ETHOPOIÉSIS E HEAVY METAL

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ETHOPOIÉSIS E HEAVY METAL
JÉSSICA DA SILVEIRA MESSIAS
ETHOPOIÉSIS E HEAVY METAL: Subjetivação e consumo
na cena de Natal-RN
Dissertação de Mestrado apresentada ao
Programa de Pós-graduação em
Ciências Sociais, do Centro de Ciências
Humanas, Letras e Artes (CCHLA), da
Universidade Federal do Rio Grande do
Norte (UFRN), como exigência para a
obtenção do título de Mestre em
Ciências Sociais.
Orientador: Prof. Dr. Alexsandro Galeno Araújo Dantas
NATAL
2013
JÉSSICA DA SILVEIRA MESSIAS
ETHOPOIÉSIS E HEAVY METAL: Subjetivação e consumo
na cena de Natal-RN
Dissertação de Mestrado apresentada ao
Programa de Pós-graduação em
Ciências Sociais, do Centro de Ciências
Humanas, Letras e Artes (CCHLA), da
Universidade Federal do Rio Grande do
Norte (UFRN), como exigência para a
obtenção do título de Mestre em
Ciências Sociais.
Aprovada em: ___/___/_____
BANCA EXAMINADORA
Prof. Dr. Alexsandro Galeno Araújo Dantas (PPGCS/UFRN)
Orientador
Prof. Dr. Orivaldo Pimentel Lopes Júnior (PPGCS/ UFRN)
Profª. Drª. Rosamaria Luiza de Melo Rocha (PPGCOM/ESPM)
AGRADECIMENTOS
Inicialmente, gostaria de avisar àqueles que estão acostumados com
agradecimentos de um parágrafo, ou que acham entediante lê-los, que eu costumo ser
prolixa nessa parte, então, sintam-se à vontade para pulá-la. Escrever os agradecimentos
que representam uma fase que se encerra agora, mas que durou dois anos, é algo muito
prazeroso, pois traz à tona várias boas lembranças! Em primeiro lugar, acho que devo
agradecer ao Heavy Metal e as Ciências Sociais, pelo papel importante que têm em
minha vida e por terem se entrelaçado de tal maneira, possibilitando o surgimento desse
trabalho.
Minha família também merece lugar de destaque nesses agradecimentos. Meu
pai, que detesta Heavy Metal, (assim como eu detesto o Nelson Gonçalves dele) por
todo o apoio e carinho e por ser um pai orgulhoso, que sai espalhando aos quatro ventos
que a filha dele, aos 23 anos, está terminando o mestrado. Meu irmão, que começou a
ouvir Metal junto comigo. Geralmente, irmãos costumam brigar, mas nós não, nos
amamos muito e não desgrudamos um do outro. Obrigada, Yuri, por ter lido o trabalho
(meio a contragosto, no início, subornado com um pouco de videogame...) e por todo o
apoio e carinho. E, finalmente, obrigada a minha mãe querida que, como eu falei nos
agradecimentos da minha monografia, é meu anjo! Não tenho palavra melhor para
defini-la! Meu anjo que sempre está comigo, me protegendo, cuidando de mim e que
fala: “Põe aquela música daquela banda que eu gosto”. (Risos) Amo vocês!
Agradeço à amiga Martha Isabelle, que sempre está lá quando eu preciso, seja
para o que for! Inclusive, para ler minha dissertação, subornada com cookies e sorvete.
Amigos de verdade são assim e eu espero que você saiba que pode contar comigo para
tudo, assim como eu também conto com você! Já que estou falando das pessoas que se
deram o trabalho de ler minha dissertação, agradeço logo à amiga Larissa, que estará
comemorando aniversário no mesmo dia que eu, na minha defesa. Obrigada por ter lido
e me ajudado a revisar! Espero que tenha gostado de ser subornada com a comida da
minha mãe! (Risos) Aproveito para agradecer ao chato do Gilson (brincadeira), por ter
lido uma parte do terceiro capítulo e dado sua opinião. Mesmo que tenha sido aos
trancos e barrancos... acho que você demorou a ler porque não teve suborno! (Risos)
Agradeço as amigas Jacilda e Jossana que, mesmo não estando tão presentes
durante o processo da escrita, por estarem ocupadas com suas graduações, sempre me
apoiaram com sua amizade e carinho. Afinal, 8 anos de amizade, quase 9, não são pra se
desconsiderar! Amo vocês!
Aos meus amigos espalhados pelo país (principalmente em São Paulo) por tudo
o que vocês representam pra mim! Valéria (morrr!), Dayt, Bimy, Maga, Yara, Grack,
Victor, Douglas, Iris, Rafa (que nunca levou o famoso doce, pra eu provar!) e o
Anderson. Gostaria também de agradecer a cidade de São Paulo, por ter acolhido tão
bem essa carioca que vos fala. Todas as vezes que fui a São Paulo foram mágicas! Devo
muito disso a Val, que facilitou demais todas as minhas estadias, me acolhendo em seu
lar e se transformando em uma das pessoas mais queridas nesse mundo, para mim. Uma
de minhas melhores amigas! Agradeço também ao meu “Alexis Sawyer”, sabor maçã
verde, por tudo que houve e tudo que haverá! Amo todos vocês também!
Os eventos que participei em 2012 também significaram muito para mim e para
o meu trabalho. O II SIEP consumo, na PUC de São Paulo, o VI ENEC e II Encontro
Luso-Brasileiro de Estudos sobre o Consumo, que ocorreram simultaneamente no Rio
de Janeiro, organizados pela ESPM. E o I Encontro Nacional da Rede de Grupos de
Pesquisa em Comunicação, organizado pelo Filocom, em São Paulo também, belíssimo
evento! (Parabéns mais uma vez, Lauren!) Em cada um desses eventos, eu pude
perceber que o meu trabalho foi muito bem aceito. Tive a oportunidade de apresentá-lo
e debater sobre ele com pessoas muito interessantes. Inicialmente, por ter escolhido
estudar o Heavy Metal, imaginei que o trabalho não seria tão bem aceito como foi,
preconceito bobo esse meu, não?
Aos amigos Ericksen e Dayana, que sempre me acompanham nos shows de
Heavy Metal e pelos quais eu tenho um grande carinho. Aos meus entrevistados, que
colaboraram bastante com tudo. Ao artista, Allan Leal, que fez uma bela capa. Aos
colegas da turma de mestrado, lembram-se do sufoco que enfrentamos juntos no
seminário de dissertação? Agradeço também àqueles que tiveram uma participação não
tão positiva na minha vida, durante esses dois anos de mestrado. Afinal, as más
experiências também são engrandecedoras, a meu ver.
Bom, gostaria de encerrar agradecendo a alguns professores que foram muito
importantes na minha formação, desde a graduação. Primeiro ao meu orientador, Alex,
que, para além da academia, se mostrou um amigo! Obrigada pelos puxões de orelha,
pelos elogios e pelo processo de orientação, em geral. À professora Norma Takeuti e ao
professor Eduardo Pellejero, por terem acompanhado meu trabalho desde a préqualificação, dando sempre conselhos valiosos e avaliando rigorosamente. Aos que
fizeram parte da minha formação, na graduação: Alípio, Edmundo, Vitullo e Willington.
Ao Orivaldo, que fará parte da banca e que é o professor do qual eu falo nas
considerações finais. E também à professora Rose de Melo, por participar da banca.
Espero não ter me esquecido de agradecer a ninguém, mas, se for o caso, perdoem
minha memória!
RESUMO
Nossa pesquisa visa compreender a configuração da resistência (Foucault)
enquanto estilização da vida na contemporaneidade, tendo o Heavy Metal enquanto
objeto de estudo específico. Acreditamos que o Metal se configure em um dispositivo
ethopoiético possibilitador de práticas de liberdade frente aos hábitos morais reificados
desde os primórdios da socialização do sujeito. Isso se reflete, principalmente, na
criação de novas maneiras de estilizar a vida que são individuais e grupais, ao mesmo
tempo. Sugerimos também uma ampliação do pensamento sobre o tema da resistência,
em Foucault, tendo em vista a sociedade de consumo descrita por Zygmunt Bauman.
Nossa hipótese é a de que o contato com o mundo underground do Heavy Metal é o
possibilitador de novas formas éticas (Foucault), onde há a adesão e o
comprometimento do sujeito com o Heavy Metal enquanto um modo de vida. A partir
daí, o consumo se torna uma palavra chave, na medida em que, participar do
underground do Heavy Metal - enquanto uma prática de liberdade, um modo de
existência particular – constitui também uma forma de consumo que foge às regras
gerais do mercado, sendo um consumo diferenciado tanto na forma quanto na sua
duração.
Palavras-chave: Heavy Metal; Resistência; Consumo.
ABSTRACT
Our research intends to comprehend the configuration of the resistance
(Foucault) as the stylization of life in the contemporary world, taking Heavy Metal as
the specific object of study. We believe that Heavy Metal is an ethopoietical device
which admits practices of freedom withstanding the reified moral habits since the
beginning of the socialization. This is reflected, mainly, in the creation of new
individual and communal ways to stylize the life. We also suggest an expansion of
Foucault’s concept of resistance, considering the idea of consumer society described by
Zygmunt Bauman. Our hypothesis understands that the contact with the underground of
Heavy Metal provides new ethical manners (Foucault), where the individual take the
Heavy Metal as a way of life. At this point, the consumption becomes a “key-word”
since the participation in the underground of Heavy Metal is a way of consumption out
of the rules of marketing – a practice of freedom, a way of particular existence –, being
different in both mode and duration.
Key-words: Heavy Metal; Resistance; Consumption.
SUMÁRIO
Introdução ................................................................................................................... 09
Capítulo
1
–
Headbanger:
Uma
estilística
de
vida
e
resistência
na
contemporaneidade..................................................................................................... 14
1.1 – Resistência enquanto elaboração de novas éticas ................................................ 17
1.2 – Heavy Metal: liberdade, escolha pessoal e ética................................................... 26
Capítulo 2 – Modernidade, solidez e liquidez .......................................................... 62
2.1 – Vida líquida e consumismo na sociedade contemporânea.................................... 65
2.2 – A experimentação de um consumo diferenciado a partir do Heavy Metal............ 74
Capítulo 3 – A Cena Heavy Metal, em Natal: O Heavy Metal para além dos
shows.............................................................................................................................. 86
Considerações Finais ................................................................................................. 128
Anexos ......................................................................................................................... 132
Referências Bibliográficas ........................................................................................ 150
Introdução
Escolhi, para esta pesquisa, ter o Heavy Metal como objeto de estudo. Mais
especificamente, a cena Heavy Metal na cidade de Natal – RN. Faz-se mister, nesse
espaço, explicitar as razões pelas quais se deu a escolha do meu objeto de pesquisa.
Primeiramente, gostaria de me apresentar enquanto parte integrante dessa cena que
pesquiso agora. Comecei a ouvir Heavy Metal por volta dos 14 anos de idade e, desde
então, esse tipo de música, além de ter mexido comigo de uma forma diferente e mais
intensa, me fez parar para observar certas idiossincrasias presentes em seus
apreciadores. Eu estava diante de algo novo e de uma relação diferenciada com a
música, a qual eu nunca havia observado anteriormente em outras pessoas e, muito
menos, vivenciado eu mesma. Tratavam-se de pessoas singulares, de alguma forma, e
isso era um fato fascinante e inegável para mim. Deu-se o primeiro contato o
encantamento com a cena! A partir de então fui adentrando cada vez mais nesse
universo e me apaixonando mais e mais por ele. O primeiro contato se deu no ensino
médio. Posteriormente, me inseri no mundo das Ciências Sociais, outro universo
peculiar e não menos fascinante. A partir do contato com esses dois mundos, que têm
grande peso na minha formação, tive a ideia de uni-los, de alguma forma, abordando o
Metal enquanto temática de pesquisa dentro da Sociologia. Este trabalho é uma forma
de estudar algo que me fascinou, passando a limpo o porquê desse fascínio. E, mais do
que isso, também é uma forma que achei de contribuir mais com a cena Heavy Metal,
como terei a oportunidade de falar melhor no decorrer dessas páginas.
Agora, que já coloquei sobre a mesa a minha relação com o que pesquiso, pois
quem fala, fala sempre de algum lugar, ressalto o maior grau de dificuldade da proposta
9
de falar de algo que também faço parte. Parte importante da minha pesquisa se deu na
forma de entrevistas semi-estruturadas e sempre ressaltava para meus entrevistados, que
além de colaboradores, são meus amigos, o fato estranho de estar perguntando sobre
coisas que eu já deveria saber, que qualquer um dentro da cena sabe, e a importância
disso dentro da minha pesquisa, pois, por mais que todos sempre falem de algum lugar,
deve haver um estranhamento em relação ao objeto de estudo. E perguntar coisas que
parecem óbvias, mesmo para quem pesquisa, é uma tarefa sempre surpreendente, pois,
com o ato de pesquisar, sempre descobrimos que o que parecia óbvio, nunca o é, pelo
contrário, nos revela muitas surpresas instigantes. Essa é a sensação de fazer uma
pesquisa dentro de um ambiente familiar ao pesquisador e acho que ela deve estar
presente em qualquer pesquisa. O pesquisador sempre constrói um projeto para sua
futura pesquisa e nele lança suas hipóteses. A atividade de pesquisar deve ser encarada
como um caminho, de idas e vindas, um ensaio. 1 Aquele pesquisador que não constrói
sua pesquisa durante esse caminho, mas que a pressupõe a partir de seu projeto fechado,
não é um bom pesquisador. Muito curioso também foi o interesse, de todos os que
contatei, em ajudar e contribuir para o meu trabalho, de fazerem parte disso.
Explicitadas as razões da escolha do objeto e minha relação com o mesmo, se
faz necessário introduzir o leitor minimamente no universo do Heavy Metal. O Estilo
começa a tomar forma no final da década de 60, a partir de influências do Blues e tendo
como contexto de surgimento o período logo após o ano de 1968, marcado por protestos
da juventude contra o status quo. Há controvérsias acerca do seu surgimento, que giram
em torno de qual seria a primeira banda de Heavy Metal da história. Existem duas
1
Aqui, faço claras referências a dois textos que fizeram parte da minha formação acadêmica: o primeiro
capítulo de Educar na era planetária, de Edgar Morin, intitulado O Método; e O ensaio como forma, de
Theodor Adorno. Os dois textos propõem o ensaio como uma forma de escrita mais rica, ao contrário dos
textos científicos, que restringem e enquadram a escrita.
10
opiniões mais aceitas. Alguns dizem que foi o Led Zeppelin, outros, que foi o Black
Sabbath. No geral, a versão mais aceita é a de que o Led Zeppelin trouxe muitos
elementos importantes que viriam a contribuir para o surgimento do Heavy Metal,
porém, que a primeira banda considerada realmente do estilo seria o Black Sabbath,
com o lançamento da música que leva o mesmo nome da banda, no ano de 1970. Black
Sabbath é uma música que traz um elemento novo: o peso. As notas graves e a afinação
mais grave dos instrumentos traz o sombrio como uma característica nova.
Weinstein divide a estratificação do gênero em cinco fases: erupção
entre 1969 e 1972, com bandas apresentando características de um
código em formação ainda sem a classificação do termo heavy metal,
tais como a tríade britânica Led Zeppelin, Deep Purple e Black
Sabbath, e os norte-americanos Iron Buterfly e Blue Cheer;
cristalização entre 1973 e 1975, com a adoção do nome de batismo;
“golden age” entre 1976 e 1979; expansão de limites geográficos de
público e aumento do número de bandas e de fãs, entre 1979 e 1983,
com o florescimento da New Wave of British Heavy Metal, de bandas
como o Iron Maiden e o Motorhead; crescimento, incorporação de
novas influências e subdivisão em múltiplos subgêneros, depois de
1983 (2000:21), com o surgimento dos subgêneros thrash, death,
black, power, gothic, prog e new metal entre outros. (LOPES, 2006,
pág: 120)
Falando especificamente sobre o Heavy Metal em Natal, podemos dizer que a
cena é pequena e restrita, sem muita expressividade dentro de uma cidade onde
predomina o gosto pelo forró, como em muitas cidades do nordeste do país. Muitas
pessoas que habitam em Natal, quando souberam do meu objeto de pesquisa, fizeram o
seguinte questionamento: “Mas existe uma cena Heavy Metal aqui?” Pois é, essa cena
existe sim, apesar de pequena e não muito aparente. E o fato de esse estilo musical ter
pouca expressividade aqui não significa que ele cumpra menos sua função ethopoiética
11
para aqueles que são amantes do Metal. Ter poucos adeptos implica numa maior
dificuldade da manutenção desse estilo. Gostar de Heavy Metal e, mais ainda, vivê-lo,
torna-se mais complicado em um lugar onde ele é um estilo marginal, por assim dizer.
Se nos dias de hoje é complicado, quem dirá na década de 80, quando a cena começou a
surgir. Porém, essa dificuldade inicial se traduzia também em um maior sentimento de
união da cena, sentimento esse que, segundos os headbangers, se esvai a cada dia,
principalmente com o advento da internet. A internet tem um papel fundamental no
acesso a todo tipo de materiais e músicas, sem falar na comunicação com pessoas que
estão distantes, o que é muito importante dentro do Heavy Metal, que é um estilo global.
Porém, a internet também causou o distanciamento e uma mudança de hábitos no que se
refere às formas de socialização dos ouvintes de Metal em Natal e nas formas de
compartilhamento de material. Atualmente, temos uma cena em que a velha guarda do
Metal coexiste com os mais novatos, algumas coisas mudaram desde os primórdios da
cena e trataremos melhor disso no nosso terceiro capítulo.
A hipótese central desse trabalho é a de que o Heavy Metal é ethopoiético, que é
um dispositivo que cumpre funções específicas de subjetivação (Foucault), que forma
novas éticas, novas estilísticas de vida e isso é visto por nós como uma forma de
resistência na sociedade contemporânea. E, como estamos falando de sociedade
contemporânea, incluímos Zygmunt Bauman nas nossas reflexões, pois esse autor nos
dá um diagnóstico, que julgamos interessante, do mercado enquanto regulador social na
contemporaneidade e dos efeitos disso nas relações sociais. Bauman fala de uma
sociedade consumista, pois bem, temos como hipótese que o consumo, dentro do Heavy
Metal é diferenciado, por não estar de acordo com os padrões de consumo dessa
sociedade líquido-moderna descrita por Bauman. Os produtos consumidos são
12
diferentes, as razões pelas quais se consome são diferentes e a duração desse consumo
se diferencia também, como falaremos no nosso segundo capítulo.
No primeiro capítulo lançamos uma das bases teóricas do nosso estudo, que é
construída a partir das reflexões de Michel Foucault. Bem como, apresentamos algumas
partes das entrevistas que realizamos. No segundo capítulo, tratamos da outra base
teórica do nosso estudo. Ela é composta principalmente pelas reflexões de Zygmunt
Bauman sobre a contemporaneidade. Esse capítulo é encerrado com o antropólogo
David Le Breton e suas ideias sobre o corpo como acessório. Em nosso terceiro
capítulo discutimos de forma mais específica sobre a cena Heavy Metal de Natal,
fazendo um pequeno resgate da sua história e tentando mostrar como ela funciona, o
Metal para além dos shows, pois nem só de shows se faz o Heavy Metal. Demonstrar
isso é uma das nossas propostas, fazer ver que o Metal é algo para além de um estilo de
música que se ouve. Finalizamos nosso terceiro capítulo apresentando de forma mais
detalhada perfis de alguns headbangers natalenses que foram entrevistados durante a
pesquisa. Como forma de tentar imprimir alguma musicalidade em um trabalho escrito
sobre a música, produzimos um DVD que acompanha o texto da dissertação, no qual
exibimos um vídeo de cada uma das bandas de Natal que foram citadas no trabalho.
Somente a primeira música do DVD é de uma banda de Black Metal sueca, que também
aparece no decorrer do texto.
Esperamos que este seja um trabalho que inicie aqueles que não têm contato com
o universo do Heavy Metal e que, para os colegas e amigos headbangers, seja apreciado
como fonte de conhecimento novo e de uma visão diferente daquilo que eles já
conhecem tão bem.
13
1 – Headbanger: Uma estilística de vida e resistência na contemporaneidade.
Nessa pesquisa, tomamos como objeto de estudo a cena do Heavy Metal 2, na
cidade de Natal – RN, no entanto, apesar de termos escolhido um objeto bem específico,
temos como objetivo, a partir desse recorte, falar de questões bem mais amplas, que
dizem respeito à sociedade contemporânea em geral.
Num primeiro momento, explicitaremos as bases teóricas do nosso estudo, bem
como, apresentaremos essas questões mais abrangentes, que acabam, de certa forma,
ultrapassando o nosso recorte. Deste modo, podemos afirmar que nosso objetivo geral
com essa discussão é, a partir desse nosso objeto, suscitar questões que pensamos ser de
suma importância na contemporaneidade. Este primeiro momento, representado nos
dois primeiros capítulos, será, portanto, um escrito que refletirá o nosso caminho de
pensamento 3, onde aparecerão os autores e as questões que norteiam nossa reflexão. As
bases teóricas para essa pesquisa nos foram dadas a partir da leitura de, principalmente,
dois autores: Michel Foucault, pensador francês, e Zygmunt Bauman, sociólogo
polonês.
O conceito de resistência, de Foucault, associado a elaborações mais tardias
deste autor, que dizem respeito ao “tomar-se a si mesmo enquanto obra de arte”, na
construção de novas éticas, é de suma importância na composição de nossa reflexão,
como também a sociedade líquido-moderna, descrita por Bauman, nos servirá de pano
de fundo.
2
Utilizamos o termo Heavy Metal aqui, de forma geral, abrangendo com isso todas as ramificações
associadas a esse estilo musical. O termo Heavy Metal também pode ser utilizado quando se fala
especificamente do Heavy Metal clássico, que deu origem a incontáveis subdivisões, como, por exemplo,
o Death Metal, o Thrash Metal, o Power Metal e assim por diante.
3
Expressão que tomamos emprestada de Heidegger, em seu ensaio “A questão da técnica”.
14
Ao longo do texto também explicitaremos nossa pesquisa empírica, que se deu
na forma de entrevistas semi-estruturadas. Apesar de essa primeira parte ter um cunho
notadamente teórico, nosso objetivo é fazer um trabalho que prime por uma boa relação
entre teoria e prática. Então, tratar-se-á de um escrito mais teórico, onde aparecerão,
também, as vozes de nossos interlocutores mescladas às vozes dos pensadores que
sustentarão nossa caminhada.
Primeiramente, gostaríamos de explicitar o uso do termo cena na denominação
do todo que abrange os sujeitos e as práticas relacionadas ao Heavy Metal. Além de
“cena” ser um termo amplamente utilizado pelos próprios headbangers 4, o sociólogo
inglês Keith Kahn-Harris propõe a utilização do conceito de cena, em detrimento do
conceito de subcultura, ou do conceito de tribo urbana, de Michel Maffesoli, sociólogo
francês. Para Kahn-Harris, o Heavy Metal não pode ser descrito enquanto uma
subcultura, pois este conceito designa algo mais voltado para um ajuntamento com
objetivos políticos, no sentido de uma resistência política contra-hegemônica. O Heavy
Metal, como discutiremos mais adiante, não é um ajuntamento com objetivos políticos,
pelo menos, não no sentido usual do termo política. O movimento Punk, por exemplo,
poderia entrar na classificação de uma subcultura, já que suas aspirações de cunho
político e contra cultural são bem explícitas, ao contrário do Heavy Metal. Mais a
frente, explicitaremos nossa proposição do Heavy Metal enquanto resistência na
configuração de uma ética particular. O conceito de tribos urbanas, de Maffesoli,
também é deixado de lado por esse autor, pois designa um ajuntamento que se dá
4
Headbanger é um termo que vem da língua inglesa e que traduzido literalmente significa: batedor de
cabeça. Esse termo é amplamente utilizado na denominação dos fãs de Heavy Metal em geral. Está
intimamente ligado ao ato de “bater cabeça”, ou seja, balançar a cabeça de acordo com o ritmo da música
que se ouve.
15
somente na forma de alianças afetivas baseadas em “sensibilidades temporariamente
compartilhadas”. 5 (KAHN-HARRIS, 2007, pág. 18, tradução nossa).
A utilização do conceito de cena, segundo Kahn-Harris, seria no sentido de
intermediar os conceitos de subcultura e tribos urbanas, já que esses dois conceitos
tornam-se restritivos para falar acerca do Heavy Metal, pelos motivos descritos no
parágrafo anterior. O ajuntamento proporcionado pelo Heavy Metal não se restringe a
objetivos políticos, no sentido de constituir uma contra-hegemonia, tampouco baseia-se
apenas em uma afetividade compartilhada. Apesar de ser constituído também das
características que estruturam esses dois conceitos.
As Alan Blum has shown, scene has rich connotations of the
urban and of nightlife. John Irwin notes that the term can be
used in two very different ways in everyday language. It can
be used in the sense of ‘that’s not my scene’, connoting vague
notions of lifestyle. It can also mean something ‘subcultural’.
However, the two senses of the term are not necessarily
contradictory. They both connote something that is shared,
something we choose or not to participate in. Scene can be
both a public space and a more general way of living. 6
KAHN-HARRIS, 2007, pág. 18)
O trecho citado acima, da obra Extreme Metal. Music and Culture on the Edge,
de Kahn-Harris, nos traz uma definição rápida do conceito de cena utilizado pelo autor.
Cena traz o elemento urbano, que é parte integrante do Heavy Metal, e pode significar
5
“temporarily shared sensibilities”, do original, em inglês.
Como Alan Blum nos mostra, cena tem ricas conotações do urbano e da vida noturna. John Irwin
observa que o termo pode ser usado de duas formas diferentes na linguagem cotidiana. Pode ser usado no
sentido de ‘esta não é a minha cena’ implicando noções vagas de estilo de vida. Pode significar também
algo ‘subcultural’. No entanto, os dois significados do termo não são necessariamente contraditórios. Os
dois sugerem algo que é compartilhado, algo que escolhemos participar ou não. Cena pode ser os dois:
um espaço público e um modo de vida mais geral. (Tradução nossa)
6
16
algo referente a uma subcultura – porém, como falamos aqui, para o autor, esses dois
conceitos são distintos – ou algo relativo a um estilo de vida. O principal aspecto desse
conceito, no entanto, é que ele traduz a noção de algo que é compartilhado e, como fala
o autor nesse trecho citado, “algo que nós escolhemos participar ou não”.
1.1 Resistência enquanto elaboração de novas éticas.
Foucault, geralmente, é mais conhecido por suas elaborações acerca do poder
disciplinar, das relações de poder, da positividade do poder na construção de corpos
dóceis. Porém, para fins didáticos, costuma-se dividir sua obra em três momentos.
Primeiramente, os estudos da constituição do sujeito a partir do discurso científico e das
relações entre sujeito, verdade e saber. Momento esse que tem como principal referência
a obra As Palavras e as Coisas. Em um segundo momento, também o mais conhecido,
Foucault irá se preocupar com o engendramento do sujeito pelos dispositivos
disciplinares, onde ele vai se debruçar sobre a questão do poder, de forma mais
específica, e sobre quais instituições estão produzindo o sujeito e de que forma elas o
produzem. Uma obra representativa dessa segunda subdivisão do seu pensamento é
Vigiar e Punir. Já em um terceiro momento, que não é tão conhecido quanto os outros
dois anteriores, o qual nos interessa nesse trabalho de pesquisa, o pensador francês irá
tomar com mais centralidade a questão do sujeito, que, segundo ele, sempre permeou
suas discussões desde o início de sua obra, porém, não com a centralidade que é dada
nesse terceiro momento. Nos últimos anos de sua vida, Foucault vai se preocupar com o
17
modo pelo qual o homem se torna sujeito de si através da insubmissão do pensamento,
da estilização da vida, através da criação de novas éticas enquanto práticas de liberdade.
Foucault, em O Sujeito e o Poder, escrito que pertence a esse terceiro momento
do qual falamos, sugere uma nova forma de proceder com a investigação dos fenômenos
sociais. Ele propõe ter como ponto de partida não somente as relações de poder, mas
também as formas de resistência criadas pelos sujeitos contra as diferentes formas de
poder. A partir do estudo das resistências nós poderíamos analisar as relações de poder e
o modo como se dão os antagonismos na dinâmica social. “E para compreender o que
são as relações de poder, talvez devêssemos investigar as formas de resistência e as
tentativas de dissociar essas relações.” (FOUCAULT, 1995, pág. 234)
A nossa proposta central aqui é a de que o Heavy Metal pode ser pensado
enquanto uma ética, no sentido foucaultiano do termo. Desta maneira, o Heavy Metal
pode ser visto enquanto uma forma de resistência, uma insubmissão do pensamento,
uma prática de liberdade. Iremos falar de forma mais cuidadosa dessa questão no
decorrer do texto.
Estudar as formas de resistência significa estudar as formas tomadas pelas lutas
antiautoritárias, que se constituem enquanto lutas de resistência a determinadas relações
de poder. Segundo Foucault, as lutas antiautoritárias têm alguns aspectos em comum.
Primeiramente, são lutas transversais, ou seja, são lutas globais. O Heavy Metal,
enquanto forma de resistência, tem essa característica de ser global. O fenômeno do
Heavy Metal não se restringe a um país, nem tampouco a um continente, esse estilo é
escutado e executado em quase todo o mundo. O antropólogo canadense Sam Dunn
produziu um documentário que fala especificamente dessa questão, denominado Global
18
Metal 7. O antropólogo se coloca como questão de pesquisa como esse estilo ultrapassou
as fronteiras da América do Norte e Europa, onde ele tem grande peso, e afetou culturas
em torno de quase todo o mundo. Dunn fez sua jornada de pesquisa pela Ásia, Oriente
Médio e América do Sul, e passou por países em que ele, anteriormente, achava que não
encontraria o Heavy Metal, principalmente, com a intensidade com a qual ele se
deparou. Ele também produziu outro documentário sobre Heavy Metal, denominado:
Metal: A Headbanger’s Journey 8, no qual ele faz um resgate das raízes desse estilo, fala
sobre algumas controvérsias existentes e conversa com fãs sobre o significado que a
música tem na vida deles.
A partir desse documentário, Dunn nos conta que teve a oportunidade de receber
diversos e-mails de várias partes do mundo agradecendo pelo belo trabalho feito por ele.
Na ocasião, ele entrou em contato com pessoas de locais onde ele jamais imaginou que
o estilo estivesse presente. Então, surgiu o interesse em fazer o segundo documentário
falando sobre o aspecto global do Heavy Metal e questionando como as diferentes
culturas assimilaram o Metal. O autor inicia seu documentário no Wacken Open Air, o
maior festival mundial dedicado aos mais diversos gêneros e expressões do Heavy
Metal. Segundo o autor, a cada ano, mais de sessenta mil pessoas do mundo inteiro
acampam na pequena cidade de Wacken, ao norte da Alemanha, para prestigiar seus
ídolos.
Tendo explicitado o primeiro aspecto que as lutas antiautoritárias têm em
comum, podemos agora passar ao segundo aspecto, que diz respeito aos objetivos
dessas lutas. Elas têm como objetivo os efeitos de poder enquanto tais. Desta forma, o
7
8
Metal Global, em português. Referência do documentário na parte de referências bibliográficas.
Metal: Uma jornada headbanger, em português.
