domenico de masi

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domenico de masi
News
A revista do Grupo LET Recursos Humanos
N0 39 | Maio / Junho | 2013 | Ano 7 | www.grupolet.com
ATUALIDADE
Se REINVENTAR
Marcelo Arantes,
Vice-Presidente de
Pessoas & Organizações,
TI e Suprimentos da
BRASKEM, revela como
cumprir este desafio – Pág. 8
POR DENTRO DO RH
Os diferenciais da
TERCEIRA IDADE
para as organizações
competitivas – Pág.12
CAPA/DEPOIMENTO EXCLUSIVO
DOMENICO DE MASI
"O pa pa d a s o c i o l o g i a d o t r a b a l h o"
faz uma análise das novas dinâmicas de um mercado
de trabalho em transformação – Pág. 16
Entrevista
Foto: Zuh Ribeiro / Army Agency
Papo com o leitor
“Se REINVENTE...
sempre diferente”
Caros leitores,
Pode parecer estranho, mas não é. Surpresa não deve ser mais uma palavra que nos traga
espanto, estranhamento. A cada dia devemos ter a capacidade de fazermos algo diferente do que
produzimos no dia anterior. Mais do que se reinventar, isto é buscar novos significados para este
termo. Uma das matérias mais importantes da edição traz Marcelo Arantes da Braskem (e também
do Comitê Temático do CONARH), além de Manlio Vetorazzo, do Bar Luiz. Ambos reinventaram as
suas trajetórias e as de muita gente bacana. São histórias que se complementam e que valem a
pena serem conhecidas.
Nossa edição também lança olhares estratégicos ao tema Educação e traz, para engrandecer a abordagem, dois ícones neste sentido: o italiano Domenico de Masi (capa desta edição) e a carioca Andréa Ramal. Ele, referência mundial da Sociologia do Trabalho e autor do best seller “O Ócio Criativo”
(em setembro estará lançando no Brasil, “O Futuro já Chegou”); e ela, Consultora da TV Globo e
referência nacional em Educação e Pedagogia, nos concedem duas entrevistas exclusivas e, sem
exagero, históricas à nossa publicação, cada vez mais intensa na qualidade de seu conteúdo.
Como intenso é o espaço que também dedicamos aos profissionais que estão “se desaposentando”. Isto mesmo, não cabe mais a cena do sujeito em casa, de pijama, lendo jornal e assistindo
à TV. Conheça, em nossas páginas, RHs e empresas que estão aumentando a valorização aos
profissionais com mais de 50, 60, 70 anos.
Nossa edição tem muito mais informação e o melhor é que basta você folhear para curtir.
Boa leitura!
Joaquim Lauria
Diretor Executivo do Grupo Let Recursos Humanos
Dicas NewsLet - Livros
O Grupo Let Recursos Humanos
parabeniza o Rio de Janeiro
pela conquista do título
de Patrimônio Mundial da
Humanidade pela Unesco!
Expediente
Grupo LET
Recursos Humanos
Membro Oficial
Matriz – Rio de Janeiro (RJ) - Barra
Centro Empresarial Barra Shopping
Av. das Américas 4.200, Bloco 09,
salas 302-A, 309-A – Rio de Janeiro –
RJ – tel.: (21) 3416-9190
CEP – 22640-102
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Escritório LET – Rio de Janeiro (RJ)
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São Paulo – SP – CEP:01043-000 – Tel:
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Ed. Europa Central Tower, Centro Juiz
de Fora (MG) – Brasil, CEP: 36016-230
Tel: (32) 3211-5025
Escritório Belo Horizonte (MG)
Rua São Paulo 900, Salas 806 e 807,
Centro, Belo Horizonte - CEP: 30170-131
Tel.: (31) 3213-2301
Diretor Executivo: Joaquim Lauria
Diretor Adjunto: Kryssiam Lauria
Revista
“Arqueiros da Excelência – Filosofia e Arte para Acertar Seus Alvos” de Sergio Hage, Qualitymark Editora
Muita gente imagina a Filosofia como algo nebuloso, atmosférico, distante da praticidade.
Mas esta obra traz clareza e objetividade, explicando ao leitor como entender e usar esta
ciência do conhecimento para se obter precisão no atingimento de um alvo, queremos dizer,
objetivo, meta. Sérgio Hage, com grande percepção sobre a arte e filosofia dos Arqueiros,
desenvolveu o Método Archery, aplicado aos interesses pessoais e empresariais na conquista de resultados. “Aposentadoria: Ponto de Mutação?”, de Dulcinéa da Mata, Qualitymark Editora
Atire a primeira pedra quem nunca se viu perdido ou curioso quanto à aposentadoria e todo
o seu processo. Quando é a hora de parar de trabalhar? Como será o relacionamento com
a família? Qual o impacto causado por esta parada no orçamento da casa? Se aposentar
não significa mais ter que parar com tudo. Esta obra ajuda as pessoas a quebrar mitos e
preconceitos, ressignificando o ato de se aposentar e aos RHs a lidar com o tema nas empresas e redes sociais.
Publicação bimestral
Maio / Junho 2013
Ano 7 – Nº 39
Tiragem 1.500 exemplares
Jornalista responsável (redação e edição):
Alexandre Peconick
(Comunicação Grupo LET)
Mtb 17.889 / e-mail para
[email protected]
Diagramação e Arte:
Murilo Lins ([email protected])
Foto da Capa:
Divulgação Braskem
Oportunidades:
Cadastre seu currículo diretamente em
nossas vagas clicando www.grupolet.
com/vagas/candidato e boa sorte!
“O Instinto do Sucesso”, de Renato Grinberg – Editora Gente
Já se arrependeu de ter tomado uma decisão por puro impulso ou, ao contrário, de não
ter agido de acordo com sua intuição? Apesar de termos evoluído, somos guiados por
instintos primitivos e isto se reflete de maneira contundente no trabalho. Entender como
esses instintos nos influenciam e como usá-los ao nosso favor é fundamental para o
sucesso. Esta tomada de consciência proporciona agir de maneira mais apropriada de
acordo com cada situação.
2 | Maio / Junho | 2012 |
Nonono
Foto: Divulgação
Entrevista Especial
Editorial
Grupo LET nas redes sociais:
Acesse nossas páginas no Facebook
e no Twitter
Impressão:
Walprint Gráfica e Editora Ltda.
Endereço: Rua Frei Jaboatão 295,
Bonsucesso – Rio de Janeiro – RJ
E-mail: [email protected]
Tel: (21) 2209-1717
Ana Claudia Parreira
Coordenadora de RH do GRUPO TECHNOS
“O valor do TREINAMENTO que fuja ao ÓBVIO”
M
etódica, pragmática e suave ao tratar dos temas
de RH, Ana Claudia Parreira vem conquistando
sua posição no mercado. “Lisonjeada
pelo convite à entrevista”, como revelou, faz questão de incluir Joaquim
Lauria entre um dos líderes inspiradores que teve em sua carreira. Em 2006
atuou no Grupo LET como Analista de
RH. Também se inspirou em Andrea
Giorgi, sua gestora durante os quatro
anos em que atuou na Amil.
Chegou ao Grupo Technos em
2011, como Coordenadora de RH,
para o start up de um grande trabalho: alavancar a área de desenvolvimento organizacional. Apoiada por
seus líderes, implementou novas práticas. Com Thiago Picolo, Diretor Financeiro Administrativo, adquiriu conhecimentos para transformar ações
em resultados estratégicos.
Os números do crescimento da empresa nos últimos anos mostram que ela
fez a aposta certa: em 2011 eram apenas
cinco marcas no Grupo. Hoje já são 19.
O olhar fixo e a fala precisa, sem um erro
sequer na pontuação, transmite a noção
de uma profissional que tem sob suas rédeas o controle do estresse, algo muito
complexo para a atualidade. Talvez fruto
da vivência dos muitos treinamentos que
ela tem estruturado e implementado.
NEWSLET – Por que é importante um
treinamento sair do lugar-comum, do
óbvio?
Ana Claudia Parreira – Para que possamos propor uma dinâmica diferente da
realidade das pessoas como, por exemplo, um treinamento ao ar livre. Quando
a pessoa está no local de trabalho já
conhece cada cantinho e se comporta
exatamente da mesma maneira no dia a
dia. Desta forma, favorecemos a obtenção de melhores resultados, através de
atitudes vencedoras e postura pró-ativa
em situações de alto impacto. Este tipo
de treinamento também estimula a maior
adesão e assiduidade, já que se o participante estiver na empresa, alguém vai
chamar, ele vai atender ao telefone, responder a um e-mail. No treinamento externo a frequência destas ações diminui.
NEWSLET – O desconhecido ajuda
as pessoas a aproveitar o melhor delas mesmas?
