Começo saudável: o primeiro mês de vida

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Começo saudável: o primeiro mês de vida
WaterAid/Chileshe Chanda
Começo saudável:
o primeiro mês de vida
2
Assegurar que todas as crianças conseguem a água,
o saneamento e a higiene de que necessitam
1
Autor: WaterAid/Eliza Deacon
2
Introdução
Trazer uma vida nova ao mundo deveria ser
um momento de amor e esperança para mãe
e bebé, onde quer que vivam.
Mas, em todo o mundo, um em cada 50
partos acaba num grande desgosto para os
pais, uma vez que o precioso filho, ou filha,
recém-nascido, irá morrer antes de ter um
mês de idade.
Em 2014, mais de 2,7 milhões de bebés
morreram nas primeiras quatro semanas de
vida. Este é principalmente um problema do
mundo em desenvolvimento – mais de 99%
das mortes de recém-nascidos ocorrem nos
países de rendimentos baixos ou médios.1
Este enorme desperdício de vidas e de
potencial não se deve, em grande parte, à
ausência de sistemas de saúde caros e
intensivos disponíveis para os bebés
doentes no mundo desenvolvido. Calcula-se
que em sete de cada dez casos, as vidas
destes bebés poderiam ter sido salvas com
procedimentos médicos simples e baratos.2
Tragicamente, se cada um em cinco bebés
que morrem no primeiro mês de vida no
mundo em desenvolvimento, tivessem sido
lavados com água limpa, e tivessem
recebido cuidados num ambiente limpo por
pessoas que tinham lavado as mãos, estas
mortes prematuras teriam sido evitadas.3
No ano passado, morreram quatro bebés
cada cinco minutos na África Subsariana ou
no Sul da Ásia4 de causas perfeitamente
evitáveis como sépsis, meningite ou
tétano – todas doenças fortemente
associadas a condições pouco higiénicas.
A investigação demonstra que quando se
garante que todos os bebés têm um começo
saudável, o risco de contrair essas doenças
diminui dramaticamente.
É difícil imaginar que haja algum profissional
de saúde, oficial de um departamento de
saúde, ou ministro de saúde que não tenha
conhecimento dos riscos de expor os bebés a
infecções devido a condições de falta de
limpeza durante o parto e a práticas de higiene
inadequadas. E no entanto, as mulheres
continuam a dar à luz em ambientes sem água
limpa, sabão ou saneamento, com a ajuda de
assistentes que não podem seguir, ou não o
fazem, práticas de higiene básica.
A ligação entre as mãos sujas, a água pouco
limpa e a mortalidade infantil já são
conhecidas há mais de 150 anos, por isso
esta situação não está à espera de resposta,
mas é em vez disso uma injustiça à espera
de acção.
No ano em que o mundo vai substituir os
Objectivos de Desenvolvimento do Milénio com
os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável,
é o momento de garantir que a próxima geração
de crianças tem o melhor começo de vida
possível – um começo saudável.
3
Começo saudável: o primeiro mês de vida
O contexto
O próximo ano será a culminação dos Objectivos
de Desenvolvimento do Milénio. O Objectivo 4 é
reduzir a mortalidade infantil em dois terços em
relação ao nível de 1990.
Este objectivo, ao ritmo actual do progresso, não
será alcançado a nível global até 2028, segundo as
projecções das Nações Unidas. Actualmente,
somente duas regiões, a América Latina e a Ásia de
Leste e o Pacífico alcançaram as reduções visadas.
A nível global, a taxa de mortalidade para as
crianças com menos de cinco anos diminuiu
quase para metade - de 90 mortes por mil nadosvivos, para 48. Hoje em dia, irão morrer menos
17.000 crianças do que em 1990, e é encorajador
ver que o ritmo actual de redução da taxa de
mortalidade é a mais elevada em duas décadas.
No entanto, uma em dez crianças na África
Subsariana não irá chegar ao quinto ano de vida
e mais de seis milhões de crianças ainda morrem
todos os anos, principalmente de causas evitáveis.