19
objetivo dessas lutas não é atacar uma determinada instituição, ou classe, mas sim, uma
forma de poder:
Esta forma de poder aplica-se a vida cotidiana imediata que categoriza
o indivíduo, marca-o com sua própria individualidade, liga-o a sua
própria identidade, impõe-lhe uma lei de verdade, que devemos
reconhecer e que os outros têm que reconhecer nele. É uma forma de
poder que faz dos indivíduos sujeitos. (FOUCAULT, 1995, pág. 235)
E o terceiro aspecto é o de que elas são lutas imediatas, no sentido de que não
intencionam acabar com um inimigo mor e nem encontrar soluções definitivas para o
futuro. Elas se diferenciam, portanto, das lutas de classe, descritas por Marx, pois estas
têm um grande inimigo a enfrentar, que seria o capitalismo, e querem uma solução
definitiva para o futuro, o comunismo.
Foucault define três tipos de lutas antiautoritárias: as lutas contra as formas de
dominação; – que pode ser étnica, social ou religiosa, por exemplo – as lutas contra as
formas de exploração que separam os indivíduos daquilo que eles produzem; e as lutas
contra a submissão da subjetividade. E, apesar de essas três formas de luta coexistirem
sempre, Foucault ressalta que, conforme o contexto histórico, uma delas se sobressai.
Em nossa época, apesar de existirem paralelamente essas três formas de luta,
sobressaem-se as lutas contra a insubmissão da subjetividade. A razão que Foucault dá
para que esse tipo de luta apareça com mais destaque na contemporaneidade está
refletida na forma política vigente, o Estado, que se caracteriza como uma forma de
governo que combina de maneira astuciosa técnicas de individualização e
20
procedimentos de totalização. Sobre o Estado moderno: “[...] uma estrutura muito
sofisticada, na qual os indivíduos podem ser integrados sob uma condição: que a esta
individualidade se atribuísse uma nova forma, submetendo-a a um conjunto de modelos
muito específicos”. (FOUCAULT, 1995, pág. 237)
Segundo Foucault, o Estado moderno ocidental incorporou uma antiga
tecnologia de poder proveniente das instituições cristãs: o poder pastoral, que, com o
enfraquecimento da instituição religiosa, ampliou suas funções para fora da instituição
eclesiástica. Deste modo, o Estado passa a ser a nova forma do poder pastoral.
O poder pastoral tem algumas características específicas: tem a salvação do
indivíduo como objetivo; cuida tanto da comunidade, de forma geral, quanto do
indivíduo; é oblativo; e, por fim, “esta forma de poder não pode ser exercida sem o
conhecimento da mente das pessoas, sem explorar suas almas, sem fazer-lhes revelar
seus segredos mais íntimos. Implica um saber da consciência e a capacidade de dirigila”. (FOUCAULT, 1995, pág. 237) Porém, houve algumas atualizações desse poder
pastoral quando, ultrapassando a instituição eclesiástica, ele foi incorporado pelo Estado
moderno ocidental. A salvação, que antes era prometida para um período de além-vida,
agora passa a ser esperada para o período em que se vive. O Estado tem o papel de
assegurar a salvação dos indivíduos neste mundo, na forma de segurança, bem-estar e
no estabelecimento de uma ordem. A normalização do social é feita a partir do Estado e
de suas instituições, como a polícia, que tem como função assegurar a manutenção da
higiene, da saúde e de padrões urbanos.
Todo o nosso trabalho, até o presente momento, foi focado na contextualização
da proposta de Foucault de estudarmos o fenômeno das resistências. Destacamos que as
lutas contra a submissão da subjetividade se sobressaem na contemporaneidade,
21
enquanto resistências que se configuram a partir do modelo político vigente, o Estado.
Isso porque o Estado, enquanto agente do processo civilizatório, estabelecia os padrões
de conduta morais a serem seguidos. Essas lutas enquanto resistências se manifestam na
elaboração de novas formas de viver, novas experimentações, novas éticas.
A ética enquanto prática de liberdade aparece como algo para poucas pessoas,
uma moral de grupo que faculta a adesão, baseada em um estilo de vida, uma espécie de
subcultura elitista, nesse sentido, algo com um caráter bem nietzschiano. No caso dos
headbangers, podemos notar que esse elitismo aparece na medida em que há uma
diferenciação, feita pelos headbangers, entre eles, enquanto grupo que faz parte da
cultura Heavy Metal, que seria uma cultura mais rica e elevada, e os outros que não
fazem parte desse grupo ético. Esse aspecto pode ser melhor visualizado pelo leitor no
decorrer do texto. Porém, outro fator que ressalta o caráter elitista do Heavy Metal, é o
fato de este ser um estilo de música onde as canções são compostas com a
intencionalidade de serem escutadas, apreciadas e entendidas, principalmente, por
aqueles que fazem parte desse grupo. Não se compõe Metal com a intenção de que ele
seja popularizado. Em algumas vertentes do Metal, notadamente no chamado Metal
Extremo, os logotipos das bandas são sempre idealizados com fontes que dificultam a
compreensão do nome destas. Só quem conhece o logo da banda, consegue ler o nome
que está escrito. É importante ressaltar que a principal diferença entre moral e ética é
que a moral tem como função fornecer modelos de comportamento para o todo social. A
moral é baseada também no compartilhamento por todos daquilo que aparece como
certo ou errado, ela cria valores. Ela faz o papel de “cimento social”, é o que dá o
caráter maciço que compõe a sociedade.
22
Sobre a moral, Nietzsche aponta o fato de que os seres humanos precisam criar
causas, fato esse que decorre de sua necessidade psicológica de explicar as coisas do
mundo em que vive. O ser humano sempre precisa achar uma razão que explique o seu
estado atual, não bastando a constatação desse estado.
Segundo Nietzsche a criação de causas é imaginária. As causas só são criadas
pelo homem para explicar uma situação atual, um problema que ele vivencia. A partir
de uma experiência que se vive, e sobre a qual não se tem ainda uma explicação, buscase uma causa. Têm-se aí, então, interpretações que o ser humano faz de fenômenos, os
quais vivencia, e que são tomadas como causas destes mesmos fenômenos. Nas palavras
de Nietzsche: “As ideias produzidas por uma certa condição foram mal-entendidas
como causas dela”. (NIETZSCHE, 2006b, pág. 42). A partir daí o homem dá um
sentido ao acaso.
Há nesse processo uma confusão temporal entre causas e efeitos, uma vez que, a
partir de certo fenômeno, o homem cria uma causa que lhe seria anterior, porém, na
medida em que a suposta causa é imaginada pelo homem após o fenômeno, ela não é
anterior a este, mas sim posterior, pois é uma causa imaginada pelo homem, não
devendo ser confundida com a causa real, que provêm do acaso. As causas criadas pelo
homem não deveriam ser vistas enquanto causas, pois não são nada além de produtos
dos fenômenos vivenciados por estes. Portanto, os efeitos vêm antes das causas, que são
uma resposta do homem a estes mesmos efeitos. Temos aí o erro da confusão entre
causa e consequência. A este erro da confusão entre causas e consequências Nietzsche
dá o nome de moral: “... esse erro está entre os mais antigos e mais novos hábitos da
humanidade: ele é até santificado entre nós, leva o nome de “religião”, “moral”. Cada
tese formulada pela religião e pela moral o contém. ”(NIETZSCHE, 2006b, pág.39)
23
“É conveniente usar causa e efeito só como conceitos puros, como
ficções convencionais, para fins de terminologia, entendimento, e não
de explicação.” (NIETZSCHE, 2006a, pág. 26)
A partir desse trecho de Além do bem e do Mal, podemos verificar que Nietzsche
não critica, de modo algum, o fato de o homem criar causas, visto que essa é uma
necessidade psicológica do homem. O problema apontado por ele está, antes de mais
nada, no fato de o indivíduo utilizar essas causas criadas enquanto explicações da
realidade, fazendo com que as supostas causas, por ele criadas, sejam vistas e
confundidas com a própria realidade, na forma de imperativos.
Desta forma, a moral é da ordem do que é imperativo, daquilo que se deve ou
não fazer. Ela categoriza o que é bom e o que é mau e isso, através do que Nietzsche
descreve como a confusão entre causas e consequências, acaba aparecendo como natural
e necessária.
A ética, como nos fala Foucault, é uma prática de liberdade. A partir do
momento em que o homem percebe o caráter arbitrário da moral – que é construção
humana, ou seja, não é natural nem anterior ao homem – e, de acordo com Nietzsche,
assume sua natureza, que é a criação de valores, ele pode tomar a si mesmo enquanto
obra de arte e constituir-se a partir de experiências éticas. A ética, assim como a moral,
envolve códigos que organizam a vivência. A diferença basilar entre essas duas
categorias é que a ética não aparece enquanto imperativo, não se apresenta como natural
e necessária, mas sim, como uma alternativa. A ética faculta a adesão do sujeito, ou
seja, ele tem a escolha de se submeter ou não a essa nova experienciação. Por isso que a
24
ética é uma prática de liberdade. “A partir da ideia de que o indivíduo não nos é dado,
acho que há apenas uma consequência prática: temos que criar a nós mesmos como uma
obra de arte.” (FOUCAULT, 1984, pág. 50)
Segundo Foucault, a liberdade só existe, enquanto prática, na forma de
“experimentações éticas”. Não existe um estado de liberdade total do sujeito, já que este
vai sempre ser constituído por padrões morais de comportamento. Não há um lado de
fora do poder, pois, para Foucault, não há o poder enquanto coisa, mas, relações de
poder, que constituem o sujeito, e resultam na positividade do poder. O sujeito sempre
vai estar atravessado por relações de poder. A liberdade é uma agonística, uma luta sem
fim. O sujeito só pode experimentá-la praticando-a através da ética, que pertence ao
campo da escolha, é um problema de escolha pessoal, de adesão consentida. A ética é
algo restrito a poucas pessoas, a uma elite, é a busca de estilos de vida diferenciados. A
prática de si é produzir-se a si mesmo, dentro de um grupo ético, reinventando a
existência a partir de novas produções de sentido.
A conclusão seria que o problema político, ético, social e filosófico de
nossos dias não consiste em tentar liberar o indivíduo do Estado nem
das instituições do Estado, porém nos liberarmos tanto do Estado
quanto do tipo de individualização que a ele se liga. Temos que
promover novas formas de subjetividade através da recusa deste tipo
de individualidade que nos foi imposto há vários séculos.
(FOUCAULT, 1995, pág. 239)
Pensando, desta forma, as experiências éticas como práticas de liberdade, a
partir de Foucault, nossa hipótese principal é a de que o Heavy Metal, além de um estilo
musical, constitui um conjunto de regras particulares que caracterizariam uma ética. O
Heavy Metal vai aparecer como um dispositivo de subjetivação. Entendemos
25
subjetivação em um dos sentidos dados ao termo por Foucault. A subjetivação se dá na
formação de subjetividades a partir dos dispositivos de subjetivação, dos dispositivos de
poder, das mais diversas instituições sociais. A segunda acepção desse conceito trata o
próprio sujeito enquanto “mestre de obras” na construção da sua subjetividade, do
tomar-se a si mesmo como obra de arte na experimentação de novas formas éticas. Esta
é a melhor definição que se aplica em nosso trabalho.
1.2 – Heavy Metal: liberdade, escolha individual e ética.
Através das entrevistas que realizamos, pudemos observar uma atitude
consensual entre os entrevistados. Sempre que perguntávamos algo relacionado às
influências que o Heavy Metal poderia ter no modo de agir, ou pensar dos entrevistados,
eles faziam questão de frisar que não agiam ou pensavam de determinada forma por
causa do Heavy Metal, que não era uma relação de passividade, onde a música e as
práticas grupais poderiam determinar certas atitudes e pensamentos. Todos que
colaboraram com a pesquisa afirmaram de modo categórico que o Heavy Metal era algo
que abria os campos de possibilidades de pensamento. O contato com esse determinado
tipo de música e com toda a carga cultural que “vem no pacote” tem a função de
mostrar diversos caminhos e possibilidades de se pensar diferente, potenciais
inventivos, em contraponto aos padrões morais a que somos habituados e a partir dos
quais somos construídos desde o momento em que nascemos. As principais bandeiras
levantadas pelo Heavy Metal são: a liberdade e escolha pessoal.
26
Eu acho que essa é a principal mensagem que o Heavy Metal passa:
Não seja um alienado, tenha sua própria opinião, tenha sua própria
atitude. Você tem sua liberdade (...) você tem que fazer o que você
quer, não o que os outros fazem (...) você pode ter religião, ou não. O
importante é isso, você ter essa liberdade de pensamento (...) O que é
possível fazer, você pode fazer. No geral, é evitar a alienação. Pessoas
que ouvem Heavy Metal são bem mais esclarecidas 9, são pessoas que
procuram ler mais, estudar mais, que tem uma cultura, em geral, muito
maior. (Ericksen Lima 10)
Se houvesse uma relação de passividade onde, aquele que ouve, assimilaria
determinados hábitos somente pelo fato de ouvir a música, seria, no mínimo,
contraditório, pelo fato de que, segundo nossos entrevistados, a principal função do
Heavy Metal é desconstruir aquilo que os valores morais nos apresentam como sendo
natural. A primeira coisa que pudemos observar claramente com o trabalho de pesquisa
empírica foi justamente essa repulsa ao que é inculcado de forma passiva. Por esta
razão, grande parte diz não ter religião. Desta maneira, para aqueles que entrevistamos,
o Heavy Metal não pode ser visto como semelhante a uma religião, onde há essa relação
de passividade.
Em A Hermenêutica do Sujeito Foucault se ocupa em fazer um estudo das
práticas de si na Antiguidade com a intenção de analisar o problema da subjetivação
moderna. Para uma melhor análise das práticas de si, da ética do cuidado de si,
tomaremos algumas passagens desta obra para fundamentar melhor nossa hipótese do
Heavy Metal enquanto um grupo ético.
9
Podemos remeter esse trecho da fala do nosso entrevistado ao que colocamos anteriormente sobre a
questão do elitismo dentro da prática de si, no caso particular que estamos estudando: Os headbangers
enquanto um grupo que pratica a liberdade através de uma ética.
10
Headbanger natalense, 26 anos. Ouve metal desde pequeno, por influência do pai, que é comerciante e
vende camisas de banda em um bairro comercial da cidade, o Alecrim. Ouve todos os estilos de Heavy
Metal e Rock’n Roll, tendo preferência declarada pelo chamado Heavy Metal tradicional. Estuda Ciências
da Computação.
27
Várias expressões são usadas na caracterização do cuidado de si, dentre elas,
algumas se referem basicamente à construção, pelo próprio sujeito, de uma fortaleza de
si mesmo. “Instalar-se a si mesmo como em um lugar refúgio, uma cidadela bem
fortificada, uma fortaleza protegida por muralhas, etc.” (FOUCAULT, 2006, pág. 105)
Logo após referir-se a essas expressões, em uma nota, Foucault faz uma citação de
Sêneca, para explicitar melhor o sentido delas: “Que a filosofia erga em torno de nós a
inexpugnável muralha que a Fortuna ataca com suas mil máquinas, sem abrir passagem.
Mantém uma posição inatingível a alma que, desligada das coisas de fora, defende-se no
forte que ela mesma construiu para si.” (FOUCAULT, 2006, pág. 124)
Seguindo pelo texto, podemos perceber que construir essa fortaleza para si
mesmo, enquanto uma característica do cuidado e da prática de si, significa também
corrigir-se 11. Mas corrigir-se em relação a que? Aos hábitos morais impostos desde a
mais tenra infância.
Na prática de nós mesmos, devemos trabalhar para expulsar, expurgar,
dominar este mal que nos é interior, nos libertar e nos desembaraçar
dele (...) certamente, é muito mais fácil corrigir-se quando se
assume este mal no período em que se é ainda jovem e tenro e o
mal não está ainda incrustrado. (FOUCAULT, 2006, pág. 116, grifo
nosso.) 12
Tendo como base a parte que destacamos nessa citação, podemos perceber que o
mal que Sêneca fala é proveniente da socialização do sujeito dentro das regras morais.
Portanto, a prática de si diz respeito a construir uma fortaleza de nós mesmos
11
Essa forma do cuidado de si que exploramos em nosso texto é característica do período Helênico,
séculos I e II. Para Foucault, este é o período mais representativo do Cuidado de si, pois é um momento
em que a prática de si torna-se geral, na população Greco-romana.
12
Nessa citação d’A Hermenêutica do Sujeito, Foucault fala sobre a prática de si em Sêneca.
28
expurgando e corrigindo os males da moral que age em nós e, desta forma,
reivindicando-nos a nós mesmos enquanto sujeitos artistas de nossas próprias
existências. “... a prática de si tornar-se-á cada vez mais uma atividade crítica em
relação a si mesmo, ao seu mundo cultural, à vida dos outros.” (FOUCAULT, 2006,
pág. 114) Trata-se, ademais, de “endireitarmos o nosso espírito”, como fala Foucault,
tomando as palavras de Sêneca 13. O objeto da prática de si é o si mesmo, o sujeito
assujeitado às determinações sociais que, tendo cuidados consigo mesmo, pratica a
liberdade na medida em que, sabendo de sua natureza de sujeito humano criador de
valores e tendo consciência de que foi constituído enquanto sujeito a partir de hábitos
gerais que podem ser mudados, começa a trabalhar enquanto mestre de obras na
correção de si mesmo.
[...] reforma de si que tem por critério uma natureza – mas uma
natureza jamais dada, jamais manifestada como tal no indivíduo
humano, de qualquer idade –, tudo isso assume, muito naturalmente, a
feição de um desbaste em relação ao ensino recebido, aos hábitos
estabelecidos e ao meio. (FOUCAULT, 2006, pág. 117)
A partir disso, podemos concluir, primeiramente, que a prática de si, diz respeito
a essa não alienação do sujeito à moral reificada, em um movimento no qual o mesmo
constrói para si uma fortaleza de sua própria alma recusando aquilo que é imposto
socialmente pela moral, na normatização da normalidade e escolhendo a que regras ele
pretende se submeter. Os headbangers aparecem como um grupo que, tendo como
ponto de partida o Heavy Metal, constrói para si essa fortaleza, já que, como falamos no
13
Essa ideia de corrigir-se e desaprender os hábitos morais não aparece somente em Sêneca, ela está
presente em todo o período Helênico. Pode ser encontrada também, principalmente, nos cínicos e nos
estóicos.
29
início desse tópico, o primeiro dado da nossa pesquisa foi a repulsa dos ouvintes de
Metal àquilo que é inculcado de forma passiva, isso se reflete, principalmente, na
criação de novas maneiras de estilizar a própria vida que são individuais e grupais ao
mesmo tempo.
Com relação a essa reforma de si, esse corrigir-se que é parte integrante do
cuidado de si, podemos afirmar que ela tem por motivação se instaurar no sujeito frente
ao que Sêneca vai chamar de “o pior estado em que se poderia estar, que é, na verdade,
o estado no qual se acha quem não começou ainda o percurso da filosofia nem o
trabalho da prática de si” (FOUCAULT, 2006, pág. 162). Esse estado é a stultitia. Pois
bem, como é o stultus, ou melhor, quais as características principais do indivíduo
stultus, ou, se preferirmos, desse estado que é a stultitia, que é o total oposto da prática
de si? O stultus é aquele indivíduo completamente aberto às influências exteriores,
aquele que não as filtra, que deixa que elas se façam partes integrantes de seu espírito.
Não possui capacidade crítica para constituir-se a si mesmo a partir dessas influências,
filtrando-as e escolhendo as referências que acha pertinentes para a elaboração de si
mesmo, o indivíduo stultus não é capaz de “querer livremente”. “Entre a vontade e o eu
há uma desconexão, uma não conexão, um não pertencimento que é característico da
stultitia”. (FOUCAULT, 2006, pág. 164) Sobre essa questão da stultitia, que
corresponde ao não querer livremente, pela falta de senso crítico formado, de um filtro
que aja sobre as influências exteriores, podemos inserir uma fala de um entrevistado
acerca da questão do querer, dentro do Heavy Metal, que, segundo ele, seria um querer
livre, ou seja, embasado em uma opinião crítica bem fundamentada constituída por
aqueles que ouvem Heavy Metal e saíram desse estado de stultitia, ou seja, praticam a si
mesmos.
30
No metal, como as pessoas têm uma opinião muito bem formada, elas
têm um gosto pessoal e gostam daquilo porque realmente gostam... e
isso não se muda... isso é uma coisa que você se identifica e fica pra
você pelo resto da vida... por isso, existem bandas clássicas, que
jamais são esquecidas. (Ericksen Lima)
Os participantes da cena do Heavy Metal admitem seguir alguns padrões que
seriam parte do que é ser um headbanger, como podemos exemplificar aqui, com
pequenos trechos de conversas dos nossos entrevistados:
Ser headbanger é uma questão de atitude. [...] O Heavy Metal além de
ser um estilo musical, tem essa parte ‘filosófica’, digamos assim, de
passar uma ideia, de passar um conhecimento [...] aborda vários
assuntos, como política e religião, por exemplo. (Ericksen)
É a denominação de um estilo, de um padrão, de um comportamento
que a gente segue, dentro de um determinado gênero. (Gerson 14)
Porém, apesar de admitir essa questão de um estilo comum, de um determinado
comportamento e de certas ideias que são passadas pelas músicas, os entrevistados
sempre acabam frisando a questão da não passividade deles em relação aquilo que eles
ouvem, até mesmo pela proposta do Heavy Metal, que consiste na recusa de valores
instituídos pela moral. Eles sempre tentam ressaltar certa tomada de consciência daquele
que ouve, que os diferenciaria daqueles que não ouvem, no sentido de proporcionar uma
14
Headbanger natalense, 36 anos. Vocalista da banda Primordium, de Death Metal, formado em
pedagogia. É policial militar.
31
“mente mais aberta”. Desta forma, devemos encarar o Heavy Metal não como um estilo
de vida, mas como uma estilística.
A ideia mesmo do headbanger - eu, pelo menos, penso assim – é
aquele cara que, realmente, ele não é um alucinado, não é um
lunático... ele tá ali dentro consciente do que ele faz... ele é um sujeito
tanto ativo, quanto passivo dentro do estilo musical. (Gerson)
Chega um cara aqui, ‘bombadinho’, com um abadá, daí você olha e
diz: “é forrozeiro!” O ‘bicho’ que curte axé, do mesmo jeito... é a
mesma coisa o headbanger... vai tanto do modo como você se veste,
do que você escuta e até mesmo do seu estilo de vida, de você não
seguir padrões que a sociedade te impõe. (Wolfera 15)
A partir desses dados, é importante ressaltar duas coisas: Primeiramente,
cuidado de si é uma prática que só se realiza enquanto prática de grupo. E, a partir disso,
podemos também afirmar que o cuidado de si é, na verdade, uma moral de grupo bem
rigorosa. Trata-se de um exercício de prática da liberdade, ou seja, procura-se a
libertação dos hábitos morais reificados que aparecem enquanto naturais e necessários
perante o todo social, porém, estamos nos referindo a práticas de liberdade, não a uma
liberdade total de qualquer forma de submissão a regras de comportamento, até mesmo
pelo fato de esta liberdade total não existir de fato. O sujeito sempre será atravessado
por relações de poder, sejam elas quais forem, pois são as relações de poder que o
constituem enquanto sujeito. Não existe um lado de fora onde não possamos ser
perpassados pelas relações de poder. Portanto, praticar a liberdade trata-se de escolher
quais regras morais e relações de poder o sujeito quer se submeter para constituir-se. A
ética é nada mais do que uma moral de grupo, a qual o indivíduo escolhe se vincular
15
Headbanger nascido no Mato Grosso do Sul, reside em Natal há bastante tempo. Baixista da banda
Primordium , de Death Metal .
32
para, a partir dela, constituir-se enquanto sujeito. Desta forma, o elemento grupal é
imprescindível na prática de si. Admitir isso, significa também encarar que a prática de
si não deve ser vista como uma solução em face de uma moral problemática, pois, sendo
uma moral de grupo, vão existir conservadorismos e preconceitos como em toda e
qualquer moral. A importância do cuidado de si, de vincular-se a um grupo e a partir
dele constituir-se enquanto sujeito que pratica a liberdade frente a moral que, a primeira
vista, aparece como necessária e indispensável, está justamente no fator da escolha,
onde reside a prática da liberdade. A prática de si e a ética do cuidado de si envolvem a
escolha do indivíduo de se submeter às regras criadas por um determinado grupo. A
ética nada mais é do que uma moral grupal que se apresenta enquanto alternativa.
[...] é uma partilha operatória entre os que são capazes e os que não
são capazes [de si]. [...] É a relação consigo, a modalidade e o tipo de
relação consigo, a maneira como ele mesmo será efetivamente
elaborado enquanto objeto de seus cuidados é aí que se fará a partilha
entre alguns poucos e os mais numerosos.” (FOUCAULT, 2006, pág.
147)
Assim, é preciso dizer que o cuidado de si sempre toma forma no
interior de redes ou de grupos determinados e distintos uns dos outros,
com combinações entre o cultual, o terapêutico16 e o saber, a teoria,
mas [trata-se de] relações variáveis conforme os grupos, conforme os
meios e conforme os casos. De todo modo porém, é nessas separações,
ou melhor, neste pertencimento a uma seita ou a um grupo, que o
cuidado de si se manifesta ou se afirma [...] Somente no interior do
grupo e na distinção do grupo, pode ele ser praticado.” (FOUCAULT,
2006, pág. 145)
16
Terapêutico no sentido que Foucault trabalha com o termo, que é amplamente discutido na obra em
questão. Resumidamente: “... essa cultura de si tem uma função curativa e terapêutica. Está muito mais
próxima do modelo médico que do modelo pedagógico. É preciso, sem dúvida, lembrar fatos muito
antigos na cultura grega: a existência de uma noção como a de páthos, que significa tanto a paixão da
alma quanto a doença do corpo; a amplitude de um campo metafórico que permite aplicar ao corpo e à
alma expressões como cuidar, curar, amputar, escarificar, purgar. É preciso lembrar também o princípio
familiar aos epicuristas, aos cínicos e aos estoicos de que o papel da filosofia é curar as doenças da alma.”
(FOUCAULT, 2006, pág.602)
33
No caso do Heavy Metal, a dimensão cultual é refletida no culto às bandas.
Aqueles que gostam de uma determinada banda sempre a ouvem, vestem sua camisa,
para homenageá-la, vão aos seus shows, que é o espaço onde podem se reunir com
outros que, assim como eles, gostam das mesmas bandas. “As pessoas que curtem
Heavy Metal de verdade, cultuam isso e passam pras próximas gerações ... e daí você
tira o valor que esse estilo tem.” (Ericksen Lima) Não raro, podemos ver nos shows os
headbangers discutindo entre si sobre as músicas de uma determinada banda ou de
outras que lhes aprazem, sobre a banda em questão, ou mesmo outras bandas, no que se
refere à história, formação, temáticas abordadas por elas em suas músicas, práticas dos
membros da banda, etc. Muitas vezes os shows acabam servindo como lugares para se
discutir acerca do conhecimento que cada headbanger detêm do Heavy Metal, além de
um espaço para se reunir com os iguais, prestigiar as bandas que se gosta e descarregar
sua energia excedente, como diria Bataille. Bater cabeça, pogar 17, cantar as músicas
desse ritual, ou simplesmente assistir ao show calado, com uma postura reservada, tudo
isso pode ser visto dentro de um show de Metal. Poderíamos dizer que dentro do Black
Metal 18 essa dimensão cultual é mais forte, na medida em que algumas bandas desse
estilo pregam o satanismo, o paganismo, o ocultismo ou simplesmente o anticristianismo. Algumas se utilizam de sangue de animais nos shows.
Bandas
17
Pogar é fazer parte de uma roda de pogo, que consiste na formação de grandes rodas, durante os shows,
onde simulam-se brigas de acordo com o ritmo da música enquanto giram, para dar o movimento circular
à roda.
18
Black Metal é uma das derivações do Metal, que está contemplada aqui com o uso do termo Heavy
Metal que, como falamos nas primeiras páginas deste trabalho, está sendo usado de forma geral,
enquadrando, assim, os estilos que, como o Black Metal, derivam deste. Essa vertente do Metal teve
início nos anos 80 e grande destaque nos anos 90, com o Black Metal norueguês, famoso por ser mais
radical e por diversos eventos como incêndios criminosos tendo como alvo igrejas católicas, assassinatos
de membros de bandas desse estilo por outros membros de bandas do mesmo estilo, suicídios também de
membros de bandas desse estilo. São famosos por incorporar em suas letras temas como satanismo,
paganismo e ocultismo, tem um som pesado com vocais guturais e habitualmente se apresentam com
pinturas em branco e preto, principalmente na área do rosto, denominadas “corpse paint”.
34
norueguesas de Black Metal da década de 1990, consideradas as fundadoras do estilo,
são famosas pelo seu radicalismo anticristão, pois promoveram a queima de várias
igrejas católicas. Assassinatos cometidos por membros das bandas, como por exemplo,
o famoso caso do assassinato de Euronymous (nome original: Øystein Aarseth, na
época, guitarrista da banda Mayhem) pelo seu colega Varg Vikernes (da banda Burzum
e, na época, baixista da banda Mayhem também). Suicídios de integrantes de bandas
desse gênero também eram bastante comuns. Um dos mais famosos também envolve a
banda Mayhem e é anterior ao assassinato do guitarrista Euronymous. Trata-se do
suicídio de Per Yngve Ohlin, mais conhecido como Dead, que na época era vocalista da
referida banda. Ele cometeu suicídio cortando os pulsos e desferindo um tiro contra a
própria cabeça. Ao se deparar com o cadáver, o guitarrista Euronymous comprou uma
câmera fotográfica e registrou a cena, transformando uma das fotos na a capa de um
disco da banda, o Dawn of the Black Hearts. (Imagem 01)
35
Imagem 01: Capa do disco Dawn of the Black Hearts, da banda de Black Metal
norueguesa Mayhem, que retrata a cena de suicídio do vocalista Dead.
Focando na dimensão cultual da qual estamos falando, resolvemos trazer aqui a
letra de uma música de Black Metal, da banda sueca Dissection, entitulada Maha Kali.
Há boatos dentro da cena Heavy Metal de que o vocalista Jon Nödtveidt teria composto
a referida música como prelúdio de seu suicídio. Jon cometeu suicídio em 2006. Ele foi
encontrado morto com um tiro, em seu apartamento, cercado por um círculo de velas
acesas e junto ao corpo estava uma espécie de Bíblia satânica. Pouco antes de cometer
36
suicídio, Jon Nödtveidt publica sua última entrevista respondendo a perguntas de fãs em
um fórum. Nessa entrevista, o vocalista fala sobre a forma como se dá o trabalho de
composição das suas músicas que, segundo ele, têm como objetivo transmitir sua
religiosidade. Na resposta do vocalista, podemos notar elementos que figuram às três
esferas, das quais falamos, que compõe as práticas de si nos grupos: a cultual, a
terapêutica e a esfera do saber.
O processo de composição tem para mim uma função espiritual em
um nível pessoal uma vez que são hinos para os diferentes poderes e
princípios, os Deuses das Trevas, que são uma parte central da
corrente 218. Liricamente as músicas são baseadas em invocações e
fórmulas que foram vinculadas nas letras para evocar os poderes que
as representam. A teoria ocultista musical foi aplicada no processo de
escrita da canção como um meio de carregar simbolicamente suas
estruturas. Elas também foram escritas inspiradas por ideias
científicas, como a teoria das cordas etc. As canções foram todas
escritas com a intenção de usar sons e vibrações como ferramentas
Anti-Cósmicas e todas elas foram conscientemente criadas para serem
os vasos para esses poderes. (Fonte: Dissection: a última entrevista
com
Jon
Andreas
Nödtveit
http://whiplash.net/materias/entrevistas/137038dissection.html#ixzz2L
EEIC8FW)
Maha Kali é uma deusa da cultura hindu que representa, dentre outras coisas, a
morte. Nessa música podemos ver explicitamente como a dimensão cultual aparece de
forma clara. 19
19
Disponibilizaremos um vídeo dessa música tocada ao vivo no DVD que acompanha a dissertação.
