Essa avaliação também precisa examinar qualquer conseqüência adversa ética
ou social.
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CAPÍTULO 8
CONCLUSÃO E IMPLICAÇÕES PARA
POLÍTICAS DE SAÚDE PÚBLICA
Introdução
Existe atualmente um entendimento muito melhor dos mecanismos de ação de
diferentes substâncias psicoativas no cérebro e do porque as pessoas experimentam prazer ou alívio da dor ao utilizá-las. As substâncias diferem em relação à
classe particular de receptores em que atuam no cérebro, mas existem semelhanças consideráveis entre elas. As vias neurais que as substâncias psicoativas
influenciam são aquelas também influenciadas por muitos outros comportamentos
humanos incluindo ingerir uma refeição, manter relações sexuais e jogar por
dinheiro. Nesse sentido, o uso das substâncias psicoativas, pelo menos inicialmente, é parte de um espectro de comportamentos humanos que potencialmente
trazem prazer ou evitam a dor. Dependendo da via de administração, as substâncias podem ter um efeito especialmente intenso e altas concentrações de algumas
delas são fatais.
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Avanços na Neurociência do Uso e da Dependência
de Substâncias Psicoativas e suas Implicações
As substâncias psicoativas também diferem nos seus efeitos biológicos não neurais.
A forma e o meio de administração da substância são importantes nessa dimensão.
O potencial de efeitos adversos para a saúde da nicotina consumida na forma de
cigarro é alto em comparação com a nicotina em gomas de mascar. Existe, portanto,
um forte interesse de saúde pública em diferenciar a disponibilidade de diferentes
formas da substância de acordo com seus efeitos adversos para a saúde.
À parte os seus efeitos biológicos tóxicos, existem dois outros mecanismos pelos quais as substâncias psicoativas podem ter efeitos adversos na saúde e sociais,
como descrito no Capítulo 1 (ver Fig. 1.2). Um é pelos seus efeitos psicoativos e,
particularmente, pela intoxicação. As diferentes substâncias psicoativas diferem na
natureza e na gravidade dos efeitos da sua intoxicação. Os do álcool, por exemplo,
são intensos e o potencial para conseqüências adversas acidentais, dessa forma, grande,
enquanto os efeitos da nicotina, da forma como geralmente é consumida, são pequenos. Limitar os danos da intoxicação, não apenas para o usuário de substância, mas
também para os outros, é um objetivo importante das restrições orientadas pela saúde pública no uso de substâncias psicoativas.
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O terceiro mecanismo principal pelo qual as substâncias psicoativas podem
ter efeitos adversos é a dependência. Como tecnicamente definido, o conceito
de dependência inclui elementos que são mensuráveis diretamente, tais como a
tolerância e a abstinência e outros que são cognitivos ou subjetivos, como a fissura
e a perda ou comprometimento do controle. Esses últimos elementos podem ser
mensurados ou inferidos de medidas biológicas, mas não podem ainda ser medidos diretamente. Portanto, embora a pesquisa neurocientífica possa medir
diretamente estados e efeitos que são relevantes para os conceitos de dependência, não pode medir a dependência propriamente dita. A dependência é vista
como um contribuidor importante para os danos para a saúde e sociais do uso de
substâncias psicoativas de acordo com sua definição como força motriz do uso
continuado. De fato, um elemento da definição de dependência é a imputação
retroativa da ocorrência de danos: que o uso continuou apesar do conhecimento
de danos (ver Quadro 1.2, critério 3, Cap. 1). A força do efeito de vários componentes da dependência difere entre as diferentes substâncias psicoativas e de
acordo com a dosagem e o esquema de doses. O potencial de uma dada substância
de produzir vários aspectos da dependência também é afetado pelas circunstâncias socioculturais em que ela é usada e pela herança genética individual.
A dependência é um transtorno complexo; a forma como um indivíduo se
torna dependente de drogas é provavelmente tão complexa quanto o próprio
cérebro. Alguns aspectos da síndrome são claros, mas ainda é preciso aprender
sobre muitos deles, por exemplo, nas áreas da fissura e da perda de controle.
Não existe relação linear entre a quantidade de substância utilizada e a gravidade
da dependência, nenhuma relação simples entre o padrão de uso e o início da
dependência e nenhuma relação fixa entre a experimentação e a dependência.
Portanto, apesar de nosso conhecimento sobre questões como a vulnerabilidade,
os mecanismos da tolerância, da abstinência e da fissura, não podemos atualmente
prever quem irá perder o controle, usar excessivamente e se tornar dependente.