Proporcionar um começo saudável
para os bebés
As primeiras semanas são a fase mais vulnerável da
vida de uma criança - ele ou ela tem 15 vezes mais
probabilidade de morrer do que em qualquer outra
altura no primeiro ano de vida.6
Na África Subsariana e no Sul da Ásia, cerca de uma
em cada cinco mortes no primeiro mês de vida são
causadas por sépsis, meningite e tétano.7 Nestas
duas regiões, em 2013, estas doenças em conjunto
mataram mais de 400.000 bebés recém-nascidos.
Destes problemas, sépsis é o mais perigoso,
causando18-20% das mortes de recém-nascidos.8
Nesses 80 países com taxas elevadas de
mortalidade neonatal, que em conjunto representam
quase nove de dez mortes a nível global, sépsis
representa 40% das mortes neonatais tardias.11
Para poder infectar um ser humano, as bactérias
necessitam de uma via de transmissão – um modo
de passar de um ser humano para outro. A via de
transmissão para estas três doenças está fortemente
associada a condições e práticas pouco higiénicas
durante o parto. É por esta razão que é tão crucial
que os bebés tenham um Começo Saudável:
começar a vida num ambiente higiénico e receber
cuidados de modo seguro.
4
O progresso para reduzir a mortalidade neonatal
tem sido lento, diminuindo apenas em um terço
entre 1990 e 2012. Como resultado, os bebés que
morrem no primeiro mês de vida representam
agora 44% de todas as mortes de crianças com
menos de cinco anos, em comparação com 37%
em 1990.
Calcula-se que ao ritmo actual do progresso para
reduzir a taxa de mortalidade neonatal na África
Subsariana, o risco de morte dentro das
primeiras quatro semanas de vida em África irá
corresponder ao risco actual nos países de
rendimentos altos, em 2166.5
Este ano, as Nações Unidas irão decidir quais
serão os sucessores dos ODMs, conhecidos como
os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável.
A WaterAid pede um objectivo dedicado para a
provisão de água e de saneamento para toda a
gente, em todo o lado, até 2030.
Sépsis
Sépsis é uma condição grave geralmente causada por
infecções bacterianas. As bactérias que causam sépsis
neonatal são transmitidas pouco tempo antes, durante ou
depois do parto. Podem ser transmitidas pelo sangue ou
pela pele da mãe, ou através do canal de parto antes ou
durante o parto, ou do meio ambiente durante ou depois
do parto. A água limpa, o saneamento seguro e as
práticas de higiene do pessoal de saúde e das mães nas
instalações para o parto podem reduzir o risco de
infecção em ambos os casos.
Hábitos de limpeza e de lavagem de mãos durante o
parto, e lavagem de mãos por parte dos profissionais de
saúde depois do parto são necessários para reduzir o
risco de sépsis. As infecções também podem ser
facilmente transmitidas se se usarem instrumentos sujos
para cortar o cordão umbilical, ou por superfícies
contaminadas tais como camas, e outros objectos.
Se não se conseguir assegurar que uma mulher tem um
local limpo onde dar à luz, que a parteira, ou a pessoa que
assiste ao parto, ou o médico, têm as mãos lavadas quando
assistem ao parto e que a lâmina que separa a criança da
mãe quando se corta o cordão umbilical está limpa,
significa que o bebé corre risco de contrair sépsis.
WaterAid
Começo saudável: o primeiro mês de vida
A dimensão do problema
Mortalidade neonatal devido a infecções
As taxas de morte devido a infecções neonatais
variam através do mundo em desenvolvimento.
Enquanto dois terços de todas as mortes de recémnascidos se devem somente a dez países (Tabela 1),
a proporção de mortes causadas por infecções varia
dentro desses países.
Angola, por exemplo, é o local mais perigoso do
mundo para se ser um bebé, onde todas as
infecções representam quase 30% de todas as
mortes neonatais. Apesar de a China ser um dos
países com o maior número absoluto de mortes
neonatais, a percentagem de mortes causadas por
todas as infecções é ligeiramente superior a 10%.