37
Maha Kali20
Dissection
Maha Kali, dark mother dance for me
Let the purity of your nakedness awaken me
Yours are the fires of deliverance which shall bring me bliss
Yours is the cruel sword which shall set my spirit free
Devourer of life and death who rule beyond time
In thy name I shall fullfil my destiny divine
Maha Kali, formless one, destroyer of illusion
Your songs forever sung, the tunes of dissolution
Kalika, black tongue of fire, embrace me
Make me one with your power for all eternity
Awaken within me the reflection of your flame
Kiss me with your bloody lips and drive me insane
Jai Kalika! Jai Kali!
Make me one with your power for all eternity
Maha Kali come to me
Smashana Kali, I burn myself for thee
I cut my own throat in obscene ecstasy
I make love to abominations, embrace pain and misery
Until my heart becomes the burning ground and Kali comes to me
O dark mother, hear me calling thee
Mahapralaya, bring to me
Through all illusions I shall see
I shall cremate this world and set my essence free
20
Tradução: Maha Kali, mãe sombria dance para mim/Deixe a pureza de sua nudez me acordar/Você é o
fogo da libertação que me trará felicidade/Você é a espada cruel que libertará meu espírito/Devoradora da
vida e da morte que governa além do tempo/Em teu nome eu devo completar meu destino divino/Maha
kali, senhora sem forma, destruidora da ilusão/Seus cânticos para sempre cantarão, os tons da
dissolução/Kalika, negra língua flamejante, envolva-me/Faça-me um com seu poder por toda a
eternidade/Desperte o reflexo da chama no meu interior/Beije-me com seus lábios sangrentos e leve-me à
loucura/Jai Kalika! Jai Kali!/Faça-me um com seu poder por toda a eternidade/Maha Kali venha a
mim/Smashana Kali, queimo a mim mesmo por ti/Corto minha própria garganta em êxtase obsceno/Faço
amor com abominações, envolvo dor e miséria/Até que meu coração torne-se o chão flamejante e Kali
venha até mim/Oh mãe sombria, escute meu chamado a ti/Mahapralaya, traga até mim/Através de todas
as ilusões eu devo ver/Eu devo cremar esse mundo e libertar minha essência/Jai Kalika! Jai Kali!/Sem
medo eu dançarei com morte e miséria/Maha Kali, venha até mim/Oh Kali, tu és apreciadora dos campos
queimados/Então eu tornei meu coração em um, para que vós podeis dançar lá incessantemente/Oh mãe,
eu não tenho nenhum outro desejo amoroso em meu coração./Fogo de uma pira funeral está queimando
lá/Voz Feminina:Jai Maha Kali,/Jai Ma Kalika/Jai Maha Kali, Jai Ma Kalika/Kali Mata, namo nama/Kali
Mata, namo nama/Jai Kalika! Jai Kali!/Em sua mão direita pela incessante vitória/Maha Kali, venha a
mim/Jai Kalika! Jai Kali!/Mahapralaya libertará nossos espíritos/Maha Kali, venha a mim.
38
Jai Kalika! Jai Kali!
Without fear I will dance with death and misery
Maha Kali, come to me
O Kali, thou art fond of cremation grounds
So I have turned my heart into one, that thou
may dance there unceasingly.
O mother, I have no other fond desire in my
heart. Fire of a funeral pyre is burning there.
Voz Feminina:
Jai Maha Kali, Jai Ma Kalika
Jai Maha Kali, Jai Ma Kalika
Kali Mata, namo nama
Kali Mata, namo nama
Jai Kalika! Jai Kali!
At your left hand for endless victory
Maha Kali, come to me.
Abda Medeiros, em seu trabalho de mestrado, também fala dos shows de Metal
na perspectiva do ritual. Segundo ela, o show de Metal, enquanto ritual, começa quando
o headbanger se arruma em casa para ir ao show. Esse é um fato que podemos chamar
de relevante, principalmente no caso de Natal. Em uma cidade como São Paulo, é
comum ver headbangers compondo a paisagem urbana, todos os dias, principalmente
na região do centro da cidade, onde se situa a Galeria do Rock. Em qualquer dia,
qualquer pessoa que vá ao Centro de São Paulo pode visualizar vários headbangers.
Estar “no visual” é algo comum para o dia a dia daqueles headbangers que frequentam
uma cidade como São Paulo. Como eles compõe a paisagem urbana, não aparecem
como algo chocante para os transeuntes, por estarem vestidos de maneira peculiar. No
caso de Natal, ressaltamos a importância de incorporar o visual de headbanger para ir
aos shows como parte inicial do ritual, porque muitos dos headbangers da cidade não
adotam o visual característico cotidianamente. Há aqueles que, assim como eu,
costumam se vestir sempre como headbangers. Mas, no caso específico de Natal, pude
39
observar que a maioria dos ouvintes de Metal não adota o visual no seu dia-a-dia.
Alguns alegam sentir-se constrangidos com o olhar do outro, outros ressaltam o fato de
Natal ser uma cidade muito quente para se vestir sempre de preto. Para estas pessoas,
vestir-se para ir a um show, é uma parte importante do ritual. Falaremos mais
especificamente do caso de Natal no terceiro capítulo desse trabalho.
Passaremos agora para outra esfera das práticas de um grupo ético, a dimensão
do saber, ou a dimensão teórica. Uma prática comum nos espaços onde se reúnem os
headbangers, seja em um show, seja em uma mesa de bar, é a discussão acerca de
diversas temáticas referentes ao mundo do Heavy Metal. Mais adiante, explicitaremos
melhor um hábito que constitui a prática de si dentro da cena underground do Metal e
que faz parte dessa dimensão relacionada ao saber ligado ao cuidado de si nos grupos
éticos: o hábito de estar sempre pesquisando sobre o Heavy Metal. Uma das razões
pelas quais (e, talvez, a mais importante), para os entrevistados, o Heavy Metal aja no
sentido de desconstruir valores morais impostos como naturais e proponha novos
caminhos para pensar, é o fato de as músicas abordarem diversas temáticas
diferenciadas, variando de acordo com as bandas e com o estilo. Podemos notar isso
também através da fala de nossos interlocutores 21:
A nossa cultura 22, é uma cultura global... a gente trabalha com a
tradição que existe entre celtas, dos vikings, dos índios. A gente pode
trabalhar um conto do Marquês de Sade... Edgar Alan Poe, como o
Iron Maiden 23 faz... (Gerson) / Você pega o Black Metal, os caras
usam o que? Filosofia, física quântica, astronomia... Música, pra mim,
fora do rock, fundamento cultural, não tem... é mais pra alienação.”
21
Essa fala foi retirada de uma das entrevistas que foram realizadas, essa entrevista, assim como algumas
outras, foi realizada com duas pessoas simultaneamente, Gerson e Wolfera.
22
O entrevistado se refere aqui, com o termo cultura, a cultura do Heavy Metal, ou, ao Heavy Metal
enquanto uma cultura.
23
Iron Maiden é o nome de uma conceituada banda de Heavy Metal.
40
(Wolfera) / Eu sou etnocêntrico, a minha cultura é melhor, a minha
cultura não se prende a algo inútil... existe um questionamento... existe
uma profundidade, dentro da filosofia, da sociologia, da antropologia,
do que a gente quiser conversar aqui... [...] eu não vejo outra música
trabalhar com isso... 24 (Gerson)
A poesia do Heavy Metal informa, diferente das poesias de outros
segmentos musicais. A partir do momento que você tem
conhecimento... o conhecimento é tudo... você é uma pessoa livre.
Então, eu sou superior a fulano? Não, não sou, mas eu tive a
oportunidade de conhecer isso, fui adiante nisso, pesquisei, li, assisti...
E, isso sim, me torna uma pessoa, digamos, diferenciada. Eu vou
indagar as coisas. Existem milhares de bandas de Heavy Metal que são
bandas conceituais, que têm discos conceituais25, que falam de temas
literários, de temas históricos, folclores, daí você vai ler sobre isso.”
(Hervall 26)
O metal oferece um leque de assuntos que nós não encontramos muito
em outros estilos que as letras não dizem nada com nada. O axé, por
exemplo, “olha a água mineral”... No metal você encontra assuntos
relacionados à política, protesto, mitologias, ocultismo, muitas
coisas... Ele consegue abrir os seus olhos para facilitar o seu
caminho e ver em qual desses ramos você se identifica. (Marcelo 27)
A partir dessas falas que apresentamos, pudemos observar uma diferenciação
feita pelos próprios headbangers, entre eles próprios e aqueles que não escutam Heavy
Metal. Tal diferenciação é feita no sentido de uma apreciação da “cultura headbanger”
24
Mais uma vez, com a fala de um dos entrevistados, temos um exemplo do elitismo de grupo,
caracterizado pelo fato de que os integrantes desse grupo ético se veem como uma elite no sentido de uma
cultura mais elevada.
25
Um álbum conceitual é um álbum que conta uma história, onde todas as músicas integram essa história
construída com base em uma temática específica escolhida pelos compositores. No Brasil, um dos álbuns
conceituais mais conhecidos é o Temple of Shadows, da banda de Power Metal Angra. Nesse álbum é
contada a história de um cavaleiro convocado pelo Papa para participar da Primeira Cruzada. Ao longo do
álbum, o ouvinte se defronta com os dilemas vividos por esse cavaleiro.
26
Headbanger nascido no RJ, reside em Natal há bastante tempo, 33 anos, vocalista da banda Comando
Etílico, de Heavy Metal tradicional.
27
Headbanger nascido em Belém, reside em Natal há bastante tempo, 33 anos, baterista da banda Expose
Your Hate, de Death Metal.
41
em detrimento da cultura de forma geral e também de uma relação mantida com a
música que, segundo eles, é diferenciada.
Ter como objeto de estudo um grupo específico e analisá-lo a partir do conceito
de ética em Foucault, significa levar em consideração a esfera do micropolítico. Tomarse a si mesmo como obra de arte é uma atitude da ética, ou da micropolítica. A
micropolítica, segundo Gilles Deleuze, pertence à esfera do molecular, daquilo que é
flexível, oposto ao molar, ao duro, à esfera da macropolítica. No início desse trabalho,
colocamos que, diferentemente do movimento Punk, o Heavy Metal não se configura
em um ajuntamento com objetivos políticos, pelo menos não no sentido usual do termo
política. Com isso, pretendemos afirmar que o Heavy Metal, enquanto uma ética, faz
menção ao político, mas não ao macropolítico. Ele pode ser visto dentro da esfera da
micropolítica, daquilo que pulula dentro do social. Quando falamos desse movimento
das práticas de si, que é molecular e micropolítico, falamos de resistências, falamos de
linhas de fuga. Porém, atuar na esfera do molecular, através de linhas de fuga, não
significa ter a solução definitiva ou libertar-se de uma vez por todas do molar, do
macropolítico. O macropolítico não pode ser dispensado, pois macro e micropolítica se
complementam. A micropolítica incorpora também o fascismo. Aliás, o fascismo nasce
na micropolítica, enquanto microfascismo e está presente no nosso dia a dia de uma
forma muitas vezes sutil, todos temos nossos pequenos fascismos. A ética é uma moral
de grupo, uma moral alternativa praticada por um grupo que a escolhe frente à moral
que nos é imposta desde a ocasião do nosso nascimento e primeira socialização. A ética
comporta microfascismos e não seria diferente no caso do Heavy Metal
42
Vencemos o medo, abandonamos as margens da segurança, mas
entramos num sistema não menos concentrado, não menos
organizado, um sistema de pequenas inseguranças, que faz com que
cada um encontre seu buraco negro e torne-se perigoso nesse buraco,
dispondo de uma clareza sobre seu caso, seu papel e sua missão, mais
inquietantes que as certezas da primeira linha. (DELEUZE, 1996, pág.
111)
Ainda sobre o trecho acima, podemos dizer que a ética reflete isso também: “um
sistema não menos concentrado, não menos organizado” e que dispõe de uma certeza
inquietante de que o seu modo de vida é o correto. Podemos relembrar a frase de um de
nossos entrevistados, Gerson, que exemplifica claramente a dimensão inerente à esfera
da ética enquanto micropolítica (e também microfascismo): “Eu sou etnocêntrico, a
minha cultura é melhor, a minha cultura não se prende a algo inútil... existe um
questionamento...”, e ainda outras frases que já foram citadas como, por exemplo:
“Música, pra mim, fora do rock, fundamento cultural, não tem... é mais pra alienação.”
(Wolfera), ou ainda: “A poesia do Heavy Metal informa, diferente das poesias de outros
segmentos musicais.” (Hervall). O microfascismo pode ser visualizado nesse elitismo
inerente ao Heavy Metal, do qual falamos. Aliás, o microfascismo (apesar de parecer
uma palavra forte) sendo inerente ao micropolítico, pode ser encontrado mais
comumente do que imaginamos, em pequenos comportamentos e ações do dia a dia.
Aqueles que ouvem Heavy Metal aparecem também como tendo uma relação
diferenciada e mais íntima com a música. Essa relação se caracteriza tanto pela
frequência com que a música é ouvida, como pela forma como ela é ouvida. Todos os
nossos interlocutores afirmaram não conseguir passar um dia sem ouvir, pelo menos,
um disco de Heavy Metal. Acreditamos que aí se encontra a outra dimensão que
constitui as práticas de si dentro de um grupo ético: o terapêutico. A prática de ouvir
43
música age como uma terapia que cura ou corrige o espírito daqueles que a escutam e há
uma dependência desse remédio da alma, que precisa ser “tomado” todos os dias. Os
headbangers não conseguem passar um dia sem ouvir pelo menos um CD de Metal.
Podemos visualizar esse aspecto corretor (terapêutico) na parte que destacamos, em
negrito, da última fala que apresentamos, do entrevistado Marcelo. Ouvir Metal aparece
como uma terapia que corrige (abre os olhos, nas palavras do entrevistado). Mas, é
importante ressaltar, essa correção não se dá no sentido de constituir uma identidade
grupal fixa e dura, mais uma vez, nessa última fala que destacamos, o entrevistado quer
dizer que cada um, a partir do Heavy Metal, escolhe uma maneira de estilizar sua
própria existência. Como pesquisadora e ao mesmo tempo parte integrante da cena,
tenho um exemplo particular que demonstra o que pretendo ao dizer que o Heavy Metal
também possui uma esfera terapêutica referente às práticas de si. Um amigo me receitou
ouvir Heavy Metal para raciocinar melhor sobre as coisas e ter uma postura mais
adequada em algumas situações particulares. A música aqui serve como terapia. Nesse
caso, não seria importante prestar atenção nas letras, pois esse exemplo não se encaixa
na esfera do saber, mas sim, ajustar o estado de espírito, a fim de enfrentar melhor uma
determinada situação, a partir da escuta de um determinado estilo de música, o Heavy
Metal. Em outra conversa particular com meu irmão, que também é headbanger, ele me
relatou que sempre gosta de escutar Heavy Metal antes de apresentar algum seminário
na instituição em que estuda, pois isso o deixa mais confiante em suas falas.
Tomaremos como exemplo outra fala do entrevistado Marcelo que reflete de forma
explícita esse aspecto terapêutico do Heavy Metal para os headbangers, que se
manifesta tanto na receptividade para com a música, na escuta, quanto na própria
expressão do sujeito enquanto músico, que é o caso dele.
44
É através da música que eu faço a minha espécie de meditação
particular, que é quando eu paro realmente, penso sobre as coisas,
reflito, escolho as minhas ações, decisões, atitudes... Então, assim
como eu chego num estágio de concentração onde eu absorvo
conhecimento, eu também me manifesto através dela [da música],
através de emoções, tocando, participando, ouvindo, curtindo aquilo.
Então, eu curto a energia que a música me passa, algo muito
particular. [...] Eu, particularmente, acho que eu interajo [com a
música] com uma certa intensidade, é uma paixão, eu sinto isso,
principalmente, quando eu toco, porque ali é o resultado final de tudo
que eu ouvi, de tudo que eu to colocando pra fora, de todas as técnicas
que eu desenvolvi, de todo o meu trabalho, etc. É na própria
composição que eu faço, ali na bateria, que eu percebo o quanto ela [a
música] me faz bem e o quão ela me faz evoluir. (Marcelo)
Algumas pessoas afirmam ouvir em todas as ocasiões possíveis durante o dia. A
forma como a música é apreciada também é diferente. Grande parte dos entrevistados
afirmou gostar de Heavy Metal por se tratar de um tipo de música muito trabalhada,
algo que, na opinião deles, não é tão comum nos estilos musicais mais veiculados na
indústria fonográfica. Quando questionados sobre a relação deles com outros tipos de
música, todos responderam que apreciam outros estilos de música, contanto que sejam
músicas complexas e bem elaboradas. E, mesmo assim, a relação não é igual a que eles
têm com o Heavy Metal. O entrevistado Cláudio Slayer afirmou que a relação dele com
os outros estilos de música que ele ouve é utilitária, por exemplo, ele ouve outros estilos
de música para aprimorar suas técnicas no baixo, já que ele é baixista. O entrevistado
Marcelo, que também é músico, alegou assistir concertos de Blues e Jazz, na TV, com a
mesma finalidade de descobrir novas técnicas, no caso dele, de bateria. Dentre os outros
estilos que foram citados pelos entrevistados como fazendo parte do que eles apreciam
além do metal, surgiram coisas como: Música erudita, Rock’n Roll, Blues, Jazz, Ópera,
algumas coisas dentro da MPB, algumas coisas dentro do Pop, Brega e Chorinho.
45
O playboyzinho não vai pra um show de forró pra estar sacando a
banda, nem pra estar prestando atenção na música... ele vai aprender
até a cantar, mas não sabe nem o que é que aquilo tá passando pra
ele... ele vai pra pegar mulher... [...] Enquanto no meio mais
underground, como a gente chama, é diferente... Normalmente as
pessoas vão com os amigos, mas pra curtir a banda, curtir o som...
namorar, se possível, mas não com essa ideia... (Ericksen)
Acreditamos que esse tipo de relacionamento com a música, que implica até em
uma espécie de ascese, só se torna possível quando o sujeito que escuta Heavy Metal
passa a penetrar o chamado underground, saindo, desta forma, da esfera mainstream.
Leonardo Carbonieri Campoy, em sua dissertação de mestrado, nos propõe critérios de
caracterização da divisão desses dois termos que se mostram bastante úteis, mas que
precisam de uma pequena problematização. A diferenciação que o autor faz dá-se por
meio de dois critérios básicos: a produção e divulgação, que dialoga ou não com a
esfera comercial (o metal enquanto produto comercial ou como “sentimento”); e os
estilos, sendo o Heavy Metal considerado mais “leve” próprio da esfera do mainstream
e o metal extremo mais “pesado” relegado ao campo underground. Pretendemos
trabalhar em cima do primeiro critério de diferenciação proposto na dissertação,
problematizando o segundo critério, para, a partir daí vermos como o metal se torna um
fenômeno ethopoiético.
Acreditamos que as esferas mainstream e underground sejam um fator de suma
importância no que se refere à diferenciação da relação dos sujeitos com a música.
Aqueles que mantêm um contato somente com o Heavy Metal amplamente divulgado
na mídia, ou seja, o mainstream, geralmente são aqueles para quem o Heavy Metal é
considerado apenas uma fase, que passa. Porém, quando o sujeito entra em contato com
46
as camadas mais profundas, começa a pesquisar sobre bandas que estão fora da mídia, e
ao conhecer o underground, pratica uma espécie de ascese. Em geral, o Heavy Metal
passa a ser ethopoiético, interferindo na constituição das escolhas desse sujeito e na
construção de seu modo de agir e pensar, isso porque adentrar no underground significa
partilhar de um conjunto de hábitos. No entanto, essa relação não se dá de forma
passiva. O Heavy Metal aparece para desconstruir hábitos morais impostos pelo
processo de socialização e sugerir diversos caminhos de pensamento na construção de
novos ethos e novas potencialidades inventivas, justamente pela variedade infinda de
temáticas e de formas de abordagem dessas temáticas.
Porém, a divisão feita por Campoy não nos é satisfatória no segundo aspecto
apresentado. O underground não se restringe somente ao chamado Metal Extremo 28.
Podemos observar essa relação ethopoiética com a música, que inclui uma ascese,
mesmo nos mais variados estilos que fazem parte do Heavy Metal. Podemos observar
que existem inúmeras bandas, que não fazem parte do Metal Extremo, mas que não tem
uma relação comercial com a música que fazem, assim como muitas bandas do
chamado Metal Extremo tem uma forte divulgação na mídia. Segundo a pesquisa de
Campoy, essas bandas de Metal Extremo que tem contato com o mainstream não seriam
true 29. True significa verdadeiro. Existe uma grande discussão dentro da cena Heavy
Metal que gira em torno dessa palavra. Quem são os trues? Quem não é true? Ou
mesmo se a categoria true é válida. Dentro das perguntas que fizemos em nossas
entrevistas, estava incluída a seguinte questão: “O que é ser true e qual a sua opinião
sobre isso?” As respostas para essa pergunta foram bem semelhantes. No geral, nossos
28
Metal extremo é um agrupamento de algumas subdivisões derivadas do Heavy Metal, a saber: Thrash
Metal, Doom Metal, Death Metal e Black Metal. Esse agrupamento de estilos se dá por eles terem uma
característica em comum, o maior peso e agressividade em relação aos outros estilos do Heavy Metal.
29
Geralmente, a grafia de true dentro do meio headbanger é modificada para Tr00.
47
interlocutores disseram que true foi uma categoria criada por alguns para separar o que
seria o verdadeiro headbanger do falso, porém nenhum dos entrevistados acha viável a
utilização dessa categoria pela mesma questão de a proposta do Heavy Metal, enquanto
uma ética, ser a abertura e não o fechamento. 30
Desta forma, cada um experiencia o Heavy Metal de uma maneira particular,
dada as infinitas possibilidades de experienciação e o estímulo a essa diversidade.
Portanto, não existe o verdadeiro e o falso headbanger. Mas, ressaltamos aqui, há
diferenças entre aqueles que se detêm somente ao mainstream, que tem uma relação
mais comercial com a música, e aqueles que penetram no underground. Outra exceção a
essa regra é o caso do chamado White Metal, ou Heavy Metal Cristão, que causa muita
polêmica dentro da cena. Recentemente houve uma reunião dos headbangers de Natal
no intuito de fomentar a organização de uma associação do Heavy Metal potiguar,
visando promover o Heavy Metal no estado e facilitar a organização de eventos. Até o
presente momento, aconteceu apenas uma reunião, onde uma das pautas principais foi
sobre a participação ou não das pessoas envolvidas com White Metal na associação. A
maioria argumenta contra a participação, já que seria inadmissível dentro do Heavy
Metal bandas que preguem ideais cristãos em suas músicas, pelo fato de esses ideais
serem totalmente contrários aos do Heavy Metal.
A igreja é vista como uma forma de dominação não aceita de maneira alguma e
totalmente contrária à liberdade aspirada pelo Metal e, segundo as pessoas que têm esse
posicionamento, bandas de White Metal iriam se utilizar dos shows como espaço de
30
A não viabilidade da utilização do termo “true” para separar os verdadeiros dos falsos headbangers foi
algo que observamos em nossas entrevistas e que é predominante na cena Heavy Metal em Natal. Vale
ressaltar que o mesmo pode não valer para outros estados, visto que, na dissertação de mestrado de
Leonardo Carbonieri Campoy, essa categoria aparece como válida para alguns grupos pesquisados por ele
dentro do chamado Metal Extremo.
48
pregação religiosa. Outro argumento utilizado contra a participação dos Whites é que
eles teriam patrocínio de suas igrejas, diferente do Metal underground que não conta
com apoio financeiro algum. E este é um dos objetivos da associação, viabilizar
recursos públicos para a organização de shows de Metal em Natal. Do outro lado da
discussão temos pessoas com um posicionamento menos radical que dizem que discutir
a participação ou não dos Whites não tem nada a ver com os objetivos iniciais da
associação e que há questões mais importantes referentes à organização da mesma que
estão sendo deixadas de lado. E também que esta deveria ser uma forma de unir pessoas
em torno do Metal, não de separá-las. Essas pessoas também argumentam que o Heavy
Metal tem como ideal a liberdade e que isso inclui o fato de você poder escolher o
Heavy Metal Cristão como forma de se expressar musicalmente dentro do estilo. 31
Uma característica peculiar à cena Heavy Metal de Natal, pelo que pudemos
observar é que, pelo fato de a cena ser pequena, restrita, não há muito espaço para uma
grande diferenciação e isolamento dos ouvintes de diferentes estilos dentro do Metal.
Em grandes cidades, por exemplo, onde a cena é maior, existem certas fronteiras
demarcadas separando e diferenciando aqueles que ouvem diferentes estilos. Como não
há espaços para separatismos, a cena em Natal é mais fluida. Existe uma grande
separação, por exemplo, entre o grupo daqueles que ouvem Metal Extremo e os estilos
mais leves, como o Metal Melódico ou Power Metal, onde o vocal costuma ser feito
com base em tons mais agudos, sem a utilização de vocais guturais ou rasgados e as
músicas são uma adaptação mais melódica e rápida do Heavy Metal tradicional. Em
Natal, indo aos shows e convivendo com os apreciadores do Metal, notamos que cada
um tem preferência por determinado estilo, porém, comumente, vemos apreciadores de
31
As discussões sobre a criação da Associação do Metal Potiguar podem ser acompanhadas no grupo de
discussão do facebook: https://www.facebook.com/groups/483246415019959/
49
Metal Extremo prestigiando shows de bandas fora do estilo. Afinal, se os headbangers
de Natal fossem somente a shows do estilo que preferem, ficariam boa parte do ano sem
sair de casa, devido ao espaço restrito que o Heavy Metal ocupa na agenda cultural da
cidade, onde predomina o gosto pelo forró.
Existem algumas características da ascese daqueles que fazem parte do
underground do metal. Pesquisar sobre as bandas que se ouve é uma delas e podemos
localizá-la naquela divisão que fizemos anteriormente dos três aspectos que compõe a
prática de grupos éticos, sendo esta característica da esfera do saber e da teoria. Essa é
uma atitude bem comum aos headbangers, inclusive, aqueles que não o fazem são
chamados de posers, no sentido de ter somente a pose de um headbanger, mas não o ser
de fato, por não ter conhecimento das bandas e, mais ainda, sobre o Heavy Metal.
Geralmente, aqueles que são chamados de posers são os que se restringem a escutar
apenas o Heavy Metal mainstream, que tem maior veiculação na mídia e que não têm o
hábito de pesquisar sobre as bandas que ouvem, ou de procurar saber sobre outras
bandas para conhecê-las.
Eu costumo dizer que o Heavy Metal exige todo um estudo. Você tá
ali em casa ouvindo direitinho, sacando o trabalho, você tá lendo... ao
mesmo tempo indo atrás das discografias, tá indo descobrir mais
material sobre aquela banda, ou bandas do mesmo estilo. (Ericksen)
Você quer saber de onde a banda é, o que é que os caras fazem, tem
gente que é radical mesmo e não escuta uma banda por determinada
postura de um membro. (Cláudio Slayer 32)
Ainda sobre essa característica de pesquisar sobre as bandas e ler sobre Heavy
Metal, podemos citar uma discussão que ocorreu em um grupo de uma rede social 33
32
Um dos headbangers mais conhecidos na cena natalense, 40 anos, baixista da banda Expose Your Hate,
de Death Metal.
50
denominado Natal Metal. Um dos integrantes do grupo postou o documentário Global
Metal, do antropólogo canadense Sam Dunn. Logo em seguida, outros participantes do
grupo começaram a comentar que já conheciam há muito tempo esse documentário e
que ele era um péssimo ouvinte de Metal, por só ter tido contato com ele agora, pois,
segundo um deles: “Todo metaleiro 34 que se preze, já assistiu Global Metal pelo menos
uma vez”. Reclamaram, ainda, do fato de o colega que postou o vídeo não ter o hábito
de pesquisar coisas sobre o metal. Faz parte dessa ascese headbanger o hábito, que se
tornou mais fácil a partir do acesso à internet, de pesquisar sobre as bandas, as letras das
músicas, a história das bandas, dos integrantes e, por vezes, do país de origem de
determinadas bandas.
Em geral, bandas do chamado Folk Metal suscitam interesse naqueles que as
escutam de pesquisar sobre a cultura do país do qual a banda provêm. Muitas delas
falam sobre antigas tradições e mitologias em suas letras. Vale ressaltar que o berço
dessas bandas está situado, na maioria das vezes, nos países nórdicos. Um fato
interessante a se ressaltar também é que desse hábito de pesquisar, surge também o
hábito de traduzir as letras das músicas, e, a partir disso, vemos muitos apreciadores do
metal que nutrem um profundo interesse no aprendizado de novos idiomas. Tivemos a
oportunidade de ter contato com pessoas que já aprenderam, ou estão interessadas em
aprender, idiomas como inglês, alemão, finlandês e russo, por causa do Heavy Metal.
Entramos em contato com muitas pessoas interessadas em pesquisar coisas sobre
história, principalmente história medieval, pois é uma temática bastante recorrente em
letras de música dentro de alguns estilos do Metal. Temos uma frase curta do
entrevistado Cláudio Slayer que remete a esse aspecto: “O Metal é um universo muito
33
Falamos aqui do Facebook, mais especificamente, do grupo Natal Metal, não colocamos o endereço
eletrônico aqui pelo fato de a visualização do conteúdo do grupo ser restrita aos seus membros.
34
Metaleiro é um termo utilizado como sinônimo de headbanger.
51
vasto, então você aprende a lidar com coisas que, se eu tivesse em outro meio, eu não
teria muito contato, né? Até história e outras culturas diferentes.” Inclusive, uma das
bandas que entrevistamos, o Primordium, tem como temática principal na composição
de suas letras o Egito antigo. Vale relembrar que uma das características mais
importantes que constitui essa ascese headbanger também, como já falamos, é a relação
diferenciada que se mantêm com a música.
A música pra mim é como se fosse uma dependência... Eu não
consigo ficar sem tocar, eu não consigo ficar sem escutar... Eu não
consigo ficar sem viver nesse meio... (Wolfera)
E na minha brincadeira, de 90, já vou em 22 anos... Eu acordo, eu
almoço, eu janto e vou dormir curtindo metal. (Gerson)
A música tá o tempo todo na minha vida... quase vinte e quatro horas
ouvindo, ou tô lendo algo sobre heavy metal, ou tô discutindo com
alguém, conversando, como agora... (Ericksen)
Podemos observar também, a partir das entrevistas, que nossos interlocutores
afirmam o Heavy Metal enquanto ethopoiético, ou seja, algo que ajudou na constituição
deles enquanto sujeitos. Alguns depoimentos podem ser colocados aqui para ilustrar
isso de forma bastante clara.