Muito ainda precisa ser aprendido sobre esses processos ao se estudar a neurociência e a ciência social dos comportamentos relacionados à dependência.
Dessa forma, um lado dos achados da neurociência tem sido enfatizado:
como as substâncias psicoativas atuam em termos da herança biológica comum compartilhada por todos os humanos. O outro lado da pesquisa neurocientífica,
refletido no Capítulo 5 e parcialmente no Capítulo 6 é, em alguma extensão,
uma contraposição a isso. A pesquisa genética foca as diferenças de ação das
substâncias entre um humano e outro que são atribuíveis a diferentes heranças
genéticas. Os achados nessa literatura sugerem que a genética modula muitos
aspectos das ações das substâncias psicoativas em humanos. Portanto, as diferenças genéticas podem tornar o uso da substância mais ou menos prazeroso ou
aversivo para um indivíduo em particular e pode afetar a toxicidade da substância, tanto em termos de overdose como de efeitos crônicos para a saúde. A genética
também pode afetar a intensidade dos efeitos psicoativos de uma dada formula-
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ção e dose de uma substância, assim como a probabilidade da ocorrência de
diferentes aspectos da dependência, isto é, tolerância e abstinência, e dos aspectos que não são biologicamente mensuráveis de maneira direta.
Da mesma forma que com o nosso conhecimento dos mecanismos da dependência, muito precisa ser aprendido sobre sua genética. Estamos muito distantes
da identificação genética dos indivíduos que se tornarão dependentes ou que irão
experimentar drogas. A vulnerabilidade genética nos diz pouco sobre a probabilidade de uso de substâncias psicoativas e de problemas relacionados a ele.
Existe a necessidade dos governos darem suporte, na extensão que for possível, à pesquisa neurocientífica, para desenvolver um quadro de especialistas
para facilitar a ligação entre a neurociência e a ciência social. Os governos de
países desenvolvidos devem fornecer suporte para colaborações internacionais
e ajudar os países em desenvolvimento a obter capacitação local.
Avanços Potenciais em Política, Prevenção e Tratamento
a partir dos Achados Neurocientíficos
Os achados neurocientíficos dos últimos anos transformaram nosso entendimento
sobre as ações das substâncias psicoativas. Esse conhecimento deve ser utilizado
não apenas para a prevenção e o tratamento dos transtornos e dos problemas
decorrentes do uso agudo ou crônico destas substâncias, mas também para atualizar a forma como são controladas tanto por convenções internacionais sobre
drogas como por leis e políticas nacionais e locais.
Sob a luz dos achados neurocientíficos, existe um entendimento crescente de
que os transtornos do uso de substância são como muitos outros transtornos,
tendo determinantes biológicos, psicológicos e sociais. Entretanto, uma diferença fundamental no caso da dependência de substância é o extremo estigma
que esse transtorno enfrenta em muitas sociedades. Um estudo da Organização
Mundial da Saúde (OMS) sobre as atitudes perante 18 problemas de saúde em
14 países descobriu que a adicção a drogas esteve no topo do ranking ou próximo
dele, em termos de desaprovação social ou estigma e que o alcoolismo esteve logo
abaixo na maioria das sociedades (Room et al., 2001). A reintegração de pessoas
tratadas para problemas com o uso de substâncias psicoativas à sociedade irá
exigir o desenvolvimento e a disseminação de abordagens efetivas para reduzir
esse estigma.
Com relação às estratégias de prevenção, a principal aplicação potencial dos
achados neurocientíficos até o momento pode vir dos estudos genéticos. As triagens genéticas, com base em achados de pesquisa, podem potencialmente
identificar subgrupos da população com uma maior suscetibilidade para dependência ou danos de um grupo particular de substâncias psicoativas. Até o presente,
essa possibilidade está mais para o terreno das probabilidades do que das certezas. As ações que poderiam ser tomadas com base em uma triagem positiva
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Questões Éticas na Aplicação dos Achados Neurocientíficos
Em sentido amplo, as questões éticas sempre foram importantes no uso de substâncias psicoativas e na resposta da sociedade a esse uso. Se elas devem ser
usadas de alguma forma, permanece uma questão controversa. Dessa maneira,
por exemplo, o Islamismo e alguns braços de outras religiões mundiais principais
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poderiam incluir a notificação da pessoa (ou dos parentes ou responsáveis no
caso de uma criança) e as intervenções preventivas como educação terapêutica
ou intervenções voltadas para a redução da vulnerabilidade para o uso ou dependência de substância. Possíveis medidas preventivas resultantes de outras
pesquisas neurocientíficas incluem as imunoterapias preventivas, por exemplo,
contra cocaína ou nicotina, feitas ou na população em geral ou naqueles identificados geneticamente ou de outra forma como de alto risco. Como discutido no
Capítulo 7 e a seguir, existem importantes considerações éticas em qualquer
triagem genética ou imunoterapia preventiva.