Tabela 1: Países com grandes números de mortes neonatais
Países com os
maiores números
de mortes
Taxa de mortalidade
neonatal (números por
1.000 nados-vivos)
Número
de Mortes
Número de recém-nascidos
perdidos devido à
sépsis/meningite/tétano9
Percentagem de mortes
neonatais devido a
sépsis/meningite/tétano
Índia
29,2
758.143
122.554
16,4
Nigéria
37,4
261.549
51.749
19,8
Paquistão
42,0
193.718
43.412
22,0
7,7
143.268
5.476
3,7
RDC
38,2
104.604
19.509
18,6
Etiópia
27,5
84.437
17.240
20,4
Bangladesh
24,2
76.722
14.852
19,3
Indonésia
14,4
65.828
8.934
13,5
Angola
46,6
42.625
9.053
21,2
Quénia
26,3
39.596
7.499
18,9
China
Estudo de Caso
“Uma enfermaria para partos sem
água é um perigo para a mãe das
crianças recém-nascidas. Se um
recém-nascido com um cordão
fresco [cordão umbilical] for lavado
usando água de poços pouco
profundos ou água insegura, é
provável que a criança contraia
doenças como tétano neonatal ou
WaterAid
sépsis neonatal, que podem
causar a morte da criança.
Sabemos que deveríamos lavar as
mãos cuidadosamente antes de
ver outra paciente, mas o que
podemos fazer numa situação em
que não há água corrente?
Ensinamos as futuras mães a
manter bons padrões de higiene
pessoal durante a gravidez, mas o
problema surge quando nós, como
profissionais de saúde, não
conseguimos proporcionar um
ambiente limpo e seguro para as
mães parturirem.”
WaterAid/Chileshe Chanda
Mary Mwape, 39 anos de idade, é
parteira no Hospital Missionário
de Lubwe, no nordeste da Zâmbia.
O hospital serve como centro de
encaminhamento para a zona,
apesar de não ter água e
saneamento adequados.
5
Começo saudável: o primeiro mês de vida
Na Serra Leoa, que tem uma das taxas de
mortalidade neonatal mais elevada do
mundo, em média, durante a vida, uma
mulher em cada 21 terá perdido uma
criança devido a uma infecção no primeiro
mês de vida. O risco equivalente no Reino
Unido é uma mulher em cada 7.518.
Os países com taxas de mortalidade neonatal
relativamente mais baixas também tendem a ter uma
percentagem inferior de mortes devido a infecções.
Nos países com uma taxa de mortalidade neonatal
mais elevada, tipicamente entre um quarto e um terço
dessas mortes devem-se a infecções evitáveis e
tratáveis.10 Um bebé na África Subsariana tem 30
vezes mais probabilidade de morrer de uma infecção
no primeiro mês de vida do que um bebé no mundo
desenvolvido, e em muitas partes do mundo em
desenvolvimento essas mortes são um acontecimento
comum.
Por exemplo, na Serra Leoa, que tem uma das taxas de
mortalidade neonatal mais elevada do mundo, em
média, durante a vida, uma mulher em cada 21 terá
perdido uma criança devido a uma infecção no
primeiro mês de vida. O risco equivalente no Reino
Unido é uma mulher em cada 7.518 (Tabela 2).