Tudo o que eu sou e o que eu penso hoje, eu dou graças a esse estilo
de música. Questão de comportamento, questão de atitude, forma de
pensar. Na época, (que ele começou a ter contato com o estilo) eu era
monitor de pedagogia na universidade. Eu levei a proposta de mostrar
como seria um educador que curte metal, como seria a educação
pensada pelo metal, de uma forma mais crítica. [...] Se a gente vai
ensinar sobre a Macedônia, eu vou colocar Alexander the Great, do
Iron Maiden... é uma aula. Se eu quero trabalhar com a Idade Média,
52
com os trovadores, eu coloco Imaginations from the other side, do
Blind Guardian. 35 (Gerson)
Esse estilo de vida que eu tomei pra mim, ainda na minha infância, foi
o que, particularmente, mudou a minha vida, é o que eu sou hoje como
pessoa, como cidadão e como profissional. Hoje eu sou publicitário,
sou diretor de arte de uma agência de propaganda e tudo isso se deve à
minha infância dentro do Heavy Metal, dentro da estirpe headbanger.
E essa estirpe mudou em mim o que? E eu costumo ser bem prático
respondendo isso... Se eu não desenhasse as capas do Iron Maiden
quando eu era moleque, nos meus cadernos, nas minhas cartolinas, eu
hoje não estaria numa agência de propaganda desenhando pra grandes
empresas e não teria esse direcionamento para a arte. (Hervall)
Isso acaba fazendo parte da sua personalidade, né? Então você cresce,
amadurece, com aquelas ideias. E a música, querendo ou não, acaba
influenciando de alguma forma na sua vida, principalmente no meu
caso, porque eu cresci ouvindo aquilo. A música tá o tempo todo na
minha vida, quase vinte e quatro horas ouvindo... Ou eu tô ouvindo,
ou lendo algo sobre Heavy Metal, ou discutindo com alguém,
conversando, como agora, sobre Heavy Metal. (Ericksen)
Aí foi quando eu comecei a frequentar mesmo e, quer queira ou não, é
quando você começa a interagir com o grupo de diversas formas...
Não só ouvindo mais, trocando material... Começa a se vestir, a ler as
letras mesmo... começa a raciocinar em cima da ideologia e, quando
você vê, já tá vivendo, respirando aquilo. (Marcelo)
Uma característica interessante dessa ascese também é que, aqueles que se
envolvem com o underground do Heavy Metal, acabam sentindo a necessidade de dar
alguma contribuição ao estilo. Essa contribuição pode ser dada de várias formas.
Existem aqueles que sentem a necessidade de contribuir para o Heavy Metal indo
sempre aos shows, dando apoio às bandas, ou comprando CDs. Outros escrevem sobre
o metal, fazem blogs com resenhas de shows ou de CDs, outros produzem shows e
outros resolvem se tornar músicos, objetivando contribuir com a cena. Nestes casos, em
35
A música Alexander the Great, do Iron Maiden, se encontra no álbum Somewhere in Time, de 1986.
Imaginations from the other side, do Blind Guardian, é um álbum, de 1995.
53
que o headbanger se torna músico para dar sua contribuição a cena, que não são nem
um pouco raros, desenvolve-se outra prática ascética, pois tornar-se músico implica
numa vida voltada aos exercícios de prática musical.
Guitarristas, baixistas, bateristas e vocalistas acabam tomando para si uma vida
devotada aos constantes exercícios de prática provenientes da música. Algumas das
pessoas que entrevistei dedicam horas, todos os dias, para treinar com seu respectivo
instrumento musical. Vale ressaltar que não falo de músicos profissionais, ou seja,
daqueles que tomaram a música como profissão para o seu sustento. Falo de pessoas
que têm na música o seu hobby e a sua maneira de contribuir com a cena Heavy Metal
de Natal. Uma prática comum na cena underground do Heavy Metal é a produção de
fanzines. Fanzines são revistas de baixa circulação produzidas por fãs, que podem
versar sobre diversos temas, incluindo resenhas, críticas, apresentação de demos de
bandas, dentre outros. Podemos exemplificar esse sentimento que se expressa na
necessidade de dar contribuições à cena Heavy Metal a partir do depoimento de um de
nossos entrevistados, onde ele fala claramente sobre isso.
Comecei, como muitos, comprando material... depois eu achei
pouco... Eu disse: “quero dar uma contribuição para o estilo de som
que eu gosto, vou escrever um fanzine!” Daí, eu escrevi um fanzine.
Aí, eu comecei a ter contato com pessoas de outros estados e até de
outros países da América do Sul. Então, eu pensei, eu posso dar uma
contribuição maior... o que eu posso fazer além de um fanzine? Daí eu
pensei, eu posso lançar uma compilação com bandas, e fiz isso,
comecei a ter contato com as bandas. O tempo passou, aí eu disse: “Eu
tenho que dar uma contribuição maior, vou produzir um show!
Depois, eu resolvi fazer um programa de Heavy Metal dentro de uma
rádio comunitária. Então, qual poderia ser a próxima contribuição?
Montar uma banda! E ainda fui ser redator de um webzine, o Skyhell.
Quando você começa a ter consciência dentro do estilo, dentro do
movimento, você começa a querer dar alguma contribuição. (Gerson)
54
Em relação a essa questão da necessidade de dar uma contribuição, é importante
ressaltar que, ao dar essa contribuição, não se espera retorno financeiro em troca, essa é
uma característica recorrente e marcante em relação a isso. As pessoas que produzem
fanzines, o fazem apenas para contribuir, não tendo retorno financeiro algum com essa
atividade. A mesma coisa pode ser observada no que diz respeito às bandas. As bandas
que tivemos a oportunidade de entrevistar se dividem, basicamente, em dois grupos: as
bandas autossustentáveis e aquelas que dão prejuízo.
Algumas bandas em Natal cobram cachê para se apresentar, mas trata-se apenas
de um valor simbólico, que, segundo os músicos dessas bandas, serve apenas para fazer
com que a banda se torne autossustentável, ou seja, que eles não precisem ter gastos
para manter a banda, porém, não há lucro com essa atividade. Vale ressaltar também
que, as bandas que cobram cachê, são a minoria. Tivemos informações de que apenas
quatro bandas, em Natal, cobram cachê para se apresentar, três das quais, tivemos a
oportunidade de entrevistar. São elas: Expose Your Hate, Deadly Fate, Sunset
Boulevard e Comando Etílico 36, destas, a única banda que não entrevistamos foi o
Deadly Fate, por questões de dificuldade de comunicação e tempo. As outras bandas,
que não cobram cachê, são mantidas pelos próprios membros. E é muito dispendioso
manter uma banda, os músicos entrevistados nos falaram que são gastos consideráveis,
divididos entre todos os integrantes da banda. A maior parte dos gastos se dá com
aluguel de estúdio para ensaios, compra e manutenção de instrumentos, produção de
material gravado (CDs, videoclipes), confecção de camisas e adesivos com o logo da
banda e também de material de divulgação.
36
Colocaremos um anexo com uma biografia resumida dessas bandas.
55
Um de nossos entrevistados, Hervall Padilha, vocalista de uma banda de Natal, o
Comando Etílico, fala que manter essa banda é como um hobby, mas um hobby que é
levado a sério, de maneira profissional. É algo lúdico, em oposição ao trabalho formal
dos integrantes, mas que feito com dedicação e seriedade, no intuito de ter uma banda
que seja reconhecida pela qualidade das músicas, uma banda considerada profissional. E
o que move os headbangers a terem gastos mantendo uma banda é essa necessidade, da
qual falamos, de dar alguma contribuição ao Heavy Metal, de participar da cena de
modo mais ativo, de ajudar a construir e reconstruir a cena, de se sentir parte disso.
Podemos afirmar que este é o objetivo de construir esse trabalho de pesquisa também.
Queremos destacar esse último elemento sobre o qual dissertamos um pouco
como sendo algo que merece um destaque a mais. A prática que se desenvolve em meio
ao underground do Heavy Metal, que consiste nessa necessidade dos participantes da
cena de darem a sua contribuição – cada qual do seu modo particular, mas visando o
bom funcionamento do grupo como um todo, que, sem esse esforço dos headbangers
não teria como se manter – se configura em um dispositivo de suma importância no que
diz respeito à resistência, pois trata-se de um agir criativo que foge à lógica social
instaurada, a lógica de mercado e, a partir daí, já podemos estabelecer conexões com a
segunda parte desse trabalho que está por vir e que toma em lugar de destaque as
elaborações de Zygmunt Bauman acerca do consumismo e da lógica de mercado na
Contemporaneidade como pano de fundo da nossa análise. Desde já, então,
começaremos a introduzir a segunda problemática que norteia nossas elaborações sobre
o Heavy Metal, tendo como ponto de partida essas práticas. Primeiramente, podemos
destacar que essas contribuições ao underground do Heavy Metal começam pela parte
do consumo. Em uma primeira instância, contribuir com o Metal é adquirir os CDs,
56
DVDs, camisas e acessórios das bandas que prestigiamos e, mais que isso, ir aos shows.
Desde já, podemos destacar que trata-se de consumo, porém, um consumo voltado para
o underground, ou seja, aquilo que não é consumido em larga escala, poderíamos
chamar de uma forma de consumo marginal, no sentido de que se encontra às margens.
O agir do underground começa passando pelo consumo, mas não é qualquer
consumo, ele escapa aos desejos que são criados pela indústria mercadológica. Outra
dimensão desse consumo que podemos dizer que é mais significativa que essa que
acabamos de expor, é uma diferenciação da lógica temporal na qual essa forma de
consumo do underground se insere, esse tema será melhor desenvolvido no próximo
capítulo desse trabalho, pois para explorá-lo melhor precisamos explicitar primeiro
alguns conceitos chave na obra de Bauman.
Esse agir não se manifesta somente no consumo diferenciado. Poderíamos dizer
que ele se caracteriza por um querer mais intrínseco a vontade do sujeito, quem sabe um
querer mais livre, onde a vontade individual (ou grupal) destoa dos quereres mais
gerais, ou da esfera do stultus e passa a ter uma relação mais íntima com o si mesmo e
mais distanciada de um querer imposto pelo mercado. Mas, passando adiante essa
primeira manifestação desse habitus dos headbangers de contribuir com a cena
underground, podemos avançar falando sobre aqueles que dão uma contribuição mais
maciça escrevendo sobre a cena em fanzines, blogs e até em dissertações de mestrado,
como esta, além daqueles que se tornam músicos, na maioria das vezes não de forma
profissional, mas, nem por isso são menos competentes musicalmente falando, ou
menos engajados em fazer um bom trabalho com a música. E, aqueles que se tornam
músicos profissionais, não podem levar o Heavy Metal como profissão, são obrigados a
trabalhar como músicos dentro dos mais diversos estilos para poder arcar com os custos
57
de suas sobrevivências. Como foi falado, dar essa contribuição, trabalhar em prol do
underground do Metal, não tem ligação alguma com a obtenção de lucro, até pela
questão de isso ser quase impossível, dada a marginalidade do Heavy Metal enquanto
um estilo pertencente ao underground, salvo as exceções das grandes bandas já
imortalizadas nas décadas de 70 a 90, principalmente, onde o estilo estava em ascensão
midiática. No Brasil (mas talvez possamos dizer em quase todo o mundo, salvo o caso
da Finlândia 37) o estilo se tornou marginal e, desta forma, torna-se cada vez mais
complicado para uma banda ter um grande alcance. Portanto, quando alguém decide se
tornar músico de Heavy Metal, já é pressuposta a falta de ganhos financeiros para esta
atividade. E os mais radicais ainda afirmam não almejar de modo algum esse sucesso
financeiro, pois o lugar do Heavy Metal seria o underground, as sombras. Uma prática
costumeira da cena também diz respeito ao repúdio dado às bandas que viraram
“modinha”, aquelas que, por algum motivo, ganharam reconhecimento da mídia e que
passam a ser apreciadas pelo público em geral, essas deixam muitas vezes de “merecer”
o respeito daqueles que integram o underground por terem se tornado populares.
De qualquer forma, o mais importante a se dizer sobre essa questão é que o
funcionamento das práticas do underground do Heavy Metal foge a essa lógica de
mercado por ir de encontro com seus pressupostos mais significativos e se configurar
como experimentações diferenciadas em relação ao consumo e ao modo como se
trabalha em prol de alguma coisa visando não o lucro, mas o engajamento pessoal em
um movimento grupal para o bom funcionamento deste.
Um último elemento referente às práticas de si que não podemos deixar de
destacar aqui é a necessidade de uma relação com o outro. As práticas de si, como já
37
O Heavy Metal é um estilo de música muito popular na Finlândia.
58
falamos anteriormente, constituem-se a partir de um estado que se caracteriza como seu
extremo oposto, a stultitia. Pois bem, sair da stultitia, começar a cuidar de si mesmo, é
uma tarefa na qual a participação de um outro é imprescindível.
Sair da stultitia, na medida mesma em que ela se define por essa não
relação consigo, não pode ser feito pelo próprio indivíduo. A
constituição de si como objeto suscetível de polarizar a vontade, de
apresentar-se como objeto, finalidade livre, absoluta e permanente da
vontade, só pode fazer-se por intermédio de outro. Entre o indivíduo
stultus e o indivíduo sapiens, é necessário o outro. (FOUCAULT,
2006, pág. 165)
Visto que para a prática de si o outro é imprescindível, resta dizer quem se
configura no outro do cuidado de si dos headbangers enquanto um grupo ético.
Pudemos identificar duas formas nas quais esse outro do cuidado de si se manifesta no
nosso caso específico. Primeiramente, o outro dessa relação – ou seja, aquele que cuida
do cuidado dos headbangers e, ainda, aquele que faz com que se possa emergir do
estado de stultitia que, como falamos, é um estado do qual não se pode sair sozinho – é
personificado nas bandas de Heavy Metal. A partir dessas bandas o indivíduo stultus vai
se configurar em sujeito de si. Já ressaltamos anteriormente a importância das letras de
músicas no que se refere à formação desses sujeitos e aquela que cria e fornece essas
letras, assim como a música em toda a sua dimensão, é a banda, são os artistas. Porém,
observando mais de perto e com mais cuidado essa questão, podemos afirmar que esse
outro não está refletido somente nas bandas. Essa dimensão formativa que se constitui
na relação com o outro, pode ser observada de perto, dentro do próprio grupo. Aquele
sujeito que está sendo iniciado dentro do mundo do Heavy Metal sempre vai começar a
conhecer o material, as bandas, a partir de outros headbangers mais experientes. Talvez
59
o primeiro contato possa ocorrer de qualquer outra maneira, mas a continuidade de um
indivíduo dentro desse grupo e seu mergulho na dimensão do underground só se dará a
partir do momento em que algum amigo mais experiente começa a apresentar, ao
iniciante, material novo. Essa prática não ocorre somente quando uma pessoa está
adentrando no estilo, ela continua sempre, porém, é esperado de um headbanger que ele
desenvolva o hábito de pesquisar material novo. Essa relação de apresentar coisas novas
para veteranos só se dá quando se descobre algum material que seja quase
desconhecido, o que não é raro, devido à música underground permanecer sempre nas
sombras. E, vale ressaltar, achar material raro é sempre visto de maneira extremamente
positiva dentro da cena Heavy Metal underground.
***
Pretendemos também, com esse estudo, sugerir uma ampliação da reflexão de
Foucault a partir do pensamento de Zygmunt Bauman. Para Foucault, as lutas contra a
submissão da subjetividade são centrais na modernidade em decorrência da forma
política estabelecida, o Estado, que toma o lugar de excelência, antes ocupado pela
igreja com o poder pastoral. Nossa proposta é falar da configuração dessas lutas, ou
seja, da elaboração de novas éticas – no caso deste trabalho, tomando o Heavy Metal
como exemplo prático – a partir da obra de Bauman, onde ele fala que a sociedade deixa
de ser regulada pelo Estado e passa a ser regulada pelo mercado, através da lógica
consumista. Conforme mencionamos, pretendemos explicitar minuciosamente nossas
bases teóricas aqui. Passaremos então a falar da reflexão de Bauman sobre a sociedade
contemporânea, para desta forma uni-la ao pensamento de Foucault sobre as resistências
enquanto elaborações de novas estilísticas de vida, novas éticas. Buscaremos responder
como se configuram essas novas formas de resistência que são constituídas a partir de
60
uma sociedade regulada pelo mercado tendo como exemplo o Heavy Metal.
Utilizaremos também as reflexões do antropólogo David Le Breton quando ele fala do
corpo como acessório. Já que o corpo é o nosso acessório onde imprimimos nossa
subjetividade afim de que ela se torne visível para os outros, para sermos reconhecidos e
existirmos, o consumo é, mais uma vez, uma parte fundamental da ética headbanger.
61
2 – Modernidade, solidez e liquidez.
Bauman em “O Mal-estar da Pós-modernidade” vai falar da passagem da
modernidade para a pós-modernidade. Para ele, modernidade e civilização são
sinônimos e a expressão “civilização moderna” é vista como um pleonasmo. Isso ocorre
porque a sociedade moderna é a única que se caracteriza como um projeto de
civilização. O projeto moderno visava o estabelecimento de uma civilização bela.
Enquanto uma atividade da cultura, o projeto de civilização moderno queria o
estabelecimento da ordem, da limpeza e da beleza.
O Estado vai aparecer como instituição asseguradora e organizadora dos ideais
modernos. Através da ordem, da limpeza e da beleza, o Estado iria garantir a segurança
ontológica aos indivíduos. Outro aspecto, que também é de grande importância no
estabelecimento da segurança para os indivíduos da sociedade moderna, é a duração
desses ideais no tempo. Tudo era construído com a perspectiva da durabilidade, para
aplacar as possíveis inseguranças que poderiam advir de caprichos do futuro. Assim, o
Estado moderno tinha a função de promover não só a segurança, mas garanti-la a longo
prazo. Porém: “Qualquer valor só é um valor (como Georg Simmel, há muito tempo,
observou) graças à perda de outros valores, que se tem de sofrer a fim de obtê-lo”.
(BAUMAN, 1998, pág. 10)
Desta forma, o Estado oferece a segurança em troca das liberdades individuais,
aparecendo, assim, enquanto um poder totalizador. Só é possível a garantia da
segurança e da ordem em troca da submissão do pensamento, que era calcada na
“padronização e rotinização do comportamento individual” (BAUMAN, 2008, pág. 42).
62
A partir daí, resgatamos o que foi dito anteriormente por Foucault, que as lutas contra a
insubmissão do pensamento só ganham destaque na modernidade em decorrência da
forma política vigente, o Estado. Se as formas de resistência são constituídas a partir de
uma determinada configuração das relações de poder, as lutas contra a insubmissão do
pensamento só poderão se constituir frente a um contexto em que as relações de poder
se configuram, principalmente, na forma da submissão do pensamento. Neste caso, a
submissão do pensamento se dava no processo de constituição de uma ordem, pelo
Estado, para o cumprimento do projeto civilizatório, que era a principal aposta da
modernidade.
Esse conflito que acabamos de descrever, o conflito moderno entre segurança
versus liberdade, foi o que Freud chamou de O Mal-estar da Civilização:
“A civilização se constrói sobre uma renúncia ao instinto.”
Especialmente – assim Freud nos diz – a civilização (leia-se: a
modernidade) “impõe grandes sacrifícios” à sexualidade e
agressividade do homem. “O anseio de liberdade, portanto, é dirigido
contra formas e exigências particulares da civilização ou contra a
civilização como um todo.” E não pode ser de outra maneira. Os
prazeres da vida civilizada, e Freud insiste nisso, vêm num pacote
fechado com os sofrimentos, a satisfação com o mal-estar, a
submissão com a rebelião. (BAUMAN, 1998, pág. 8)
Contrariamente à instituição eclesiástica, o projeto moderno, que tinha o Estado
à sua frente para realizar-se, prometia “liberar o indivíduo da identidade herdada”
(BAUMAN, 1998, pág. 30). A identidade passa a ser entendida enquanto uma
construção humana, portanto, passível de ser modelada. No entanto, a construção da
identidade individual deveria estar atrelada ao projeto moderno da ordem social. Não se
negava uma identidade herdada e imutável para dar lugar ao indivíduo de construir-se a
63
si mesmo segundo seus padrões de escolha, na forma de uma prática de liberdade. A
intenção era que os indivíduos se construíssem, mas de acordo com os padrões
civilizatórios ditados pela instituição estatal.
A identidade deveria ser erigida sistematicamente, de degrau em
degrau e de tijolo em tijolo, seguindo um esquema concluído antes de
iniciado o trabalho. A construção requeria uma clara percepção da
forma final, o cálculo cuidadoso dos passos que levariam a ela, o
planejamento a longo prazo e a visão através das consequências de
cada movimento. Havia, assim, um vínculo firme e irrevogável entre a
ordem social como projeto e a vida individual como projeto, sendo a
última impensável sem a primeira. (BAUMAN, 1998, pág. 31)
Desta forma, o conjunto das instituições sociais que pautavam a criação e
manutenção da ordem aparece enquanto estrutura fixa e rígida que submete a liberdade
individual, o pensamento, em favor da segurança. É em contraponto a essa solidez
tipicamente moderna que Bauman vai falar da liquidez pós-moderna.
A modernidade sólida, que constitui uma sociedade de produtores, tinha como
principal valor a busca da segurança. Essa busca era atrelada a perda das liberdades
individuais e daí provinha o mal estar da civilização moderna. Já em um contexto de
pós-modernidade, ou de modernidade líquida, a liberdade individual é o valor que
orienta todos os outros valores, tudo passa pelo crivo do princípio do prazer, contido na
liberdade individual. Portanto, num contexto onde há a supremacia das liberdades
individuais, abre-se mão da segurança proporcionada por uma ordem, que escapava ao
individual. A ordem e a segurança que advêm dela só podem ser alcançadas em um
contexto de projetos políticos que são orientados para o futuro.
64
O desvio do projeto da comunidade como defensora do direito
universal à vida decente e dignificada para o da promoção do mercado
como garantia suficiente da universal oportunidade de autoenriquecimento aprofunda mais o sofrimento dos novos pobres, a seu
mal acrescentando o insulto, interpretando a pobreza como
humilhação e com a negação da liberdade do consumidor, agora
identificada com a humanidade. (BAUMAN, 1998, pág. 34)
A partir dessa citação de Bauman constatamos que um movimento importante na
configuração desse novo contexto é a passagem da regulação da vida do Estado (que
representa a ordem, a política, a segurança) para o mercado (que representa a liberdade
individual, a auto-regulação, a insegurança). A partir daí instaura-se a incerteza como
modo de vida, nada mais é sólido, tudo é líquido, fluido, escapa por entre os dedos.
Nenhuma posição social é segura, nada é garantido, instaura-se uma insegurança
ontológica, os laços sociais não são duráveis, tudo e todos se tornam descartáveis.
2.1 – Vida líquida e consumismo na sociedade contemporânea.
De acordo com o Sociólogo Zygmunt Bauman, nós vivemos atualmente em uma
época denominada por ele de modernidade líquida. E a modernidade líquida, por sua
vez, se caracteriza pela vida líquida. Mas, o que vem a ser essa modernidade líquida?
Na modernidade dita líquida, as palavras de ordem são: fluidez, leveza
flexibilidade, inconstância e rapidez, tudo isso em relação aos fenômenos sociais, aos
65
laços sociais. Em oposição, temos a modernidade sólida, da qual acabamos de falar, que
suscita palavras como peso, dureza, inflexibilidade, constância e durabilidade. A
modernidade sólida é baseada na lógica produtivista, a modernidade líquida é orientada
pelos valores do consumismo. A primeira é constituída por produtores, enquanto a
segunda constitui-se de consumidores.
A partir daí, temos uma categoria chave na obra de Bauman: o consumo, que é
um pilar nas sociedades moderno-líquidas. Consumidores existiram desde sempre, aliás,
poderíamos dizer que o consumo é algo sem o qual o ser humano não existe, o consumo
é uma condição de existência do homem. A ideia de consumo antecede e muito a
prevalência da modernidade líquida, porém, Bauman destaca a configuração do
consumo na contemporaneidade, que se desenha diferentemente das épocas precedentes,
nas quais, o consumo pode ser observado sem modificações significativas. Ele quer
observar, mais especificamente, o delineamento do que ele chama de síndrome
consumista, característica marcante do fenômeno da liquidez moderna. Falar em
síndrome consumista, para Bauman, é falar de uma sociedade de consumidores, onde o
todo social deve ser considerado como objeto de análise, o que significa ultrapassar uma
análise da lógica de consumo, como categoria individual, e considerar o consumo
enquanto estruturante do todo social, dos laços sociais. O consumo, em sua
configuração atual, o consumismo, deve ser tratado como um fenômeno social e deve,
portanto, ser estudado enquanto tal. Deve passar de uma categoria individual para uma
categoria social. Falar de uma sociedade de consumo é levar em consideração: “uma
sociedade que julga e avalia seus membros principalmente por suas capacidades e sua
conduta relacionadas ao consumo.” (BAUMAN, 2007, pág. 109). O consumo, na
66
modernidade líquida, trabalha como um fixador de padrões e condutas na atividade
humana, como uma forma específica de convivência, portanto, seu caráter social.
Bauman fala de um ponto de ruptura, que separaria o consumo em sua face
líquido-moderna daquele que seria observado em épocas precedentes: a revolução
consumista, que marca a passagem do consumo ao consumismo “quando aquele, como
afirma Colin Campbell, tornou-se “especialmente importante, se não central” para a
vida da maioria das pessoas, “o verdadeiro propósito da existência.” (BAUMAN, 2008,
pág. 38). Devemos, a partir de agora, separar esses dois fenômenos: o consumo passa a
ser consumismo, ou melhor, o consumismo é a configuração atual do consumo, é
quando este passa a ter uma centralidade na existência que reflete a ordenação das
relações de convivência e das relações do sujeito com ele mesmo. O consumo é uma
categoria individual e o consumismo é, necessariamente, social.
Pode-se dizer que o “consumismo” é um tipo de arranjo social
resultante da reciclagem de vontades, desejos e anseios humanos
rotineiros, permanentes e, por assim dizer, “neutros quanto ao
regime”, transformando-os na principal força propulsora e operativa
da sociedade, uma força que coordena a reprodução sistêmica, a
integração e a estratificação sociais, além da formação de indivíduos
humanos, desempenhando ao mesmo tempo um papel importante
nos processos de auto-identificação individual e de grupo, assim
como na seleção e execução de políticas de vida individuais. O
“consumismo” chega quando o consumo assume o papel-chave que na
sociedade de produtores era exercido pelo trabalho. (BAUMAN,
2008, pág. 41, grifo nosso)
No trecho citado acima destacamos uma frase no sentido de reforçar que o
consumo, em sua configuração atual, o consumismo, tem também determinado um
papel importante nos processos de subjetivação. Da mesma forma que o consumismo
67
trabalha na construção de sujeitos moldados nas fôrmas da lógica consumista, ele
também constitui as formas de resistência que nascem em contraposição a essa mesma
lógica. Trazemos Bauman e seu diagnóstico da sociedade contemporânea para essa
discussão no sentido de fazer uma atualização da reflexão foucaultiana, na medida em
que o mercado toma para si o papel de regulação do social, antes realizado pelo Estado.
A normalização do social era feita a partir do Estado e de suas instituições, como a
polícia, que tinham como função assegurar a manutenção da higiene, da saúde e dos
padrões urbanos. Com o mercado, a normalização se dá com a padronização das
condutas a partir da criação constante de necessidades de consumo que, apesar de se
apresentarem enquanto diversificadas e darem a impressão de uma total liberdade de
movimentos dos indivíduos consumidores que escolhem o que querem consumir, são
pré-selecionadas e limitadas. Portando, queremos ver como se constituem as
resistências a partir dessa nova configuração. Para tanto, nos utilizaremos do Heavy
Metal enquanto uma proposta de ética, um dispositivo que vai orientar práticas de
liberdade individuais e grupais no sentido de uma insubmissão do pensamento à lógica
totalizadora do mercado e do consumismo. Essa prática ética proporcionada pelo Heavy
Metal, enquanto um estilo de vida, passa também pela constituição de um consumo
diferenciado. Passaremos agora a uma breve descrição dos principais aspectos que
constituem o diagnóstico formulado por Bauman da sociedade consumista líquidomoderna.
***
68
A sociedade de consumo não é baseada na acumulação de bens, como se pode
pensar a uma primeira vista. A palavra de ordem nessa sociedade é a descartabilidade. E
essa descartabilidade é construída a partir de promessas de satisfação dos desejos, que
permanecem promessas irrealizadas, tornando permanente a insatisfação. Esta só é
amenizada por novas promessas, que novamente não serão cumpridas, configurando,
assim, a insaciabilidade das necessidades. É nesse ciclo que se implementa a
descartabilidade de coisas e pessoas, a sua transitoriedade. Como vimos anteriormente,
com o advento do mercado enquanto regulador social tem-se a perda da segurança, em
favor da instabilidade, porém, a segurança continua aparecendo nessa nova
configuração social, sendo que agora na forma de promessas. A ilusão da segurança
aparece transfigurada nas promessas de realização dos desejos criados por essa lógica
consumista. É uma segurança frágil e quebradiça que se sustenta na esperança de
felicidade. A busca da segurança vira a busca da felicidade, sustentada pelas promessas
da indústria de consumo.
A sociedade de consumo prospera enquanto consegue tornar perpétua
a não-satisfação de seus membros ( e assim, em seus próprios termos,
a infelicidade deles). O método explícito de atingir tal efeito é
depreciar e desvalorizar os produtos de consumo logo depois de terem
sido promovidos no universo dos desejos dos consumidores.
(BAUMAN, 2008, pág. 64)
Mas como essa lógica pode se sustentar se a não satisfação dos sujeitos
consumidores é perpetuada? Porque continuar insistindo? Simultaneamente ao processo
de depreciação dos produtos que já foram adquiridos pelos consumidores dá-se a
criação de uma gama imensa de novas oportunidades que se apresentam como
69
melhores. Desta forma, o fracasso não é encarado enquanto derrota, mas sim, como a
possibilidade de uma nova tentativa de acerto. O excesso de novas promessas vai anular
a frustração com o produto que já foi consumido e a confiança na busca pelo produto
que trará felicidade pode permanecer existindo.
A vida líquida se configura em uma sucessão de reinícios. A categoria tempo se
reflete nessa descartabilidade e transitoriedade. Na sociedade de produtores, a chamada
modernidade sólida, a resposta ao fracasso era o “tente outra vez”, já na sociedade de
consumidores, que Bauman chama de modernidade líquida, essa resposta poderia ser
resumida no imperativo: “parta para outra”. Tudo o que é consumido, dentro da lógica
da fluidez moderna, tem um prazo de validade estabelecido e esse prazo é curto, tudo é
transitório, tudo é fluido, tudo é passageiro. Há uma re-significação do tempo, que passa
a ser “pontilhista”, categoria que Bauman toma emprestada de Michel Maffesoli. O
tempo pontilhista é marcado pela descontinuidade, pela falta de coesão entre os pontos,
pela “profusão de rupturas e descontinuidades” (BAUMAN, 2008, pág. 46).
O tempo pontilhista é fragmentado, ou mesmo pulverizado, numa
multiplicidade de “instantes eternos” – eventos, incidentes, acidentes,
aventuras, episódios –, mônadas contidas em si mesmas, parcelas
distintas, cada qual reduzida a um ponto cada vez mais próximo de
seu ideal de seu ideal geométrico de não dimensionalidade.