Com relação às estratégias de tratamento derivadas da pesquisa neurocientífica, as imunoterapias poderiam, presumivelmente, ser utilizadas em casos
que procurem tratamento. Desenvolvimentos futuros na neurociência poderão
produzir modificações genéticas que poderiam modificar a suscetibilidade para
o uso ou dependência de uma classe particular de substâncias, embora esses
desenvolvimentos sejam vistos como muito distantes no futuro.
À parte o descrito anteriormente, parece haver duas opções principais em
termos de intervenções biológicas. Ambas já estão em cena e o principal retorno
da pesquisa neurocientífica provavelmente ocorrerá em melhorias na medicação em particular ou na formulação utilizada. A primeira escolha é o uso de
medicamentos ou procedimentos que interfiram de uma forma ou de outra com
a ação da substância no corpo, retirando os reforços positivos do uso da substância ou tornando seu uso aversivo. Essas medicações estão em uso há mais de
meio século. A extensa experiência sugere que o principal problema com estas
intervenções é a falta de adesão do paciente, pois aqueles com história de extenso
uso de uma substância, freqüentemente, mostram-se incapazes de manter qualquer acordo que tenham feito para usar continuamente a substância antagonista
ou aversiva.
A outra escolha é o uso de substâncias que são agonistas completos ou parciais, substituindo a substância ou o modo de administração problemático por
outro que produza pelo menos alguns dos mesmos efeitos biológicos e subjetivos. Essa escolha tem sido mais amplamente explorada e utilizada para opióides,
como a codeína, a metadona, a buprenorfina e outras substâncias que substituem a
heroína ou outros opiáceos. A terapia de reposição de nicotina, que substitui
os cigarros, é atualmente amplamente utilizada, desta forma eliminando muitos
dos danos para a saúde pública.
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proíbem o uso de álcool para os fiéis. Os julgamentos éticos estão registrados
nas principais convenções internacionais para o controle de drogas (ver Quadro 1.1,
Cap. 1). Por outro lado, os argumentos contra a criminalização do uso de substância
também são freqüentemente expressos em termos éticos (por exemplo, Husak, 2002).
No contexto mais estreito da ética nos serviços, pesquisas e intervenções de
saúde em humanos, o Capítulo 7 considera com algum detalhamento várias questões éticas que são relevantes para a pesquisa neurocientífica e para a aplicação
de seus achados. Apenas alguns desses são enfatizados aqui, com referência
particular a suas aplicações potenciais mencionadas.
Talvez as mais urgentes considerações éticas surjam em torno da questão da
triagem genética, que já está no horizonte. Uma pessoa identificada pela triagem genética como estando vulnerável ou em risco é potencialmente prejudicada
de diversas formas. Em primeiro lugar, a auto-estima da pessoa pode ser reduzida;
como uma exigência mínima, um benefício substancial tangível da identificação
seria necessário para contrabalançar o risco. Os interesses financeiros e de status
da pessoa podem ser adversamente afetados se a identificação se tornar disponível para qualquer outra pessoa; por exemplo, uma companhia de seguros pode
recusar o seguro, um empregador pode não empregá-la, alguém pode recusá-la
para se casar. No presente, em muitos países, esses efeitos adversos da identificação não são, de forma alguma, teóricos: por exemplo, companhias de seguro
podem ter acesso rotineiro a registros de saúde ou podem requerer esse acesso
como uma condição para fazer o seguro (dessa forma, coagindo o consentimento).
Há uma necessidade urgente de considerar as questões éticas levantadas por
essas identificações genéticas ao se fornecer serviços de saúde em um contexto
internacional, assim como nas esferas nacionais e locais. A questão não se limita
ao campo do uso e da dependência de substâncias psicoativas e a OMS elaborou
considerações gerais para essas questões no contexto de aconselhamento genético.
Por exemplo, as “diretrizes éticas propostas para testes e triagens genéticas”
(WHO, 1998) afirmam que “os resultados não devem ser disponibilizados para
empregadores, seguradoras, escolas ou outros sem o consentimento do indivíduo com o objetivo de evitar possível discriminação”. Entretanto, conforme a
genética aumenta seu poder preditivo, a estigmatização e a discriminação muitas vezes associadas ao uso de substâncias psicoativas tornam essa questão
particularmente urgente e requerem ações que vão além dessas diretrizes gerais.