As mães pobres têm muito mais probabilidade de
perder um bebé devido a uma infecção – os bebés que
nascem nos agregados familiares de rendimentos
baixos têm três vezes mais probabilidade de morrer de
sépsis no primeiro mês de vida do que os que têm pais
com rendimentos altos.11
Tabela 2: Países com taxas elevadas de mortes neonatais causadas por
sépsis/tétano/meningite em comparação com os riscos no mundo desenvolvido
País
Taxa de
mortalidade
neonatal – todas
as causas12
(números por
1000 nados-vivos)
Números
de mortes
de recémnascidos
em 2013
Taxa de
mortalidade
devido a
sépsis/
tétano/
meningite
Número de
mortes de
recém-nascidos
devido a
sépsis/tétano/
meningite
Percentagem
de mortes de
recém-nascidos
devido a
sépsis/tétano/
meningite13
Probabilidade
de uma mãe
perder o bebé
devido a sépsis
etc. durante a
vida14
Serra Leoa
44,3
9.430
9,8
2.101
22,3
1 em 21
Guiné Bissau
44
2.688
9,8
599
22,3
1 em 20
Angola
46,6
42.625
9,8
9.053
21,2
1 em 17
Somália
46,2
20.754
9,5
4.281
20,6
1 em 16
Paquistão
42
193.718
9,4
43.412
22,4
1 em 32
Lesoto
43,9
2.554
8,7
511
20
1 em 37
Mali
40,2
27.724
8,2
5.709
20,6
1 em 17
Afeganistão
36,3
36.777
8,2
8.374
22,8
1 em 23
Zimbábue
39,2
17.311
7,9
3.502
20,2
1 em 35
Costa do Marfim
37,5
27.925
7,9
5.896
21,1
1 em 26
EUA
4
16.802
0,18
741
4,5
1 em 2.958
RU
2,8
2.145
0,07
51
2,5
1 em 7.518
Suécia
1,6
178
0,13
15
8,1
1 em 4.000
Austrália
2,4
770
0,07
21
2,9
1 em 7.407
Canadá
3,4
1.374
0,17
70
5
1 em 3.649
Japão
1
1.086
0,06
67
6
1 em 11.820
6
WaterAid
Começo saudável: o primeiro mês de vida
Causas de mortalidade dos recém-nascidos
1,7
13
28
7
Pneumonia
nos
países
desenvolvidos
%
10,4
Complicações
pré-parto
41
Sépsis
Partos difíceis
Anomalias
congénitas
5
30
Outros
5,6 6
na
África
Subsariana
30
%
20
Estatísticas
arredondadas
Como parte dos Objectivos de Desenvolvimento do
Milénio, tem havido um esforço concertado para
aumentar o número de partos a que assiste um
funcionário de saúde competente, e em particular, no
caso dos partos nas instalações dos serviços de saúde.
E no entanto, nas próprias instalações preparadas
para servir as comunidades com serviços de saúde e
acolher uma vida nova ao mundo, frequentemente
não há uma provisão constante de água limpa,
latrinas que funcionem ou instalações para lavar as
mãos. Conforme exposto claramente em "Normas
essenciais de saúde ambiental nos serviços de
saúde"15, da Organização Mundial de Saúde, estas
são as defesas básicas da frente de batalha contra
as infecções, e a falta desses serviços põe em dúvida
se esses estabelecimentos podem servir
adequadamente como instalações de saúde.
Um inquérito da OMS, a ser publicado proximamente,
realizado às instalações dos serviços de saúde em 54
países em desenvolvimento16 revela que 38% não
têm provisão de água limpa, 19% não proporcionam
saneamento melhorado e 35% não têm sabão para
lavar as mãos. Nos países da África Subsariana
investigados, essa percentagem aumenta para 42%.
Estes números também não reflectem se a provisão
de água é constante. A OMS calcula que das
instalações de saúde que têm algum tipo de provisão
de água limpa, cerca de metade não têm uma
provisão fiável.
WaterAid
Estudo de Caso
WaterAid/Chileshe Chanda
Água, latrinas e higiene nas instalações
dos serviços de saúde
Peggy Mpundu, 36 anos de idade, da aldeia de
Mwasha em Lubwe, perdeu recentemente os
filhos gémeos devido a uma suspeita de
infecção apenas quatro dias depois do parto.
Kapya e Mpundu nasceram no hospital e
tiveram alta no segundo dia. No dia seguinte,
começaram a ter problemas para respirar e os
pais levaram-nos outra vez para o hospital
onde infelizmente faleceram.
“Disseram-me que a água dos poços pouco
profundos era prejudicial para os bebés. Ter
dado banho aos meus filhos com água de um
poço pouco profundo deixou-me com uma
sensação de culpa e de mágoa. Quem me dera
ter sabido que a água podia ser prejudicial”.