(BAUMAN, 2008, pág. 46)
Pelo fato de tudo ser passageiro, tudo também é inseguro, o desapego torna-se
uma constante, assim como a insegurança e a ansiedade. Podemos falar de um contexto
de fragmentação, de falta de solidez, de falta de chão. Estabelece-se uma insegurança
ontológica na fluidez moderna, a incerteza como modo de vida, em contraposição à
70
segurança ontológica que outrora era oferecida pelo Estado no projeto civilizatório da
modernidade. A fluidez faz com que não se estabeleçam rotinas, permanências, muito
menos hábitos, tudo é muito passageiro, tudo é muito inconstante e a incerteza se torna
uma constante. Talvez por isso, cada vez mais pessoas procuram terapeutas e analistas,
para lidar com a dificuldade da falta de chão moderna. Mas porque algumas pessoas
precisam aprender a lidar com isso, se tudo é fluido? Exatamente pelo fato de que nem
tudo é fluido. Modernidade líquida e modernidade sólida coexistem. Apesar de a
modernidade líquida ser a principal categoria na construção dos valores e na
configuração das relações sociais.
A estratégia da atenção contínua à construção e reconstrução da autoidentidade, com a ajuda dos kits identitários fornecidos pelo mercado,
continuará sendo a única estratégia plausível ou “razoável” que se
pode seguir num ambiente caleidoscopicamente instável no qual
“projetos para toda a vida” e planos de longo prazo não são propostas
realistas, além de serem vistos como insensatos e desaconselháveis.
(BAUMAN, 2008, pág. 66)
Talvez o fato da coexistência das modernidades sólida e líquida seja um fator
determinante no processo de constituição de resistências na contemporaneidade, pois
torna o tecido social não homogêneo. Apesar de a liquidez, através da cultura
consumista, ser o principal elemento estruturante dos modelos de convivência sociais, a
solidez aparece também como algo que impede a totalização do processo de liquidez na
contemporaneidade. Não estamos com isto valorando liquidez ou solidez, que são,
apenas, características da atualidade. Não objetivamos uma volta aos antigos valores
que seriam melhores. Não há valores melhores ou piores, nos ocupamos nesse trabalho
apenas de descrever como se dá o jogo de forças no que diz respeito à subjetivação. A
71
lógica consumista tem sido a principal criadora e estruturadora de valores, de forma
quase total. Porém, não queremos aqui simplificar a configuração do social, a qual
acreditamos estar atravessada também por elementos da solidez moderna que
descrevemos aqui, embora tenhamos plena ciência de que o papel desempenhado pela
lógica consumista seja muito mais amplo e eficaz na constituição das formas de agir e
pensar.
Tendo em vista que a lógica consumista é o principal elemento na estruturação
da sociedade, devemos ressaltar que também é através dela que se dá a normalização do
social. Dentro da sociedade de consumo os indivíduos são julgados, antes de mais nada,
enquanto bons ou mau consumidores. Tendo como pressuposto a descartabilidade de
pessoas e coisas da qual já falamos aqui, que é um dos principais pilares de sustentação
da lógica consumista, o bom consumidor, para Bauman, não é aquele que traz muitas
sacolas, quando vai as compras, mas sim, aquele que torna cada vez menor a distância
entre o momento em que são realizadas as suas compras e o momento em ele deixa de
lado aqueles produtos que foram comprados. Descarta esses produtos em favor de novas
oportunidades de consumo que aparecem no horizonte. Os indivíduos considerados
maus consumidores são aqueles que não conseguem – por motivos financeiros, por
exemplo – ou não querem acompanhar a rapidez exigida pela sociedade atual no que se
refere ao consumo. São também aqueles que se recusam a fazer escolhas, se recusam a
escolher dentre as opções dadas pelo mercado. Deixar de fazer escolhas não é uma
opção, pois deve-se fazer escolhas para acompanhar o movimento incessante.
Toda essa lógica de funcionamento da passagem da regulação da vida para o
mercado possibilita o afrouxamento dos elementos estruturantes do social, onde os
sistemas de coerção social perdem força e dão lugar a uma espécie de liberdade do
72
sujeito. Essa liberdade se traduz no fato de o sujeito fazer suas escolhas de vida, porém
não se trata de uma liberdade de fato, na medida em que o sujeito é obrigado a fazer
escolhas. Assim como aquilo que está disponível à escolha é algo pré- selecionado,
dado. A questão da liberdade, como falamos anteriormente, também é tratada por
Foucault e é uma questão bastante delicada. Para Foucault, não existe a liberdade total
do sujeito, existem as práticas de liberdade. A liberdade é uma agonística, uma luta sem
fim. O principal problema na era consumista é a liberdade se apresentar como um dado,
que faz oposição às coerções da modernidade industrial, e não existir de fato.
Os maus consumidores são os estranhos da nossa sociedade, criados através da
lógica consumista. Os estranhos são aqueles que “não deveriam estar” presentes na
sociedade, pois não corroboram com a lógica organizadora dos padrões sociais,
atrapalham o funcionamento e a totalização dessa mesma lógica, são a sujeira dentro de
uma ordem estabelecida como natural. Se determinada maneira de organização do social
fosse natural, por que existiriam estranhos, que escapam a essa ordem? Eis a questão.
Os estranhos de todas as sociedades existem para comprovar que nenhuma ordem
estabelecida, por mais que pareça natural, o é. Eis novamente a reificação da moral da
qual Nietzsche nos fala, onde causas são trocadas por consequências e, por esta razão, a
moral, ou a lógica como se organiza o todo social e que age como imperativo, se
estabelece enquanto natural, imutável e necessária.
Alguns estranhos não são, porém, os ainda não definidos; são, em
princípio, os indefiníveis. São a premonição daquele “terceiro
elemento” que não deveria ser. Esses são os verdadeiros híbridos, os
monstros – não apenas não classificados, mas inclassificáveis. Eles
não questionam apenas uma oposição aqui e ali: questionam a
oposição como tal, o próprio princípio de oposição, a plausibilidade da
dicotomia que ela sugere e a factibilidade da separação que exige.
Desmascaram a frágil artificiabilidade da divisão. Eles destroem o
73
mundo. Estendem a temporária inconveniência de “não saber como
prosseguir” a uma paralisia terminal. Devem ser transformados em
tabu, desarmados, suprimidos, física ou mentalmente exilados – ou o
mundo pode perecer. (BAUMAN, 1999, pág. 68)
2.2 – A experimentação de um consumo diferenciado a partir do Heavy Metal.
É partindo dessa contextualização que pensamos o Heavy Metal enquanto um
modo de vida particular que se baseia também na experimentação de um consumo
diferenciado. Desta forma, a vivência ética que o Heavy Metal pode proporcionar tem
como um de seus pontos fortes a resistência a essa lógica consumista, a partir da qual
ela nasce e se constitui. Uma vez que os adeptos do Heavy Metal têm anseios
diferenciados de consumo e, mais ainda, uma diferenciação na lógica temporal que rege
esse consumo, que se configura a partir da vivência do Heavy Metal enquanto um modo
de vida particular. De forma geral, os produtos consumidos por aqueles que escutam
Heavy Metal são diferentes daqueles normalmente encontrados nas prateleiras, que são
produtos pré-selecionados de acordo com as tendências do consumo e que dão a falsa
ilusão da liberdade de escolha do consumidor. O choque dessa falsa liberdade de
escolha só pode ser sentido na medida em que se anseia por coisas diferentes das que
estão predispostas nas prateleiras. Um CD, uma camisa de uma banda específica, roupas
e acessórios que não são encontrados em todos os lugares. Aqueles que não consomem
os produtos que estão disponíveis em larga escala nas prateleiras, são consumidores
falhos, são estranhos. Partindo desse viés, os headbangers se constituem em estranhos,
74
na sociedade contemporânea. No caso da cidade de São Paulo – SP existem saídas para
esses consumidores específicos da cena Heavy Metal, em geral, considerados falhos: a
Galeria do Rock, que é uma espécie de Shopping Center com artigos direcionados a
esse público. No entanto, continuam sendo artigos pré-selecionados, que, às vezes, não
satisfazem as necessidades de consumo desses consumidores em questão. No caso de
Natal, pelo que pudemos observar na pesquisa, os consumidores encontram saídas
comprando o material que desejam fora da cidade, ou, no caso de roupas e acessórios,
mandando confeccionar por pessoas específicas.
Tivemos a oportunidade de entrevistar uma headbanger que trabalha com a
confecção de roupas específicas para os apreciadores do metal, a Lucy. Ela tinha algum
conhecimento de costura e, por gostar de ouvir metal, ao ver pôsteres e revistas
especializadas no gênero onde apareciam algumas bandas com vocais femininos, se
interessou pelo modo como as cantoras do metal se vestiam. A partir daí, como em
Natal não se acha peças de roupas semelhantes as que fazem parte da indumentária das
vocalistas em questão, ela se propôs a fazer por conta própria. Uma das peças que mais
chamou a atenção da nossa entrevistada, na época, foi o espartilho, ou corset 38. Desta
forma, nossa interlocutora resolveu tentar aprender por conta própria como confeccionar
corsets, e teve sucesso. Começou fazendo encomendas para as amigas próximas, que
escutavam metal e procuravam um visual diferenciado e, hoje em dia, faz corsets e
roupas mais específicas e singulares para um público bem maior. Sua clientela começou
a surgir a partir do momento em que suas amigas, que foram as primeiras a encomendar
suas peças, iam a shows e, a partir daí, eram vistas por outras pessoas do meio que
ficavam interessadas. A maior dificuldade da nossa entrevistada é conseguir certos
materiais específicos para a confecção de corsets principalmente, que não são
38
Fotos de alguns modelos de corsets, fabricados por ela, nos anexos.
75
encontrados em Natal, e, como precisam ser encomendados de outras partes do país,
tornam o custo das peças maior, dificultando também a venda mais ampla. Embora as
apreciadoras de Heavy Metal saibam da dificuldade de se conseguir um corset e
também do alto custo, ainda assim, continuam comprando. Vale ressaltar que a renda da
nossa interlocutora não advêm somente da venda de roupas exclusivas para os amantes
do Heavy Metal, pois, ela trabalha também com a confecção de todos os tipos de roupa.
Agora, para as consumidoras e consumidores, ela é uma das únicas opções de um visual
singular, tão almejado dentro da estética do Metal.
Imagem 02: Foto do primeiro
corset confeccionado pela Lucy.
Nos anexos constam fotos de
modelos atuais. Fonte: arquivo
pessoal de Lucy.
Na sociedade contemporânea, a prática de mandar confeccionar roupas já se
mostra como algo que não é comum e não pertence à lógica de mercado, uma vez que,
se nos dias de hoje alguém procura os serviços de uma costureira para a confecção de
76
roupas, é pelo fato de que essa roupa específica não pode ser achada nas lojas. E o
mercado, inicialmente, aparece como aquele que é capaz de satisfazer os desejos de
todo e qualquer consumidor. Uma particularidade interessante da nossa entrevistada, a
Lucy, é que ela procura, na medida do possível, não repetir os modelos das peças que
ela confecciona, ou seja, são peças quase sempre exclusivas. Segundo ela, aconteceu de
uma cliente gostar muito de uma peça que foi feita para outra pessoa e encomendar uma
peça igual, Lucy, porém, sempre “desobedece” os clientes que fazem isso
confeccionando uma peça diferente, de um modelo parecido, mas tendo o cuidado de
diferenciá-la no que se refere aos detalhes. Isso se reflete na quebra de outra
característica inerente à lógica de mercado, pois, para o grande mercado, as peças são
produzidas em série, em larga escala, para o consumo da massa. O consumo de peças
exclusivas (ou quase exclusivas) pode ser observado, em geral, nas camadas mais ricas
da sociedade, o que não reflete o caso dos consumidores que estamos analisando, os
headbangers.
Há também uma loja especializada, no centro da cidade, que trabalha com a
venda de CDs, DVDs, camisetas de bandas, alguns acessórios e excursões para shows, a
Loja Records, uma loja virtual, a DyingMusic 39, e uma banca localizada em um bairro
de comércio popular da cidade, o Alecrim. Nessa banca são vendidas camisas de bandas
que o proprietário encomenda na cidade de Fortaleza. Um detalhe interessante em
relação à banca é que o seu proprietário só comercializa aquilo que é aprovado por ele.
Em certa ocasião que pude observar, quando um cliente perguntou por uma camisa do
Ozzy Osbourne, o comerciante retrucou: “Dessa vez, eu não peguei nenhuma camisa do
Ozzy não, não aprovei as estampas, só vou pegar camisas do Ozzy quando tiverem
estampas decentes!” Isto demonstra um diferencial em relação ao comércio em geral,
39
http://www.dyingmusic.com/site/dying-music.php (endereço eletrônico da loja.)
77
onde costuma-se vender artigos que correspondam àquilo que os consumidores
procuram mais. Ozzy Osbourne é um ícone na tradição do Heavy Metal, portanto,
supõe-se que suas camisas sejam amplamente procuradas. No entanto, o comerciante se
recusou a encomendá-las naquele determinado momento, porque as estampas que
estavam saindo de camisas do Ozzy, mostravam o cantor de forma “afeminada”,
segundo o comerciante. Talvez alguns consumidores nem se importassem com esse
fato, porém o dono do comércio se recusou a vendê-las por causa de suas convicções
daquilo que seria adequado para a estampa de uma camisa de Heavy Metal.
Algo interessante que podemos ressaltar sobre o comércio de produtos dentro do
Heavy Metal é que aqueles que comercializam esses produtos não estão dentro dos
padrões estabelecidos pela lógica de mercado. Partindo dessa lógica, o consumidor é
que escolhe o que quer comprar. No caso da corsetmaker Lucy, ela não confecciona
produtos iguais, mesmo que seus clientes o peçam. No caso da banca que vende
camisas, no Alecrim, o dono decide quais estampas ele vai ou não comercializar,
independente da procura dos clientes.
Como já falamos anteriormente, outro fator relevante na criação de estranhos na
sociedade contemporânea pela lógica consumista é o não acompanhamento da rapidez
proposta pelos ditames do consumo. Tendências de consumo são criadas e se acabam
em um tempo cada vez mais ínfimo. A efemeridade e a volatilidade dos produtos
sustentam o consumismo. O consumismo enquanto lógica valoriza sempre a novidade,
tudo aquilo que é durável aborrece, é entediante. Não é a acumulação de bens ou de
relacionamentos que visa o consumismo, mas sim o seu descarte, sua rotatividade. Um
fator observado no decorrer da pesquisa é que os headbangers, ou fãs de Heavy Metal,
não acompanham a rapidez ditada pela sociedade de consumo. A partir das entrevistas
78
que realizamos, pudemos observar que os gostos por determinadas bandas e as
tendências de consumir determinados produtos permanecem por um tempo
considerável, ou são até cristalizados. Uma expressão interessante que exemplifica isso
é: “Headbanger não usa camisa preta, usa camisa cinza, por que o preto se tornou
cinza, com as lavagens”. 40
O exemplo da Galeria do Rock, na cidade de São Paulo, pode ser retomado aqui,
pois das vezes que pudemos observar os produtos disponíveis para venda nesse local,
chegamos à conclusão de que não existem ciclos de venda das mercadorias em geral,
como acontece com o fenômeno da moda, onde as tendências têm prazo de validade.
Falando de forma geral, na Galeria do Rock, os produtos destinados ao público
headbanger, são basicamente sempre os mesmos. No caso de Natal, apesar de termos
citado o fato de o comerciante não querer trabalhar com uma determinada estampa de
camisa, isso não se deve ao fato de esta estampa em específico estar fora de moda,
muito pelo contrário, aquelas estampas rejeitadas pelo comerciante refletiam as camisas
que sempre têm um alto índice de procura, devido à popularidade da figura pública
estampada nas camisas em questão, Ozzy Osbourne. Ele as descartou por uma questão
de escolha pessoal. Essa questão de uma mudança na lógica temporal do consumo dos
headbangers talvez seja o fator mais importante na ressignificação que há no consumo
feito por esse grupo.
Ressignificar modos de agir e de pensar é o objetivo da resistência que se
constitui a partir de grupos éticos. Sair do estado de stultitia significa ter cuidados com
o si mesmo a ponto de fazer escolhas a partir de um querer livre, ou seja, um querer que
surge a partir de um filtro que o sujeito constrói para si mesmo e que não o deixa querer
40
Trata-se de um bordão bastante comum entre os headbangers.
79
alguma coisa sem motivos inerentes ao eu. O querer mais geral e também o ritmo com
que se quer é algo construído e que muda de acordo com os tempos e com as lógicas
que normalizam o social. Com o mercado enquanto instaurador de uma lógica
consumista, temos a ilusão de uma liberdade do querer, mas esse querer é préselecionado pelo mercado e não querer, ou não querer com a frequência que se
demanda, é se constituir em estranho. Os headbangers fazem essa escolha de não querer
cosumir o que está amplamente disponível nas prateleiras e, mais ainda, escolhem
consumir de acordo com o tempo que eles acham viável para o seu consumo. Na
entrevista com o Hervall, vocalista da banda Comando Etílico, ocorreu um episódio
interessante que demonstra isso. Na ocasião, eu fui vestida com uma camisa do
Metallica 41, mais especificamente, a camisa do álbum And Justice for all. O
entrevistado olhou minha camisa, disse que tinha gostado da minha escolha e comentou
que tem uma camisa desse álbum há muitos anos, mas que a camisa estava tão velha
que, recentemente, ele precisou comprar uma camisa nova, porém igual a anterior. A
partir desse exemplo podemos observar melhor como se dá essa temporalidade do
consumo headbanger. Comumente, levando em consideração a lógica de mercado, não
se usa uma camisa por tanto tempo, pois há a lógica da descartabilidade dos produtos
consumidos e, mais ainda, quando o produto é trocado por um novo, o novo produto
adquirido, dificilmente vai ser igual ao anterior. Pois, se nos desfazemos de um
determinado bem que foi consumido, é no sentido de adquirir outro que foi lançado
posteriormente e que passa a ser o objeto de desejo daquele que consome.
41
Banda que representa um grande expoente do Thrash Metal, e mais ainda, é considerada uma das
criadoras desse estilo.
80
Abda Medeiros, fala da categoria tempo em seu trabalho de dissertação sobre o
Heavy Metal. O habitus dos headbangers nos shows de Metal são também cristalizados.
Segundo a pesquisadora:
O caráter circular do tempo se expressa nas formas de se vestir a cor
preta, cantar com vocais agudos, guturais ou rasgados e gesticular com
a mão o formato de um chifre que sempre podem ser percebidos nos
shows desde os anos 1960, quando o Metal se firmou como estilo de
vida, até os dias de hoje. São elementos exibidos a cada show ainda
que constantemente (re) significados conforme o contexto histórico e
cultural no qual os grupos que freqüentam esses shows estão
inseridos. (MEDEIROS, 2008, pág.43)
Como último ponto que justifica a entrada da categoria consumo em nosso
trabalho gostaríamos de levantar as reflexões do antropólogo David Le Breton acerca do
corpo enquanto acessório. Em seu livro Adeus ao corpo, ele fala, dentre outras coisas,
do “desinvestimento dos sistemas sociais de sentido” como uma característica da
contemporaneidade. Esse desinvestimento pode ser visto como uma fragmentação, a
liquefação desses sistemas sociais de sentido, uma descentralização política, que tira de
cena os grandes projetos políticos, que envolviam as massas, orientados para o futuro e
coloca no centro o sujeito, a ação ética. Com Le Breton, mais uma vez, vemos que o
Estado deixou de ser o regulador do social. O antropólogo não fala no mercado, mas
diagnostica da mesma forma o afrouxamento dos laços, que para Bauman, decorre do
fato de termos o mercado enquanto regulador social, no lugar do Estado. Em Bauman, a
modernidade líquida, erigida sobre o consumismo, não visa projetos para o futuro, o que
importa é o presente, tudo é transitório, por isso a impossibilidade de se estabelecer
projetos. Esses dois autores dialogam, ainda, com Michel Maffesoli, que estabelece um
vínculo entre ética e estética, onde há um predomínio da estética, a não atividade
política, diversas formas do cuidado de si e do culto ao corpo, como formas de
81
contemplação do mundo, além do presenteísmo. Le Breton fala que com a dissolução
dos sistemas sociais de sentido, não resta nada ao sujeito, senão seu corpo, portanto, a
relação entre o sujeito e seu corpo, passa a ser uma relação de domínio, como coloca o
autor, já que a única coisa da qual o sujeito tem domínio, é o seu próprio corpo. A partir
do domínio de si, o sujeito constrói o próprio corpo, o sujeito é o “mestre de obras que
decide a orientação de sua existência” (BRETON, 2003, pág. 31) através das
modificações que ele imprime ao corpo. Talvez essa seja uma das formas de escape que
o sujeito encontra, em um contexto de modernidade líquida, para alcançar alguma
solidez, a partir do domínio do corpo. Le Breton coloca como uma questão primordial
em sua obra a separação que se dá entre o sujeito e o corpo. A partir dessa profunda
separação, o sujeito pode constituir seu corpo como acessório. O sujeito tenta imprimir
o seu eu das mais diversas formas no corpo, transformando-o em um acessório a ser
personalizado. O corpo aparece, então, como um recipiente vazio a ser preenchido com
a subjetividade do eu. Tornar o corpo em acessório de si é um fator primordial da
existência. “A vontade está na preocupação de modificar o olhar sobre si e o olhar dos
outros a fim de sentir-se existir plenamente” (BRETON, 2003, pág. 30). O sujeito só
existe na medida em que é reconhecido pelo olhar do outro, a existência só é possível
através do olhar do outro. A sociabilidade é baseada na sedução. E o corpo é o cartão de
visitas do sujeito, é a forma dele se apresentar perante os outros. Tratar o corpo como
acessório é a tentativa de imprimir uma identidade a esse corpo, que devido à separação
entre sujeito e corpo, torna-se vazio sem ela. Porém, essa construção de identidades
também pode ser fluida, pode se dar de acordo com o momento presente vivenciado
pelo sujeito, amanhã pode ser descartada e, em seu lugar, erige-se uma nova, o que
reflete bem os ciclos da moda, nos quais o mercado vende pacotes identitários conforme
a estação. Trata-se do jogo de coexistência entre modernidades líquida e sólida. No caso
82
do Heavy Metal, com o qual trabalhamos aqui, ressaltamos mais uma vez que pudemos
observar uma cristalização dos objetos de consumo que vão moldar esse corpo e
imprimir nele uma subjetividade carregada da estética do Heavy Metal, que é constante,
cristalizada. O consumo é essencial na moldagem desse corpo e a visibilidade é
essencial, já que para existir, precisamos ser reconhecidos pelos outros. E é sempre
importante que os outros nos reconheçam da maneira como queremos ser vistos, por
isso, o corpo é o acessório que garante a nossa visibilidade e, no caso dos headbangers,
a identificação dentro do grupo e fora dele como alguém que faz parte da cena.
O que pudemos observar a partir das entrevistas realizadas foi que, para todos, a
questão do visual é essencialmente vinculada ao sentir-se bem por estar vestido de
determinada maneira, isso de forma geral, para todos que foram questionados. Agora, as
respostas também se dividiram em dois grupos: algumas pessoas responderam que, para
elas, é importante chocar as outras pessoas, que não vivenciam o Metal, através do
visual. Desta forma, são pessoas que usam determinadas roupas vinculadas a estética do
Heavy Metal por dois motivos, para se sentir bem, por estarem usando algo que gostam,
mas também para chocar a sociedade de alguma forma. Já outras pessoas responderam
que, para elas, não importa o olhar do outro, ou seja, não usam uma determinada roupa
no intuito de chocar. Usam apenas aquilo que as fazem se sentir bem. Esse sentir-se
bem com aquilo que se veste, que foi um dado geral nas entrevistas, tem a ver com o
que Le Breton fala sobre a separação que foi construída ao longo dos tempos entre o
corpo e a alma, ou a subjetividade. Portanto, quando o sujeito se veste de determinada
forma para sentir-se bem, é na tentativa de imprimir essa subjetividade ao seu corpo,
que, inicialmente aparece como desvinculada dele. Isso se torna mais forte naquelas
pessoas que alegaram querer chocar o outro, através das roupas. Podemos constatar aí
83
uma presença mais aparente da preocupação em relação ao olhar do outro, apesar desse
olhar estar presente em qualquer circunstância e ser condição sine qua non da
existência.
Eu consumo tudo... Camisas, acessórios, patches... (Cláudio Slayer)/
Tudo o que o bolso permitir... (Marcelo)/ Eu também... tudo. (Cláudio
Slayer)/ O que sobra, é pra pagar as contas... (risos) (Marcelo)/ [...] Se
aparecer uma cueca de banda... (risos) (Cláudio Slayer)
O visual não é para aparecer, mas por uma questão de gosto pessoal,
satisfação pessoal. Eu me identifico, acho legal estar usando uma
camiseta de uma banda que eu curto e é uma forma até de
homenagear... (Ericksen)
Quando você sai para um bar, pra um show, é importante a gente abrir
o armário, olhar as camisetas e perguntar: “Pô, qual herói eu vou usar
hoje? (Hervall)
É lógico que, quem me ver de camisa preta, vai ver, “ah, esse cara
deve ser metaleiro!”, mas eu não ligo. (Marcelo)
Eu faço questão mesmo de ser associado ao Heavy Metal, eu sinto
essa necessidade. Pra mim, faz parte do show. Eu gosto de ter meu
nome associado ao metal... Não é que eu gosto, é que eu preciso, acho
que me completa! [...] Eu vou trabalhar de camisa de banda. (Cláudio
Slayer)
Para os homens, no que se refere ao visual, o elemento mais representativo é a
camisa de banda. É o elemento básico que serve para identificá-los enquanto
headbangers e é também usado, como já falamos, para homenagear as bandas que se
ouve. Quando os homens não estão vestindo camisas de banda, geralmente vestem
camisas pretas, mas há predileção pelas camisas de banda. No geral, a preferência é
pelas calças jeans básicas, calças pretas, ou calças camufladas, pois podemos observar
84
como parte integrante da estética do Heavy Metal elementos que foram integrados a
partir de adereços tipicamente militares, como peças de roupa camufladas, cintos,
pulseiras ou braceletes que imitam um ajuntamento de balas de fuzil e coturnos. Os
coletes e jaquetas jeans ou em couro também compõe o visual do headbanger.
As mulheres também usam camisas de banda, porém, há um leque mais variado
de opções para compor o visual. Muitas têm ou gostariam de ter um ou mais corsets,
que é uma peça chamativa e que não é muito utilizada pelas mulheres que não ouvem
Heavy Metal, em geral. Os corsets, ou espartilhos, podem ser confeccionados em vários
materiais, os mais vendidos, segundo a corsetmaker que entrevistamos, são feitos em
cetim, vinil e crepe. As rendas também são bastante exploradas nessas e em outras peças
que fazem parte do visual headbanger. As cores predominantes são o preto, o vermelho
e o roxo. Peças em couro também são bastante visadas dentro do meio. Vestidos, calças
e corpetes em lycra cirré são muito utilizados para compor o look, pois esse tecido tem
a aparência de vinil ou couro, porém como Natal tem um clima quente, que não
favorece a utilização de roupas em couro ou vinil, a lycra cirré torna-se uma alternativa
bastante viável. Saias longas e curtas, geralmente nas cores citadas, também são muito
comuns. E os mais diversos acessórios vêm para completar e tornar o modo de se vestir
das headbangers mais idiossincrático ainda. Apesar de o clima de Natal não favorecer a
utilização de roupas de inverno, o sobretudo também é uma peça bastante visada,
principalmente por aqueles (homens e mulheres) que seguem uma linha mais gótica.
85
3.0 – A Cena Heavy Metal, em Natal: O Heavy Metal para além dos shows.
Esta parte do nosso trabalho vai ser dedicada a falar mais especificamente sobre
o Heavy Metal em Natal, que é o berço do nosso estudo. Não pretendíamos fazer uma
dissertação falando somente da cena Heavy Metal em Natal. Muito provavelmente, o
leitor deve ter notado nosso esforço em falar do Metal de maneira geral e como ele pode
ser ethopoiético, como ele age na constituição de novas estilísticas de vida através do
reflexo da ética do grupo como possibilitadora de práticas de liberdade ao mesmo tempo
individuais e grupais. É de suma importância ressaltar, mais uma vez, que praticar a
liberdade através de uma ética de grupo não significa experimentar de um modo de agir
completamente transgressor que seja totalmente oposto à moral, da qual se tenta escapar
e, por consequência, livre de coerções, perfeito. Todos nós somos constituídos e
atravessados por relações de poder das quais é impossível nos desgrenharmos
completamente. Toda e qualquer forma de resistência só se constitui a partir de um
determinado jogo de poder. Uma vez que a resistência, as práticas de liberdade, só se
constituem a partir de relações de poder, pois não há um lugar fora daquele em que se
dá o jogo de poder que nos constitui, logicamente, qualquer forma de resistência não
pode ser considerada como completamente liberta das práticas das quais e contra as
quais ela surge.
Desta forma, praticar a liberdade através do Heavy Metal ou de qualquer outro
agente possibilitador de alguma forma de prática de liberdade não significa criar uma
nova ética que esteja livre de todos os preconceitos da moral. Como já ressaltamos, o
consumo é uma esfera importante dentro da ética do Heavy Metal. Tornaremos a utilizar
esse exemplo para explicitar melhor o que queremos dizer. As práticas de consumo dos
86
headbangers se constituem de uma forma diferenciada das práticas descritas por
Bauman que são comuns na contemporaneidade, porém, continua sendo consumo, de
qualquer forma. Não há como sair do alcance do consumo, pois ele está presente desde
os tempos primórdios como uma ação humana, não há como simplesmente deixar de
consumir. Alimentação é consumo e é essencial para a vida humana. O que podemos
dizer é que, a partir da configuração atual que se dá o fenômeno do consumismo, as
práticas de consumo dos headbangers se tornam singulares e configuram uma forma de
resistência a essa configuração tomada pelo consumo na contemporaneidade. Ou seja,
não deixa de ser consumo, mas se conforma em uma prática de liberdade frente ao
modo como se dá o consumo na atualidade.
Apesar de intencionarmos falar do Heavy Metal de uma maneira mais geral,
mostrando seu caráter ethopoiético, nosso estudo parte de um lugar. Ainda que eu,
enquanto pesquisadora e parte integrante da cena que investigo agora, conheça
minimamente a experiência do Heavy Metal em outros lugares do Brasil, por tê-los
visitado e participado um pouco de outras cenas, ou por ter amigos headbangers
espalhados por várias partes do país, o fato é que minha pesquisa se deu na cidade de
Natal – RN. Todas as pessoas que entrevistei e a maior parte da minha vivência dentro
do Metal se situam aqui, portanto, faz-se necessário que se fale especificamente do caso
de Natal. Coube citar anteriormente nesse trabalho a Galeria do Rock, que se localiza na
cidade de São Paulo e se configura na “Meca” dos headbangers de todo Brasil, porém
falar do caso específico da cena Heavy Metal de São Paulo me levaria a um trabalho
bastante diferente, pois, comparado a São Paulo, o caso de Natal se torna bem
particular, com suas idiossincrasias.