Como discutido no Capítulo 5, o uso das imunoterapias e de outras intervenções neurológicas, em especial na medida em que forem irreversíveis, trará
questões éticas difíceis. Os achados neurocientíficos de que o uso de substâncias
psicoativas compartilha muitas vias cerebrais com outras atividades humanas
levanta a questão de quais outros prazeres e atividades podem ser afetados adversamente por estas intervenções. A aplicação de modificações genéticas,
particularmente se hereditárias, levantaria muitas das mesmas questões éticas
atualmente discutidas no contexto da clonagem humana.
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As principais questões a respeito das terapias que interferem com os efeitos
psicoativos do uso de substâncias ou que sejam aversivas são a necessidade do
paciente consentir com o tratamento, a capacidade do paciente de fazê-lo e a
ética do tratamento sob coação (ver Cap. 7). As medicações, ou outras intervenções biológicas, em questão aqui são apenas um aspecto dos meios pelos quais
as sociedades ou grupos coagem os indivíduos para comportamentos não desejados e todos estes meios estão sujeitos a considerações éticas similares. Uma
consideração adicional para medicações prescritas e procedimentos médicos são
as proibições e obrigações éticas pelas quais os médicos e outros profissionais
de saúde são guiados (por exemplo, Declaração de Helsinki, ver Quadro 7.1,
Cap. 7). Além disso, qualquer modalidade de tratamento que seja coerciva deve,
presumivelmente, ter se mostrado eficaz.
A terapia de substituição – utilizando um medicamento que seja farmacologicamente relacionado à substância que produz dependência – é freqüentemente
controversa, com o argumento colocado em termos éticos. Por um lado, é considerado antiético o estado, ou o profissional de saúde, contribuir para a continuidade
da dependência, mesmo se em um regime de substituição. Por outro lado, os
contra-argumentos das reduções demonstradas nos danos à sociedade (por exemplo, da atividade criminal) ou para o indivíduo (por exemplo, infecção pelo vírus
da imunodeficiência humana [HIV]) pela terapia de substituição também são
éticos em sua essência. A aceitação geral da terapia de reposição de nicotina
pode ser encarada como uma indicação de uma mudança gradual na visão de
que a dependência propriamente dita seja o dano, para um foco da saúde pública
nos danos sociais e de saúde que vêm do uso, seja dependente ou não.
Deve-se notar que os tópicos discutidos aqui e no Capítulo 7 não esgotam a
gama de questões éticas que envolvem as substâncias psicoativas no contexto da
prática e da pesquisa em saúde. Por exemplo, problemas éticos especiais surgem
quando medicações psicoativas são usadas para tratar problemas comportamentais
em crianças; isto pode trazer problemas que durem toda a vida (isto é, predispondo-as a uso problemático de drogas posteriormente) e pode refletir prescrição
excessiva dessas substâncias. Outro exemplo é a ética dos estudos de período livre
de drogas para estudar medicações psicoativas, nos quais os pacientes em instituições de tratamento entram em ensaios clínicos nos quais primeiro param de tomar
todas as medicações psicoativas que estejam tomando (seja por automedicação ou
por prescrição) para avaliar sua condição basal.
Certo número de questões conceituais e políticas pode ser abordado por
organizações científicas e agências intergovernamentais sob a luz desses desenvolvimentos neurocientíficos e de outras pesquisas. Elas incluem matérias como
a base conceitual e os achados empíricos relevantes para as definições de dependência e outros transtornos do uso de substâncias na Classificação Internacional
de Doenças – 10ª revisão (CID-10) e no Manual para Diagnóstico e Estatística
4ª edição (DSM-IV); a eficácia dos tratamentos para os transtornos de uso de
Conclusão e Implicações para Políticas de Saúde Pública – 235
substância e o lugar deles nos sistemas de serviços de saúde e sociais e, em
particular, a eficácia, a disponibilidade e a ética do uso de medicações e outras
intervenções biomédicas no tratamento. Como discutido anteriormente neste
capítulo, cada terapia atualmente em uso ou ainda no horizonte carrega seu próprio conjunto de questões éticas e estas deveriam ser consideradas no contexto
do desenvolvimento de padrões internacionais para os direitos humanos em serviços de saúde.