A Peggy desde então teve outro filho mas o
marido Sylvester diz que a perda dos gémeos
teve um enorme impacto sobre o casal. Têm o
cuidado de usar água limpa para evitar infectar
o bebé novo.
7
Começo saudável: o primeiro mês de vida
Sem fontes de água limpa facilmente disponíveis para
lavar as enfermarias ou as mãos, as instalações dos
serviços de saúde podem transformar-se em refúgios de
bactérias perigosas, e os profissionais de saúde
transmitem, sem o saber, as doenças de um paciente
para outro. Uma revisão realizada em 2011 às infecções
adquiridas nos serviços de saúde demonstrou que em
alguns países em desenvolvimento, um em cada dois
pacientes (45,6%) deixaram o hospital com uma infecção
que não tinham quando tinham entrado no hospital.17
Mais de 150 anos desde que Ignaz Semmelweis associou
a lavagem de mãos às infecções contraídas pelas mães
durante o parto, melhorar as práticas de higiene dos
profissionais dos serviços de saúde a nível mundial
continua a ser um desafio. Num estudo18 realizado num
grande hospital universitário africano, só havia tentativas
para lavar as mãos 12% do tempo e só era possível fazêlo eficazmente em 4% das oportunidades, apesar de
nove em cada dez enfermarias terem um lavatório com
sabão. Um estudo19 levado a cabo nas unidades de
maternidade no Sul da Nigéria demonstrou que somente
duas em cada cinco instalações tinham sabão ou
antisséptico dentro, ou na vizinhança, das salas de
operação ou das salas de parto.
Para garantir um parto limpo, a OMS defende a prática
dos "seis princípios de limpeza": mãos limpas, uma
superfície limpa para o parto, um períneo limpo, nada
sujo inserido na vagina, uma ferramenta limpa para
cortar o cordão umbilical e um cordel limpo para atar o
cordão. Os funcionários de saúde das aldeias na
Tanzânia, como parte de um estudo, receberam formação
sobre os " seis princípios de limpeza " da OMS, e
receberam um kit de parto limpo com lençóis de plástico,
uma lâmina de barbear limpa, um cordel para atar o
cordão e um barra de sabão. Os recém-nascidos cujas
mães tinham usado o kit de parto tinham 13 vezes
menos probabilidade de desenvolver uma infecção do
cordão umbilical. Mesmo somente o facto de a mãe
tomar banho antes do parto reduzia o risco de infecção
do cordão quase quatro vezes.20
No Sul do Nepal21, observaram-se mais de 23.600 recémnascidos durante o primeiro mês de vida e os
investigadores perguntaram às mães se a pessoa que
tinha assistido ao parto tinha lavado as mãos antes do
parto e se elas próprias tinham lavado as mãos antes de
manusear o bebé recém-nascido.
Os bebés que tinham sido assistidos por uma pessoa
que tinha lavado as mãos tinham 25% menos
probabilidade de morrer, mesmo se a mãe não tivesse
lavado as mãos. Quando tanto a mãe como a pessoa que
assistia ao parto tinham lavado as mãos, a probabilidade
do bebé morrer diminuía para menos de metade (56%).
No Nepal, uma redução de 56% de mortalidade neonatal
8
poderia ter salvo mais de 7.000 vidas novas somente no
último ano.
Para além do risco de infecção que essas condições
podem causar, a falta de água limpa, de latrinas e de
uma boa higiene podem ter outras consequências para
os utentes dos serviços de saúde. Por exemplo, pode
pedir-se às parturientes que tragam os próprios jerry cans
de água para beber e se lavarem durante o parto. Essa
água pode ser recolhida de fontes pouco seguras tal
como rios ou charcos, o que não só coloca tanto as mães
como os bebés em situação de grave risco de contrair
uma infecção potencialmente fatal, mas a falta de
condições higiénicas pode desencorajar as mulheres de
irem às instalações dos serviços de saúde, desse modo
prejudicando os esforços para aumentar a proporção de
partos com assistência de auxiliares competentes. A
provisão de serviços de água e de saneamento nas
instalações dos serviços de saúde também podem
capacitar os profissionais de saúde para que
proporcionem assistência mais segura às mães e aos
recém-nascidos, apoiando assim os esforços para
aumentar a retenção e a motivação dos funcionários.