Ana Claudia Parreira – Sim. Porque
quando saímos do habitual em um treinamento ajudamos as pessoas a internalizar novas situações. Se as pessoas
se acostumam demais com uma zona do
conhecimento não há experiências inovadoras. Nossa missão é fazer o grupo
compreender que para atingir os objeti| 2012 | Maio / Junho | 3
Personagem
vos e metas a equipe precisa trabalhar
de forma integrada e sinérgica através
que traz um alto grau de comprometimento com os resultados do dia a dia.
NEWSLET – A experiência inovadora
é atraente para alguns e não para outros. Como o RH dá suporte às pessoas para que vençam barreiras?
Ana Claudia Parreira – Demonstramos
que, em equipes de alta performance,
todos dependem de todos para obter
resultado. Por isto, ao final de cada atividade questionamos cada um: “O que
você sentiu em relação à atividade proposta?”; “O que poderia fazer diferente?”; “O que aprendeu com isto?”. O RH
proporciona ao funcionário uma autorreflexão acerca do que cada um faz e do
que pode realizar de novo.
NEWSLET – O primeiro treinamento
implementado enfrentou resistências?
Ana Claudia Parreira – Sim. Houve uma
natural desconfiança. “O que eu vou fazer lá?” “Para que vai servir isto?”. Mas
este foi um sentimento muito efêmero,
porque nos primeiros cinco minutos da
primeira palestra, as pessoas já se sentiam parte daquela prática e percebiam a
sua importância.
NEWSLET – Qual é o objetivo primordial do treinamento aplicado por
vocês?
Ana Claudia Parreira – Proporcionar
e criar a sensação de pertencimento
aos funcionários abordando assuntos
referentes ao alinhamento estratégico,
planejamento e acompanhamento de
metas, engrenagem Technos e gestão
de pessoas, e equipe de alta performance num ambiente descontraído,
favorecendo a integração de nossos
colaboradores do Brasil inteiro, despertando o interesse e especialização nos
assuntos abordados, multiplicando as
informações apreendidas e aplicando,
na prática, os conceitos fundamentais.
NEWSLET – Como os treinamentos
se estruturam?
4 | Maio / Junho | 2012 |
“Proporcionar e
criar a sensação
de pertencimento
aos funcionários
é o principal
objetivo de nossos
treinamentos”
Ana Claudia Parreira - Temos uma academia de treinamentos para os líderes
à qual nomeamos “Trilha de Desenvolvimento”. Esta trilha consiste em encontros mensais nos quais reunimos
os 40 coordenadores de todas as áreas em unidades do Brasil e adotamos
como temas principais: Engrenagem
do Grupo Technos (conhecer o todo e
a importância de cada um neste todo),
Desdobramento e Gestão de Metas
(Política Meritocrática) e Liderança.
Permeamos os encontros nesses temas. Neste ano temos alguns módulos virtuais intercalados com os módulos presenciais.
NEWSLET – Conte para nós algum
tipo de treinamento que vocês fizeram...
to de vista técnico, preciso engajá-los
no alcance do resultado. Faço isto reconhecendo, valorizando o esforço diário,
comemorando o sucesso, e, quando
oportuno, dividindo as fraquezas. Preciso mostrar as lacunas que precisamos
preencher. E o TEAL faz isto: exibe a dificuldade em alcançar metas e como cada
um deve tratar estas dificuldades.
NEWSLET – E o resultado?
Ana Claudia Parreira – O pessoal pediu
mais! Eles adoraram trocar experiências.
Este tipo de atividade ajuda a transformar
a atitude das pessoas no trabalho, dos
líderes e dos liderados. O líder precisa
estimular pessoas a superar os desafios,
orientando o caminho a ser seguido para
o alcance dos objetivos. Nossos treinamentos deixam explícito que a união de
esforços coletivamente nos leva a resultados inimagináveis.
NEWSLET – Como definir o tipo de
treinamento que um grupo irá precisar?
Ana Claudia Parreira – Fazemos um levantamento de necessidades de treinamento técnico, comportamental ou
específico. Quando fechamos um ano,
mais ou menos em outubro, já começamos a pensar que tipos de treinamentos temos que fazer para o ano
seguinte, sempre aplicando os valores
da empresa: gente, ética, qualidade,
empreendedorismo e meritocracia.
NEWSLET – Você faz benchmarking?
Ana Claudia Parreira – Em 2012, realizamos dois eventos utilizando a metodologia TEAL (Treinamento ao Ar Livre). O primeiro abordou gestão de equipes de alta
performance, com atividades práticas
desafiadoras ao longo de oito horas em
um espaço externo amplo e encantador.
Experimentamos a superação de desafios. O segundo foi um grande encerramento de todos os módulos aplicados
no ano com os nossos coordenadores;
uma forma ideal de mostrar a apreensão prática, integradora e inspiradora
do conteúdo. Mesmo entendendo que
tenho grandes profissionais sob o pon-
Ana Claudia Parreira – Com certeza!
Buscamos as melhores práticas e trocamos informações com empresas de
expressão. Do brainstorm ao benchmarking nosso foco está pautado em
superar as expectativas dos funcionários. Selecionamos instrutores que
possam retratar a nossa realidade.
Existem treinamentos em que se falam muitas coisas bonitas, mas que
não funcionam na prática. No Grupo
Technos isto não acontece, pois alinhamos as expectativas no momento
de preparação do treinamento.
Foto: Antônio Guerreiro
Entrevista Especial
Andrea Ramal
Educadora, Escritora,
Comentarista de Educação
para a TV Globo e Sócia-Fundadora
da ID Projetos Educacionais
“As estratégias devem
estar alinhadas
às novas formas de
aprender”
D
edicada e mergulhada no
universo da transformação
pela Educação, a carioca
Andrea Ramal tem uma
trajetória cujos números e letras não
se limitam a uma biblioteca. Em uma
realidade digital, não poderia. Apenas
para pontuá-la..., que ousadia, seus
comentários sobre a realidade do
ensino brasileiro no Bom Dia Rio (TV
Globo) são sempre precisos e construtivos, ora reflexivos, para quem os
assiste.
Defensora da sinergia entre escola
e família como propulsora da qualidade na educação e de uma formação
do estudante voltada para a autonomia intelectual, entre outros pontos
de impacto em sua expertise, ela, com
base em suas convicções, já influiu na
construção coletiva do conhecimento
de muita gente não apenas no Brasil,
mas em diversos países da América
Latina, onde, além de publicar livros,
realizou palestras, implantou programas de formação docente e de lideranças em escolas.
Seu último livro “Filhos Bem Sucedidos - Sete maneiras de ajudar seu
filhos a se realizar na escola e na vida
(Sextante)”, intensifica e oferece novos e brilhantes insights que ajudam a
fomentar os tais “agentes transformadores” dos quais o mercado tanto fala.
| 2012 | Maio / Junho | 5
Personagem
Foto: Antônio Guerreiro
Personagem
NEWSLET – O Brasil está recebendo
milhares de turistas, não apenas por
conta de megaeventos. Virou “lugarcomum” dizer: “queremos gente com
inglês fluente”. Louvável. Mas há muita gente esquecendo que 90% dos
brasileiros leva autênticos “tombos”
no português, nosso idioma. O internetês, por exemplo, não contribui
para exacerbar a desvalorização da
língua? Como a aplicação da Língua
Portuguesa pode ser melhorada?
Andrea Ramal – Acredito que estudantes e profissionais brasileiros podem e
devem investir nas duas frentes: aprimorar o uso correto da língua portuguesa e, ao mesmo tempo, aprofundar-se
no estudo de pelo menos um idioma
estrangeiro. O próprio programa Ci6 | Maio / Junho | 2012 |
ência sem Fronteiras vem mostrando
uma debilidade de muitos candidatos
com relação a idiomas, o que acaba
impedindo que aproveitem boas oportunidades de estudos no exterior. Um
levantamento feito este ano pelo portal
Terra mostrou que 13% dos estudantes
beneficiados com cursos no exterior
estão em Portugal, devido ao idioma. E
no final do ano passado, num ranking
internacional de habilidade de inglês, o
Brasil ficou em 46º lugar em 54 nações
pesquisadas. Todas as regiões brasileiras ficaram com desempenho “baixo”
ou “muito baixo”. Para que o Brasil seja
competitivo num cenário global, é fundamental avançar na aprendizagem de
idiomas estrangeiros desde a educação
básica. Ao mesmo tempo, usar a língua
portuguesa corretamente é fundamen-
tal. O Jornal Nacional (TV Globo) exibiu
em abril deste ano uma matéria com os
resultados de uma pesquisa de teste
ortográfico realizada pelo Núcleo Brasileiro de Estágios (NUBE). O estudo, realizado com 7219 estudantes, mostrou
que 28,8% dos candidatos a estágio em
empresas foram reprovados na etapa
de seleção em função do desempenho
linguístico. Em 2012, um pesquisador
da Universidade Católica de Brasília
entrevistou 800 universitários e chegou
à conclusão de que mais da metade
poderiam ser classificados como “analfabetos funcionais”. Não creio que a
internet seja a culpada com relação a
este fenômeno. A língua pode ser usada de diversas formas, dependendo do
contexto. Basta que os usuários saibam
fazer distinções. As soluções passam
pela melhoria da qualidade da educação básica, desde a alfabetização até
o ensino médio e pela criação de hábitos de leitura e escrita, tanto na escola
como em casa.