A OMS já exerce o papel de um árbitro científico nos aspectos científicos e
médicos da classificação de substâncias controladas através dos tratados de controle de droga internacionais (Bruun, Pan, Rexed, 1975; Bayer e Ghodse, 1999).
Ela exerce seu papel primariamente por meio de um Comitê de Experts em
Dependência de Drogas, que se encontra a cada dois anos. Como agência
intergovernamental com responsabilidade primária pela saúde pública global, a
OMS tem responsabilidades e interesses a respeito das substâncias psicoativas
que vão além do escopo dos tratados internacionais. Um meio de abordar essas
responsabilidades mais amplas foi expandir o escopo do Comitê de Experts,
pelo menos em alguns anos (WHO, 1993), com o objetivo de cobrir toda a gama
de substâncias psicoativas e de considerar uma abordagem de saúde pública
mais ampla. Entretanto, alcançar um julgamento de excelência e a construção
de uma resposta global a respeito dessas matérias irá exigir outros recursos e
especialistas além dos mecanismos existentes no Comitê de Experts da OMS.
Implicações para Políticas de Saúde Pública
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Uma porção substancial dos prejuízos globais das doenças e incapacitações são
atribuíveis ao uso de substâncias psicoativas. Por sua vez, uma porção substancial do prejuízo atribuível ao uso de substância está associada à dependência.
O uso de tabaco e de álcool são particularmente contribuidores proeminentes
para o prejuízo total. Medidas para reduzir o risco de dano pelo tabaco, álcool e
outras substâncias psicoativas são, portanto, uma parte importante da política
de saúde.
A neurociência é um campo de pesquisa científica que cresce rapidamente.
Embora a base de conhecimento esteja longe de ser completa, há uma quantidade considerável de dados úteis, com enorme potencial para influenciar as políticas
para reduzir os prejuízos das doenças e das incapacitações associadas com uso
de substância. As seguintes recomendações são feitas para facilitar maior abertura e para assistir a todos os financiadores em ações de mobilização:
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• Todas as substâncias psicoativas podem ser prejudiciais para a saúde, dependendo de como são utilizadas, em que quantidades e com que freqüência.
O dano difere entre substâncias e a resposta de saúde pública ao uso de
substância deve ser proporcional ao dano que elas causam à saúde.
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• O uso de substâncias psicoativas é esperado devido aos seus efeitos prazerosos, assim como pela pressão e contexto social do uso. A experimentação não necessariamente leva à dependência, mas quanto maior a
freqüência e a quantidade de substância utilizada, maior o risco de se tornar dependente.
• O dano à sociedade não é causado apenas por indivíduos com dependência de substância. Dano significativo também vem de indivíduos não
dependentes, originando-se de intoxicação aguda e de overdose e da forma
de administração (por exemplo, pelo uso de injeções não seguras). Existem, entretanto, políticas de saúde pública efetivas e programas que podem
ser implementados e que levarão à redução significativa no prejuízo global
relacionado ao uso de substância.
• A dependência de substância é um transtorno complexo com mecanismos
biológicos que afetam o cérebro e sua capacidade de controlar o uso de
substância. Ela não é determinada apenas por fatores biológicos e genéticos, mas também por fatores psicológicos, sociais, culturais e ambientais.
Atualmente, não existem meios de identificar aqueles que se tornarão dependentes, seja antes ou depois do início do uso de drogas.
• A dependência de substância não é uma falha da vontade ou da força do
caráter, mas um transtorno médico que pode afetar qualquer ser humano.
A dependência é um transtorno crônico e recidivo, que freqüentemente
ocorre concomitantemente com outras condições mentais e físicas.
• Existe co-morbidade significativa da dependência de substância com várias
doenças mentais; a avaliação, o tratamento e a pesquisa seriam mais efetivos se uma abordagem integrada fosse adotada. O entendimento do
tratamento e da prevenção de outras doenças mentais ou da dependência
de substância pode ser utilizado para melhorar as estratégias de prevenção
e de tratamento no domínio do outro. Portanto, é necessário atenção para
a co-morbidade entre os transtornos do uso de substância e outros transtornos mentais como um elemento da boa prática no tratamento ou nas
intervenções tanto para as doenças mentais como para a dependência de
substância.
• O tratamento para a dependência de substância não visa apenas parar o uso de
drogas – é um processo terapêutico que envolve mudanças comportamentais,
intervenções psicossociais e, freqüentemente, o uso de uma droga psicotrópica
substituta. A dependência pode ser tratada e manejada pesando custos e benefícios, salvando vidas, melhorando a saúde de indivíduos afetados e de suas
famílias e reduzindo os custos para a sociedade.