Quem era Ignaz Semmelweis?
Semmelweis foi a
primeira pessoa a darse conta da importância
de lavar as mãos para
evitar infecções. Em
1874 trabalhava na
clínica materna do
Hospital Geral de Viena
e convenceu-se de que
a limpeza era o
elemento fundamental
para evitar a febre
puerperal, conhecida
vulgarmente como
febre do parto, nas mulheres que acabavam de ser mães.
No primeiro mês em que trabalhou no hospital, quase
uma em cinco mães morreram dessa febre, que é
habitualmente causada por sépsis. Começou a insistir
que todas as pessoas que trabalhavam na enfermaria
tinham de lavar as mãos ao entrar e que a sala estivesse
sempre limpa. A taxa de mortalidade dentro de dois anos
tinha praticamente desaparecido. Apesar disso,
infelizmente, a maioria dos profissionais de saúde
continuaram convencidos de que a doença se espalhava
devido ao "miasma" ou ar sujo, e Semmelweis foi
despedido do posto, muito ridicularizado e eventualmente
internado numa instituição psiquiátrica. Os progressos
por ele conseguidos não foram reconhecidos até cerca de
três décadas depois da sua morte.
Jenő Doby
Água, latrinas e higiene durante o parto
WaterAid
Na maioria dos países, a abordagem actual em relação às
infecções dos bebés concentra-se em tratamentos com
antibióticos, em vez de evitar as infecções desde o início.
Esforços recentes para melhorar a saúde materna e
neonatal tendeu a não prestar atenção à importância de
proporcionar a um bebé um começo de vida saudável,
concentrando-se em vez disso em aumentar o número de
auxiliares competentes ou de assistência obstétrica de
emergência.
Por exemplo, no Plano de Acção para todos os RecémNascidos deste ano22 da OMS e UNICEF, cujo objectivo é
acabar com as mortes neonatais evitáveis até 2035, não
há pontos de acção chave para os governos garantirem
que os assistentes ao parto e as mães têm acesso à água
limpa, ao saneamento e à higiene durante o parto.
No plano, as infecções são designadas como um factor
importante que contribui para as taxas de mortalidade
neonatal, mas o objectivo é dar antibióticos a pelo menos
metade dos bebés com infecções.
As recomendações actuais da OMS sobre assistência pósnatal para as mães e os recém-nascidos incluem somente
uma referência à água, ao saneamento ou à higiene –
nomeadamente falar com as mulheres sobre higiene –
enquanto as directivas para as Normas para a Assistência
Materna e Neonatal não incluem recomendações sobre a
provisão de água, saneamento e higiene.
As práticas recomendadas pela OMS dos "seis princípios
de limpeza" mencionadas acima implica a importância
de haver água limpa disponível, mas não é explícita.
O Objectivo de Desenvolvimento do Milénio que incluía
ampliar o acesso à água e ao saneamento não incluía as
instalações de saúde como um alvo específico - uma
omissão que provavelmente atrasou o progresso de
outros ODMs tais como reduzir a mortalidade materna e
as mortes infantis.
Dar à luz na Tanzânia
Um estudo recente para avaliar as condições de água
e de saneamento na Tanzânia23 demonstrou que, em
média, 44% das instalações de saúde onde as
mulheres dão à luz tinham água adequada e
instalações de saneamento, mas somente um quarto
das salas de parto dentro desses centros de saúde
tinham provisão de água e latrinas.
Os investigadores calcularam que mesmo se todas as
mulheres na Tanzânia decidissem dar à luz num centro
de saúde, menos de dois terços desses nascimentos
(59%) seriam em centros que podiam proporcionar um
ambiente seguro para a mãe e o bebé.