NEWSLET – Muitos RHs dizem: “estou de saco cheio de ouvir o tal do
falta gente qualificada”. Como empresas podem, no curto prazo, cobrir
as carências que vêm do ensino básico? E como podem, no longo prazo,
projetar melhores profissionais para
o futuro? Parceria empresa-escola
contribui?
Andrea Ramal – Conheço boas iniciativas, como, por exemplo, a do Projeto
NATA - Núcleo Avançado de Educação
em Tecnologia de Alimentos e Gestão
de Cooperativismo, desenvolvida pelo
Grupo Pão de Açúcar numa escola do
Rio de Janeiro. No sistema de ensino
médio integrado, a escola oferece um
modelo educacional voltado para gerar
conhecimentos locais e criar oportunidades de emprego para os jovens. A
formação técnica é em leite e derivados,
panificação e confeitaria. Conheço de
perto esta bela experiência e a minha
empresa participou como consultoria
implementadora do modelo. Mas não é
possível generalizar estes bons resultados. O investimento na educação básica
e profissionalizante é, sem dúvida, uma
das saídas para as empresas. Outra é a
implementação de sistemas eficientes e
eficazes de formação continuada dentro
da organização, sejam ou não chamados de “universidades corporativas”.
O caminho é mapear as competências
que precisam ser desenvolvidas, definir
itinerários de formação para as pessoas /
cargos / funções e ministrar internamente, nas mais diversas modalidades, tudo
o que envolver conhecimento crítico e
específico da organização, usando as
estratégias educacionais mais adequadas e mais alinhadas com as novas formas de aprender.
NEWSLET – Mesmo considerando
que no Brasil há ações para valorizar
os professores, os resultados são
insuficientes para gerar a qualidade
que precisamos. O que está faltando
para que tenhamos o mesmo modelo
de valorização do professor que há,
por exemplo, na Coréia do Sul e na
Espanha, onde a Educação têm status
estratégico?
Andrea Ramal – Os números não são
animadores. O piso salarial de um professor no Brasil é de R$ 1.567,00 com 40
horas de dedicação por semana. É muito
difícil atrair jovens talentos para o magistério e não perdê-los para outras carreiras ao longo da vida profissional. Afinal,
das profissões com ensino superior, a de
professor é a mais mal remunerada. Sem
falar que as condições de trabalho nas
escolas não são boas. Faltam recursos,
computadores... Em de 10 mil escolas
brasileiras falta até água potável, de acordo com o censo escolar de 2012. É possível uma parceria entre educadores, RHs
e líderes de empresas para sensibilizar
governos? Sim, mas parece algo de difícil execução. Acredito na necessidade de
construir um projeto de país que passe
necessariamente pela educação, como
foi o caso da Coreia do Sul. Isso requer,
mais do que ações e políticas pontuais.
Exige mudanças estruturais em todos os
segmentos da educação; iniciadas, desde já, para obter resultados concretos
em até duas décadas. Lamentavelmente
a gestão da Educação não é feita com
horizontes de médio e longo prazo.
“Da parte da escola, é necessário
que ela se abra ao diálogo com
as famílias, ajudando-as a
enfrentar os desafios da educação
de hoje, que não são os mesmos
de outras décadas.”
NEWSLET – O ensino fundamental é
suporte para a formação do ser humano e, por consequência, do profissional do futuro. Quais são os equívocos
que você ainda identifica na relação
entre família, escola e aluno, criando
obstáculos ao aprendizado? Como
corrigi-los?
Andrea Ramal – O maior equívoco é a
falta de uma relação de parceria entre
família e escola. Isso significa, da parte
da família, conhecer bem o projeto pedagógico da escola, apoiá-lo e reforçálo em casa; participar da vida escolar,
acompanhando os estudos dos filhos;
e conscientizar as crianças e os jovens
sobre a importância do estudo, para que
se comprometam com o autodesenvolvimento, com hábitos de leitura e estudo,
com uma atitude empreendedora diante
da vida. Da parte da escola, é necessário
que ela se abra ao diálogo com as famílias, ajudando-as a enfrentar os desafios
da educação de hoje, que não são os
mesmos de outras décadas.
NEWSLET – Como Educadora qual é
a sua posição sobre a Lei de Cotas?
Andrea Ramal – Muitas críticas podem
se fazer a esta lei, por ferir a autonomia
das universidades, colocar em risco
(mas não necessariamente extinguir)
o padrão mínimo de exigência para a
seleção, querer corrigir uma desigualdade histórica “por decreto”. Por outro
lado, ela tem muito valor pela aceleração de um processo de democratização do acesso ao ensino superior e
de inclusão que demoraria séculos
– como, aliás, demorou até agora. Ela
não é para sempre: em dez anos será
reavaliada. E vai forçar a elevação da
qualidade do ensino básico, para que
os alunos cheguem mais bem preparados. Por tudo isso, num balanço geral,
e, levando em conta variáveis sociais,
econômicas e históricas do nosso país,
creio que seja uma política com mais
pontos positivos do que negativos.
NEWSLET – Sobre o recente caso
das redações do ENEM, cheia de erros de Português, que levaram nota
dez e sobre o fato de alguns gramáticos dizerem que “se entrou na
Língua Portuguesa está certo: precisamos evoluir”, qual é o seu posicionamento?
Andrea Ramal – Não creio que esta hipotética frase de alguns gramáticos se
refira nem se aplique a este caso das
avaliações do ENEM. A Língua Portuguesa, como qualquer outra, certamente
é dinâmica e muda conforme os tempos,
grupos sociais e contextos em que é
usada. Acredito que, no caso do ENEM,
houve uma aplicação problemática de
certos critérios de correção que, pelo
que sei, serão revisados. O fato, no entanto, ajudou a confirmar mais uma vez
um conjunto de problemas que precisam ser enfrentados no nosso sistema
educacional. A começar pelas deficiências na formação básica: basta dizer que
a rede estadual mais bem colocada no
IDEB 2011 (Índice de Desempenho da
Educação Básica), Santa Catarina, ficou
com nota 4,3 no ensino médio. E mais de
uma rede não atingiu sequer a nota 3,0
- num indicador que avalia habilidades
mínimas de matemática e português. O
sistema ensina pouco, mas muitos alunos vão sendo aprovados sem dominar
os conhecimentos mínimos. Chegam à
universidade e tudo se repete: concluem
os cursos com notas apenas regulares.
Mas a roda da não-aprendizagem tem
vida curta: os mesmos jovens que o sistema aprova são aqueles que o mercado
de trabalho reprova nos testes de recrutamento e seleção. É justamente o paradoxo do país: muitas oportunidades de
trabalho, e pouca gente qualificada para
aproveitá-las.
| 2012 | Maio / Junho | 7
Atualidade
Foto: Divulgação Braskem
Atualidade
Se Reinventar
Ressignificando o desafio
EMOCIONALIDADE E
SENSIBILIDADE
Estas são, segundo
Marcelo Arantes,
competências essenciais de
quem sabe Se reinventar
P
ara fazer diferente todos os
dias, é preciso acreditar que
isto não depende de poder
econômico, “nome forte na
praça” ou mesmo da sorte. Acreditar,
no entanto, não é tudo. Investir esforços para fazer acontecer o sonho é
mandatório. Virou chavão dizer “precisamos nos reinventar”. O interessante
é ressignificar, ou seja, buscar novos
significados para o que deve ser a
“reinvenção” de nós mesmos.
Trazemos dois personagens que
buscam, o tempo todo, o mesmo caminho, o da felicidade, de diferentes
formas, dando a si mesmos novas
chances: Marcelo Arantes, hoje VicePresidente de Pessoas & Organização,
TI e Suprimentos da Braskem e Manlio
8 | Maio / Junho | 2012 |
Vettorazzo, Gerente de Operações do
Bar Luiz. Suas histórias comprovam
que sempre existe uma nova chance.