• O tratamento deve ser acessível para todos que necessitarem dele. Existem intervenções efetivas e que podem ser integradas aos sistemas de saúde,
incluindo o sistema de saúde primário. O setor de assistência à saúde deve
fornecer os tratamentos com o melhor custo-benefício.
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• Uma das principais barreiras para o tratamento e para a assistência de
pessoas com dependência de substância e problemas relacionados é o estigma e a discriminação contra elas. Independentemente do nível de uso e
de qual substância um indivíduo usa, ele tem o mesmo direito à saúde, à
educação, a oportunidades de trabalho e de reintegração à sociedade como
qualquer outro indivíduo.
• Os investimentos em pesquisa neurocientífica devem continuar e se expandir para incluir investimentos em ciência social, prevenção, tratamento
e política de pesquisa. A redução nos prejuízos do uso de substância e
transtornos relacionados deve se apoiar em políticas baseadas em evidências e em programas resultantes de pesquisas e de suas aplicações.
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Conclusão
Esta publicação resumiu os avanços no nosso entendimento da neurociência do
uso e da dependência de substâncias psicoativas nas últimas décadas e considerou
algumas das questões éticas que estão conectadas com estes avanços. Os desenvolvimentos da neurociência aumentaram muito nosso conhecimento sobre o
uso e a dependência de substância e o conhecimento novo coloca desafios substanciais em relação às escolhas éticas na aplicação dos seus frutos, tanto global
como localmente. Corpos organizacionais e profissionais relevantes devem ter
um papel principal na superação desses desafios tanto na esfera global como na
regional.
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ÍNDICE REMISSIVO
A
C
Abstinência alcoólica, 74
Acetaldeído, 72
Acetilcolina, 34, 90, 165
Acidente vascular cerebral, 19,
210
Ácido
araquidônico, 89
desoxirribonucléico, 27
gama-aminobutírico, 32
ribonucléico mensageiro, 37
Adesivo transdérmico, 81
Agressividade, 142
Agulhas, compartilhamento, 222
Alcatrão, 81, 164
Álcool, 5, 39, 71
desidrogenase, 131
efeito sedativo, 72
intoxicação, 220
Aldeído-desidrogenase, 130
Alucinógenos, 2, 35, 107
Anestésicos, 105
Anfetamina, 29, 51, 97
Animais
experimentos, 197
transgênicos, 125
Ansiedade, 100, 179
Anticorpos, 217
Antidepressivo tricíclico, 175
Antipsicóticos, 166
Apetite, 80
perda, 103
Área tegmentar ventral, 137
Atividade locomotora, 55
Automedicação, 2
Autonomia, 204
Axônio, 29
Camundongos knock-out, 94
Canabinóides, 88
Câncer de pulmão, 11, 78
Cannabis, 89, 135
Catecolaminas, 100
Células-tronco embrionárias, 125
Cérebro, 90
transtornos, 19
Cetamina, 109, 171
Choques eletroconvulsivos, 180
Circuitos orbitofrontais, 94
Clonagem humana, 233
Clozapina, 165
Cocaína, 9, 29, 56, 92
Colecistocinina, 143
Comportamento anti-social, 140
Condicionamento
instrumental, 47
Consentimento informado, 207
Coriza nasal, 84
Corrente sanguínea, 71
Córtex, 21
cerebral, 23f
orbitofrontal, 100
Corticotropina, 91
fator de liberação, 177
Cotinina, 128
Crack, 51
B
Barbitúricos, 32, 33, 76
Barreira hematoencefálica, 102
Batimentos cardíacos, 20
Benzodiazepínicos, 32, 74, 76
Benzopireno, 91
Blastocistos, 125
Bupropiona, 81
D
Declaração
de Helsinki, 200q
Universal dos Direitos
Humanos, 205
Delírios, 105
Dependência, 43
de álcool, 72, 129
de opióide, 132
de psicoestimulantes, 175
de substância,
estudos epidemiológicos,
197
de tabaco, 126
Depressão, 173
Desintoxicação supervisionada,
87
Desmetil-imipramina, 175, 180
Desorientação, 105
Despolarização celular, 79
Diencéfalo, 21
Dietilamida do ácido
lisérgico, 36
Discinesia tardia, 164
Disforia, 103
Doença
de Alzheimer, 19
de Parkinson, 19
mental, 81
Dopamina, 79
D4, receptor, 134
Drogas
auto-administracão, 50
ilícitas, 138, 181
E
Eletroconvulsoterapia, 178
Encefalinas endógenas, 82
Endocanabinóide, 89
Enfisema, 11
Epilepsia, 19, 77
Erythroxylon coca, 92
Esquizofrenia, 35, 91, 163, 164
Estimulação cerebral, 99
Estímulo aversivo, 48
Estresse, 179
Estudos experimentais em
humanos, 198
Esvaziamento gástrico, 71
Euforia, 98
Excitação neuronal, 100
F
Fadiga, 51, 98
Farmacoterapia, 213
Febre, 98
Fenciclidina, 35, 108
Fenda sináptica, 29
Fígado, 102
Flashbacks, 109
Fluido extracelular, 29
Fluoxetina, 174
Fluxo sanguíneo, 20
Fobias, 181
Fumantes, 218
As páginas seguidas pelas letras f e q correspondem, respectivamente, a figuras e quadros.