WaterAid
WaterAid/Eliza Deacon
Colocar a ‘limpeza’ no centro da
assistência médica
“Não havia água suficiente na clínica de
saúde quando dei à luz. Depois do parto,
lavei-me e o meu filho foi lavado com a
água que a mulher do meu irmão tinha
ido buscar para mim ao rio. Nessa altura
era a estação seca, por isso tiveram de
escavar parte do rio para conseguir
água. O bebé viveu apenas sete dias.
Se tivesse havido disponibilidade
regular de água segura suficiente na
clínica, esta situação podia ter sido
evitada.”
Aisha Mukde, Tanzânia (na imagem acima)
Ruanda
Depois do genocídio no Ruanda em 1994, o novo governo
desse país comprometeu-se a uma ordem do dia do
desenvolvimento centrada em prover serviços básicos para
a população. Como parte dessa decisão, o governo definiu
objectivos ambiciosos para a provisão de água e de
saneamento, com o fim declarado de conseguir acesso
universal até 2020. A importância destes serviços é
totalmente reconhecido pelo governo como sendo um
estímulo para o desenvolvimento económico e social, a
redução da pobreza e a saúde pública.
Desde 2000 que a quota da população com acesso à água
limpa aumentou em 10% para 72%, enquanto a quota da
população com latrinas que funcionam aumentou quase
metade para 67%.24
Actualmente, o Ruanda lidera África em termos da
velocidade a que está a reduzir as mortes dos recémnascidos devido a infecções – a taxa anual de redução de
sépsis/meningite/tétano é de 6,8% enquanto a taxa de
mortes por pneumonia está a diminuir em 12% por ano.25
Durante os últimos 14 anos a taxa de mortalidade por 1.000
nados-vivos devido ao grupo de doenças mencionado
acima diminuiu de 9,95 para 3,94.
9
Começo saudável: o primeiro mês de vida
O que tem de se fazer
O acesso à água limpa, ao saneamento seguro e
a serviços de higiene é um direito humano
básico. Em conjunto, representam os blocos
essenciais para uma boa saúde e a ausência
destes blocos tem um impacto particularmente
devastador sobre as crianças. A ausência de
dados robustos de ensaios significa que é difícil
calcular a proporção das mortes neonatais
causadas por infecções que podem ser evitadas
melhorando o acesso à água, ao saneamento e
à higiene nas instalações de saúde. No entanto,
a ligação causal entre as condições e as práticas
pouco higiénicas é suficientemente aceite para
justificar medidas políticas e dos programas
que assegurem que as instalações de saúde
satisfazem padrões básicos de água limpa,
saneamento e higiene.
A WaterAid quer que toda a gente, em todo o
lado tenha acesso à água limpa, ao saneamento
e à higiene até 2030. Para que o mundo consiga
este objectivo, a WaterAid está convencida que
todas as instalações de saúde têm de ser
urgentemente equipadas com instalações de
água e de saneamento, e os sistemas de saúde
têm de ser responsabilizados por garantir que
estes padrões são cumpridos.
Toda a gente tem de trabalhar em conjunto para
garantir que a expectativa de vida dos membros
mais vulneráveis da sociedade não é reduzida
apenas a semanas somente porque não há água
limpa com a qual lhes dar banho, ou sabão para
lavar as mãos das pessoas que cuidam deles.
A todos os níveis dos serviços de saúde, desde
os profissionais de saúde individuais até aos
gestores dos hospitais, oficiais do Ministério de
Saúde e ministros, assim como organizações
internacionais de saúde, tem de haver
responsabilidade individual e colectiva por
manter condições higiénicas nos centros de
saúde. Os esforços para se evitarem e
controlarem as infecções têm de ser centrados
na provisão geral dos serviços de saúde de
qualidade. A WaterAid pede a todas as
organizações que trabalham em questões de
saúde internacional, aos ministérios de saúde
nacionais e aos governos doadores que actuem
urgentemente do seguinte modo:
10
1. Os governos nacionais garantem que os serviços de
água, de saneamento e de higiene (WASH) são incluídos
em todos os planos para reduzir a desnutrição, a
desnutrição aguda, as doenças infantis evitáveis e as
mortes neonatais, e/ou nos planos dos sistemas de
saúde mais abrangentes que abarcam quaisquer ou
todos estes objectivos. Garantem que há financiamento
disponível e que é usado em conformidade.