Inicialmente, falemos um pouco das entrevistas e dos entrevistados. Como
acabei de falar, todas as entrevistas para esta pesquisa foram realizadas em Natal, com
87
headbangers residentes em Natal e, apesar de alguns deles terem nascido fora da cidade,
assim como eu, todos estão morando em Natal há vários anos. Foram entrevistas semiabertas, guiadas por um roteiro feito por mim. A minha intenção com essas entrevistas,
enquanto pesquisadora, era ter o roteiro elaborado por mim apenas como algo que
servisse para suscitar uma longa conversa com cada um dos entrevistados focada no
Heavy Metal, de uma forma geral, e também naquilo que o Metal representa para cada
um deles e como isso faz parte de suas vidas. Preferi entrevistar um número mais
restrito de pessoas e apostar na maior profundidade das conversas. Foram entrevistadas
10 pessoas com uma faixa etária que varia entre 20 e 40 anos de idade, residentes em
locais variados da cidade, ambos os sexos, porém, a maioria do sexo masculino. Grande
parte dos entrevistados é composta de ateus, porém, se formos considerar um panorama
mais amplo, pode-se dizer que o número de headbangers que se dizem agnósticos
também é relevante. As entrevistas correram como o planejado, a partir das minhas
perguntas, os entrevistados falavam à vontade e, na maioria das vezes, extrapolavam a
temática da pergunta. Estas tomaram vida própria, como eu queria, e se tornaram mais
ricas em informações que eu, muito provavelmente, não obteria se trabalhasse com um
roteiro fechado. Ainda falando um pouco acerca da metodologia empregada, pude
observar que as entrevistas fluíram de uma maneira ainda melhor quando eram feitas
com mais de uma pessoa ao mesmo tempo, pois aí sim, tornavam-se conversas de fato e
minimizavam significativamente o constrangimento do gravador sempre presente.
Algo a ser ressaltado sobre os entrevistados é que todos contribuíram
prontamente quando souberam da minha intenção enquanto pesquisadora e ficaram
muito felizes com o fato de eu estar contribuindo desta forma com a cena. Posso
resgatar aqui, para lembrar o leitor, o tópico 1.2 deste trabalho, mais especificamente
quando falamos na sede de contribuir com a cena que é uma característica sempre
88
presente na constituição do underground do Metal. Todos quiseram contribuir da
melhor forma possível com esta pesquisa, pois enxergaram com orgulho a contribuição
de uma headbanger empenhada em formular um trabalho sobre o Heavy Metal e ainda,
particularmente, sobre o Heavy Metal em Natal.
Um fato a ser destacado acerca das entrevistas é que quase todas elas foram
realizadas em mesas de bares e regadas à cerveja. Consumir bebidas alcoólicas e
encontrar os amigos em botecos é quase que uma lei para os headbangers. Poucos são
aqueles que não bebem. Apenas duas de nossas entrevistas foram realizadas fora de um
bar. Uma porque o entrevistado, Paulo 42, não consumia bebidas alcoólicas. Apesar
disso, ele se prontificou a marcar em algum bar, se fosse o caso de facilitar as coisas.
Acabamos fazendo essa entrevista em um Shopping Center, pois além de ser um ponto
de encontro acessível, não iria constranger o entrevistado. A outra entrevista que
realizamos fora de um bar foi com a headbanger e corsetmaker Lucy. Apesar de
consumir bebidas alcoólicas, nossa entrevistada iria participar de um curso de
aperfeiçoamento de costura e modelagem logo após a entrevista e não poderia consumir
bebidas alcoólicas naquele momento, desta forma, escolhemos como ponto de encontro
uma lanchonete.
Cada uma de nossas entrevistas teve, pelo menos, uma hora e meia de duração.
Quando era o caso da entrevista ser realizada com duplas, esse tempo era bem superior.
A grande maioria delas se deu em um bar chamado Whiplash Bar – localizado no bairro
de Lagoa Nova, zona sul da cidade – que é o ponto de encontro dos headbangers de
Natal. Lá só são executadas músicas de Metal ou Rock’n Roll. Geralmente, o dono põe
pra rodar DVDs de bandas conhecidas pelo seu público, ou seleções aleatórias de clipes
42
Paulo é um de nossos entrevistados. Headbanger natalense, atualmente, atua como tecladista de uma
banda local, o Sunset Boulevard. Faz atuações em outras bandas locais menos conhecidas que trabalham
com covers também. Trabalha com edição de imagens.
89
de bandas de Metal. É um ambiente pequeno, todo decorado com fotos antigas dos
headbangers de Natal e pôsteres de bandas de Metal, onde a cerveja e os produtos
oferecidos no cardápio estão a um preço acessível. O proprietário do bar, Júnior, é
irmão de um dos fundadores da cena Heavy Metal de Natal, Luziano, que veio a falecer
há alguns anos em decorrência de uma leucemia. Luziano foi a primeira pessoa a
montar uma loja especializada na venda de material para os headbangers de Natal, no
ano de 1987, a Whiplash Discos Ltda (Imagem 03).
Cláudio Slayer, nos disponibilizou material para esta pesquisa, inclusive
elementos de um blog de autoria dele que, infelizmente, já foi desativado. Nesse blog
havia um pequeno texto produzido por ele sobre a saudosa Whiplash Discos, escrito
como uma homenagem ao seu fundador, Luziano. Achamos que é interessante
transcrever de forma literal aqui esse pequeno texto que retrata um pouco do que a
Whiplash Discos e seu fundador representaram para a cena local.
Luziano Augusto, proprietário da Whiplash Discos, costumava
receber os amigos em sua casa para trocar informações e materiais,
pois lá era ponto de encontro da galera metálica na década de 80. Já
comercializava em sua residência discos usados e novos, zines,
patches, posters, etc... Então, com o passar dos anos, resolveu em
1987 inaugurar a loja para oferecer melhores condições aos seus
clientes. Não imaginava ele que estaria criando um dos maiores
empreendimentos do rock pesado que o Nordeste já teve. O batalhador
Luziano dedicou toda sua vida ao rock, em especial ao heavy metal.
Sua loja virou ponto de encontro, lá tínhamos acesso a todos os
lançamentos nacionais e importados, além de obter informações do
que rolava na cena nacional através dos muitos contatos que o mesmo
sempre teve pelo Brasil. Mas quem pensa que suas atividades se
limitavam a loja, se engana. Editamos juntos o Fanzine Whiplash, de
88 a 91, ele organizou vários shows, inclusive trazendo bandas
expressivas como Hammerhead (SP), Vodu (SP) e Sex Trash (MG)
até Natal. Foi vocalista do Reator, e posteriormente, do Hammeron.
Sem contar que em 1990, realizou seu sonho de tornar a Whiplash
uma gravadora, a pioneira no nordeste. Neste ano faz seu primeiro
lançamento, a coletânea Whiplash Attack Vol. I com as bandas locais
Hammeron, Auschwitz, Croskill e Deadly Fate. Daí em diante
seguiram-se vários lp's e compactos de bandas de todo Brasil, como:
90
Nephastus (PB), Shock (PB), Gladiator (RS), Morpheus (PA),
Overthrash (SP), Mordeth (SP), Insanity (CE), Megahertz (PI), etc... A
Whiplash já havia se tornado referência e era respeitada em todo
território nacional. Em 1992, Luziano dava continuidade aos seus
projetos com seu empenho característico quando, para choque de
todos, descobre quase por acaso estar com leucemia. Nesta época,
trabalhei para ele na loja e infelizmente acompanhei de perto todo o
drama de sua doença. Viajou até Recife para se tratar, e lá faleceu
poucos meses depois. Natal perdeu aquele que sem dúvida alguma,
proporcionou ao metal natalense seus melhores dias. Seu irmão tentou
manter a loja em atividade, mas após alguns anos seu fechamento foi
inevitável. Além das boas lembranças, resta àqueles que conviveram
com Luziano, a saudade e o eterno respeito. (Cláudio Slayer)
Imagem 03: Foto na Whiplash Discos. Ano: 1992. Fonte: Arquivo pessoal do entrevistado
Cláudio Slayer.
91
A respeito do texto escrito por Cláudio Slayer que acabamos de apresentar,
podemos ressaltar algo interessante. Com a chegada do Heavy Metal em Natal, nos
primórdios da cena local, era costume dos headbangers reunirem-se na casa de alguém
para beber, escutar Heavy Metal, confraternizarem-se entre si e trocar material. Segundo
o texto acima, a casa do Luziano, antes da inauguração da Whiplash Discos, era um
ponto de encontro importante para os headbangers natalenses. Isso era muito comum
por não haver shows de Metal na época. Através de alguns entrevistados que
vivenciaram essa época pudemos saber dessas práticas. Os headbangers natalenses
denominavam essas reuniões de “sessions”. Além da ausência de shows de Metal na
cidade, outro fator que maximizava a importância das sessions era a dificuldade na
obtenção de materiais de consumo do Heavy Metal. Quando falamos aqui de materiais
de consumo, nos referimos às músicas, fanzines, patches e pôsteres que são
mencionados no texto do nosso colaborador Cláudio Slayer. O objeto de consumo mais
importante e desejado nesses encontros entre headbangers era a própria música. Era
difícil de adquirir os lançamentos que iam acontecendo no mundo do Metal e, além da
dificuldade na obtenção desse material, outro fator que dificultava o acesso dos
headbangers à música que era produzida na cena Heavy Metal mundial era o preço dos
LPs. Segundo um de nossos entrevistados, que frequentava essas sessions, Hervall,
geralmente os headbangers faziam acordos entre si. Cada um comprava um LP e
compartilhava com os demais, já que sairia muito dispendioso que cada headbanger
comprasse todos os LPs que desejava possuir. Os headbangers levavam fitas cassete
para gravar o conteúdo dos LPs que não possuíam, mas que um amigo havia comprado.
O principal objetivo dessas sessions era o compartilhamento da música. Sempre que
alguém fazia uma nova aquisição, compartilhava com os amigos. Como não havia
92
shows de Metal na cidade, os headbangers simulavam estar em um show, durante as
sessions, ouvindo Metal e batendo cabeça, como se estivessem em frente à própria
banda, em um show.
Nos anos 80, a gente fazia muito isso porque não tinha show... Não
tinha banda, não tinha show. A gente chamava de session. Então,
escolhia a casa de uma pessoa, um dos caras, “sábado a session vai ser
na casa de fulano”... Cada um levava cinco vinis, levava birita... e lá a
gente se comportava como se fosse um show, um palco imaginário,
todos batendo cabeça, como se fosse num show, porque não tinha
show. (Cláudio Slayer)
Atualmente, com a internet, o acesso às músicas assim como seu
compartilhamento foi muito facilitado. Para o nosso entrevistado, Hervall, isso fez com
que a união que havia entre os headbangers antigamente ruísse. Antes, pessoas se
reuniam com o objetivo comum de compartilhar música. Agora, cada um, em seu
respectivo computador, baixa sua própria música. Na verdade, a forma de sociabilidade
dos headbangers natalenses mudou. Eles continuam se encontrando, de fato, não do
jeito como acontecia no início da cena, porém, não há como valorar essa situação
positiva ou negativamente. Os headbangers apenas mudaram sua forma de socializar
acompanhando a evolução da tecnologia, assim como todas as pessoas. A internet ajuda
muito na obtenção de material. Nos dias de hoje, pode-se achar bandas de diversos
lugares do mundo em alguns minutos de busca pela rede. Muitas vezes, os fãs de Metal
acabam achando boas bandas por acaso, em buscas aleatórias e despropositadas. O
compartilhamento de música entre os headbangers ainda existe, só que não da mesma
forma que se dava nas sessions. Compartilhar a música nova a que se tem acesso ainda é
uma prática muito recorrente, essa prática só mudou de configuração com o advento da
93
internet. Quando falamos que a internet facilita a busca de material, nos referimos
principalmente à música, mas também não somente a ela. Os headbangers se utilizam
da internet como ferramenta de pesquisa não só de música. Falamos no ponto 1.2 desse
trabalho sobre uma das características dos fãs de Metal, que é pesquisar sobre as bandas.
A internet também facilita muito esse trabalho. Porém, pensar sobre a internet, não
somente em relação ao caso do Heavy Metal, mas como um todo, significa pensar na
“mão dupla” que essa ferramenta traz. Sobre essa questão da internet, outro de nossos
entrevistados, Ericksen, comentou que a facilidade de pesquisa sobre as bandas que
temos atualmente, também engendra headbangers mais preguiçosos em se engajar
nessas pesquisas infindáveis sobre as bandas, justamente pela facilidade trazida pela
internet. Quando não havia essa ferramenta de pesquisa, os fãs de Metal tinham um
trabalho muito maior em saber sobre as bandas que gostavam. Faziam isso através de
revistas, principalmente os fanzines, que são revistas de menor circulação e produção
independente. O acesso à internet também trouxe a comodidade e talvez um menor
engajamento nessa pesquisa. Porém, podemos dizer que isso é uma característica geral
de toda sociedade e uma discussão que envolve os estudos sobre a internet e as
modificações que ela trouxe no comportamento dos indivíduos e na relação destes com
a informação. Aprofundar-nos nessa questão não é nosso objetivo, mas achamos
importante pontuar esse fato, já que ele se configura em um fator importante na
evolução da cena Heavy Metal. Antes de deixarmos a internet de lado, é importante
falarmos sobre outra faceta importante dessa ferramenta no que diz respeito ao Heavy
Metal em Natal.
Uma grande fonte de observação do comportamento dos headbangers para essa
pesquisa, além da convivência, foi o exame de um grupo existente em uma rede social,
o Facebook, que reúne os fãs de Metal em Natal, denominado Natal Metal. É de suma
94
importância a existência desse grupo para o andamento da cena local. Lá são divulgados
de shows que ocorrerão, compartilhados vídeos de músicas que algum headbanger que
achou interessante compartilhar com os demais, são divulgadas novidades sobre o Metal
no mundo e também postagens recentes de pessoas que mantém blogs sobre a cena
local. Nesse ambiente, muitos headbangers interagem em longas discussões sobre as
mais diversas temáticas, sendo uma das mais polêmicas e que mais rendem postagens, a
religião.
Um fato importante a se observar também sobre os headbangers, de uma forma
geral, é que eles apreciam ter os CDs originais das bandas que admiram, mesmo tendo
acesso a esse material gratuitamente através da internet. Alguns, como o nosso
entrevistado Gerson, chegam a ter grandes coleções de CDs e DVDs, com a discografia
completa de diversas bandas. Como essa não é uma questão que depende somente da
vontade do headbanger, mas também de recursos financeiros, para compor uma coleção
de CDs, muitos não são capazes de ter os CDs originais, apesar de terem muita vontade.
Novas formas de sociabilidade foram criadas para suprir a necessidade dos
encontros face a face. Atualmente os headbangers podem se encontrar nos shows de
bandas locais, que são bem mais frequentes ou no Whiplash Bar, ponto de encontro dos
ouvintes de Metal, na cidade. Eles também se reúnem, por vezes, com os amigos em
suas casas para beber e ouvir Metal, no entanto, essas reuniões não chegam a ter o peso
e a importância simbólica que tinham anteriormente. E nem se dão pelos mesmos
motivos e da mesma forma que as chamadas sessions. Os shows de Metal, em Natal,
ocorrem, em sua maioria, em um bairro denominado Ribeira. As casas de shows onde se
concentram a maioria dos eventos relacionados ao Metal se localizam principalmente na
Rua Chile, uma das ruas do bairro histórico da Ribeira, situado na região central da
cidade.
95
Geralmente, antes de cada show, podemos ver os headbangers, em sua maioria
de preto, bebendo cerveja na entrada do espaço que irá abrigar o evento para o qual eles
vieram. Muitos, quando estão sem dinheiro ou quando não apreciam muito as bandas
que comporão o espetáculo, vão apenas para permanecer em frente ao local do show,
beber e conversar com os amigos.
Os shows na Ribeira costumam ocorrer a partir das 21hs, porém, o atraso do
início das apresentações já é algo esperado por todos. Os shows costumam ter fim por
volta das 03hs da madrugada. Muitos headbangers costumam esperar amanhecer em
frente ao local do show, ainda bebendo, pois dependem do transporte público para
voltar para suas casas. Alguns organizadores de shows da cidade já tentaram solucionar
esse transtorno realizando shows a partir das 17h, com término previsto entre as 22 e
23hs. No entanto, muitos reclamam desse horário por ser demasiado cedo e
impossibilitá-los de participar dos shows, em razão de seus empregos ou estudos. Beber
em frente aos shows, antes, durante ou depois destes, já é uma prática fixa e faz parte da
sociabilidade dos headbangers em Natal.
Uma característica importante de se ressaltar sobre os shows, não só de Natal,
pois se trata de um fato geral na cena Heavy Metal, é a crescente participação das
mulheres na cena. Todos os headbangers do sexo masculino que tivemos a
oportunidade de entrevistar, afirmaram estar achando um fator positivo esse
crescimento, pois antigamente as mulheres não costumavam frequentar os shows, eram
poucas as que compareciam nesses eventos. O Heavy Metal surgiu como uma música
mais voltada para o público masculino. Participar de shows de Metal era complicado, no
início, para as mulheres. As chances de ser confundida com uma groupie 43 eram bem
43
Groupie é uma palavra com origem na língua inglesa e serve para designar mulheres que frequentam
shows somente pelo interesse sexual nos músicos. As groupies costumam seguir os músicos pelos quais
desenvolvem interesse por todos os seus shows, usualmente vestem-se de forma provocante, posicionam-
96
significativas. Talvez por isso, muitas das headbangers mais antigas ou tradicionalistas
evitem se vestir de forma mais provocante, adotando, desta forma, um visual
considerado mais masculinizado.
Segundo os headbangers natalenses mais antigos que entrevistamos, a
participação feminina em shows era muito restrita. Isso era resultado também do
preconceito dos homens em geral. Na sua época de surgimento, o Heavy Metal era visto
como um estilo masculino, onde as mulheres não eram levadas a sério. Tratava-se de
um estilo machista. A participação intensa das groupies também comprometia a
imagem das mulheres que não compactuavam com as práticas destas e frequentavam os
shows pelo fato de realmente apreciarem a música, a princípio, sem interesse sexual nos
músicos. A imagem delas era comprometida, frente aos headbangers, no sentido de
muitas vezes as mulheres não terem sido levadas a sério como fãs de verdade do estilo.
Com o passar do tempo, o Metal foi se tornando mais acessível para as
mulheres, principalmente depois que passou o furor midiático que ele causou nos anos
80. Os headbangers puderam entender que existiam mulheres que realmente
apreciavam a música pesada. De uns tempos pra cá, a participação feminina vem
aumentando bastante, não só nos shows, mas também no Whiplash Bar, que já
mencionamos aqui como um ponto importante de encontro dos fãs de Metal na cidade.
E o mais interessante a ser mencionado sobre essas mudanças do imaginário
sobre as mulheres dentro do Heavy Metal é que, todos os nossos entrevistados homens
apoiaram bastante essa participação feminina e incitam as mulheres headbangers para
que elas se vistam de “forma feminina” e sensual, sem um visual masculinizado, como
as mulheres desse estilo preferiam adotar antigamente, para se distinguir das groupies.
se o mais perto possível do palco, para atrair a atenção dos músicos e tem um comportamento bastante
eufórico, em relação à banda.
97
Esse machismo irradiado pelo Heavy Metal, principalmente em seus primórdios,
era praticado tanto pelos homens, como pelas próprias mulheres, que repudiavam a
conduta das groupies e faziam de tudo para diferenciar-se delas. Isso acontecia tanto
pelo próprio machismo interiorizado nelas e neles, quanto para conseguir legitimidade
dentro do estilo. Indo aos shows locais e aos pontos de encontro dos headbangers
natalenses, pudemos observar que as mulheres estão deixando de ter essa preocupação
de se distinguir das chamadas groupies e estão se vestindo cada vez mais de uma
“forma mais feminina”. As camisas de banda em tamanhos grandes, que escondiam as
formas do corpo feminino, combinadas com calças largas, estão sendo deixadas de lado
em favor das saias (curtas ou longas), calças coladas, corsets e acessórios. As camisas
de banda ainda são muito utilizadas pelas mulheres headbangers, porém, estão sendo
adotadas em tamanhos menores, proporcionais ao corpo daquela que as usa.
O discurso dos headbangers homens, sobre as mulheres do Metal, mudou. Eles
costumam afirmar por todos os lugares que a sensualidade das headbangers não é
vulgar e chegam até a fazer comparações com outros estilos musicais marginalizados
por eles como, por exemplo, o funk. Podemos notar aqui que o Heavy Metal, enquanto
ética de grupo, tem seus conservadorismos e esse é um deles. As mulheres do Metal
usam decotes, saias curtas, botas, espartilhos, meias-calças,roupas em couro e vinil,
provocantes, logicamente, de uma forma diferenciada das mulheres do funk, que
também costumam utilizar roupas curtas e provocantes, pois há dissemelhanças visuais
notáveis entre a maneira de se vestir dos dois estilos. Por mais que as duas sejam
provocantes, são diferentes. Mas a sensualidade das headbangers é vista de uma
maneira positiva, pelos fãs de Metal, enquanto as funkeiras são vistas como vulgares.
98
Mencionamos anteriormente nesse trabalho, mais especificamente no primeiro
capítulo, que a cena Heavy Metal em Natal tem alguns aspectos bastante
idiossincráticos que a caracterizam como, por exemplo, o fato de ser uma cena fluida e
menos separatista, dado o seu tamanho restrito. A cena local é pequena, quando
comparada às cenas de grandes capitais do Brasil, ou do Mundo. Esse fato permite uma
maior fluidez desta em relação às demais. É comum em cidades maiores que os fãs de
Heavy Metal sejam mais fiéis a alguma determinada subdivisão do Metal, só escutem
esse subestilo, só frequentem os shows desse estilo e só interajam com pessoas que
partilham do mesmo gosto. Isso ocorre principalmente com aqueles que têm uma
preferência pelo chamado Metal extremo. Geralmente, os fãs de Metal extremo não
costumam frequentar shows de outros estilos que não o de sua preferência, seja o Black
Metal, o Death Metal, o Thrash Metal ou qualquer desses estilos que incorporam um
peso maior em sua musicalidade. O máximo que o apreciador de um desses subestilos
faz é frequentar shows que sejam de bandas de uma das subdivisões do Metal extremo,
que não a sua favorita. Podemos observar nessas práticas mais uma vez o que Deleuze
vai chamar de microfacismos. Já mencionamos os microfacismos, discutidos por
Deleuze, no primeiro capítulo desta dissertação e reafirmaremos que estes estão sempre
potencialmente presentes na micropolítica.
Falar desse tipo de microfacismo especificamente não nos interessa aqui, pois
mencionamos essas práticas justamente com o intuito de dizer que em Natal elas são
quase inexistentes, dada a fluidez da cena local. Por ser uma cena pequena e restrita, os
headbangers acabam frequentando shows dos mais diversos subestilos dentro do Heavy
Metal, até mesmo daqueles que não gosta. Na entrevista com Gerson e Wolfera, os dois
comentaram um pouco sobre esse assunto em específico. Não que esse assunto estivesse
no meu roteiro, mas, simplesmente, surgiu no decorrer da conversa. Os dois
99
entrevistados falaram que em Natal um músico não pode ser pedante ao ponto de dizer
que tem fãs, pois a cena natalense é quase como uma comunidade de irmãos, onde os
amigos, por vezes nem tendo preferência pelo estilo da banda que irá se apresentar, vão
prestigiá-la, em nome da amizade e da comunidade que é a cena local, onde uma banda
dá suporte a outra. É importante ressaltar que, apesar do fato de os headbangers
frequentarem os shows que ocorrem na cidade independentemente do subestilo de Metal
a ser executado, até mesmo como uma forma de apoiar a cena local e suas bandas, isso
não significa que esses microfacismos existentes entre os subestilos não continuem
existindo, de forma mais suave, entre os headbangers de Natal. Mesmo frequentando
shows de subestilos dos quais eles não gostam, os headbangers continuam tendo
restrições a estes e manifestando seus rancores a determinados subestilos através de
piadas, por exemplo. A rixa entre subestilos não deixa de existir, ela só se torna mais
suave pelo fato de os headbangers natalenses acabarem frequentando shows
independentemente do estilo a ser executado no mesmo.
Falamos anteriormente que os shows de Metal em Natal se concentram na
Ribeira e que, além dos shows, os headbangers costumam frequentar o Whipash Bar,
para seus encontros e conversas face a face. Vale lembrar que existem bares e pubs na
cidade, voltados para um público de maior poder aquisitivo, onde a consumação tem um
valor mais alto, que são conhecidos por tocar Metal. Podemos citar como exemplos o
Gringo’s Bar e o Whiskritório Pub, localizados em Ponta Negra e Capim Macio,
respectivamente, bairros da zona sul da cidade. Esses lugares são conhecidos por tocar
Metal tanto no som ambiente, quanto em apresentações de bandas ao vivo. Acontece
que, no geral, esses locais não são frequentados pelo público headbanger. Isso se deve
ao fato de que uma grande parcela do público frequentador é formada pelo que os
headbangers chamam de playboys. No geral, os chamados playboys são pessoas que
100
têm um poder aquisitivo um pouco maior, sem muitas restrições musicais, a maioria não
presta muita atenção no que está tocando como som ambiente e frequenta esses locais
para beber e encontrar com os amigos, pois são ambientes que fornecem uma
infraestrutura razoável e contam com uma boa reputação na cidade, são os points de
Natal.
Alguns headbangers são inflexíveis quanto a esses lugares e não os frequentam
por não quererem estar no mesmo ambiente dos playboys. Acham o ambiente muito
elitizado e o tratam com certo desdém. Outros headbangers são mais flexíveis quanto a
isso, frequentam esses lugares e gostam deles, mesmo não abrindo mão de ir ao
Whiplash ou aos shows na Ribeira. O décimo quarto aniversário da loja especializada
em Heavy Metal mais conceituada de Natal, a Records, foi no Whiskritório Pub,
contando com a presença de algumas das bandas locais mais conceituadas, como
Deadly Fate, Expose Your Hate e Comando Etílico, contou ainda com a presença do
Black Sabbath cover, banda formada por alguns músicos conceituados na cena local.
Nessa ocasião especial, pude ver a presença de muitos headbangers que não costumam
frequentar o local, aliás, no espaço destinado a apresentação das bandas, só se via
pessoas de preto.
***
Para finalizar o nosso trabalho, resolvemos trazer os perfis um pouco mais
completos de alguns dos headbangers que entrevistamos. Focaremos a construção
desses perfis principalmente na história de como se deu o primeiro contato desses fãs de
101
Metal com a música pesada e como a relação deles com o Metal foi se construindo.
Escolhemos cinco headbangers que aparecem bastante nesse trabalho, para falar um
pouco mais sobre a relação deles com o Metal: Cláudio Slayer, Marcelo, Gerson,
Wolfera e Hervall. Nosso critério de escolha dos perfis foi dar preferência aos
entrevistados que atuam como músicos.
 Cláudio Slayer
Imagem 04: Cláudio Slayer. Fonte: Arquivo pessoal de
Cláudio Slayer.
Cláudio Slayer é um dos headbangers mais conhecidos em Natal. Atualmente, é
baixista da banda Expose Your Hate, uma das mais conceituadas da cidade 44. Começou
a escutar Metal quando criança e continua até hoje, aos 40 anos de idade. O músico
44
Biografia do Expose Your Hate disponível nos anexos deste trabalho.
102
também atua como baixista no Black Sabbath cover e colabora tocando em eventos
como o Metal Jam United, que vem ocorrendo anualmente e só é possível graças à
colaboração dos músicos que se dispõe a tocar apenas por diversão. Nesse evento, são
executados covers de bandas já imortalizadas no Heavy Metal mundial. A proposta do
evento é colocar os músicos que resolvem colaborar tocando as músicas que eles
escolhem, formando assim, agrupamentos de músicos que só irão atuar como banda no
dia do evento. Esse tipo de dinâmica caracteriza o show como uma Jam.
Além de atuar como músico, Cláudio Slayer é professor de educação artística e,
como já mencionamos anteriormente em nosso texto, vai trabalhar vestindo camisas de
bandas, pois não se desvincula nunca do visual. Além das camisas de suas bandas
favoritas, ajudam a compor o visual suas inúmeras tatuagens (Imagem 04). O
headbanger imprime sua subjetividade no corpo, como nos propõe Le Breton, através
desses elementos.
O normal, pra mim, é estar com camisa de banda. Eu só estou sem
camisa de banda quando faço uma concessão. (Cláudio Slayer)
Falaremos agora sobre como ele começou a escutar Heavy Metal. Para tanto, nos
utilizaremos de um trecho da entrevista realizada com o headbanger. Ao ser
questionado sobre o seu primeiro contato com a música pesada, ele nos respondeu:
Eu comecei, eu era criança ainda. A primeira magia que aconteceu foi
em dezembro de 1983, tinha 11 anos, quando o Kiss veio ao Brasil
pela primeira vez. Me impressionou muito, aí eu pedi um disco do
Kiss de presente. Em 1984, eu tinha um primo mais velho, que é da
103
primeira leva das pessoas que começaram a ouvir Heavy Metal em
Natal. Eu frequentava a casa dele e ele me mostrou uns discos e eu
comprei um disco do Iron Maiden, então foi a partir daí que eu me
envolvi de cabeça mesmo e, como eu era muito novo, tinha 13 anos
isso me pegou num momento que formou minha personalidade, meu
caráter, acabei me formando dentro do Metal, junto com o Metal. Em
85, eu já era headbanger mesmo, comprava material, saia pra shows,
fazia fanzines. Aí foi... tô nesse negócio até hoje, não consigo me
desprender. Quem sou eu sem o Metal? (Cláudio Slayer)
Após sabermos, em nossa entrevista, como se deu o primeiro encontro de
Cláudio Slayer com o Heavy Metal, perguntamos ao headbanger o porquê de ele
continuar ouvindo Metal e colaborando com a cena, desde a década de 80 até os dias de
hoje. O que fez com que ele se apaixonasse pelo Heavy Metal e mantivesse um
casamento tão bem sucedido durante esses quase 20 anos. Como resposta a esses
questionamentos Cláudio Slayer comentou que entende o fato de muitas das pessoas
que começaram a ouvir Metal na década de 80 terem desistido desse estilo, pois, nessa
época, houve uma explosão midiática do Heavy Metal em todo o mundo, tratava-se do
surgimento desse tipo de música e muitas pessoas começaram a escutar para testar,
depois, resolveram que não se identificavam e deixaram de ouvir a música pesada.
Cláudio Slayer respondeu o porquê de ter continuado escutando Metal da seguinte
forma:
Me identifiquei primeiro com a música e com a estética, começa com
a rebeldia típica de adolescente e depois você vê que é identificação.
Porque os mesmos aspectos também fascinam você na literatura, que
não tem nada a ver com o Heavy Metal... também vão fascinar você
em outros ramos da vida que, se você for ver, tem uma coisa similar.
É algo que faz você se sentir bem, que faz você produzir, que faz você
crescer... No caso da gente [a entrevista foi realizada em conjunto com
o Marcelo], fez a gente virar músicos. O Metal que me fez abrir minha
mente pra certas coisas também. Como eu falei, o Metal é um
universo muito vasto, então você aprende a lidar com coisas que, se eu
104
estivesse em outro meio, eu não teria muito contato, né? Até história,
culturas diferentes... (Cláudio Slayer)
Para o nosso entrevistado, o fato de ele ter continuado a escutar Metal por tanto
tempo tem a ver com uma questão de identificação com aquilo que o Heavy Metal
passa. Inicialmente, ele afirma ter achado interessante a sonoridade e a estética e que
isso talvez tivesse relação com alguma rebeldia adolescente. Porém, segundo ele, esse
contato inicial passou de algo superficial para uma questão de identificação com os
ideais dele. Uma via de mão dupla, onde ele é formado pelo Heavy Metal e, ao mesmo
tempo, identifica no Metal aspectos que estão de acordo com sua visão de mundo. As
coisas que chamaram a atenção do headbanger no Heavy Metal são as mesmas que
chamam sua atenção na literatura e em diversos outros aspectos.