OMS Neuro_IR.p65
239
07.12.06, 09:05
240 – Índice Remissivo
G
H
Haloperidol, 171
Hemisfério cerebral, 22
Hepatite, 85
C, 208
Heroína, 9, 51, 84, 133
Hidrocodona, 134
Hiperatividade locomotora, 106
Hiperdopaminergia, 169
Hipófise, 21
Hipoglutamatergia, 172
Hipotálamo, 21
Humor, 142
I
Impulsos, 142
Imunização, 96, 219
Imunoterapia, 96
Inalantes psicoativos, 2
Incentivo, 49
Indigentes, 212
Intervenções psicossociais, 215
Intoxicação, 72, 132
M
Maconha, 9
Medicações antipsicóticas, 164
Medula espinhal, 19, 90
Memória, 169
Metadona, 84
Metanfetamina, 100
Monoaminas, 34
Monóxido de carbono, 11, 128
Morfina, 39, 87
Motivação, 50
N
Naloxona, 87
Naltrexona, 87
Narcolepsia, 100, 142
Náusea, 84
Neuroadaptações, 163
Neuroanatomia, 1, 19
OMS Neuro_IR.p65
O
Olanzapina, 165
Opióides, 39, 82
Overdose, 10, 76, 230
Oxicodona, 134
P
Parametoxianfetamina, 108
Peptídeos, 36, 83
Peso, ganho, 142
Placebo, 75, 174
Plaquetas, 36
Polimorfismos, 142
Prodinorfina, 134
Prosencéfalo, 20
Proteína G, 32, 83
Psicoestimulantes, 93, 166, 178
Psicomotricidade, 55, 167
Psicose, 109, 162
Psilocibina, 108
R
Receptor
delta, 82
nicotínicos, 127
opióide, 82, 133, 134
Religiões, 232
Respiração, 72
Risperidona, 165
Roedores, 96
Rombencéfalo, 20
S
Sangue, 72
Sedativos, 12
Sensibilização, 55
Serotonina, 36, 92, 142, 143, 178
240
Sistema
dopaminérgico, 94, 138
mesolímbico, 44, 181
glutamatérgico, 170
límbico, 20
nervoso
central, 19
colinérgico, 78
periférico, 19
serotonérgico, 142
Solventes, 104, 107
Somatostatina, 177, 179
Sonolência, 98
Substância
controlada, 9
negra, 21
psicoativa, 1
efeitos adversos, 10
farmacologia, 65
mecanismos de ação, 10
uso global, 4
químicas, 29
Substratos neurobiológicos, 183
Sudorese, 98
T
Tabaco, 4, 78, 127, 142
Tálamo, 21
Telencéfalo, 21
Terapia
comportamental, 78
de substituição, 85, 234
Terminais nervosos, 99
Tirosina hidroxilase, 79
Tolueno, 105, 106
Tomografia por emissão de
pósitron, 25, 93
Toxicologia ocupacional, 106
Tranqüilizantes, 76
Transgene, 125
Transmissão dopaminérgica, 139
Transtorno
co-mórbido, 161
de personalidade anti-social,
182
do uso de substâncias, 182
Trato gastrointestinal, 36
Tremor, 84
Trimetoxianfetamina, 108
Tubérculo olfativo, 180
Tuberculose, 85
V
Vulnerabilidade genética, 121
07.12.06, 09:05
85-7241-666-8
Gêmeos, 148
dizigóticos, 123
monozigóticos, 123
Genes, 174
Genoma, 125
Genótipos, 123
Glutamato, 35
Neurobiologia, 19
Neurociência, 12
Neuroimagem, 211
técnicas, 24q
Neurolépticos, 164
Neurônio, 21, 27f
Neuropeptídeo Y, 177
Neurotoxicidade, 91
Neurotransmissão, 171
potencial de ação, 29
Nicotina, 11, 35, 142
goma, 81
metabolismo, 128
Noradrenalina, 35, 90
Nucleus accumbens, 169
PRANCHAS
Giro do cíngulo esquerdo
Giro do cíngulo direito
Fissura longitudinal
Tálamo esquerdo
Fórnix esquerdo
Hipocampo esquerdo
Septo
Bulbo olfativo
Bulbo
Figura 2.7 – Principais estruturas do
sistema límbico. Fonte: Reproduzido
de Pinel, 1990, com permissão dos
editores.