2. As iniciativas internacionais e nacionais de saúde e
nutrição incluem WASH nas políticas e garantem que são
financiadas, monitorizadas e executadas.
3. Todas as instalações dos serviços de saúde têm água
corrente limpa, latrinas seguras para os pacientes
(separadas para homens e mulheres, com fechaduras e
iluminação, são fáceis de usar para as crianças e
acessíveis para as pessoas portadoras de deficiência),
lavatórios que funcionam para os funcionários de saúde e
os pacientes em todas as salas de tratamento e de parto.
4. Não se constroem instalações de serviços de saúde
novas sem serviços de água e de saneamento
adequados e sustentáveis.
5. Os profissionais de saúde comprometem-se a incluir as
boas práticas e a promoção da higiene na formação
profissional, nos planos e nas acções. Os funcionários e
os pacientes são informados e capacitados para
praticarem medidas adequadas de higiene.
6. Todas as maternidades26 asseguram que há higiene básica
e um ambiente estéril, particularmente nas salas de parto
e nas salas de operação – tal como lavagem de mãos com
sabão, limpeza e desinfecção repetida das instalações, e
separação segura dos desperdícios humanos e médicos
de modo que não haja contacto com pessoas.
7. A monitorização e a avaliação do progresso para a
cobertura universal de saúde incluem dados sobre a
disponibilidade de serviços de água, saneamento e
higiene nas instalações dos serviços de saúde e a nível
de agregado familiar para produzir informação para as
estratégias e o planeamento.
8. Os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável
deveriam incluir uma meta dedicada à água e ao
saneamento com objectivos ambiciosos para o acesso
universal a WASH até 2030. A estrutura deveria garantir
a integração dos objectivos de WASH e dos objectivos de
saúde, tal como cobertura universal de saúde e
prevenção da mortalidade materna e das crianças com
menos de cinco anos.
WaterAid
Começo saudável: o primeiro mês de vida
Estudo de Caso
Esther Mongi é uma parteira no Centro de Saúde Mlali,
na Tanzânia.
“Anteriormente, quando o centro de saúde não tinha
água, aconselhávamos os parentes a trazer três jerry
cans de água quando a mãe vinha para o parto. Um era
para ela se limpar antes de entrar na sala de parto. O
segundo para limpar o local depois do parto. E o
terceiro para lavar a roupa da mãe, que ela usava
durante o parto.
As mulheres grávidas [...] queixavam-se de ter de
trazer a água de casa para o parto, o que levou a que o
número de partos neste serviço de saúde diminuísse.
WaterAid/Eliza Deacon
A água que os parentes traziam para o parto não era
limpa nem segura.
Sentimo-nos mal[...] e por vezes sentimo-nos
desmoralizados porque como é que se pode trabalhar
numa instalação de saúde sem água suficiente?”
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WaterAid - Mapa Hídrico de África
25
Estatísticas da Lancet
26
Definidas como qualquer instalação de saúde onde as mulheres
dão à luz.
11
Começo Saudável é a prioridade de advocacia
da WaterAid para os próximos quatro anos
(2015-2019), que foca a atenção em melhorar a
saúde e a nutrição dos bebés recém-nascidos e
das crianças. Iremos fazê-lo lutando para que o
acesso à água, ao saneamento e à promoção da
higiene seja integrado na política e na provisão
de saúde a nível local, nacional e internacional.
www.wateraid.org/healthystart
Fevereiro de 2015
WaterAid
47-49 Durham Street
Londres
SE11 5JD
020 7793 4500
Números de registo de obras de beneficência 288701
(Inglaterra e País de Gales) e SC039479 (Escócia).
Imagem da capa: Peggy e Sylvester
Mpundu perderam recentemente não
apenas um bebé, mas um par de
gémeos quatro dias depois do parto
devido a uma suspeita de infecção.
Aldeia de Mwasha, Lubwe, Zâmbia.

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