Somos, em geral, condicionados a fazer as mesmas coisas todos os dias,
pegarmos os mesmos caminhos, falarmos com as mesmas pessoas…
Hábitos podem levar ao aprisionamento inconsciente. Mudar a rotina, se
permitindo novas experiências, é um
exercício que nos direciona a grandes
realizações.
Também podemos entender REINVENTAR-SE como desaprender para
aprender e colocar, de fato, um novo
comportamento para funcionar. Quem
se reinventa utiliza a experiência como
fonte de maturidade e não como única
verdade. Reinventar-se é não buscar a
inovação somente no que existe, mas
desafiar-se a começar de novo.
O verso da música do cantor Fábio Jr. “quero saber bem mais que os
meus 20 e poucos anos” se aplica bem
à primeira vez que Marcelo Arantes, em
1993, precisou se reinventar profissionalmente ao participar de uma equipe
encarregada de repensar o modelo de
gestão, revendo processos de relacionamento com os clientes da AVB, empresa para a qual trabalhava. Caiu-lhe
a ficha: ele era muito voltado para o
RH, mas pouco entendia de Finanças.
Como reconhece, foi uma oportunidade para amadurecer e abrir a mente,
percebendo que estar em RH é fazer
parte de um todo. “Desde aquele ano
eu sabia que para entender o impacto
da minha atuação eu deveria saber dimensionar o valor das outras funções”,
esclarece o executivo.
Simples e direto, ao falar sobre
“reinvenção”, Marcelo entende que
existe o “senso de urgência” e o
“senso de oportunidade”. Às vezes
muda-se a forma de atuar porque há
o senso da urgência, ou seja, mudou
o cenário externo, mudou o ambiente, o negócio precisa ser mudado.
Nesse caso, ele defende que o papel
do RH é o de estar junto à liderança, apoiando a transição e protagonizando alguma frente de mudança.
Por outro lado, pode haver o senso
de oportunidade, quando o RH identifica uma demanda interessante
para a empresa investir.
Profissional do Ano em 2005 pela
ABRH-RJ e em 2011 pela revista VOCÊ
S.A., Marcelo diz que o RH, vem, nos
últimos anos, ganhando cada vez mais
conexão com a empresa ao engajar
suas pessoas e estabelecendo com
elas o que chama “vínculos de propósito”. “Quero trazer para a Braskem
pessoas que vejam sentido no trabalho
que podemos oferecer a elas”, traduz.
“Com emocionalidade e sensibilidade,
a capacidade de leitura do contexto social e econômico no qual a empresa se
insere passou a ser uma competência
essencial ao novo RH que se reinventa
com cada vez mais frequência”, argumenta o VP da Braskem que também
já passou pela Fiat do Brasil, Reckitt
Benckiser e Intelig.
Marcelo avalia que o RH, ao longo
dos últimos 20 anos, vem passando
por momentos dolorosos e necessários à reinvenção que exigem reflexão,
mas, em seguida, ações imediatas.
Uma grande oportunidade de reinvenção ocorre, segundo ele, nos processos de fusões e aquisições entre
organizações, devido ao choque de
culturas, que mostra às pessoas diferentes ângulos de se lidar com uma
mesma questão. Por sua vez, as empresas são demandadas a criar novas
formas de lidar com suas pessoas pelo
simples fato delas estarem em menor
quantidade do que a oferta de vagas.
“Hoje é o emprego que perde a pessoa
e não o contrário”, explica.
O olhar abrangente do executivo tem sido importante para que ele,
como membro do Comitê Temático,
ajude a engrandecer o conteúdo do
39º Congresso Nacional sobre Gestão de Pessoas, que entre 19 e 22 de
agosto próximo, trará o tema “Reinventar a Gestão: Uma Construção Coletiva”. Segundo Marcelo, o CONARH
(da ABRH-Nacional) é importantíssimo
para que gestores de todos os estados
do País possam debater sobre como lidar com o processo de transformação
que vem por aí, reforçando, por exemplo, as conectividades e os princípios
éticos e morais que avançam em todas
as regiões. “No Brasil, a evolução dos
serviços é notória; se não nos ante-
Três PASSOS
para SE
REINVENTAR!
1
º Dissolva
o problema Quando há um problema, a
saída é tentar resolver. Se
já fez isso e não deu certo, aceite
a questão e dê tempo ao tempo.
Assim conseguirá compreender
melhor o contexto.
2
º Redescubra-se
- O que
aprendeu com seus erros?
Quem é você agora? Aceite as mudanças impostas pelas
circunstâncias. Conscientizar-se
de que és um ser inacabado é o
primeiro passo para a felicidade.
3
º Recomece
o voo - Cair
e levantar é natural. Registre suas experiências,
faça as mudanças necessárias e
recomece de onde parou. Fracassar não é errar, mas não tentar de
novo e ter medo de perder!
narmos às mudanças, em 10 anos as
organizações não serão os melhores
lugares para se trabalhar”, alerta.
Fazer o “dever de casa” da reinvenção, se pudermos assim chamar,
tem sido comum na Braskem, empresa petroquímica que tem 51% de seu
controle acionário com a Odebrecht.
Ao termo “Se reinventar”, na empresa, renomeia-se “empresariar” — eles
querem dizer: criar e entregar. Com bases em princípios como Simplicidade,
Humildade, Confianças e Espírito de
Servir, cada um dos 7600 funcionários
têm espaço para as falhas, para não
saber determinados pontos e para buscar o novo, quando assim entenderem
que é preciso.
Marcelo lembra que em seus 69
anos a Odebrecht — a Braskem tem
| 2012 | Maio / Junho | 9
Seguranca
Foto: Alexandre Peconick
uma década — se reinventou várias
vezes. Pesquisa recém- realizada pela
Braskem aponta que 87% dos funcionários dizem que seu trabalho tem um
sentido especial. “Quando há um ambiente estimulante os profissionais tem
prazer em se reinventar”, diz.
Ambientes estimulantes foi justamente o sempre buscou ao longo de
sua trajetória o carioca, filho de paulistas oriundi, Manlio Vettorazzo. Em relação a Marcelo Arantes ele é o outro
lado da moeda do tema “Se Reinventar”. Sem nunca ter exercido uma função formal em RH — é graduado em
Marketing — Vettorazzo, descobriu,
aos poucos, que lidar com pessoas era
algo apaixonante de se fazer como trabalho. Nos últimos dois anos ela reformulou a questão “cuidar de pessoas”
no tradicionalíssimo Bar Luiz, na Rua
da Carioca, coração do Rio de Janeiro.
O resultado virou case finalista do Prêmio Ser Humano ABRH-RJ em 2012.
Vettorazzo, com 50 anos, tem traços
carrancudos, mas basta um minuto de
bate-papo com ele para se chegar às
primeiras gargalhadas e ter a certeza de que bom humor é fundamental.
Desde cedo já trabalhava. O pai, um
ex-diretor da De Millus, apaixonado
por iatismo, comprou um barco com o
dinheiro que recebeu da indenização
da empresa e, pouco tempo depois,
fabricava e vendia barcos ao lado dos
filhos. Manlio, o filho mais extrovertido,
não gostava da parte técnica da fábrica, mas adorava vender, falar com as
pessoas.
Um dia o pai desistiu da loja e ele,
Manlio, decidiu abrir com a ex-esposa,
uma loja para vender apenas as peças
dos barcos. Até que um dia um vendedor
10 | Maio / Junho | 2012 |
de planos de saúde bateu à sua porta e o
convenceu de que este era um bom negócio. Resultado: Vettorazzo se reinventou de novo. Tirou barba, colocou terno
e gravata e foi às ruas. Aprendeu muito.
“Sempre tive facilidade em vestir novos personagens”, admite. Vettorazzo
conta que, aos 37 anos se considerava
gordo e fumava dois maços de cigarro
por dia. Em visita a um amigo dentista
se admirou ao ver uma prancha de surfe no consultório e decidiu “entrar nessa onda”. Começou a surfar, parou de
fumar e emagreceu 20 quilos. Não foi
fácil. Na primeira tentativa revela que
quase morreu afogado. Não desistiu.
Em pouco tempo a prática do surfe o
renovou, como ele descreve: “O contato espiritual com o oceano mostra
que não temos poder sobre nada e, ao
mesmo tempo, fazemos parte do todo,
somos responsáveis pelo nosso corpo
e nossos relacionamentos”. Saía da
água o Vettorazzo brand new.
Anos mais tarde, vendendo um plano de saúde para Rosana Santos, proprietária do Bar Luiz, Vettorazzo despertou na empresária a admiração pelo
seu “carinho no lidar com gente”. Ele
conta que ficou surpreso com o convite
para ser “o braço-direito” da proprietária do bar frequentado por personalidade como Leonel Brizola, Sérgio Cabral
(pai), Ziraldo, entre outros. “Ela me
disse que precisava de alguém com
inteligência, cultura, bom humor e que
não entendesse nada de restaurante”,
lembra Vettorazzo.