Amígdala esquerda
Corpo mamilar
Hipotálamo
mV
50
30
Fase de despolarização
0
O potencial de membrana em qualquer
momento depende de quantos e de
quais canais estão abertos
Despolarização suficiente do axônio
resulta em um potencial de ação
Canal de K+ aberto
-30
85-7241-666-8
Limiar
-50
Potencial de
repouso
Fase de hiperpolarização
-70
Canal
de K+
aberto
Canais
de Na+
fechados
Os canais de K+ abertos
criam o potencial de
repouso
.
Canal de
Na+ aberto
Canais de Na+ abrem,
despolarizando a célula
até o limiar
Canal de
K+ fechado
Canais de
Na+ inativados
Canal de
K+ aberto
.
Canais adicionais de Na+
dependentes de voltagem
se abrem, causando rápida
mudança de polaridade – o
potencial de ação
Os canais de Na+ são
inativados; canais de K+
dependentes de voltagem
abrem, repolarizando e até
hiperpolarizando a célula
(fase de hiperpolarização)
Todos os canais
dependentes de voltagem
se fecham. A célula
retorna ao seu potencial
de repouso
Figura 2.11 – Potencial de ação. Durante um potencial de ação, canais de sódio sensíveis à
voltagem se abrem provocando rápido influxo de sódio e resultando em despolarização da
célula. Esta é repolarizada pela abertura de canais de potássio que permitem o efluxo de
potássio da célula e restauram o potencial de membrana de repouso. Bombas iônicas ativas
posteriormente trocam sódio por potássio na célula. Fonte: Reproduzidos de Rosenzweig,
Leiman e Breedlove, 1999, com permissão dos editores.
Pranchas.p65
241
07.12.06, 09:58
Íons
Ligação do
neurotransmissor
Ligação do
neurotransmissor
Neurotransmissor
Receptor
Neurotransmissor
Exterior da célula
Abertura do
canal iônico
Interior da célula
α
Proteína G
Íons
Abertura do canal
Fluxo de íons
cruzando a membrana
A
A proteína G é ativada
Subunidades de proteína G ou
mensageiros intracelulares
modulam os canais iônicos
Fluxo de íons
cruzando a membrana
B
Placebo
Etanol (0,75g/kg, po)
Figura 4.1 – Imagens de PET com fluordesoxiglicose (FDG) de indivíduos normais após
placebo (soda dietética) e etanol (0,75g/kg). Fonte: Wang et al., 2000. Reproduzido com
permissão dos editores.
Pranchas.p65
242
13.02.07, 10:29
85-7241-666-8
Figura 2.12 – Dois tipos de sinapses químicas. (A) Mostra a ligação e a abertura de um canal
iônico aberto por ligante. (B) Demonstra a ativação de um receptor acoplado à proteína G,
resultando na abertura de um canal iônico via segundo mensageiro. Fonte: Reproduzido de
Rosenzweig, Leiman e Breedlove, 1999, com permissão dos editores.
85-7241-666-8
5
6,7
Z = +32mm
Z = +16mm
8,9
Z = +0mm
10,11
9
Z = -8mm
Z = -20mm
5min
10min
20min
30min
Figura 4.2 – Imagens da distribuição de [(11)C] cocaína no cérebro humano em diferentes
tempos após a injeção. Fonte: Fowler et al., 2001. Reproduzido com permissão dos editores.
Pranchas.p65
243
07.12.06, 09:58
4
Placebo
0
Taxa
Abusador de metanfetamina
Etanol (0,75g/kg, po)
Figura 4.3 – Comparação da ligação a receptores D2 de dopamina nos cérebros de um
indivíduo-controle e de uma pessoa com dependência de metanfetamina. Fonte: Volkow et al.,
2001a. Reproduzido com permissão dos editores.
Pranchas.p65
244
13.02.07, 10:04
85-7241-666-8
Indivíduo-controle