A estética e a
sonoridade continuam chamando sua atenção até hoje, mas, a partir de um contato
inicial superficial com tudo isso, foi construída uma forte relação com esses elementos e
todo um conjunto de práticas, que compõe o seu caráter até os dias de hoje.
Outra etapa dessa entrevista que queremos trazer aqui, tem relação com o porquê
de Cláudio Slayer ter se tornado músico. Obtivemos, de seu arquivo pessoal, uma foto
de 1985, onde ele toca uma guitarra de isopor, feita por ele mesmo. A foto está
publicada no Facebook do nosso entrevistado e resolvemos incluir essa foto em nosso
trabalho com a mesma legenda que o headbanger colocou em sua página na rede social
em questão. Cláudio Slayer nos respondeu sobre os motivos que o levaram a se tornar
músico de forma bem direta. Abaixo, transcrevemos sua resposta e ainda algo que ele
acrescentou a sua fala que também tem relação com a temática que abordamos nesse
parágrafo.
105
Eu comecei a tocar porque eu queria ter uma banda de Metal, só por
isso. Eu queria ser igual aos meus ídolos. Eu nunca quis ser músico
até eu começar a escutar Metal. (Cláudio Slayer)
Nunca pensei em viver do Metal não. Tanto que eu estudei, fiz
concurso, pra viver de outra coisa. Minha relação com a música, como
músico, dentro do Metal, não foi para que o Metal me desse emprego.
Se acontecer, massa, mas não era a minha intenção. (Cláudio Slayer)
Imagem 05: “Outubro de 1985 - 13 anos, Guitarra de isopor, camisa do Iron
Maiden pintada à mão, peruca e correntes. Começou assim e acabou dando no que
deu hoje...rsrsrs...e a coitada da minha mãe falava que era uma fase...hehehe”.
(Cláudio Slayer) Fonte: Arquivo pessoal de Cláudio Slayer.
Imagem 06: Quarto de Cláudio Slayer. Fonte: Arquivo pessoal de Cláudio Slayer.
106
Com orgulho, o músico disponibiliza fotos de seus baixos em sua página no facebook:
Imagem 07: Os três baixos que compõe o “arsenal” musical de
Cláudio Slayer. Fonte: Arquivo pessoal de Cláudio Slayer.
Podemos notar que Cláudio Slayer, desenvolveu um interesse em se tornar
músico, a partir do seu contato com o Metal, para ser igual aos seus ídolos. Ele queria
ter uma banda de Heavy Metal. Porém, de uma maneira peculiar, esse interesse surgiu
desvinculado de qualquer iniciativa profissional. Como o headbanger afirma, ele nunca
pensou em ter um emprego que viesse através do Metal. Apesar de ser um excelente
baixista, considerado um dos melhores de Natal, ele não é músico profissional, não
levou a música, ou mais especificamente, o Heavy Metal para o lado profissional. Ele
trabalha como arte-educador e tem na música a sua segunda atividade, que não chega a
ser lucrativa, porém é levada a sério da mesma forma que um emprego.
107
O headbanger se declara ateu e afirma não gostar de Glam Metal 45, nem de
Metal Melódico. Quando o questionamos sobre quais seriam suas bandas favoritas, ele
respondeu que, as que mais o influenciaram em sua formação foram: Black Sabbath,
Napalm Death e Slayer. Essas bandas, ele considera como sendo clássicas e também
suas favoritas. Porém, o headbanger afirma que não ouve as mesmas bandas o tempo
inteiro. Ouve bandas antigas e também dá espaço para conhecer bandas mais novas. Ele
varia o repertório que ouve de tempos em tempos, dependendo do seu estado de
espírito.
 Marcelo
Imagem 08: Marcelo. Fonte: Arquivo pessoal de Marcelo.
45
Derivação do Heavy Metal, em que os músicos das bandas desse gênero costumavam ter aparência
andrógina, usar maquiagem feminina e compor o visual com peças bastante coloridas, brilhantes e
chamativas. Esse estilo teve seu auge entre as décadas de 80 e 90.
108
Marcelo é um headbanger nascido no Pará, porém reside em Natal há vários
anos. Ele tem 34 anos, atua como baterista na banda Expose Your Hate e é, portanto,
companheiro de banda e amigo de Cláudio Slayer. A entrevista dos dois headbangers e
amigos foi realizada em conjunto. O plano inicial era nos encontramos no Whiplash
Bar, porém, este estava fechado por alguma questão pessoal do proprietário. Por esse
motivo, tivemos que procurar algum outro bar nas redondezas para a realização de nossa
entrevista.
Além do Expose Your Hate, Marcelo também é baterista do Sanctifier 46, outra
banda de Death Metal da cena local, e do Sex’n Roll, uma banda que executa covers de
músicas que ficaram famosas no Rock’n Roll dos anos 80. O Foco principal do Sex’n
Roll é tocar em Pubs, trata-se de uma banda formada única e exclusivamente para tocar
na noite. Marcelo vê sua atividade no Sex’n Roll enquanto um emprego, pois as músicas
executadas pela banda não são o estilo favorito do músico e trata-se de uma banda
puramente comercial, que objetiva o lucro.
Além de sua atividade no Sex’n Roll, Marcelo atualmente trabalha na loja
Records, a única loja física especializada em material sobre Heavy Metal existente em
Natal, pois, como já mencionamos anteriormente nesse trabalho, existe também a Dying
Music, que funciona como loja virtual. Na imagem abaixo, podemos visualizar Marcelo
e Adriano Dio, que é o proprietário da Records, trabalhando na catalogação das
mercadorias.
46
A biografia do Sanctifier também consta nos anexos.
109
Imagem 09: Marcelo e Adriano Dio na loja Records. Fonte: Arquivo
pessoal de Marcelo.
Marcelo também teve seu primeiro contato com o Metal quando criança e nos
relatou um pouco dessa história durante a entrevista. Assim como no caso de Cláudio
Slayer, foi um encontro com a música que foi se construindo em algumas fases. Outra
coincidência interessante, no caso dos dois heabangers, que conheceram o Metal em
locais diferentes, pois Marcelo ainda residia no estado do Pará e Cláudio Slayer em
Natal, foi que o primeiro contato de ambos se deu a partir de grandes eventos de Rock
ocorridos no Brasil. No caso de Cláudio Slayer, foi a primeira vinda da banda Kiss ao
Brasil. No caso de Marcelo, foi o Rock in Rio de 1985. Abaixo, nas palavras do próprio
entrevistado, poderemos ver como foi a história de seu encontro com a música pesada.
110
Na verdade, o que influenciou mesmo foi o Rock in Rio, que foi em
85 e, até então, eu tinha 6 anos. Eu nem escutava música, só que, eu
não sei, foi um evento muito grande realmente, que passou em todas
as TVs do Brasil, né? E, quer queira ou não, como foi um evento de
grande porte, movimentou muita gente... Eu era moleque, ia pra frente
da TV e foi quando... tipo assim... parece que foi o primeiro som que
entrou mesmo. Daí passou, né? Eu fiquei com aquilo na cabeça. Meu
pai dava umas moedas pra minha irmã e, automaticamente, me dava.
Eu me lembro bem que, eu tinha um trocado, não sabia o que fazer,
não sabia o que comprar. Minha irmã foi numa loja de discos e tinha
um vinil lá, do Iron Maiden... daí eu nem lembrava que aquela banda
tinha tocado no Rock in Rio... eu vi a cara lá do monstro 47 e resolvi
comprar. Quando eu cheguei em casa, comecei a escutar e aquilo
começou a “desenrolar”. No ano seguinte, eu entrei numa escola de
música, foi quando eu comecei a aprender. E daí, eu fui pegando
outros discos. O segundo disco que eu peguei foi o Beneath the
Remais, do Sepultura. 48 Lembro bem, na época que eu peguei, eu não
entendia nada... Não conseguia entender nada do que os caras faziam,
mas aí eu fui pegando outros discos emprestados com amigos:
Accept 49, Ratos de Porão 50, a coleção do Iron Maiden também, daí foi
“desenrolando”. [...] Mas, até então, eu não vivia exatamente no meio,
ficava em casa escutando. Eu fui no primeiro show quando eu tinha 13
anos, aí foi quando eu comecei a frequentar mesmo e, quer queira ou
não, é quando você começa a interagir com o grupo de diversas
formas. Você acaba ouvindo mais, trocando material, começa a ler as
letras mesmo, começa a raciocinar em cima da ideologia e, quando
você vê, você já tá vivendo, respirando aquilo. (Marcelo)
Podemos perceber também que há outra coincidência nos dois relatos, de
Marcelo e Cláudio Slayer. Os dois entrevistados afirmam que só se tornaram
headbangers de fato no momento em que eles começaram a frequentar shows e interagir
de forma mais direta com os outros fãs de Metal. Os dois começaram a ouvir música
pesada na infância, a partir de um grande evento ocorrido no Brasil, depois continuaram
ouvindo Metal em casa, mas afirmam terem se tornado headbangers realmente depois
de irem a shows de Metal. A partir desses dados, podemos deduzir até agora que o
47
Todas as capas de CD do Iron Maiden incluem o mascote da banda, Eddie, que é um monstro.
Sepultura é uma banda de Death Metal Brasileira.
49
Accept é uma banda de Heavy Metal tradicional alemã.
50
Ratos de Porão é uma banda brasileira com influências do punk.
48
111
“tornar-se headbanger” é composto de três fases: o primeiro contato do sujeito com a
música, seguido de uma fase onde se ouve Metal sozinho em casa e, só depois, passa-se
a frequentar os shows, fase esta que nossos entrevistados consideraram como sendo o
“tornar-se headbanger de fato”. Isto só nos mostra, mais uma vez, como as práticas de
si só se realizam na esfera grupal. De acordo com os relatos dos nossos entrevistados,
ter o hábito de só ouvir Metal sozinho em casa é uma coisa, passar a ir aos shows e
interagir com o grupo de fãs é outra coisa. Eles só se consideraram headbangers de fato
quando passaram a interagir com o grupo. Desta forma, vemos que é a partir do contato
com o grupo e, consequentemente com o underground, que os hábitos ligados à ascese
headbanger são incorporados. Destacando o último trecho da fala de Marcelo, que
exemplifica o que acabamos de expor: “Eu fui no primeiro show quando eu tinha 13
anos, aí foi quando eu comecei a frequentar mesmo e, quer queira ou não, é quando
você começa a interagir com o grupo de diversas formas. Você acaba ouvindo mais,
trocando material, começa a ler as letras mesmo, começa a raciocinar em cima da
ideologia e, quando você vê, você já tá vivendo, respirando aquilo.” (Marcelo)
Agora, passaremos a questão de como Marcelo se tornou músico. Quando o
entrevistado fala acerca de seu primeiro contato com o Metal, ele menciona o fato de ter
entrado para uma escola de música, ainda criança. Porém, queremos saber como
Marcelo começou a tocar, especificamente, o Heavy Metal. Mais uma vez, iremos
transcrever abaixo, nas palavras do entrevistado, a história de como ele se tornou
músico.
Na verdade, na escola de música clássica eu estudava instrumento de
percussão e flauta transversal e doce, mas, à medida que a coisa foi
ganhando força, fui comprando mais discos de Rock, de Metal, aí teve
uma época que eu parei de estudar percussão e flauta e comecei a
aplicar em bateria. Mas é lógico que, como houve uma diferença
muito grande de instrumentos, eu tive que recomeçar a tocar. Essa
parte instrumental foi uma opção mesmo, tipo... “Não, eu quero
112
mesmo aprender a tocar isso!” Tentei aprender a tocar guitarra, mas
não me identifiquei muito, gostava mesmo de bateria... e foi quando
isso começou a fazer parte realmente do meu dia a dia... Enfim, fui
tocando, daí, quando ouvia um disco antigamente, eu tinha a música
de uma maneira geral e, a partir daí, eu passei a ouvir a música de uma
maneira mais centrada na bateria. [...] Eu, no início, pensava em tocar,
mas não pensava muito em banda não... e, assim mesmo, quando veio
a ideia de banda, tipo assim, veio: “Ah, banda, deve ser uma reunião
só... pra galera brincar ali...” Mas com o tempo que a coisa foi
ganhando força e ficando: “Não, banda é outra coisa!” No início eu
não queria ser “rock-estrela” não, só queria tocar. (Marcelo)
Marcelo começou aprendendo música erudita, em uma escola de música,
tocando percussão e flauta. Depois de um tempo, sentiu necessidade de tocar outro
instrumento que acabou o satisfazendo melhor enquanto músico, a bateria. Depois de
começar a tocar bateria, ele pôde se encaixar melhor no estilo musical que realmente o
interessava, o Metal. Não que ele não pudesse tocar Metal usando flauta, ou algum
instrumento de percussão. Existem subestilos do Heavy Metal, como o Folk Metal ou o
Symphonic Metal, por exemplo, em que são utilizados vários instrumentos mais ligados
à música erudita, que são escolhidos dependendo da sonoridade que a banda quer
produzir. Porém, Marcelo diz se identificar mais com o Grind, com o Black e o Death
Metal, que fazem parte do chamado Metal extremo. Dentro desses subestilos, a
instrumentação utilizada é a básica na formação do Heavy Metal: Uma ou duas
guitarras, baixo e bateria. Talvez por isso o músico tenha escolhido tocar bateria, para
poder executar músicas no seu estilo favorito.
Tornar-se músico de Heavy Metal, para Marcelo, modificou também os hábitos
dele ao escutar canções. Ele passou a incorporar uma ascese que, além de fazê-lo
ensaiar, como todo músico, o fez mudar seus hábitos ao escutar música, como ele
mesmo fala. Passou a ouvir as músicas centrando-se na bateria, para aprender novas
técnicas e aperfeiçoar-se. É notável o seu contentamento ao tocar bateria nos palcos.
113
Como bandas favoritas, Marcelo citou: Behemoth, Dark Funeral, Belphegor e Nile. E
ainda complementou: “Eu posso escutar os discos delas cem vezes ao dia e não enjoo!”
(Marcelo) Assim como Cláudio Slayer, ele afirma variar as bandas que ouve de tempos
em tempos, dando lugar a bandas antigas e novas em seu repertório de músicas, mas
essas que foram citadas são as que o headbanger está sempre ouvindo.
Sobre o visual, Marcelo afirmou ser “um pouco mais louco” nesse ponto, pois
nos relatou que tudo o que ele tem é preto: Camisas, cuecas, sapatos, meias, etc. As
camisas, para Marcelo, também são preferencialmente de bandas. Outro elemento que
se destaca em seu visual, assim como no de Cláudio Slayer, são suas inúmeras tatuagens
espalhadas pelo corpo inteiro e que configuram esse corpo em seu acessório, onde o
headbanger imprime sua subjetividade em forma de tatuagens e roupas pretas. Em sua
página de Facebook, Marcelo mantém um álbum de fotos específico para mostrar suas
tatuagens e sempre participa de convenções da área. Ao contrário de Cláudio Slayer,
que possui tatuagens Black and Gray e coloridas, Marcelo deu preferência a padronizar
todas as suas tatuagens no estilo Black and Gray, que, como diz o nome, é composto
por trabalhos somente em preto e cinza, chamado, por alguns, de sombreado.
Imagem 10: Nessa imagem, podemos ter uma visão geral das tatuagens de
Marcelo, todas em Black’n Gray. Além dessas que aparecem na foto, o
headbanger possui tatuagens nos dois braços e nas duas pernas, tendo seu corpo
quase todo tatuado. Fonte: Arquivo pessoal de Marcelo.
114
 Gerson
Imagem 11: Gerson. Fonte: Arquivo
pessoal de Gerson. (Foto por Karen
Pedregal.)
Gerson, headbanger de 36 anos, nascido em São Paulo, reside em Natal há
bastante tempo e é vocalista da banda natalense Primordium. Atua como Policial Militar
e fez pedagogia. Apesar de ser integrante de uma banda de Death Metal, afirma que sua
permanência no Metal por todos esses anos que escuta, se deve ao fato de ele ser
bastante eclético dentro do Heavy Metal, não se restringindo a escutar somente um ou
outro determinado subestilo.
Quando questionamos sobre o seu primeiro encontro com a música pesada,
Gerson nos respondeu:
115
Eu sempre gostei de Rock, mas minha experiência com o Metal
mesmo se deu em 1990, com o lançamento do vinil do Rock in Rio.
[...] Tinha duas bandas ali que marcaram. Uma música do lado A do
vinil, que se chamava Painkiller. Daí quando eu ouvi, cara, que
monstruosidade, como é que o cara toca isso? E do outro lado do vinil,
tinha uma música chamada Holy Wars, do Megadeth. O primeiro
contato que eu tive com o Metal, foi com essas duas bandas... e eu fico
feliz porque[...] ver o Megadeth tocar o Rust in Peace ao vivo e ver o
Judas tocar Painkiller ao vivo foi uma experiência única. [...] Eu
nunca imaginei que curtiria Death Metal na minha vida, eu detestava
Death Metal. Mas uma banda fez eu mudar minha concepção, foi o
Carcass, com um álbum chamado Heartwork. Esse álbum me dez
mudar [...] isso em 1995... em 1999, eu fui pra um show do Krisiun,
em Natal... Krisium e Expose, lembro disso como se fosse hoje... eu
disse: Cara, ainda vou tocar nesse palco! Não tinha nem ideia ainda de
montar uma banda. (Gerson)
No caso de Gerson, o primeiro contato se deu a partir do encontro dele com o
vinil do Rock in Rio, em 1990. Um detalhe interessante é que todos os headbangers
entrevistados até agora se lembram com detalhes de como se deram suas primeiras
experiências com o Metal, quais foram as primeiras bandas, ou as primeiras músicas
que fizeram com que eles adentrassem para este universo. No caso específico de
Gerson, ele afirma ter sido uma grande realização poder assistir o show ao vivo das
bandas que fizeram com que ele começasse a escutar Metal: Megadeth e Judas Priest.
Gerson é uma figura interessante do Metal natalense, pois ele é um dos headbangers
que mais preza por colecionar itens relacionados às músicas que ouve. Como já
mencionamos anteriormente, Gerson tem uma coleção expressiva de CDs e DVDs
originais, de bandas de Metal. Questionamos o entrevistado sobre um número
aproximado dos itens de sua coleção e ele nos respondeu:
Tenho uma coleção pequena e modesta, acho que próximo aos 700
CDs, 75 DVDs, 155 demos (formato CD-r e fita K7) e pouco mais de
12 blu-rays. Todos os itens originais e que ralei pacas para comprar.
116
Cada qual com uma história... rsrs Existe um rack feito
especificamente por encomenda para guardar o material. Nele ainda
existem prateleiras em que tenho um Home Theater, TV Led, Blu-ray
e o meu som. O melhor canto do mundo para mim. Nele existe uma
história criada por muitos anos. Tanto que tenho muito carinho pelo
meu quarto... (risos) (Gerson)
A pedido meu, o headbanger fotografou o rack que se configura em um lugar
especial que representa a história de suas aquisições de Heavy Metal que formam uma
coleção pela qual ele tem muito carinho e que, segundo ele mesmo, foi bastante
trabalhosa de montar:
Imagem 12: Vista frontal do Rack.
Fonte: Arquivo pessoal de Gerson.
Imagem 13: Um dos
compartimentos aberto, mostrando
parte da coleção. Fonte: Arquivo
pessoal de Gerson.
117
Imagem 14: O outro
compartimento aberto,
mostrando o restante que
compõe a coleção de Gerson.
Fonte: Arquivo pessoal de
Gerson.
Questionamos ao Gerson porque ele começou a cantar. O vocalista do Primordium
afirmou que “uma banda é a materialização do sonho de qualquer cara que curte som” e
nos contou resumidamente como ele se tornou vocalista de Metal.
Meu desejo era ser baixista, mas, por ironia do destino, em 96 eu
comecei a estudar canto gregoriano... gostei. Fiquei até 2000, que foi
quando eu saí do coral de canto gregoriano para cantar numa banda de
Death Metal... tudo a ver! O escroto é que, uma coisa que eu levo do
gregoriano pro Metal é que, quando você canta em coral, você usa o
diafragma e eu canto Death Metal usando o diafragma. (Gerson)
As bandas que Gerson citou como sendo suas favoritas são: Mercyful Fate, King
Diamond, Judas Priest, Iron Maiden, Kreator, Megadeth, Morbid Angel, Nile,
118
Amorphis e Rotting Christ. Podemos perceber que, como Gerson nos relatou, seu gosto
dentro do Metal é bem diversificado, pois, dentre suas favoritas, ele nos cita bandas de
Heavy Metal tradicional, Thrash Metal, Death Metal e Black Metal. Além disso,
sabemos que sua coleção de CDs e DVDs é composta pelos mais variados subestilos do
Metal.
Sobre o visual, Gerson costuma usar camisa preta e calça ou bermuda no dia a
dia, preferencialmente camisas de banda. Nos shows ele comentou que costuma incluir
mais alguns itens. Ainda sobre a questão do visual, o entrevistado afirma não ligar
muito pra isso, porém acha que o visual headbanger é essencial nas mulheres, podendo
ser um pouco deixado de lado pelos homens, no sentido de que os homens não devem
levar tão a sério a questão do visual, usando somente o básico e não se preocupando,
por exemplo, em deixar o cabelo crescer somente pelo fato de ser headbanger. No que
se refere à religião, Gerson afirma estar entre o agnosticismo e o ateísmo.
 Wolfera
Imagem 15: Wolfera. Fonte:
Arquivo pessoal de Wolfera.
119
Wolfera é o apelido do heabanger sul-mato-grossense chamado Kleyber.
Wolfera tem 25 anos e também reside em Natal há bastante tempo. Atuava como
baixista do Primordium até o início de 2013. Quando realizamos a entrevista, o
headbanger ainda era encarregado do baixo na banda Primordium e sua entrevista foi
realizada no Whiplash Bar, em conjunto com o vocalista da referida banda, Gerson.
Ele também nos relatou sua história de encontro com o Heavy Metal, que
transcreveremos aqui, de forma literal, assim como as anteriores:
Eu tinha 8 anos de idade, mais ou menos, minha irmã mais velha tinha
uma coleção de uns 40 vinis de música erudita... eu ficava escutando
aquilo ali... pirralho, brincando, enquanto ela tava estudando alguma
coisa. Daí, o namorado dela levou um CD do Angra, o Angels Cry. Se
eu falar que foi outra coisa, não foi, foi Angra...51 os caras fazem
aquelas coisas que lembram música erudita. Os solos lembram aquelas
coisas de violino, mais Paganini da vida. Daí ele me mostrou o
Theatre of Fate, do Viper, daí quando eu escutei, o bicho até leva um
pedacinho de alguma coisa... leva Moonlight Sonata na introdução e
tal, tinha o Allegro inacabado... Daí eu falei: Cara, esse é o som que eu
quero pra mim! Quando eu via os motoqueiros, os shows de Metal, eu
achava bonito... Daí, quando eu escutei, aí pronto! Fui conhecendo
mais bandas, banda mais pesada, foi o Kreator e Slayer... aí eu: Porra!
Isso é bem melhor! Aí quando eu escutei Canibal Corpse, eu falei:
Não, é isso que eu quero pra mim! Quando eu conheci o Death Metal,
aí pronto! Passei boa parte da minha vida, até agora, escutando Death
Metal. (Wolfera)
O interesse inicial de Wolfera pelo Heavy Metal se deu por influência do seu
contato anterior com a música erudita. Muitas pessoas especulam sobre a relação
estreita existente entre o Metal e a chamada música erudita, pelo fato de as duas músicas
51
Wolfera aprecia mais os estilos ligados ao Metal extremo, principalmente o Death Metal e o Grind.
Angra é uma banda brasileira famosa por tocar Metal Melódico que, muitas vezes, é rechaçado por fãs do
Metal mais extremo. Por esta razão Wolfera fala que começou a ouvir Metal a partir do Angra desta
forma: “Daí, o namorado dela levou um CD do Angra, o Angels Cry. Se eu falar que foi outra coisa, não
foi, foi Angra...”, querendo dizer com isso, que sua iniciação no meio do Metal não foi com bandas que
ele considera boas, hoje em dia.
120
serem bastante trabalhadas e também por serem preferência de certo tipo de elite
cultural. Os apreciadores de música erudita, assim como os de Heavy Metal, consideram
seu gosto musical como sendo superior. Talvez, essa similaridade se dê pela qualidade e
complexidade musical desses dois mundos. Vários headbangers que entrevistamos são
apreciadores também da música erudita. Wolfera afirmou, na entrevista, já ter tentado
sair com outra “galera” que não fosse a do Metal, porém, que só consegue se sentir à
vontade em meio aos headbangers pelo fato de que, segundo ele, o nível cultural de
quem ouve outros tipos de música mais populares em Natal, como forró, axé, etc. é
inferior. Ele afirma não conseguir manter uma conversação que ele considere de
conteúdo com pessoas dessas outras “galeras”.
Falando sobre suas preferências dentro do Heavy Metal, Wolfera nos diz que
aprecia o que é mais “tecnicamente trabalhado”, como o Technical Death Metal. Suas
bandas favoritas são: Necrophagist, Decaptated , Beneath the Massacre e Death. Ao ser
questionado sobre como começou a tocar baixo, ele nos respondeu que, na verdade,
queria ser guitarrista, por gostar muito dos solos de guitarra, porém, só se encaixou no
baixo. Ele aprendeu a tocar a partir do som que ouvia e o baixo foi o que deu mais certo.
Quando Wolfera comprou um baixo, começaram a surgir convites para bandas. Ele
afirma ter tocado pela primeira vez em um cover do Iron Maiden, que só tocava na
garagem e nunca chegou a fazer shows. Depois de ter tido essa experiência, Wolfera
resolveu que queria realmente tocar e passou a aceitar diversos convites para fazer parte
de bandas de Metal. Segundo ele, isso o fez crescer como headbanger.
O primeiro contato de Wolfera com o Heavy Metal aconteceu por intermédio da
música clássica, a partir de um CD do Angra trazido pelo namorado da irmã mais velha
dele. Assim como os headbangers dos perfis anteriores, ele passou algum tempo
ouvindo o som sozinho em casa e conhecendo melhor o estilo. Ele afirma que o que o
121
fez crescer como headbanger foi o fato de ter passado de ouvinte a executor das
músicas que gostava e, mais ainda, de ter participado de inúmeras bandas, aprimorando
suas habilidades como músico e passando a ter um contato mais íntimo com a esfera
grupal do Heavy Metal. O “tornar-se headbanger de fato” aparece mais uma vez aí,
como sendo ligado ao pertencimento do sujeito ao grupo. Em sua página do Facebook,
Wolfera disponibiliza um quadro com todas as bandas das quais já fez parte, com todos
os momentos nos quais atuou como músico, incluindo nesse quadro até uma Jam.
Abaixo, o quadro feito por Wolfera:
1999-IRON WARRIOR,(IRON MAIDEN COVER)
2003-PARA-NOIAR,(HC/CRUST)
2003-DIABULLUS,(BLACK METAL)
2004-DAMNED,(DEATH METAL)
2005-SHAPE/OVERSICK,(HC)
2005-DELIGHT REQUIEM,(THRASH OLD SCHOOL)
2007-DISPLAY OF DESTRUCTION,(THRASH)
2007-SADISTIC PLEASURE,(GRIND/DEATH)
2007-THE VIOLENT NOISE OF SHIT,(GRIND)
2008-CATHARSE,(GOTHIC-PROG)
2008-DARKOLD,(GOTHIC-PROG)
2008-PUREZA GENOCIDA,(GRIND)
2009-RED LIGHT HOUSE,(ROCK'N ROLL)
2009-MANIFESTO ANTI HUMANO,(GRIND/DEATH)
2009-STOIKHEION,(PROGRESSIVE)
2010-VICTORIAN,(GOTHIC-PROG)
2010-METAL JAM UNITED,(JAM)
2010-DESECRATOR,(THRASH/DEATH)
2010-SMOKED NEURONS,(TECNICAL DEATH)
2011-PARANÓIA SATÂNICA,(GRIND)
2011-OF SINS AND LIES,(SYMPHONY-X COVER)
2011-METAL JAM UNITED,(JAM)
2011-PRIMORDIUM,(DEATH METAL)
2012-SPIRIT CRUSHER, (TRIBUTE TO DEATH)
Quadro 01 – Fonte: Arquivo pessoal de Wolfera.
122
Sobre o visual, Wolfera foi bem direto e preciso: camisa de banda e bermuda.
Ele afirma ser criticado por alguns headbangers por costumar tocar em shows vestindo
bermudas, pois estes o criticam dizendo que bermuda é coisa de “pinta”. 52 Ele diz não
se importar com isso e continuar vestindo bermudas para tocar nos shows. Em relação à
religião, Wolfera se declara Ateu.
 Hervall
Imagem 16: Hervall. Fonte: Arquivo pessoal de
Hervall.
52
Pinta é uma expressão utilizada em Natal para designar malandros. O pinta natalense tem até uma
espécie de tipo ideal: Está sempre usando boné, vestindo bermudas e usando óculos escuros com lentes
espelhadas.
123
Hervall é um headbanger nascido no Rio de Janeiro, mas que também mora em
Natal há bastante tempo. Tem 38 anos de idade e é o vocalista da banda natalense
Comando Etílico. Trabalha como diretor de arte em uma empresa de publicidade e,
como ele nos fala, em um trecho de sua entrevista, que já incluímos no tópico 1.2 deste
trabalho, o Heavy Metal teve influência direta em seu direcionamento profissional.
Hervall nos contou detalhadamente como veio a se encontrar com a música
pesada e transcrevemos sua fala abaixo:
Ainda na infância, acho que com 8, 9 anos, eu já era muito ligado em
filmes, então as trilhas sonoras dos filmes eram sempre regadas a
Rock’n Roll e sempre nos corredores daquelas escolas (nos filmes)
passavam caras de jaqueta, um patch costas, um cabelo estranho.
Você acaba achando que aquilo tudo é ficção, mas, um dia, com
mamãe... falecida já, saudosa dona Lourdes... nas lojas Americanas
aqui do Centro da Cidade, fazendo compras com ela, passando na
seção de discos, tinha lá um cara exatamente da mesma forma que eu
via nos filmes: cabelos compridos, jaqueta jeans, escolhendo uns
discos. Esse cara, eu viria a conhecer posteriormente... é o DD Thrash,
que, na minha opinião, é o marco zero do headbanger potiguar. Foi aí
que eu vi que isso existe mesmo, não é só ficção, não está só no
cinema. É algo que você pode viver fora (do cinema) também. Em
Parnamirim, que eu morava lá na época, existia uma turma de
roqueiros na escola que eu estudava e esses caras já chocavam, no
melhor sentido da palavra, o ambiente. Porque eles eram diferentes
dos demais... nas atitudes, nas roupas... todo mundo usava uniforme,
mas eles usavam jaquetas por cima do uniforme, cabelos compridos.
Eu consegui conhecer esses caras e de lá conheci as primeiras bandas
de Rock pesado da minha vida. A primeira banda que eu conheci foi o
Deep Purple, o álbum In Rock, e eu fiquei chocado. Eu não entendia
como o Gillan fazia aquilo com a voz. Eu não entendia como um cara
tocava bateria tão rápido como o Ian Paice, essas coisas... e também
não entendia como aquelas músicas me tocavam tanto... Fui atrás
disso em sebos. [...] Indo numa festa do boi com meus amigos, ainda
nos anos 80, eu lembro que tava parado num parque de diversões eu e
o Nilson, um amigo meu, de visual e tal... passaram por nós
Kléberson, Ana Cláudia e Gerd. Esses dois caras, eu viria a tocar com
eles no Insane Death de 1989, até 92. Eles passaram... e passaram de
novo e ficaram olhando. Eu disse: Pô, esses caras devem curtir som
também, o visual dos caras é muito massa! A gente não tinha camiseta
de banda naquela época, as camisetas da gente eram pintadas à mão.