O salário que pediu, ela não aceitou. Então impôs: não poderia parar de
surfar. Fechado. Transparente, usou a
estratégia simples, mas eficaz, de ouvir os garçons, aos quais perguntou: o
Foto: Arquivo Pessoal
SEM GRÁFICOS E TERMOS EM INGLÊS
Vettorazzo (à direita), com João Natal
Polessa (garçom com 24 anos “de
casa”), trouxe mais humanização ao
tradicional Bar Luiz
que temos que fazer? Das centenas de
pedidos, elegeu os dez mais urgentes
e colocou na mesa da proprietária. Em
pouco tempo a motivação dos funcionários, hoje 43, o faturamento e a frequência ao Bar Luiz aumentaram vertiginosamente.
Falar a linguagem dos funcionários e
tratá-los “como se estendesse um tapete vermelho para pisarem”, na visão de
Vettorazzo, é uma forma interessante de
fazê-los se reinventarem também. Sem
os gráficos, cálculos e termos em inglês
usados por um RH mais formal, ele consegue resultados rápidos pela espontaneidade a autenticidade com as quais
lida com qualquer pessoa, da dona do
bar ao funcionário que tira o chope considerado o mais querido do Rio.
Para Vettorazzo a base de qualquer
empresa, independente do tamanho,
que se reinventa é a alegria das pessoas. “Aqui no Bar Luiz, quando algum
cliente reclama por algum motivo, falo
meia dúzia de besteiras no ouvido dele,
faço-o rir, mostro para ele que está certo
e busco, sempre de um jeito diferente,
uma solução que o surpreenda”, conta.
Há pessoas ao redor de Vettorazo
que confundem o seu estilo como o de
alguém “que deixa as coisas pela metade”. Ele refuta este rótulo, dizendo
que isto é priorizar situações. No fechamento desta matéria revelou: “Minha
próxima reinvenção está prontinha;
não aguento ficar muito tempo fazendo
a mesma coisa”.
As histórias de Marcelo e de Vettorazzo mostram que a felicidade é algo
até simples, que não custa caro, mas é
passageira e requer, atualmente, reinvenções.
O surfe proporcionou
a maior das reinvenções
de Vettorazzo
Foto: Site Sxc.hu
Coluna Saúde e Segurança no Trabalho
Nonono
Atualidade
Doença Ocupacional
é a grande vilã
dos trabalhadores
N
esta edição, salientamos
a importância da prevenção de doenças surgidas
(ocasionadas) no trabalho.
O dia 28 de abril é considerado pela
Organização Internacional do Trabalho
(OIT), o Dia Mundial da Segurança e
Saúde no Trabalho. A data foi escolhida como um marco internacional dos
trabalhadores que foram mortos no
trabalho ou sofreram acidentes e doenças em suas atividades. O objetivo é
o de reforçar a capacidade dos países
em melhorar e promover a saúde e a
integridade física dos trabalhadores,
visando a prevenção de doenças ocupacionais.
Conforme informação do relatório
divulgado pela OIT, acontecem 2,34
*Vanessa de Paula
milhões de mortes em decorrência do
trabalho em todo o mundo, sendo 2,02
milhões (86,3%) causadas por diversas
doenças profissionais e 321 mil em
consequência de acidentes. São 6.300
mortes diárias relacionadas ao trabalho
e 5.500 delas causadas por doenças.
Hoje a maior vilã dos trabalhadores
são as doenças ocupacionais. Elas
provocam muito mais danos e mortes
por serem menos divulgadas do que os
acidentes de trabalho. O cenário mais
contundente está na China, onde em
2010 foram registrados 27.240 casos
de enfermidades profissionais, incluindo 23.812 provocadas por exposição a
partículas de pó no local de trabalho.
O Brasil não possui uma estatística
especifica para esses tipos de ocorrên-
Nonono
cias, dificultando o um estudo que favoreça a prevenção. No país calcula-se
que 6,6 milhões de trabalhadores estão
expostos a partículas de pó de sílica.
“Estudos feitos na América Latina revelam uma taxa de prevalência de silicose entre os mineiros (trabalhadores
na mineração) de 37%, a 50% entre os
mineiros com mais de 50 anos”, afirma. A preocupação aumenta, porque
o mercado de construção civil cresce
mais a cada dia.
A Organização também chama a
atenção para os riscos das mudanças
em função da “rápida globalização que
vivemos”. A cada momento surgem
novos tipos de enfermidades profissionais sem que se apliquem medidas
de prevenção e controle adequadas.
Como exemplo, as nanotecnologias
e determinadas biotecnologias, que
comportam novos e não identificados
riscos. Entre os perigos emergentes,
se incluem as condições ergonômicas
deficientes, a exposição à radiação eletromagnética e os riscos psicossociais.
Os tipos de doenças são diversos,
fazendo com que a preocupação aumente, pois não podemos pensar em
apenas um tipo de risco para a saúde
do trabalhador, e sim um campo extenso de possibilidades. Na maioria das
vezes, até mesmo o empregador não
tem ciência das possíveis medidas de
prevenção e controle mais adequados
para o tipo de situação que estão enfrentando. É importante ressaltar que
os acidentes e doenças ocupacionais,
possuem um alto custo para todas as
partes (trabalhadores, empregadores
e poder público). Repito: precisamos,
então, enfatizar a importância na prevenção.
*Vanessa
de Paula, é
a Técnica de
Segurança
no Trabalho
do Grupo
LET Recursos
Humanos
| 2012 | Maio / Junho | 11
Por dentro do RH
PLENITUDE
Aos 77 anos, Jessé Guimarães de Brito
oferece os diferenciais do seu trabalho
à Arquitetura Oscar Ferreira
Terceira? Não...
“IDADE DA CONSCIÊNCIA”
J
essé Guimarães de Brito trabalha
em uma empresa de arquitetura
em Belo Horizonte (MG) afinada
com o que há de melhor em termos de tecnologia. Mas a sua mesa
não dispensa as antigas pranchetas, os
rascunhos e a sensibilidade humana.
Jessé tem 77 anos de idade. De arquiteto, seus 53 anos chegam ao dobro
de alguns colegas na Arquitetura Oscar
Ferreira. “Sinto-me pleno, desenvolvendo projeto nos quais coloco todo
o meu conhecimento, com muito mais
assertividade do que no passado”, enfatiza ele, que recebeu com surpresa o
convite do antigo concorrente e aluno
de UFMG, Oscar Ferreira para trabalhar.
O motivo? Havia se aposentado fazia 10
anos. Hoje ele reconhece que foi a melhor coisa que fez não ter ido trabalhar
em casa, pois a troca de conhecimentos
com os mais jovens “é muito rica”.
Segundo Oscar Ferreira, sócio-diretor da empresa, o arquiteto precisa,
12 | Maio / Junho | 2012 |
Porque o MERCADO começa a
valorizar, de fato, profissionais
com 50, 60, 70 anos ou mais...
no seu dia a dia, “ser um pouco psicólogo” para perceber a necessidade do
cliente. Nesse sentido, por exemplo, o
papel do profissional de terceira idade
é fundamental para ajudar a “temperar”
o mais jovem, como ele explica.
A história de Jessé não é pontual.
Não sai da curva. Ao contrário: reflete
uma tendência de muitas organizações em buscar nos “profissionais seniores” um viés de consultoria, transmissão de conhecimentos, pontos de
referência e elementos de busca do
diferencial em projetos que requerem
conhecimentos muito além do domínio de um software. Some-se a isto
uma evolução contínua dos sistemas
de saúde e a diminuição da taxa de
nascimentos e temos um mercado,
com muito mais gente idosa precisando trabalhar porque faz bem para
a autoestima, para o projeto pessoal de realização e, porque não dizer,
para o bolso também.
Recente pesquisa feita, em 2012, no
Brasil pelo Hays Group aponta: 20%
das companhias contratam profissionais aposentados. Desse total, 75%
para cargos técnicos, 33% para a diretoria e 28% para a gerência. O motivo:
falta de mão de obra qualificada, redução de custos e, principalmente, amplo
conhecimento técnico. Além de dominarem perfeitamente a sua área, os
sêniores trazem resultados imediatos.
Segundo Dulcinéia da Mata, consultora e autora de “Aposentadoria — Ponto de Mutação?” (Qualitymark Editora),
com o envelhecimento perde-se em
força física, mas ganha-se na visão estratégica, perde-se em rapidez de raciocínio, mas lucra-se na escolha e seleção
da ação para situações específicas. Ela
defende que o fato de vivermos em uma
sociedade que vive em rede favorece
muito ao aposentado, pois valoriza o
conhecimento acumulado, ligado, por
exemplo, a fatores socioculturais.
Foto: Divulgação
Foto: Divulgação
Por dentro do RH
“FEELING”
Flavio Guimarães (à esquerda)
e Sérgio Rodrigues (á direita):
troca muito interessante para
os resultados da Radix
A consultora reforça que o atual papel do profissional da terceira idade
pode transformar parâmetros de relações entre as pessoas e produtividade
de uma empresa. “Pesquisas confirmam que pessoas mais velhas têm o
melhor cérebro de suas vidas no quesito solucionar situações de impasse”,
completa Dulcineia.
“Hoje, aos 69 anos, o que eu melhor
faço vem da minha experiência, torna a
solução dos problemas mais fácil; sei
lidar de forma mais eficaz com a ansiedade e tenho mais tolerância, o que,
reconheço, é pouco comum quando se
é jovem”, relata Sérgio Rodrigues de Almeida, que há 52 anos está no mercado
técnico naval e há pouco mais de cinco
meses foi contratado pela Radix. Detalhe:
empresa número 1 do País em ambiente
de trabalho (entre médias e pequenas),
a Radix era conhecida, até então, como
organização típica da juventude recémformada pelas melhores universidades.
“Pela complexidade dos projetos
que assumimos não podemos prescindir do excelente resultado gerado pelo
somatório do feeling do profissional
com mais idade e a energia e talento dos mais jovens”, considera Flavio
Guimarães, Diretor de Operações da
Radix. Sérgio é referência no mercado
naval, um segmento que sofreu, por algumas décadas um hiato na formação
de profissionais. Perfeitamente adaptado ao ambiente da Radix, que inclui
sessões pipoca e atividades esportivas ao ar livre, Sérgio assegura ser um
grande amigo dos mais jovens. “A nossa troca tem acelerado e diversificado
as soluções nos projetos”, traduz.
Flavio cita um fato curioso: quando Sérgio ingressava no mercado de
trabalho, ele, Flavio, ainda não havia
nascido. Como gestor, ele vê como
fundamental a atitude positiva dos
mais idosos em gostar de transmitir o
conhecimento aos mais jovens, cena
que ele assegura, é muito comum de
ser vista na Radix.
A capacidade de trabalhar bem só
melhora com o contínuo exercício. Este
foi um aprendizado que o ex-desenhista
e hoje empresário Oscar Ferreira adorou vivenciar. Até por isto, ele alerta os
mais jovens para que saibam buscar
o conhecimento com profissionais de
mais idade e não apenas com a internet.
Oscar conta que o mercado passou
uma década inteira apenas valorizando
a chamada Geração Y, “porque eles vão
chegar e fazer acontecer”, “vão oxigenar a empresa” e viu-se que esse mais
jovem, individualista, em sua maioria,
pulava de empresa em empresa, não
deixando maiores contribuições às organizações. “O jovem tem pressa demais em subir a escada da vida, mas,
ao conviver com os profissionais mais
velhos começa a perceber que é saudável para a carreira vivenciar diferentes
situações que trarão o amadurecimento
e aprendizado”, explica Oscar que diz
ter uma filosofia de nunca aposentar.
“Quem realiza trabalho intelectual precisa estar sempre ativo”, justifica.
Nesse sentido, para o professor Marcos Jardim Freire, do Instituto da Psicologia da UFRJ, o profissional da terceira
idade contribui para a formação do mais
jovem ao chamar a sua atenção para a
revalorização dos elementos da própria
natureza. Para exemplificar a questão,
mencionou a situação de um documentário baseado em fato real e exibido pelo
Discovery Channel em que um jovem
piloto de um Boeing fica desorientado
ao perceber que os instrumentos da cabine de voo entram em pane. Como último recurso, ele faz contato com um piloto mais idoso, de um monomotor, que
havia sido escoteiro e sabia se orientar
pelas estrelas. Resultado: com o passo
a passo transmitido, o avião pousou
com segurança.
“Valorizar a experiência não significa reviver o passado, mas ajudar a lidar
com as incertezas e inseguranças do
mundo moderno; a crise que se vive
hoje é de confiança, conhecimento e
liderança”, argumenta Marcos, que é
o Coordenador do Projeto de Valorização do Envelhecimento (PROVE). Ele
acrescenta que o mais idoso também
ensina ao jovem o quanto é importante,
em certos momentos, saber ficar sozinho. “Um jovem, em geral, não sabe
ficar sozinho; tem que estar com o twitter, fazer parte de um grupo; ele abriu
mão da necessidade de se conhecer,
saber qual é o seu projeto de vida; isto
| 2012 | Maio / Junho | 13
Por dentro do RH
Foto: Divulgação
Fotos: Site Sxc.hu
Saúde
VIVÊNCIA
A trajetória do arquiteto
Oscar Ferreira comprova que
este é um ingrediente que o
jovem “não pode pular” se
quiser ser bem sucedido
precisa ser resgatado”, alerta Marcos,
que foi também Presidente da ABRHRJ.
Pesquisadora do Centro de Filosofia
e Ciências Humanas da UFRJ (CFCH)
e também integrante da equipe do
PROVE, a professora Fany Mailin Tchaikovsky considera que há dois aspectos
a serem considerados em qualquer estudo exploratório que envolva o tema
da aposentadoria com o enfoque do
saber continuar a trabalhar: o primeiro é a importância que as pessoas em
idade de aposentadoria estão ganhando para as empresas e o segundo, o
ponto de vista das pessoas que estão
passando por esta fase, muitas delas
ainda focadas em deixar um legado.
No caso de Fany, o legado responde
por suas inúmeras contribuições à área
da Educação e Ciências Humanos. Ela
se aposentou formalmente, mas desde
então sua agenda está mais repleta de
trabalhos do que a de muitos profissionais.
Buscando precisamente identificar
o que sente e o que quer o profissional
que se aposenta, Fany conduziu em
2011, junto com o Instituto de Psicologia
14 | Maio / Junho | 2012 |
da UFRJ e a ABRH-RJ um estudo exploratório sobre a Motivação para a realização na Terceira Idade. “De certa maneira
esta pesquisa indica uma orientação empreendedora impulsionada pela motivação”, destaca Fany. Segundo a professora, o estudo mostrou que a maioria dos
profissionais em idade de aposentadoria
consultador estava entre os que sentem
prazer em trabalhar e aqueles que têm a
autoestima afetada pelo fim do trabalho.
“Há que se ter o respeito pela mudança
gradativa de cada um de nós e a aceitação da mudança; é importante para a
pessoa da terceira idade e também para
quem lida com este profissional”, acentua a professora.
Não apenas trabalhar, mas envelhecer bem deve ser o foco daquele que
chega aos 60 anos com muitos projetos
ainda a desenvolver. O jornalista Roberto Irineu Marinho, que aos 75 anos estava em seu auge intelectual e produtivo e
o arquiteto Oscar Niemeyer foram dois
grandes ícones referenciais que estimulam muitos profissionais da atualidade.
Por outro lado, como o envelhecimento chega a um grupo cada vez
maior que, segundo estimativas, em
2050 será majoritário no Brasil, muita
gente tem dúvidas sobre esta fase da
vida. “Aprender a ser idoso é algo contínuo e desafiador; quem se aposenta
aos 60 e vai viver até os 90 ou 100, não
pode ficar 30 ou até 40 anos sem fazer
quase nada”, avalia Marcos, que recusa
o termo “Melhor Idade” para se referir
a esta fase da vida. No PROVE a equipe coordenada por Marcos tem como
linhas de atuação orientações sobre o
autocuidado, o planejamento urbano e
os relacionamentos sociais. “O nosso
papel é criar condições para que os
idosos troquem informações e experiências, avaliando novas possibilidades
de lidar com esta fase da vida”, destaca.
Mudar a mentalidade e fazer uma
“cirurgia de ideias” são termos usados
por Dulcineia da Mata para se referir ao
novo modelo de aposentado que há no
mercado. O professor Marcos diz que,
nesta fase, vale a pena “curtir o que
você gosta e tolerar o que não gosta”.
A maturidade de casar trabalho com
oportunidade, com desejo e com felicidade remete-nos à uma citação de
Fernando Pessoa: “Serei o que quiser.
Mas tenho que querer o que for.”
Tá estressado né?...
Sorria!
U
m simples sorriso, seja o
espontâneo, o que quebra
o gelo, o que provoca a
gargalhada, ou até mesmo aquele “amarelo”, diminui o ritmo cardíaco, aumenta o relaxamento
muscular e reduz o estresse a níveis
baixíssimos. Sorrir também combate
a depressão, melhora a digestão, espanta dores e deixa a sua pele muito
mais bonita. Consequência imediata:
um up grade no sistema imunológico.