Pegava o visual das capas e pintava. Eles já tinham camisetas
elaboradas, feitas por empresas, industrializadas. E eles pararam numa
dessas passagens, olharam pra nós e perguntaram: “– Vocês sacam
som? – Pô, a gente saca! – Legal e tal, vamos conhecer uma turma
124
ali?” Daí a gente foi pra outro local, da mesma festa, e lá estavam
cerca de 60 a 80 bangers aqui de Natal. Foi daí que eu conheci o
termo headbanger, que eu soube que existia a Whiplash Discos que,
além de loja de discos, era point da galera também. (Hervall)
No relato detalhado de Hervall, podemos ver como funcionava a cena Heavy
Metal natalense, em seus primórdios. Poucas pessoas vestidas como headbangers, que
acabavam chocando, mais do que nos dias de hoje, os habitantes de Natal. Por serem
poucos, na época, os headbangers procuravam conhecer todas as outras pessoas que
gostavam do estilo para socializarem-se. Facilmente identificáveis, em um ambiente no
qual qualquer diferença estética é facilmente notada. Importante notar também o hábito
de pintar camisas de bandas à mão, pela falta de acesso às industrializadas. Ser
identificado enquanto headbanger era uma questão importante, assim como o gosto de
poder usar uma camisa que retratasse um disco que se considera precioso. Essas
questões perduram até os dias de hoje. Como já destacamos, muitos headbangers,
atualmente, dizem não se importar com a questão de serem identificados através do
visual, que utilizam-se da estética do Metal apenas por satisfação pessoal. Talvez a
questão da identificação fosse mais necessária em uma época na qual os “iguais” eram
poucos, para um headbanger.
Perguntamos ao entrevistado acerca de suas principais influências. Prontamente,
nossa questão foi respondida com outra pergunta. Hervall questionou se estávamos
querendo saber de suas influências pessoais ou o que o influenciava enquanto vocalista.
Optamos por saber as duas coisas. As bandas que o headbanger citou como sendo suas
principais influências pessoais foram: Led Zeppelin, Deep Purple e Black Sabbath, o
que ele chama de “a santíssima trindade do Rock inglês”.
125
Eu venho de uma escola inevitavelmente setentista, pela época que
nasci e pela época que comecei a ouvir. Então, a santíssima trindade
do Rock inglês está na minha pele, nas minhas entranhas. Como
influência de voz, eu não nasci vocalista , até hoje, eu não sou
vocalista. Eu dou uns berros, os meninos acharam legal, e eu tô lá.
Falando sério, eu me formei como baterista, aprendi a tocar legal e
decidi cantar, largar as baquetas e ir lá pra frente, porque todas as
bandas que eu tocava, os vocalistas eram muito estáticos. Era aquela
coisa... 30kg de chumbo em cada pé e ninguém se movimentava... eu
ficava muito chateado com isso. Quando eu chegava em casa, dos
shows, ia assistir fitas VHS, shows de bandas que eu gosto e via que
os vocalistas extravasavam... e muitas vezes eles nem eram grandes
vocalistas, não tinham uma voz aveludada, mas tinham técnicas
maravilhosas. Decidi trocar as baquetas por um pedestal. Nesse
sentido, (de influências) ninguém foi tão avassalador quanto o David
Coverdale e o Whitesnake. [...] Nunca fiz aula de canto, não quero
fazer. Eu não sei cantar, eu acho que eu nunca vou aprender a cantar,
mas eu não quero perder o que eu já sei... que é a fúria necessária que
um cara tem que ter num palco quando tá lá na frente. (Hervall)
Pode-se ressaltar aí, mais uma vez, a questão do exercício de ser músico. Até a
performance, extrapolando a questão da técnica, faz parte da ascese praticada pelo
músico. Todo músico tem sua ascese, independente do estilo que toca, mas, tornar-se
músico de forma não profissional, não objetivando lucrar com essa atividade – porém,
tratando esse hobby de forma profissional, incorporando toda uma ascese que vai da
performance à técnica – somente no intuito de realizar-se tocando a música que gosta de
ouvir e, ao mesmo tempo de colaborar com o funcionamento e manutenção da cena
local, pode ser visto como exclusividade do Heavy Metal.
Hervall relatou que iniciou sua vida de músico tocando bateria. Sobre como
começou a tocar, ele nos falou que, por volta dos 8 anos de idade, brincava com um
amigo, com uma bateria improvisada por ele, feita com tonéis, galões de tinta e um
tambor de água. Ele tomava conta da bateria, enquanto seu amigo o acompanhava em
um instrumento feito por eles a partir de um braço de violão, achado no lixo, unido ao
126
corpo de uma guitarra quebrada. Hervall nos falou também que montou uma banda com
os amigos em 1989, quando tocaram pela primeira vez em um show de Metal.
Sobre a questão do visual, Hervall diz estar quase sempre usando camiseta de
banda, jeans e um tênis surrado. E, quanto à religião, o headbanger se declara ateu,
assim como os outros entrevistados dos perfis anteriores.
127
Considerações Finais
Certa vez, no início da graduação, um professor que admiro muito falou para a
turma algo que julgo ser de extrema importância para quem escolhe ser pesquisador. Ele
disse que todos nós devíamos ter uma farpa em nossas mentes. Uma questão que sempre
nos incomodasse e que orientasse o rumo de nossas pesquisas. Penso que todo bom
pesquisador tem essa farpa que o incomoda e faz com que ele siga uma linha, em sua
carreira acadêmica. Eu, particularmente, tive a sorte de ter a minha farpa desde cedo,
sempre martelando. Acho que ela começou a surgir na metade da graduação, quando
passei a ter um contato mais aprofundado com as leituras de Foucault, em um grupo de
estudos sobre esse autor. A princípio, quem olhar desatentamente minha trajetória, que
ainda está se iniciando, talvez não consiga enxergar a linearidade nos meus interesses de
pesquisa, mas eu afirmo que ela existe, por mais esquizofrênica que possa parecer.
Posso afirmar que minha farpa tem relação estreita com a configuração das
formas de resistência na contemporaneidade. Na relação entre a ética, nos termos de
Foucault, e a política. E, mais ainda, a ética vista como uma forma de política, a
micropolítica, da qual Deleuze nos fala. Tudo o que se relaciona com esse movimento
de construção social da realidade me fascina como questão de pesquisa. Ter trabalhado
o Heavy Metal nesses termos foi algo muito prazeroso e penso que uma forma de
ampliar esse trabalho pode ser utilizar-me do pensamento deleuziano. Ele teve uma
participação bem discreta nesse texto, que foi necessária, porém, não foi ampliada, para
que não houvesse uma perda do foco.
Nossa pesquisa poderia ter várias ampliações interessantes. A questão da religião
para os headbangers poderia ser estendida. A dimensão cultual do Heavy Metal
128
enquanto prática de si esboça uma fonte de pesquisa muito rica, bem como a
religiosidade dos próprios headbangers. Para tanto, estudar de forma mais específica o
Black Metal seria bastante frutífero. Outra opção seria ampliar nosso estudo focando a
dimensão teórica do Heavy Metal. Fazendo uma análise minuciosa das letras dos mais
diversos gêneros do Metal e apontando algumas das direções nas quais o Heavy Metal
influencia na constituição do ethos dos headbangers, nos questionando quais seriam
alguns desses caminhos de possibilidades de pensamento para os quais esse estilo de
música orienta os seus ouvintes.
Como finalizei o texto da dissertação colocando os perfis de alguns headbangers
que foram entrevistados, penso que seria interessante para o leitor conhecer um pouco
do meu perfil, então, termino as considerações finais com um perfil resumido da minha
história com o Heavy Metal.
 Jéssica
129
Minha história de primeiro encontro com o Heavy Metal, infelizmente, não é tão
bonita quanto às dos headbangers que eu disponibilizei os perfis. Meus pais não ouviam
Heavy Metal, nem meus primos mais velhos, meu irmão é mais novo que eu e começou
a ouvir música pesada junto comigo. Nós dois descobrimos o Metal assistindo MTV,
vimos clipes de algumas bandas que estavam na moda (coisa que geralmente não é vista
com bons olhos, pelos headbangers). No meu caso, após ter contato com algumas
bandas através da MTV, comecei a me interessar pelo som e a querer descobrir outras
bandas, foi quando passei a ter contato, no ensino médio, com os headbangers da minha
escola. Como falo na introdução, fiquei impressionada tanto com a música, que me fazia
muito bem, mais do que nenhuma outra já havia feito, e com essas novas pessoas que eu
estava conhecendo. Eu podia notar que elas eram diferentes de alguma forma, só não
sabia explicar qual. Eu sempre gostei muito de roupas pretas e acho que tomei o Heavy
Metal como desculpa para usá-las o tempo todo. Ainda aos 15 anos, surgiu um interesse
de aprender a tocar guitarra, o instrumento que mais me fascina. Porém, por não ter o
instrumento em casa e poder praticar somente uma vez na semana, acabei não evoluindo
e desisti. Mesmo assim, ainda lembro como era boa a sensação de tocar algumas notas
de qualquer música conhecida. Hoje que posso ter uma guitarra, não tenho tempo.
Comecei a frequentar shows depois de bastante tempo e lembro-me de ter ido ao
show do Deadly Fate, um dos meus primeiros, e finalmente lembro-me de ter me
sentido parte do todo que representa a cena. Posso afirmar que os dois fatores que mais
influenciaram na minha formação (e que são as minhas paixões) são o Heavy Metal e as
Ciências Sociais. Desta forma, unindo a minha primeira percepção em relação aos
headbangers, que eles de alguma maneira eram diferentes das outras pessoas que eu
conhecia, ao meu encanto com a Sociologia, resolvi fazer esse estudo para
130
problematizar aquela minha primeira percepção e, ao mesmo tempo, dar a minha
contribuição a cena.
Quanto às minhas preferências, costumo dizer que gosto de bastante coisa dentro
do Metal. Ouço desde o Metal Melódico até as bandas de Metal Extremo, que têm sido
minhas favoritas, juntamente com as de Heavy Metal Tradicional, ultimamente. Tenho
uma tatuagem nas costas, com um trecho da partitura para guitarra de uma das músicas
do Metallica, banda de Thrash Metal, e pretendo, futuramente, incluir novos trechos de
partituras, de outras músicas, de outras bandas, em futuras tatuagens.
131
Anexos:
Biografias de algumas bandas de Natal: 53
Expose Your Hate:
O Expose Your Hate foi criado em julho de 1999, com a intenção de resgatar
uma das principais características do cenário natalense no início dos anos 90: a
existência de bandas com uma proposta musical voltada para a agressão sonora. Sua
formação conta com músicos que fizeram parte de bandas locais como Insane Death,
Lord Blasphemate, Sanctifier e Hellspawn. O Expose Your Hate encontra suas
referências musicais no death metal e grind core, mesclando as influências de cada
membro do grupo, sem preocupar-se com rótulos ou definições pré-estabelecidas para
53
Textos retirados da internet, disponibilizados na rede pelas próprias bandas.
132
sua música. Em março de 2001 e com a seguinte formação: LuZDetH (vocal), Cláudio
Slayer (baixo), Alexandre Emerson (guitarra) e Victor Fábio (bateria), o Expose Your
Hate grava sua primeira demo-tape intitulada "In god we crush" com sete composições,
tal trabalho obteve uma grande aceitação dentro do underground nacional e no exterior.
Em Agosto/2002, o guitarrista Alexandre Emerson decidiu deixar o Expose Your Hate
para dedicar-se a sua outra banda, o Sanctifier. Em seu lugar entrou o guitarrista
Fernando Lima (que também faz parte da banda Primordium) para dar continuidade aos
trabalhos. O Expose Your Hate já teve oportunidade de dividir o palco com nomes
expressivos da cena brasileira como também com os poloneses do Vader e os
americanos do Incantation e Master. As letras da banda são baseadas num
posicionamento crítico diante da caótica e odiosa realidade em que vivemos. Em Agosto
de 2004 a banda finalizou as gravações do seu debut-cd intitulado HATECULT, que
conta com 17 músicas que expressam todo o ódio interior pela hipocrisia do mundo
moderno, numa catarse enfurecida através da música, sendo o cd lançado em 2005 pela
Black Hole Productions e masterizado por Mieszko Talarczyk (Nasum) no Soundlab
Studios (Suécia). Após as gravações do cd HATECULT o baterista Victor Fábio é
substituído por Felipe Nolla(OUTSET, ex-NIGHTBREATH). Em maio de 2006, Flávio
França (OUSET) entra para ocupar o lugar de segundo guitarrista no Expose Your Hate.
Após dois anos trabalhando com a banda, Felipe Nolla decide deixar o grupo. Seu lugar
foi ocupado por Marcelo Costa (SANCTIFIER) em Novembro/2007. Em outubro de
2009, Fernando Lima deixa a banda que volta a ser um quarteto por alguns meses,
sendo
seu
lugar
ocupado
por
Herman
Souza
(Nightbreath/Sanctifier)
em
Fevereiro/2010.
133
Formação atual:
LuZDetH (Vocal)
Cláudio Slayer (Baixo)
Flávio França (Guitarra)
Herman Souza (Guitarra)
Marcelo Costa (Bateria)
Disponível em: http://www.exposeyourhate.com.br/bio.htm
Deadly Fate:
Em 1990 surge a Deadly Fate, que teve sua primeira formação com Oruam (voz
e guitarra), Neto (voz e guitarra), Janilson (Baixo) e Ricardo (Bateria), com o intuito de
realizar um sério trabalho em cima do Heavy Metal tradicional. Neste mesmo ano teve
134
sua primeira participação em disco junto com outras três bandas Potiguares de Heavy
Metal na coletânea Whiplash Attack Vol. 1, com o lançamento de duas músicas:
"Beyond the Sea, Across the World" e "Black Helmet".
Depois de dois anos afastado do cenário Underground, a banda volta a ativa em
1993 com outra formação (Oruam - Vocal/Guitarra; Neto - Vocal/Guitarra; Franklin Baixo; Eduardo Banana - Teclado; Wilberto - Bateria), onde surge, no ano seguinte, sua
primeira demo-tape intitulada "Outside of your World", contendo sete faixas a qual teve
uma excelente repercussão em Zines, Rádios, e principalmente entre o público nacional
e estrangeiro. Com essa formação, participam de outra coletânea, a "Brasil Alternativo
5", com a música "Rich In Spirit".
No final de 1995 saem Franklin e Eduardo, entrando Marcos Flávio no Baixo;
formação que vem até os dias de hoje, compondo músicas no estilo Metal Melódico.
Agora em 2000, a banda lança seu primeiro CD intitulado " Shine Again ", que é
resultado de uma grande evolução musical e busca inspirações desde a música clássica
até as diversas inovações musicais. Gravada em seu próprio Home Studio, Shine Again
conta com grandiosos corais, percussões eruditas e a grande participação do maestro da
orquestra sinfônica do Rio Grande do Norte, Oswaldo D'Amore, executando os
Violinos. Deadly Fate caracteriza-se por apresentar um estilo próprio que envolve
influências de várias bandas, transparecendo em suas músicas e letras uma forte poesia e
harmonia com a natureza.
Disponível em:
Deadly Fate – Matérias eBiografias http://whiplash.net/materias/biografias/038641deadlyfate.html#ixzz24XNxCw7Z
135
Comando Etílico:
Fundada em 2003 ao norte da cidade do sol, a banda COMANDO ETÍLICO é o
que se pode chamar de resistência contemporânea à moda antiga. Formada pelos irmãos
David e Lucas Praxedes que aliados a Kleber Barbosa e Hervall Padilha fecham a atual
formação, trazem em sua bagagem doses engarrafadas de nostalgia oitentista claramente
influenciados por grupos da estirpe do STRESS, HARPPIA, TAURUS, KAMIKAZE,
SODOMA(RN) dentre outros baluartes do Heavy Metal feito no Brasil na década de 80.
Em sua adega metálica, o COMANDO ETÍLICO conta com o EP "Metal e Prazer"
(2007) e com seu Debut-CD homônimo "Comando Etílico" (2010). Vocais densos,
136
guitarra certeira e cozinha crua segundo a crítica especializada, são apenas alguns dos
elementos desta banda que já é destaque no cenário underground brasileiro.
Disponível em: http://www.comandoetilico.com/site/release
Primordium:
Banda Brasileira de Death/Thrash formada em 2000 na cidade de Natal/RN por
Gerson Carvalho e Alexander Pereira (antigo baixista). Após um ano de várias
modificações na formação, em 2001 a banda entra em estúdio e grava o demo-ensaio:
The Grand Elevation Of Pagan Temple, material que conta com quatro composições:
The Grand Elevation Of Pagan Temple, Bathory..s Throne, The Wings Of The Hydra
(Therion) e Soldiers Of Hell (Running Wild). No ano de 2002 a banda entrará
137
novamente em estúdio, desta vez, para gravar o debut-demo The Sacred Valley Of The
Kings. Este material conta com quatro novas composições: Aton (God Of Light),
Twilight Of The Gods, The Sacred Valley Of The Kings e Osiris Tribunal; tendo toda a
temática toda voltada para o Egito Antigo. Em janeiro de 2007 a banda começa a
produção de seu debut-album intitulado "Todtenbuch", trabalho conceitual e baseado no
Livro dos Mortos do Antigo Egito. Este novo petardo contará com 12 novas
composições e uma regravação da demo (Osiris Tribunal). A previsão de lançamento é
para o primeiro semestre de 2009 via Skull Music. Material Gravado: * The Grand
Elevation Of Pagan Temple - Demo Ensaio (2001) *The Sacred Valley Of The Kings Demo Oficial (2002) *Todtenbuch - Debut Cd (Em processo de gravação)
Formação atual:
Gerson Carvalho - Vocais
Thiago Varella - Guitarra
Denilton Falcão - Guitarra
João Felipe Santiago - Baixo
Augusto Oliveira - Bateria
Influências
King Diamond, Mercyful Fate, Iron Maiden, Judas Priest, Kreator, Slayer, Metallica
(old), Destruction, Sodom, Sepultura (Old) Death, Deicide, Cannibal Corpse, Nile,
Morbid Angel, Vader, Obituary, Monstrosity, Incantation, Unleashed, Acheron,
Hypocrisy, At The Gates, The Crown, Amorphis, Therion, Emperor, Immortal, Rotting
Christ, Marduk, Dark Funeral, Septic Flesh entre outras.
Disponível em: http://www.myspace.com/primordiumbr;
http://dapesadarn.blogspot.com.br/2011/12/primordium.html
138
Kataphero
Dizer que o Kataphero é uma banda nova é uma meia verdade. O projeto de fato
nasceu com Paulo em 2010, mas os membros já tocam, viajam, bebem, brigam,
desbrigam e bangueam juntos em bandas diversas aqui e ali há mais de 10 anos.
Kataphero é efetivação dessa década de estágio e processo de amadurecimento. É a
banda definitiva para os 4 caras que começaram na cena de metal natalense antes de
terem os primeiros fios de barba na cara. O som é na maioria das vezes classificado
como Death Metal, ou "Death Melódico" mas a preocupação da banda não está em se
apegar a este estilo, mas nos sentimentos em que esse som ao mesmo tempo pesado,
melódico e denso proporciona.
139
Formação atual:
Paulo Henrique Santiago (Vocals/Guitar)
Phelippe Melo (Bass)
David Cantídio (Guitar)
Rafael Borges (Drums)
Disponível em: http://www.myspace.com/kataphero
Sanctifier
140
O Sanctifier teve inicio em 1989, sob o nome Intense Gore, sendo formada por
Alexandre Emerson e Victor Fábio que, juntamente com Marcos Flávio e Luiz Cláudio,
criaram o núcleo do que viria a ser um nome respeitado dentro da cena Death Metal
nacional. Com esta formação, em 1991, gravaram a demo-ensaio "Into the Eternal
Perversity", logo após essa gravação, a banda procurou um segundo guitarrista. Com a
entrada de Julio Resende, a banda começa a ganhar projeção local, lançando assim a 2ª
DT ensaio "Pact With The Evil" em Julho de 1992. Depois de algum tempo, Julio Skull
decide sair da banda e em seu lugar entra Kleberson Porpino, vindo do recém extinto
Insane Death. Foi com este line-up que adquiriram um grande status dentro da cena
Death Metal nacional, tocando com bandas expressivas da cena como: Dorsal,
Headhunter, D.C., Medicine Death, Obskure, Terrorzone, Krueger, etc. Impressionando
a todos com sua música brutal e técnica, fortemente influenciada por bandas como
Morbid Angel, Immolation e Acheron. Em 1993 gravaram a demo-tape "Ad perpetuam
rei memoriam", que se tornou um clássico com as músicas: Unholy Ancient Masters,
The Cycle of The Entity e Archon tõn daimõnion, logo após esse lançamento o
SANCTIFIER decidiu mudar o nome para HELLSPAWN, por achar que se encaixava
mais na proposta da banda. Foi quando receberam a proposta da gravadora Grega
Molon Lave (Ancient Rites, Rottig Christ, Necromantia, Varathron...etc) de lançar a
Demo Tape Ad Perpetuam Rei Memoriam em formato 7" EP, sendo a única banda
brasileira a ter lançamento naquele país. Em 1994, o vocalista Luiz Cláudio deixa a
banda, logo após esse fato, a banda se desfaz, voltando no ano de 1995 e contando com
Alexandre e Marcos como membros da formação anterior. Fazem parte da banda em
1995: Mitchell Ângelo (Guitarra), Wellington Barbosa (Bateria) e Fábio Brayner
(Vocal).
141
Em Maio de 1995 Gravam a DT "Hymns of Hipocrisy" com duas músicas:
Hymns of Hipocrisy e a regravação de The Cycle of The Entity. Com essa demo tape o
Sanctifier ganha bastante terreno no exterior e recebe 100% de resenhas positivas nos
Fanzines mais expressivos da cena.
No final de 1995 a banda sucumbe em uma crise interna por falta de seriedade
entre os membros e Alexandre decide dar um tempo nas suas atividades. No ano 2002 a
banda volta a suas atividades tendo como carro chefe o antigo nome SANCTIFIER pelo
fato de uma outra banda ter surgido com o nome Hellspawn. Com a formação quase
estabilizada, o Sanctifier decide contribuir com duas músicas no tributo ao Rotting
Christ. "An evil existence to rotting christ" e gravam Archon e Nom Serviam, com
Alexandre tocando as guitarras, baixo e vocal e Victor na bateria. Logo após alguns
shows, Victor decide sair da banda e em seu lugar entra Paulo "The Predator" Chaffin,
também não durando muito tempo, por ser músico profissional, gravando apenas o
promo CDR "Zi dingir kia kanpa" que seriam as músicas do debut CD. Logo após a
saída de Paulo, Alexandre recruta o amigo Rafael-Wild e grava o CD Awaked by
Impurity Rites, com 9 músicas próprias e um cover do Acheron "Thou art lord"
somando 10 músicas. Esse cd despertou interesse no Japão através da Gravadora Weird
Truth sendo lançado uma prensagem de mil cópias naquele País, enquanto no Brasil a
Dyign Music se encarregou de prensar 1000 cópias também.
Formação atual:
Flávio Diabulus - ( Baixo )
Alexandre Emerson - (Guitarra)
Daniel Guerra- (Vocal)
142
Marcelo Costa - (Bateria)
Herman Souza- (Guitarra)
Disponível em: http://www.sanctifier.net/
Sunset Boulevard:
• Cinco cabeças destinadas a tocar Hard’Heavy e que fazem uso da música como
instrumento difusor de anseios, sempre defendendo a ideia de serem faces
visíveis no meio musical. As influências dos mais plurais estilos musicais,
143
passando do Classicismo ao Barroco, do Hard ao Rock, do Metal ao
Progressivo. É desse sincretismo que flui a linha musical do Sunset Boulevard.
Uma banda que por onde passa deixa uma marca musical e performática que não
será esquecida!
• O Sunset Boulevard iniciu os seus trabalhos em janeiro de 2005.
• Formação original: Marcelo Torres (vocalista), Phillip Cézar (baixista), Diego
Mafra e Vítor Santiago (guitarras) e Leandro Gurgel (bateria).
• Formação atual: Marcelo Torres (vocalista), Bruno Campello (baixista),
Rêmullo Costa (guitarra), Paulo Bristofem (teclado) e Matheus Medeiros
(bateria)
• O Sunset Boulevard acaba de lançar o seu primeiro álbum, A Way Of Life,
contendo 10 (dez) faixas autorais, o qual condiz com a idéia da banda no sentido
de unificar suas influências em sua música, agradando assim a uma
universalidade de gostos e apreciadores do rock. O referido fora gravado no
Estúdio Eletromusic, em Natal-RN, mixado e masterizado no Estúdio de Mattias
Reccius na cidade de São Paulo-SP, sendo prensado na Zona Franca de Manaus,
pela empresa SONY.
Disponível em: http://www.myspace.com/bandasunsetboulevard;
http://zonamidia.blogspot.com.br/2012/01/entrevistando-banda-sunset-boulevard-o.html
***
144
Algumas imagens sobre o Heavy Metal, em
Natal:
Recorte do jornal Tribuna do Norte, da cidade de Natal, falando sobre o lançamento
da coletânea Whiplash Atack Vol. I, produzida pela Whiplash Discos, na década de
90. Fonte: Arquivo pessoal de Mitchel Pedregal, headbanger que reside em Natal e
coleciona todo tipo de material sobre o Metal na cidade. Também disponível no blog
de autoria dele: http://rockinnatal.blogspot.com.br/
145
Cartaz antigo de um show de Metal, em Natal, datado do início da
década de 90. Fonte: Arquivo pessoal de Cláudio Slayer.
146
Cartaz de um show que ocorrerá em Março de 2013, de uma banda internacional muito
admirada em todo o mundo, denominada Rotting Christ. Trazer esse evento para Natal
inaugura a possibilidade de crescimento da importância da cidade dentro da cena nacional,
abrindo caminho para outras bandas de renome mundial fazerem shows na cidade.
147
Foto do show do Viper, banda de renome nacional, ocorrido em Natal, em julho de 2012.
Fonte: Arquivo pessoal de Mitchel Pedregal.
Foto da Rua Chile, onde estão concentradas algumas das casas conhecidas por
abrigar shows de Metal na cidade.
148
Peças confeccionadas pela nossa entrevistada Lucy. Na primeira imagem, um corpete de couro
sintético e um cinto com uma bolsinha. Na segunda imagem, um corset e uma calça em lycra
cirré customizada por ela.
149
Referências Bibliográficas:
BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido: Sobre a fragilidade das relações humanas.
Tradução: Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2004.
_________. Modernidade e ambivalência. Tradução: Marcus Penchel. Rio de Janeiro,
Jorge Zahar, 1999.
_________. O mal-estar da pós-modernidade. Tradução: Mauro Gama, Cláudia
Martinelli Gama. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998.
_________. Vida líquida. Tradução: Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro, Jorge
Zahar, 2007.
_________. Vida para consumo: A transformação das pessoas em mercadoria.
Tradução: Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2008.
BATAILLE, Georges. A parte maldita. Julio Castañon Guimarães (trad). Rio de
Janeiro: Imago, 1975.
BECKER, Howard Saul. Outsiders: estudos de sociologia do desvio. Tradução: Maria
Luiza X. de Borges. Revisão técnica: Karina Kuschnir. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.
2008.
BERGER, Harris M. Metal, Rock and Jazz. Perception and the Phenomenology of
Musical Experience. Hanover: University Press of New England, 1999.
BRETON, David Le. Adeus ao corpo: Antropologia e sociedade. Tradução: Marina
Appenzeller. Campinas – SP, Papirus, 2003.
CAMPOY, Leonardo Carbonieri. TREVAS NA CIDADE – o underground do metal
extremo no Brasil. Dissertação (Mestrado de Sociologia e Antropologia) - Instituto de
Filosofia e Ciências Sociais – UFRJ, 2008.
CARLEIAL, Lucas Gurgel do Amaral. “HELL YEAH!” Por uma Filosofia do Rock
e do Metal a partir do Pensamento Estético-Musical de Nietzsche. Monografia
(Curso de Graduação em Filosofia) UFCE.
CUNHA CARDOSO FILHO, Jorge Luiz. Música Popular Massiva na Perspectiva
Mediática: Estratégias de Agenciamento e Configuração Empregadas no Heavy Metal.
Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa em Comunicação e Cultura
Contemporânea da UFBA. Salvador, 2006.
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. MIL PLATÔS: Capitalismo e Esquizofrenia,
Volume III. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1996.
DUNN, Sam. Metal: A Headbanger's Journey. [Filme-vídeo] Produção e direção de
Sam Dunn, DVD, 2006, 94 min. Color. Son.
__________. Global Metal. [Filme-vídeo] Produção e direção de Sam Dunn, DVD,
2008, 95 min. color.
150
FOUCAULT, Michel. A hermenêutica do sujeito. São Paulo: Martins Fontes, 2006
__________. A ética do cuidado de si como prática da liberdade. In: FOUCAULT,
Michel. Ética, sexualidade, política. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004 (Ditos
e escritos; V)
__________. Qu'est-ce que la critique? Critique et Aufklärung. Bulletin de la Société
française de philosophie, Vol. 82, nº 2, pp. 35 - 63, avr/juin 1990 (Conferência proferida
em 27 de maio de 1978). Tradução de Gabriela Lafetá Borges e revisão de Wanderson
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_________. (1984) O Que São as Luzes? In: Ditos e Escritos II: Arqueologia das
Ciências e História dos Sistemas de Pensamento. Editora Forense Universitária, 2005.
_________.O retorno da moral. Barbedette, Gilles e Scala, André. Entrevista de
Michel Foucault. Les Nouvelles, em 29/5/1984. In: ESCOBAR, Carlos Henrique (org.).
Michel Foucault (1926- 1984) - O Dossier - últimas entrevistas. Rio de Janeiro, Livraria
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_________. O sujeito e o poder. In: RABINOW, Paul; DREYFUS, Hubert. Uma
trajetória filosófica: Para além do estruturalismo e da hermenêutica. Rio de Janeiro:
Forense Universitária, 1995.
_________. Sobre a genealogia da Ética: Uma visão do trabalho em andamento. In:
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___________. Crepúsculo dos Ídolos, ou, Como se filosofa com o martelo. Tradução,
notas e posfácio: Paulo César de Souza – São Paulo: Companhia das Letras, 2006b.
WEINSTEIN, Deena. Heavy metal: the music and its culture. New York: De Capo,
1991/2000.
Documentos sonoros:
ANGRA. Temple of Shadows. Manaus, Paradoxx/Universal, 2004. 1 CD.
BLIND GUARDIAN. Imaginations from the other side. EMI, 1995. 1CD
DISSECTION. Reinkaos. Black Horizon/The End, 2006. 1CD.
IRON MAIDEN. Alexander the Great. In: IRON MAIDEN. Somewhere in time.
S/l.1986. 1CD.
MAYHEM. Dawn of the Black Hearts. Warmaster, 1995. 1CD.
SEPULTURA. Beneath the Remais. Roadrunner Records, 1989. 1CD.
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