“Achismo”? Não. Trata-se de estudo
científico com resultados comprovados, publicado pela revista americana
“Psychological Science”. O estudo,
que envolveu 170 participantes, fez as
pessoas sorrirem sem estarem cientes de que o estavam fazendo. Numa
das situações, forçava as pessoas a
manterem expressão neutra, na outra provocava um sorriso polido e, na
terceira, resultava num amplo sorriso
que utiliza os músculos no entorno da
boca e dos olhos.
“Percebemos um grande declínio
dos batimentos cardíacos e uma recuperação fisiológica do estresse mais
rápida quando elas estavam sorrindo, mesmo quando os participantes
não estavam cientes de que estavam
fazendo expressões faciais”, disse Sarah Pressman, coautora do estudo e
professora assistente de psicologia da
Universidade da Califórnia. Os participantes que deram um amplo sorriso
se saíram melhor do que o grupo que
sorriu educadamente, mas a diferença
não foi significante.
De acordo com Eduardo Lambert,
Clínico Geral e homeopata, o riso estimula a contração de 28 músculos faciais e ativa no cérebro a produção de
endorfina e serotonina (substâncias
antidepressivas que dão a sensação
de relaxamento e bem-estar). Uma
boa risada promove uma vibração
que atinge todos os órgãos do corpo como uma onda de alívio, criando
proteções contra males físicos e psicológicos. A diferença da qualidade
desse impacto positivo no organismo está na intensidade do sorriso.
“Quanto mais intenso, maior a síntese de endorfina, maior o relaxamento
dos músculos e vasos e melhor será
a proteção contra infartos e derrames
cerebrais”, avalia.
“Nós sorrimos porque não nos
sentimos ameaçados”, dizem alguns
pesquisadores americanos. Com o
passar do tempo, esta mensagem dos
músculos maxiliares ao cérebro evolui, sinalizando segurança, reduzindo
os níveis de cortisol no sangue. “Nós
já sabemos qual é o seu efeito no ritmo cardíaco, queremos agora verificar
como ele reage com outros níveis de
estresse no corpo”, disse Sarah Pressman ao The Wall Street Jounal.
Outros estudos descobriram que a
intensidade do sorriso de uma pessoa
pode ajudar a prever a satisfação de
vida ao longo do tempo e até mesmo
a longevidade. O que não fica claro é
se o sorriso reflete a felicidade geral
da pessoa ou se o ato de sorrir contribui para essa felicidade. Marianne
LaFrance, professora de Psicologia na
Universidade de Yale, acredita que é
um pouco de ambos. “Provavelmente
é bidirecional”, diz ela. “Pessoas que
sorriem mais tendem a obter mais conexões positivas com outras pessoas”, o que por sua vez ajuda a tornar
você mais feliz e mais saudável.
Muito mais do que manifestação
de felicidade, o riso e suas variações
emanam conforto, revelam-se uma
verdadeira terapia para corpo e alma.
Desperta um bem-estar quase indescritível tanto em quem dá quanto em
quem o recebe. Rimos para externar
sensações agradáveis e aprendemos
que o riso também ameniza situações
adversas, sinaliza o desejo de paz.
Ele pode ser uma mensagem clara de
disposição para o diálogo ou para a
reconciliação.
O sábio e folclórico palhaço Bozo já
dizia: “pra viver o melhor é sorrir”.
| 2012 | Maio / Junho | 15
capa/Depoimento exclusivo – 1ª parte
capa/Depoimento exclusivo – 1ª parte
Domenico De Masi
Sociólogo italiano, autor de “O Ócio Criativo” e que, em setembro,
irá lançar no Brasil o livro “O Futuro já Chegou”
Foto: Divulgação
“Trabalho é palavra inadequada,
melhor dizer que é um... ÓCIO CRIATIVO”
A
utor do célebre pensamento, “O burocrata acerta nove
vezes em dez. O criativo erra
nove vezes e acerta uma.
Entretanto, uma vez que acerta, abre
caminhos para a humanidade.”, o italiano Domenico De Masi, considerado
por nove entre dez altoexecutivos, o
“Papa da Sociologia do Trabalho”, nos
concede um depoimento exclusivo tão
profundo sobre as relações de trabalho
que, pela primeira vez, nos fez decidir
por publicar um material em duas partes — nesta e na próxima edição.
Profundamente apaixonado pela
arte, aos 75 anos, “bem vividos”,
como gosta de reforçar, este Presidente da Associação Italiana de Edu-
16 | Maio / Junho | 2012 |
cadores e professor de sociologia das
profissões da Universidade La Sapienza, em Roma, se orgulha de ser “meio
italiano, meio brasileiro” — tem o título
de cidadão honorário do Rio de Janeiro. Em um momento em que a Igreja
Católica troca de Papa, a Europa está
em profunda crise, os EUA já não tem
as rédeas do mundo e as relações de
trabalho passam “pelo divã”, seria natural que buscássemos oferecer aos
nossos leitores a visão daquele que
enxerga o trabalho bem além das entrelinhas.
Para quem ainda não o conhece,
De Masi é o criador do famoso conceito do “Ócio Criativo”, que ele, aliás,
também esclarece nesta entrevista
NEWSLET – Por que está tão mais
difícil alguém ser de fato feliz no trabalho?
Domenico - No século 19 e na primeira metade do 20, quando a maioria
dos trabalhadores realizou trabalhos
de natureza física, repetitiva, perigosa,
enfadonha e banal, as condições de
trabalho eram muito piores que as atuais. Desde a Segunda Guerra Mundial,
em grande parte devido ao progresso
tecnológico e da globalização, houve
diminuição dos deveres de natureza física, cada vez mais delegado às
máquinas, e aumento dos deveres de
natureza intelectual, que hoje respondem por 70% de todos os empregos,
metade dos quais é de caráter criativo. A infelicidade no trabalho depende, sobretudo, da incapacidade dos
gestores em inovar radicalmente a
organização, fundada nas fábricas, a
fim de adaptar-se às atividades do tipo
intelectual.
NEWSLET – Esvaziar a mente, não
pensar em nada, ter momentos em
que não se faz nada por cobrança,
de fato, favorece a geração de novas
ideias?
Domenico - A mente nunca fica vazia.
As ideias vêm de nossa imaginação e
são realizados graças à nossa concretude. Fantasia e concretude, por sua
vez, são os ingredientes que compõem a criatividade.
em primeiro lugar, no Brasil, depois na
Itália e nos Estados Unidos.
NEWSLET – E o que é o “ócio criativo” e como você chegou à conclusão
de que esta postura gera muitos resultados?
NEWSLET – Você costuma se referir
ao relógio como um “aprisionador da
capacidade criativa”. Como é possível nos livrarmos do relógio em nosso dia a dia?
Domenico - Ao longo dos anos, a palavra “trabalho” pareceu-me cada vez
mais inadequada para definir toda
a variedade de trabalho assalariado
existente. No século 19 e na primeira
metade do século 20, a maioria dos
trabalhadores era composta daqueles
que realizavam tarefas físicas nas fábricas de manufatura. Daí a tendência,
incluindo a linguagem, para identificar
todo o trabalho com o cansaço físico.
Mas, desde meados do século 20, graças a cinco novos fatores (desenvolvimento tecnológico organizacional,
globalização, educação generalizada
e meios de comunicação) a sociedade centrou-se na produção de bens
intangíveis: informação, serviços, símbolos, valores, estética. Hoje, apenas
um terço de força de trabalho tem natureza de força física, o restante se divide em intelectual e criativo. Enquanto o trabalho é diferenciado em uma
série de atividades profundamente
diferentes, continuamos a utilizar um
único termo - “trabalho” - para definir
todos eles. Eu, no entanto, para pôr
fim a esta confusão, eu prefiro chamar
de “trabalho” fadiga física do trabalhador e chamar de “ócio criativo” atividade intelectual do poeta, jornalista,
sociólogo, artista, gerente, etc. Eu
desenvolvi o conceito de ócio criativo
para estudar a dinâmica de psicossocial da organização, de grupos criativos, científicos e artísticos, do Instituto
Pasteur em Paris, na Cavendish London, de equipes de filmagem de Federico Fellini para os editores de jornais.
Agora eu estou estudando comparativamente os modelos mais importantes da vida de experiência no mundo:
Índia, católicos chineses, japoneses,
clássico, muçulmanos, judeus, protestantes, iluminista, liberal, etc. O livro no qual eu os descrevo é intitulado
“O Futuro já Chegou” e vou publicá-lo,
Domenico – O relógio é uma ferramenta utilíssima. Mas é só uma ferramenta
e deve ser tratado como tal. Não deve
tornar-se o nosso mestre. Deve limitarse a medir o tempo, o que não significa orientá-lo e dominá-lo. Em cada
ser humano, independente da época
ou geração, tenho tido a sensação de
que o tempo necessário e desejado é
menor que o tempo realmente disponível. “Tempus fugit”, diziam os antigos
romanos. “A vida é curta”, repetiam os
monges da Idade Média, recomendando que o progresso das tarefas acontecia de acordo com a regra “Festina
Lente”, ou seja, gradativamente. Mas,
durante toda a época rural (até o século 18), os ritmos da vida tinham cumprido ciclos imutáveis: o dia e a noite,
as quatro estações do ano. Com o
advento da sociedade industrial (meados do século 18 a meados do século 20), entramos no ritmo acelerado
das máquinas, da tecnologia, o ritmo
estressante das fábricas, cidades e
seres humanos. Agora, na sociedade
pós-industrial, a situação é estruturalmente diferente. Cronologicamente, a
vida média é o dobro em comparação
com a dos nossos bisavós. Temos
em nossas máquinas eliminação para
poupar tempo (como o telefone), para
enriquecer o tempo (como o rádio no
carro), para armazenar o tempo (como
o correio de voz), para projetar o tempo (como os PDAs). No plano objetivo, os seres humanos nunca tinham
tido tanto tempo à disposição.
NEWSLET – Por que, então, parece
que não temos tempo e estamos ficando cada vez mais estressados?
Domenico – Por motivos psicológicos
e econômicos. Estamos acostumados
há dois séculos a andar sempre mais
| 2012 | Maio / Junho | 17
Notas Acon
Notas - Acontecimentos
NEWSLET – O Sr. parece dizer que o
“ócio criativo é mais para os ricos ou
uma classe mais favorecida, pois os
pobres lutam pela sobrevivência”...
Domenico – O ócio criativo não é para
os ricos: é para qualquer um que realiza uma atividade para a qual desenvolva a sua mente (intelectual) ou
criativa. Assim acontece com os alunos, os professores e 70% dos trabalhadores. Valorizar a ociosidade não
18 | Maio / Junho | 2012 |
NEWSLET – Esta edição de NEWSLET aborda o tema “devemos nos
reinventar”. Que significado este
tema lhe traz? É possível, para qualquer um, “se reinventar”? Quais são
os obstáculos que o Sr. vê a esta
postura? Por que?
Domenico – Reinventar a empresa, a
sociedade e reinventar-se, de forma
equilibrada, é completar a transição
NEWSLET – Vivemos mergulhados
em uma sociedade de consumo que
nos obriga a assumirmos comportamentos distantes de nossa essência.
Como um ser humano que foi educado por repetição, e não por estímulo
à reflexão, pode se insurgir contra
este modelo?
Domenico – A sociedade de consumo nos encoraja a priorizar três
necessidades: o poder, a posse de
bens materiais e o dinheiro. No entanto, devemos cultivar seis necessidades qualitativas: a introspecção,
amizade, jogo, amor, beleza e hospitalidade. Torna-se, nesta reorientação do foco, vital educar os jovens
para reduzir cada vez mais a tensão
para as necessidades e quantitativos
e passar a dar maior prioridade às
necessidades de qualidade.
Nesta edição: Congresso RH-RIO 2013 organizado
pela ABRH-RJ nos dias 22 e 23 de maio
De Alexandre Peconick
Frases from RH-RIO 2013...
Marina Silva
Marina Silva – líder
socioambientalista
“No Brasil criou-se uma ilusão
de que existe classe política; isto
é uma distorção; classe política
não existe; o que existe é má
qualidade e quantidade em nossa
representação política.”
“Não há como fazermos ruptura
abrupta; algo deve ser preservado
e o novo precisa ser criado do que
for preservado.”
“É a nossa forma inadequada de
ser, e não a de fazer, que precisa
ser questionada.”
Também registramos...
mesa ao seu lado; não somos uma empresa, somos OP, ou, outra parada.”
Fred Gelli (Tátil Design)
“Quando o RH entender que o a função dele não está escrita em um papel
irá muito mais além do que imagina.”
Anna Cherubina (FGV)
“Todo mundo quer ter um senso de
pertencimento e um de distinção.”
Vania Somavilla (Vale)
“Se chegamos até aqui no estado do
Rio, muito foi por conta dos profissionais de RH.”
Alfieri Casalecchi (Amil)
“Infelizmente não temos em nossa cultura de trabalho a valorização da excelência, a maior mudança do carioca
tem que ser a cultural.”
Sergio Besserman Vianna (economista)
“O futuro dos negócios compreende
não gerar lucro somente para o acionista, mas também para o cara que está na
Foto: Márcio Maia
é um privilégio reservado para a elite
econômica, mas conquistado por uma
elite intelectual que, assim como em
um jogo, entendeu a necessidade de
conciliar trabalho com o estudo. Ao
mesmo tempo, os aristocratas ricos
descansavam criativamente, enquanto o proletariado trabalhou duro. Hoje,
paradoxalmente, os ricos (empresários, gestores, políticos, profissionais)
trabalham de forma tão estressante
que muitos deles não conseguem
fazer do lazer um momento lúdico e
viável, enquanto que os menos abastados (estudantes, artistas, entre outros.) conseguem ter uma vida mais
equilibrada, ociosa e, de fato, criativa.
POR AGORA...
Nacional). O Grupo LET contratou
18 recepcionistas que trabalharam
atendendo aos congressistas. Na
imagem, com elas, Alessandra Mota
e Lourdes Moreira (do Grupo LET).
Fotos: Alexandre Peconick
rápido, mas agora não há mais esta
necessidade e precisamos desacelerar. É imperativa uma educação rigorosa de nossa mente, ou seja, adotar
um ritmo mais lento. No passado fomos estimulados a um consumismo
alienante estímulo, o que nos leva a
comprar mais e mais bens e serviços,
mesmo aqueles reconhecidamente
inúteis. Para comprar mais, precisamos de mais dinheiro, para ter mais dinheiro, é preciso trabalhar ainda mais.
Em uma necessária “contramão”, para
escapar da ditadura de pressa, você
precisa de inteligência, cultura, sabedoria e austeridade.
“quem é mestre na arte
de viver difere pouco
entre o trabalho e o seu
lazer,...Simplesmente
persegue a sua visão de
excelência..., deixando
para os outros a resposta
à pergunta: afinal, ele
está trabalhando
ou se divertindo?”
da sociedade industrial para a sociedade pós-industrial. Aos poucos
estamos, todos, conseguindo. Na
vida industrial existe uma clara separação entre trabalho e lazer. Henry
Ford, o pai da linha de montagem,
dizia: “Quando trabalhamos, temos
de trabalhar. Quando jogamos temos
que jogar. Não adianta tentar misturar os dois. O único objetivo deve ser
fazer o trabalho e ser pago por isso.
Quando o trabalho for concluído, então pode ser o jogo, mas não antes.”
Em vez disso, na vida pós-industrial,
organizada para produzir ideias, é
quase impossível distinguir trabalho
de lazer. Como afirmou um mestre
zen: “quem é mestre na arte de viver difere pouco entre o trabalho e
o seu lazer, entre sua mente e seu
corpo, sua educação e sua religião.
Com dificuldade, ele sabe o que é o
quê. Simplesmente persegue a sua
visão de excelência em tudo que faz,
deixando para os outros a resposta
à pergunta: afinal, ele está trabalhando ou se divertindo? Ele sempre
pensa em fazer as duas coisas juntas.” Em síntese: todo mundo pode
se reinventar, se eles têm a vontade
necessária e a indispensável consciência cultural.
Foto: Márcio Maia
Foto: Divulgação
capa/Depoimento exclusivo – 1ª parte
“O Brasil é o país no mundo que
reúne as melhores condições para
chegarmos à Sustentabilidade como
modo de vida.”
Grupo LET marca sua
presença e parceria...
Joaquim Lauria, Kryssiam Lauria
e equipe do Grupo LET marcaram sua participação no segundo
maior evento de Gestão de Pessoas da América Latina. Nas imagens,
estão ao lado de Paulo Sardinha
(Presidente da ABRH-RJ) e Leyla
Nascimento (Presidente da ABRH-
Chambinho do Acordeon:
show de vida...
O ator protagonista de “Gonzaga
– De Pai pra Filho”, Chambinho do
Acordeon, foi um dos destaques deste Congresso no Cine Fórum, da Diretora Cultural Myrna Brandão. Além
da belíssima lição de vida, brindou o
público ao tocar clássicos do baião,
como “Asa Branca” e “Sabiá”, levantando o público. Também tirou fotos
com dezenas de congressistas nos
estandes. Gol de placa da ABRH-RJ !
| 2012 | Maio / Junho | 19
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